"O comércio electrónico tem margem para forte crescimento em Angola"

João Dias |
4 de Maio, 2017

Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Fora de mercados tradicionais como os Estados Unidos, Ásia-Pacífico e Europa, onde estão as maiores plataformas, permitindo a movimentação de milhões de dólares, em Angola o comércio electrónico é um instrumento que, aos poucos, vai ganhando vitalidade com o surgimento de lojas o-nline. Ainda são poucas e a prática do comércio ainda é tímida.

Apesar disso, Fátima Almeida, criadora da plataforma angolana de comércio electrónico, BayQi, em entrevista ao Jornal de Angola, disse acreditar num forte crescimento deste segmento de negócios no país. A especialista defende a existência de um mercado melhor regulado com o objectivo de assegurar uma  maior protecção do consumidor e torná-lo imune a fragilidades daí decorrentes.Fora de mercados tradicionais como os Estados Unidos, Ásia-Pacífico e Europa, onde estão as maiores plataformas, permitindo a movimentação de milhões de dólares, em Angola o comércio electrónico é um instrumento que, aos poucos, vai ganhando vitalidade com o surgimento de lojas o-nline. Ainda são poucas e a prática do comércio ainda é tímida.  Apesar disso, Fátima Almeida, criadora da plataforma angolana de comércio electrónico, BayQi, em entrevista ao Jornal de Angola, disse acreditar num forte crescimento deste segmento de negócios no país. A especialista defende a existência de um mercado melhor regulado com o objectivo de assegurar uma  maior protecção do consumidor e torná-lo imune a fragilidades daí decorrentes.


Jornal de Angola - O que é afinal o comércio electrónico e como encarar este desafio no país, onde o nível de info-exclusão é ainda assinalável?


Criadora da plataforma de e-commerce, BayQi, Fátima Almeida
- Comércio electrónico ou e-commerce são transacções comerciais feitas na internet através de computadores, tablets e smartphones. O modelo do BayQi é B2C, significa o estabelecimento de uma relação que parte do vendedor para consumidor final, ou seja, há a criação de uma ligação entre ambos. O grande desafio a encarar, neste momento, passa por conectar o país de Cabinda ao Cunene, criando uma maior inclusão digital e permitir um acesso mais igual a todos os potenciais usuários angolanos. Investimos, por isso, num mecanismo que ajuda a criar proximidade entre os potenciais utilizadores da plataforma. A proceder assim, temos a certeza que vamos conseguir contribuir para a existência de uma cultura-web que dê primazia à segurança e à protecção, quer no acto de compra, quer pelo simples facto de usar ou visitar a plataforma.

Jornal de Angola - Como caracteriza o actual momento do comércio electrónico no mundo e em Angola em particular? Que futuro tem a BayQi, a pioneira no país?


Fátima Almeida - Deixe-me dizer alguns aspectos que acho importantes para haver a noção de quão promissor é o e-commerce que emergiu com o advento da Internet, do computador, tablet e smartphone. Em 2016, o comércio electrónico mundial atingiu os 22,049 triliões de dólares, um aumento de 6,0 por cento em relação ao ano anterior. Estima-se que as vendas devem superar os 27 triliões em 2020, mesmo com as taxas de crescimento anuais a apontarem para um certo abrandamento nos próximos anos. A realidade africana está ainda numa fase inicial deste processo. Ainda assim, em 2013, o continente movimentou oito mil milhões de dólares e espera-se que em 2018 possa atingir os 50 mil milhões de dólares. Eu acredito que o comércio electrónico em Angola vai crescer, mas vai precisar de ser regulado e mais bem organizado para que a protecção do consumidor esteja imune de fragilidades. O BayQi é a primeira plataforma de comércio electrónico no país que, nos últimos seis anos, foi traçando caminho nesta área. Tem boas perspectivas de crescimento e tem metas ambiciosas: entrar na NASDAQ com IPO (initial public offer) ou oferta pública de aquisição (OPA). Estamos a preparar-nos meticulosamente para isso. As tecnologias não têm fronteira. Isto é para dizer que, se continuarmos a seguir as normas, princípios e regras que regem a actividade, vamos chegar lá, com certeza, não importando de onde saímos.

Jornal de Angola - Como fazer com que o cidadão angolano lide com questões relacionadas com o e-commerce sem receio, quando as ameaças e burlas estão permanentemente à espreita?

Fátima Almeida -
O mundo digital ainda é uma novidade no seio da população angolana. Por isso, temos de quebrar muitas barreiras como o medo e a desconfiança. A estratégia que o BayQi adaptou para ultrapassar essas questões foi de dar uma máxima segurança ao cliente no acto da compra, com mecanismo de pagamento 100 por cento digital. Quando o cliente paga pela sua encomenda, o dinheiro fica guardado na conta do BayQi até que o produto lhe seja entregue. Caso haja alguma complicação durante o processo, o BayQi devolve o dinheiro do cliente. Com este mecanismo, o cliente pode comprar de forma segura na plataforma. Continuamos a permitir empresas, distribuidoras ou marcas de renome que vender no BayQi.

Jornal de Angola - A plataforma, a base deste tipo de comércio, é recente no país e representa um acto de inovação. Como vê o BayQi numa perspectiva de médio prazo?

