Entrevista

Norberto de Castro paixão pelo futebol

Béu Pombal

Norberto de Casto fundou, com parcos recursos, uma escola de futebol, um empreendimento com infra-estruturas que fazem inveja à maior parte dos clubes no país. Antigo jogador e dirigente do Progresso do Sambizanga, Norberto de Castro diz que está na iminência de fechar as portas “por falta de verbas para cobrir os encargos”. Apesar das dificuldades, faz tudo por levar a sua equipa ao Girabola, na Liguilha de apuramento.

Fotografia: Jornal de Angola

Jornal de Angola - Como surgiu a ideia de criar uma escola de Futebol?

Norberto de Castro
- Foi em 2001, na altura era vice-presidente para o futebol do Progresso do Sambizanga. Assistia a uma partida oficial da minha equipa e a dada altura um dos meus atletas isolou-se e cara a cara com o guarda-redes chutou a bola muito para lá da baliza, quando o mais fácil era fazer golo. Fiquei de tal modo chocado, que naquele momento veio-me à ideia criar uma escola de futebol. Concluí que aquele falhanço foi consequência de má aprendizagem das técnicas elementares do futebol.
 
JA - Daí partiu para a acção?

NC
- Exactamente. Poucos dias depois comecei a trabalhar na construção de uma escola. Inicialmente tive uma grande batalha para conseguir o espaço. As autoridades do município de Viana, onde funciona a escola, não acreditaram nos meus argumentos, chegaram a pensar que pretendia obter um terreno para posterior venda a um preço exorbitante. Só me queriam dar um hectare.

JA - As instalações ocupam mais do que um hectare?

NC -
Fui persistente e as autoridades concederam-me mais um. Ainda assim achei os dois hectares insuficientes para as minhas pretensões, tive de negociar com alguns camponeses e consegui mais espaço. Depois fui fazendo as obras.

JA - Teve apoio financeiro ou empréstimos bancários para as obras?

NC
- O capital inicial foi inteiramente meu. Na altura, eu era comerciante; comprava peixe seco na província do Namibe e vendia-o nas Lundas. Posteriormente ampliei a área de venda ao Congo Democrático. Desembarcava com o peixe seco na zona portuária de Goma, metia-o em camiões e ia vender a mercadoria em Kinshasa. De lá trazia madeira, fuba, óleo de palma e cerveja Primus para vender em Luanda.

JA - Foi com os rendimentos dos negócios que começou a construir a escola?

NC -
  Pode não acreditar, mas foi com estes negócios. Foram momentos difíceis. Como sou de grandes desafios, habituado a travar enormes batalhas, não desisti das minhas pretensões e hoje orgulho-me do que fiz. 

JA - A escola envolveu somas avultadas?

NC
- Exactamente. Mas fui estendendo os meus negócios. Construí armazéns e um parque de estacionamento no Mercado Roque Santeiro. Foi um investimento que me deu bons rendimentos que serviram para intensificar as obras da Escola Norberto de Castro. Não é apenas de um centro virado para a formação de atletas de futebol. É um local onde também se lecciona desde a iniciação até ao ensino médio.

JA – Teve assessoria técnica para a concepção do projecto?

NC -
Em todos os trabalhos, desde a concepção do projecto até às obras propriamente, não houve mão de ninguém estranho. Fui eu que dirigi todos os trabalhos. As pessoas que nos visitam fazem exactamente a mesma pergunta e muitos não acreditam que o arquitecto do projecto sou eu.

JA -Vai continuar a construir infra-estruturas na escola?

NC -
As obras vão continuar, ainda não terminei por falta de verbas. Estou a acabar de construir o segundo campo de futebol que já tem relva sintética e balneário. E mais um ginásio. Estou com muitos furos nos rendimentos. Desde a extinção do Mercado Roque Santeiro que me vejo a braços para fazer face às despesas do centro. Como disse tinha lá armazéns e um parque de estacionamento de viaturas. Grande parte dos meus rendimentos era proveniente do Roque Santeiro.
 
JA -  Além do seu capital conta com outros apoios?

NC
- Não tenho apoio algum. Desde a fundação da escola até hoje, recebemos uma verba, há cinco anos, do Presidente da República, no valor de 50 mil dólares. Todas as escolas de futebol em Luanda receberam este apoio. Desde então não recebemos literalmente nada de lado algum. Lamento, porque nós estamos virados essencialmente para a formação e não recebemos ajuda. Estive em vários países da Europa e da América e constatei que projectos do género são apoiados financeiramente por entidades públicas. 

JA - Como faz face às dificuldades financeiras ?

NC
- Eu próprio, às vezes, nem acredito que ainda mantenho as portas da escola abertas. Vou remediando. Se não encontrar solução, posso encerrar a escola! Gastamos mil dólares sempre que regamos o campo de futebol, já que compramos água em camiões cisternas. 

JA - Também tem gastos com a energia eléctrica?

NC
- Graças ao esforço da Presidência da República deixamos, recentemente, de ter gastos enormes neste sector. Agora já temos a luz da rede. Antes vivíamos de geradores. Mas atravesso dificuldades. Às vezes, no final do mês, nem sei como pagar o salário aos professores, às equipas técnicas e aos outros funcionários do centro. 

JA - Está frustrado?

NC
- Francamente, já pensei fechar as portas e arrendar as instalações. Mas devido à possibilidade de subida da equipa ao Girabola, recuei das minhas intenções. O apreço que recebo em todo lado dá-me muito alento para continuar com este projecto. O apoio moral está a suplantar as dificuldades que enfrento.

JA - Já obteve contrapartidas dos investimentos?

NC
- Financeiramente falando ainda não obtive contrapartidas dos investimentos que continuo a fazer. Em breve vou ter algum retorno do investimento que fiz no atleta Geraldo, que actua no Curitiba do Brasil. Ele tem uma margem de progressão muito elevada e vai render ao Curitiba, que provavelmente vai vender o seu passe a um grande clube mundial. A minha escola tem direito a 40 por cento da transacção que se fizer com o jogador. 

JA -A aposta continua a ser na formação?

NC
- Temos feito um trabalho de formação na verdadeira acepção da palavra. Possuímos uma escolinha de futebol, temos iniciados, juvenis, juniores e seniores. É por causa desta sequência de trabalho que hoje temos jogadores com muita qualidade. Muita gente ficou surpreendida com o facto da nossa equipa de seniores, composta apenas por jovens entre os 17 e os 22 anos, estar agora na Liguilha, a disputar o apuramento para o Girabola. Para mim não é surpresa, porque fizemos um trabalho de fundo como mandam as normas do futebol. Digo sem medo de errar que se nos derem apoios, tal como dão a outras instituições do género, vamos produzir aqui atletas que vão dignificar o nome do país além fronteiras.

JA - A sua equipa está preparada para a subida ao Girabola?

NC
-  Temos um plantel bem preparado para o Girabola, em termos competitivos. Mas com as dificuldades que apontei e sem nenhum tipo de apoio, como sobrevivemos até agora, vai ser um milagre se subirmos de divisão e competirmos até final do campeonato.

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