Entrevista

“O meu muito obrigado à sociedade”

Kátia Ramos |

A vida tem dessas coisas, mas ninguém espera viver o que aconteceu ao rapper Kenny Bus: quando se encontrava numa recauchutagem a calibrar os pneus da sua viatura, no bairro Cassenda, em Luanda, foi surpreendido por indivíduos armados, que o raptaram e o mantiveram em cativeiro. O músico foi resgatado ileso pela Polícia, numa altura em que os meliantes se preparavam para receber o dinheiro do resgate. Um deles foi morto na troca de tiros e três capturados. Felizmente Kenny Bus sobreviveu para regressar junto aos seus entes queridos e narrar a odisseia por que passou

Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Queira descrever-nos, por favor, o seu estado de espírito neste momento?

Estou em recuperação. Não estou no meu melhor, porque não foi fácil o que aconteceu. Na verdade, e graças ao apoio dos amigos e da minha família, estou a tentar fazer os possíveis para me recuperar. Ainda não consigo dormir em condições, estou sempre a despertar assustado e não é a pensar na cara dos marginais. Temo pela minha vida, porque existem alguns que não foram ainda apanhados pelos efectivos do SIC, não sei se haverá 'révanche' ou não, mas cá estou e acredito que vamos conseguir ultrapassar isso.

Pode dizer-nos o que realmente aconteceu?


Eram por volta de 15 horas. A priori pensei tratar-se de um assalto, mas depois tudo transformou-se em rapto. Fui levado a uma casa que eu não sabia onde era, isso na noite de sexta-feira para domingo. Fui resgatado pelo Serviço de Investigação Criminal já noutro local, por isso acredito que eles sabiam que a notícia se tinha espalhado pelo mundo através das redes sociais. Domingo, a partir das 14 horas, deixaram-me na Tourada, no bairro Calemba.

Em algum momento pensou que estivesse tudo perdido? Temeu pela sua vida?

Sempre. Porque havia discussão entre eles. Eles não conseguiam entender-se, uns diziam “vamos pedir o resgate” e outros diziam “vamos fazer o abate, ele não precisa mais estar vivo”. Hoje alguns estão presos, mas outros ainda estão em fuga, dos quatro cidadãos envolvidos nesta acção.

Ouviu a conversa toda e viu os rostos... O que eles queriam, na verdade?

Os raptores exigiam a quantia de dois milhões de kwanzas aos meus familiares para me libertarem. Na verdade, esses indivíduos já andam com a matrícula dos carros das próximas vítimas e acredito que já tinham contactos com clientes para vender a viatura. A priori pensei que queriam apenas o carro, mas no final, como eles não conseguiam ter uma única ideia, começaram a discordar uns dos outros. Uns queriam a minha morte, outros apenas a viatura e outros dois os valores. Eles fizeram-me várias perguntas sobre outras pessoas que poderiam ter carros idênticos ao meu, acho eu tratar-se de uma quadrilha que já está habituada a fazer processos do género, tendo eles a declaração de compra e venda já assinada pela vítima. A eles não interessa manter as vítimas vivas, mas como um deles depois me reconheceu, queriam saber se conseguia, de alguma forma, arranjar valores extras da minha família.

Houve disparos durante o seu resgate?

Sim. Houve troca de disparos de armas de fogo com os efectivos do SIC, que responderam na mesma proporção, alvejando um dos suspeitos, que veio a morrer a caminho de uma unidade hospitalar. Os operativos do SIC conseguiram recuperar a minha viatura, já com a matrícula alterada e sei que duas armas de fogo utilizadas pelos indivíduos durante o confronto também foram recuperadas.

Como está o seu estado de saúde, os raptores foram agressivos com você?
Levei várias coronhadas porque lutei muito para me soltar. Em termos gerais estou bem, com uma lesão no pé, porque amarraram-me de cabeça para baixo e somente com um pé pendurado. Quando me apanharam foram agressivos, bateram-me com a pistola. Quando cheguei ao local do cativeiro amarraram-me os pés aos braços e colaram a minha boca com fita-cola. Para poderem saber se tinha ou não amigos com o mesmo tipo de carro do meu, meteram um guincho no pé e ficaram a puxar, para que eu falasse. Foi horrível viver aquela situação por cerca de 75 horas.

Qual a sua opinião em relação à nossa Polícia Nacional, no teu caso específico?

Foram implacáveis, só tenho a agradecer. É graças ao Serviço de Investigação Criminal, aos seus efectivos, que hoje estou aqui, posso respirar aliviado e abraçar a minha família. Tenho muito a agradecer. O que aconteceu comigo comoveu muito a sociedade. No meu caso, felizmente, diferente dos outros, a comunicação foi mais rápida e, graças a Deus, só tive noção disso quando cheguei a casa, eles (a Polícia) conseguiram, de alguma forma, dar conta do recado e foram muito profissionais. Admirei a forma como eles chegaram onde eu estava e como conseguiram fazer a captura de alguns deles e dos meios em sua posse, como viaturas e armas de fogo.

Uma questão muito pertinente: o Kenny Bus tem inimigos?

Acho que todo mundo deve ter inimigos, uns em silêncio, mas um inimigo conhecido assim eu não conheço, porque sou uma pessoa frontal, humilde e muito na minha. Dificilmente tenho rixas com outras pessoas, tenho um grande número de amizades e nem faço juízo da minha marca 'Kenny Buss'. Nos sítios para onde vou nem me preocupo que as pessoas saibam que estou aí, simplesmente quero estar na minha com os meus amigos e sempre na paz.

