Entrevista

"Nunca seria capaz de falar mal do meu próprio país"

João Dias |

Horácio dos Anjos é um jovem apóstolo angolano, líder e fundador da Igreja Deus Vivo Shekinah, implantada no país e em São Tomé e Príncipe, que, em entrevista ao Jornal de Angola, conta o modo como nasceu a igreja, bem como as marcas que a tornam diferenciada: a palavra e o milagre.

O Apóstolo Horácio dos Anjos diz que o que faz a Bíblia ser verdade não é simplesmente o que lá está escrito mas a prática do que está lá escrito
Fotografia: José Cola

É assertivo ao afirmar que “Deus tem um propósito específico para Angola” e que hoje as pessoas na busca pela consolidação da fé, querem também solução para os seus problemas e para as suas necessidades espirituais e materiais, numa alusão à necessidade da busca do que chama “Deus vivo”. Mas para lá do aspecto religioso, da fé e da pretensão de implantar a Igreja mundo afora, Horácio dos Anjos lança um repto para todos aqueles que, ao invés de ajudarem o país a crescer, preferem falar mal dele além fronteiras.

Jornal de Angola – No fundo, o que quer dizer “Igreja de Deus Vivo”… quando falamos de Deus estamos a falar de uma entidade suprema e viva. Esta frase “Deus Vivo” parece reducionista e redundante, pois Deus está sempre vivo…

Apóstolo Horácio dos Anjos – Existem vários deuses. Se fores à India hás-de encontrar mais de dois mil deuses, pois tudo lá é deus, até uma vaca é tida como deus. Existem muitos deuses na terra, mas existe somente um Deus que é chamado de Deus Vivo. Porque o chamamos assim? O chamamos assim, porque esses muitos deuses morreram e não ressuscitaram e por isso acabou-se a história deles. A única pessoa que veio e afirmou ser Filho de Deus, morreu e ressuscitou é Jesus Cristo. Por isso é que O chamamos de Deus Vivo e depois é Único que opera. Quando precisares, Ele está aí presente para operar. E a expressão Shekinah é hebraica e quer dizer habitação, mas com a evolução do sentido das palavras, hoje pode ser entendida como “presença de Deus” ou “poder de Deus”.

Jornal de Angola - Como tem decorrido todo esse processo de levar o Evangelho às pessoas, muitas das quais com alguma resistência ao desconhecido, já que se encontram numa fase embrionária e de afirmação no que professam?


Apóstolo Horácio dos Anjos
- Não estamos numa fase embrionária. Desde logo, porque somos os primeiros a usar a televisão aqui no país ao serviço da evangelização, algo que era ainda impossível para muitas igrejas, na altura. Somos os primeiros a ter um canal evangélico. Agora, sinto que Deus nos deu uma outra missão, pois a igreja avança por etapas e a nossa próxima é trazer para o país algo grandioso.  Veja o seu próprio exemplo. Antes de fazeres grandes entrevistas passou por um processo de treinamento; a China antes de ser a grande potência que é, organizou-se internamente e só depois se revelou. Connosco, igreja, acontece a mesma coisa. Nos organizámos internamente e agora é tempo de abrir, não só para a nossa nação, mas para o mundo. O nosso canal passa, não só no país e em toda a África, mas também em quase metade da Europa. As pessoas lá fora conhecem-me e isto é efeito do que assistem nos canais que temos disponíveis.

Jornal de Angola -  Estão implantados em quantos países?


Apóstolo Horácio dos Anjos
- Por enquanto, só aqui no país e em S.Tomé e Príncipe. Mas não parámos por aqui, pois o caminho da evangelização é longo e requer muita paciência e investimento. Isto para dizer que não estamos numa fase embrionária. O que pretendemos agora é dar passos grandes. Sinto que chegou a altura. Temos sinais de que estamos a crescer ao conseguirmos, por exemplo, encher o Cine Atlântico. Sempre trabalhamos sem a mídia. Sempre trabalhamos fechados. Mas, agora, pretendemos sair. Há quatro anos, as pessoas aconselhavam-me a divulgar mais as nossas acções e sempre respondi que ainda não tinha chegado o tempo. Sinto que este tempo é agora.

Jornal de Angola - Apesar de todos terem como base e substracto a fé em Deus e a Sua palavra, existe uma marca, uma tradição encrustada em cada igreja, inevitavelmente. Qual é a vossa?


Apóstolo Horácio dos Anjos - Deus quando chama uma igreja, dá sempre uma ferramenta que tem de ser diferente, porque cada pessoa tem o seu dom e cada igreja tem o seu dom e uma a marca que a diferencia de outra no serviço da evangelização. O que adianta Deus chamar-te e fazeres a mesma coisa que eu? Não faz sentido! As pessoas já te têm a ti com a sua marca e, eventualmente, hão-de precisar de mim com uma marca e uma abordagem diferenciada. Há quem não goste de arroz e feijão, mas existem milhões que gostam desse alimento. O mesmo acontece com a igreja. Nós somos chamados a mostrar que Deus está vivo, através da palavra e do milagre. A nossa marca em Angola e no mundo são os milagres.

Jornal de Angola - É interessante ouvir hoje a palavra milagre dita no seu sentido e alcance bíblico, pois só se ouve e se lê num recuo aos tempos bíblicos. Hoje, em pleno século XXI, é um pouco difícil ouvir essa palavra. Quer falar-nos sobre essa interessante questão?