A sociedade comoveu-se com o seu caso e a informação foi partilhada a uma velocidade jamais vista, o que terá ajudado no trabalho da Polícia Nacional. O que tens a transmitir aos teus fãs e à sociedade no geral?

Estou sem palavras para transmitir o afecto e a imensa gratidão que sinto. O meu muito obrigado à sociedade no geral. Até agora continuo a receber mensagens de várias partes do mundo, Estados Unidos, Japão, Portugal, França... O pessoal todo lá fora, na diáspora, incluindo África, também partilhou a informação. Obrigado pelas orações, principalmente as igrejas que ficaram em jejum por mim. Acredito que foi essa força toda, que, na verdade, fez com que Deus ouvisse as preces e eu pudesse estar neste momento a fazer essa entrevista.

Acha que a situação por que passou, de alguma forma, vai impactar na sua carreira musical?

Não estou a pensar nisso. Alguns estarão a pensar que vou me aproveitar da situação para apresentar os meus projectos, mas não. Só quem já viveu uma situação do género poderá dizer o que é sair de um cativeiro. Sou grato a Deus por me pôr novamente junto da minha família, a dormir, acordar e ver que está tudo tranquilo em seu redor. Todos os dias, a partir das três horas da manhã, já não tenho sono. Ainda sinto-me angustiado, não tenho como pensar na minha carreira neste momento. Eu nunca tive problemas para ser alavancado a nível da minha carreira. Sempre fui um artista de topo, desde os Warrant B, sempre fizemos boa música. Não tenho um CD simplesmente porque, além da música, faço outras coisas. Sou engenheiro informático e até o ano passado estive a dirigir um dos grandes institutos tecnológicos a nível nacional. Estou a trabalhar como consultor de empresa e de duas secretarias de Estado.
Se alguém pensa que tudo o que aconteceu foi para alavancar a minha carreira, está enganado. Não procuro fama, considero-me um artista com dom. Eu pego as minhas composições e as ofereço aos meus colegas artistas. As minhas músicas 'batem' no mercado, ninguém me vê na televisão à procura de protagonismo ou a demonstrar aquilo que faço. A música para mim é uma arte.
Antes de acontecer esta situação na minha vida, já estava com o meu CD preparado para o lançamento, esperava simplesmente juntar o útil ao agradável, gozar férias com a família. Não acredito que esta situação possa, de alguma forma, baixar a minha carreira e também não vou utilizar este espaço para a alavancar. O mais importante é fazer música de qualidade, com muito talento. Se tivesse que reclamar alguma coisa da sociedade eu iria pedir que, ao invés das pessoas preocuparem-se comigo de modo a terem protagonismo ou fama, deviam é preocupar-se em fazer boa música para os angolanos.

“Componho para outros artistas”

Que planos tem para a sua carreira?

Estou a fechar o CD do músico Eddy Tussa. Terminei agora o álbum da Yola Semedo e estou a compor para outros artistas. A nível pessoal tenho vários projectos. Estou a trabalhar num álbum gospel, para que, de alguma forma, venha a emancipar o nome de Deus na minha vida, não na minha voz, mas com composições minhas na voz de outros artistas.

Teremos o Kenny em palco este ano?

Acredito que sim. Ainda para este final de semana tenho marcados dois espectáculos e não vou poder fazê-los: com o Picante, no Zango, e no Bar 1011, do Dj Nike. Assim que terminar o meu CD poderão ver-me mais vezes em palco. Tenho estado a aparecer pouco, simplesmente, porque tenho apenas duas músicas no mercado, com a minha interpretação. As outras músicas minhas são interpretadas por outros artistas.

Quem são os cantores nacionais e estrangeiros que o Kenny mais admira?
São muitos, desde o pessoal dos anos '70, por exemplo Artur Nunes e Urbano de Castro. Teta Lando é a minha lenda. Dos artistas novos, Patrícia Faria, Yola Semedo, Eddy Tussa e Yuri da Cunha.
A nível internacional, sou muito mais selecto. A música que mais toca no meu carro é hip-hop. Ouço muito rap mesmo, costumo dizer a toda gente que o rap e o warrant B são muito mais completos que qualquer outro estilo de música, um verso de rap pode dar 4 músicas num outro estilo.
O rap em um só verso pode dar 20 estrofes, é um estilo que ajuda muito na capacidade de pensar. Há boa música feita por artistas que nem tocam nas rádios e são da melhor qualidade. Mas, infelizmente, a media é que domina tudo cá em Angola, valorizando estilos que os que vivem fora do nosso país pensam que a música angolana é só aquilo.

Afinal quem é Kenny Bus?

“Respondo pelo nome de registo de Cleef Massuquini António Cazevo, mais conhecido por Kenny Bus. Trabalho como cantor, compositor, engenheiro informático e administrador de empresas. Sou o penúltimo filho de 11 irmãos, o décimo filho de Miguel António Cazevo e Maria Manuela.
Sou casado, tenho duas filhas: Nahady, de nove anos, e Nahala, de sete. A minha grande ambição é ser o melhor pai do mundo. Adoro uma boa comida tradicional e não dispenso as cores preta, azul e vermelha.
Gosto muito de roupas militarizadas, mas estou de segunda a sexta-feira vestido a rigor. Só aos finais de semana é que me visto de forma informal. O meu dia-a-dia é uma grande correria, mas tenho sempre tempo para o estúdio e o ginásio. O que mais me cativa são as festas de quintal, onde posso reunir a família e os amigos. A música está em primeiro lugar na minha vida, pois foi ela que me transformou, em todos os aspectos”.

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