Apóstolo Horácio dos Anjos - Deixe-me dizer-te que milagre é a intervenção de Deus sobre o natural das coisas. No milagre está a cura, a transformação de vidas e a profecia. A pessoa pode não estar doente, mas precisar que a sua vida seja transformada nalgum sentido. As pessoas precisam conhecer Deus. Abunda na nossa cidade famílias com problemas espirituais e muitas estão vendidas, nós sabemos isso. Os pactos existem e fazem com que famílias fiquem limitadas em termos de prosperidade ou em outras áreas. As pessoas precisam conversar mais com Deus e deixar de pensar que veio à terra para sofrer, quando não é assim. A nossa marca, como já disse, é a palavra e o milagre.

Jornal de Angola - Disse que a palavra e o milagre são as grandes marcas que os diferencia de outras igrejas. Insisto que nos fale um pouco mais sobre a questão e sobre o que fazem na prática?


Apóstolo Horácio dos Anjos - Na verdade, o cristianismo é uma religião fundada em milagres. O criador do cristianismo é Jesus Cristo. Só o seu nascimento, segundo a Bíblia, e nós acreditamos, é miraculoso: nasceu de uma virgem. Nós nos regemos pelo caminho do milagre e mostramos às pessoas que aquilo que é impossível para os homens é possível para Deus. Por que razão você vai adorar um deus que não opera? Não tem lógica! Quando as pessoas vão ter connosco, mostramos que Deus está presente. Imagine uma criança que nasceu deficiente e com limitações na mobilidade e que os médicos declararam não haver solução. Este foi um caso real! Nós oramos e a criança levantou-se. Este é apenas um exemplo de transformação de vida, sem falar de situações em que doentes de cancro, cegos e paralíticos viram as suas vidas transformadas. É o que mostramos às pessoas sem ter de divulgar. Hoje, as pessoas estão cansadas de adorar um Deus que não faz nada, por isso é que existem pessoas que estão na igreja, mas vão ao quimbanda. A igreja está aqui para destruir as intenções do diabo, mas vão ao quimbanda porquê? As pessoas sabem que é errado, mas querem apenas uma solução, uma resposta.

Jornal de Angola - Aí reside a questão. Hoje, os fiéis começam a tornar-se cépticos e a balançar porque tardam as respostas que esperam, o que engrossa o exército de ateístas e daqueles que acreditam, mas desistiram da igreja. Sente que a fé pode entrar em crise caso este estado de coisas prevaleça?

Apóstolo Horácio dos Anjos - É claro. Note, quando não vejo a acontecer na minha vida ou na vida dos outros o que dizem os preceitos bíblicos, que dizem que Deus opera o impossível e que é amor, é claro que entro em frustração. Não tem como! Vou questionar se este livro é verdadeiro ou não. O que faz a Bíblia ser verdade não é simplesmente o que lá está escrito, mas a prática do que está lá escrito que faz a diferença e dá o verdadeiro sentido à vida. É isso o que faz com que seja considerado um livro sagrado. Se você lê a Bíblia e põe em pratica os seus ensinamentos, notará que algo de bom te vai acontecer. 

Jornal de Angola  - Com que olhos vê a grande manifestação religiosa e ecumênica que ocorre no país?


Apóstolo Horácio dos Anjos
- Angola está a mudar. Hoje, as pessoas se identificam com as igrejas e, apesar de tudo, vejo os fiéis a identificarem-se mais com a religião. Não podemos querer que todos os homens de Deus sejam iguais e não podemos esperar que todos os homens sejam verdadeiros. O trigo e jóio são parecidos e crescem juntos. O senhor é jornalista e sabe que no seu ramo também existem aqueles que “não batem bem” e isso é normal, se percebermos que, como humanos, somos imperfeitos guiados por um Deus perfeito. Para dizer que, em todos os ramos, existem os bons e maus, os aproveitadores e os sérios.

Jornal de Angola - Que mensagem deixa para os que manifestamente se aproveitam da fé e da aflição das pessoas para conseguirem aumentar o próprio património?

Apóstolo Horácio dos Anjos - A única coisa que digo para estes é que se arrependam. Toda gente na terra um dia vai morrer. Para ciência é ainda um mistério o que acontece após a morte. Mas biblicamente falando já sabemos que acontece após a morte. A Bíblia está sempre à frente da ciência. Essas pessoas que pretendem enriquecer-se usando a palavra de Deus esquecem-se que são mortais e que um dia terão de encontrar-se com o Criador. O que vão dizer? Acho que as pessoas deviam ganhar dinheiro de outra forma que não fosse a de usarem a palavra do Senhor.

Jornal de Angola - Como vê a política no país?


Apóstolo Horácio dos Anjos - É complicado liderar e governar. A liderança também consiste na delegação de poderes. O líder tem os seus princípios, mas, porque é necessário, delega os seus poderes a uma e outra pessoa, que nem sempre persegue os interesses de um todo ou para os quais lhe foram delegados poderes. Lidero vários pastores e peço para em meu nome fazerem isso ou aquilo, mas nem sempre fazem-no como se pretende e quando as coisas dão errado, a culpa recai sempre para o líder. Por isso é que é preciso orar pelas autoridades, para que tenhamos uma vida tranquila. As coisas estão a mudar no país. Mas há um principio que sigo, que é de não falar mal do meu país. E muitas pessoas o fazem, em nome de comparações com países como a América com centenas de anos de independência.

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