Fátima Almeida -
O BayQi todos os dias conecta angolanos de uma ponta a outra de Angola, adicionando valor na vida do cidadão, o que representa muito para nós. Nos próximos dois ou três anos, a empresa pretende conseguir mais de 10 milhões de utilizadores activos e uma expansão em mais de cinco países africanos. Para nos darmos a conhecer aos angolanos, usamos marketing informativo e diariamente ensinamos as pessoas sobre o que é o BayQi e como utilizar a plataforma. Além disso, pretendemos ajudar para a inversão das taxas de info-exclusão ainda altas no país. Para tal, vamos associar-nos com provedoras locais que oferecem serviço de internet grátis e tornar o link www.bayqi.com grátis para navegar e efectuar a compra.

Jornal de Angola - Como e o que fazer para que qualquer cidadão beneficie dos serviços da plataforma?


Fátima Almeida -
O cidadão pode ter acesso à plataforma BayQi através do nosso endereço web www.bayqi.com. Pode também seguir-nos no Facebook, Instagram e posteriormente fazer download (baixar) a aplicação para telemóveis. Para beneficiar dos serviços da plataforma, o cliente deve registar-se com o número de telemóvel ou email. Ao seleccionar a opção “cliente novo”, após a criação da conta, fica disponível o acesso a serviços como “novidades”, “acompanhar encomenda” e a “recepção de newsletter de alerta”.

Jornal de Angola - Que projecções tem em vista no plano de parcerias, investimentos e uma possível entrada na bolsa a curto e a médio prazo?


Fátima Almeida - Temos grandes ambições, mas também grande comedimento. A nossa filosofia passa pelo estabelecimento de novas parcerias e o fortalecimento das existentes, adicionando novas técnicas e métodos capazes de acrescentar valor nos negócios. Todos os dias investimos no capital humano e valorizamos as nossas parcerias. No futuro, vamos triplicar o capital humano para garantir qualidade premium ao cliente nas áreas de tecnologia, logística, comercial, apoio e marketing. Pensar na bolsa de valor a curto prazo é uma ambição e conseguir isso seria histórico. Queremos entrar para a Bodiva e no médio prazo, disso tenho certeza: vamos estar na NASDAQ.

Jornal de Angola - O comércio electrónico passou a ser um traço cultural na Europa e na América. Entre nós, sente que teremos de trabalhar imenso para atrair usuários ou nem tanto assim?

Fátima Almeida - Não, na medida em que os angolanos se vão familiarizando cada vez mais com esta nova experiência de fazer compras o-nline. Aliás, Angola é um país de pequenos e médios empreendedores que todos os dias usam várias ferramentas para comercializar os seus produtos. Desde que o acesso à internet se massificou, surgiram empreendedores que começaram a praticar vendas online através do Facebook, Instragam e, actualmente, o whatsapp. Porém, quando se fala de e-commerce, o tema suscita ainda alguma inquietação e ainda é alvo de algum tabu por causa de algumas práticas menos abonatórias que se vão exercendo através da Internet. Mas usar internet deve ser também um acto de responsabilidade. O que posso dizer é que não há motivo para receios pelo que já referi acima. Quanto a nós, a segurança está na ordem do dia e proteger o usuário é para nós uma regra “sacrossanta”. 

Jornal de Angola - Que vantagens nos reserva a compra ou venda virtual face à clássica compra ou venda presencial como passam para o cliente a sensação de maior segurança?

Fátima Almeida -
A compra virtual oferece muitas vantagens ao comprador. Veja, por exemplo, o caso de a loja estar fora do país e não se ter capacidade, no momento, para viajar. Neste caso, pode-se efectuar uma compra online e esperar um par de dias para receber o produto. Veja-se também, nos casos em que haja reduzida disponibilidade para visitar lojas físicas. Neste caso, a compra online é fundamental. A vantagem é que o comprador pode receber os produtos no domicílio sem gastos adicionais e sem stress. Há muito boa gente sem tempo de segunda a sexta-feira para ir a uma loja. Em tais casos, pode comprar sem se deslocar. A compra ou venda online permite que usuários de Cabinda ou Huambo ou ainda de Antuérpia ou Lisboa, comprem algum produto que esteja numa loja em Luanda, sendo o inverso também válido. Isso, além de ser uma experiência muito boa, reduz, em grande medida, os custos de deslocação e outros associados. A venda virtual é extremamente vantajosa, pois os produtos comercializados têm maior visibilidade por todo o país e as vendas podem ser feitas sem limitações de horários. O custo operacional é bastante reduzido em relação às lojas físicas e a logística deixa de ser um encargo já que é feita pela plataforma.   

Jornal de Angola - Como olha para o futuro das tecnologias no mundo e em Angola com o emergir de novas descobertas, inovação e um investimento colossal em muitos países?


Fátima Almeida -
Promissor! Tão simples quanto isso. Hoje, é comum imaginar como será o futuro e fazer conjecturas do que podemos esperar daqui a algumas décadas. Será que os tão esperados carros voadores podem vir a fazer parte da nossa realidade de uma forma mais alargada e massiva, ou será que poderemos ter ao lado um amigo robot que, de alguma forma, já não constitui grande novidade, pois, em alguns países, tal realidade existe. Hoje, temos várias tecnologias a emergir no espaço e no tempo e outras que vão sendo cada vez mais aprimoradas. Até 2050 muitas vão popularizar-se, tal é o caso, por exemplo, de um carro feito com tecnologia de impressão 3D, conectado à Internet e ao qual estarão ligados triliões de pequenos sensores. A medicina pode beneficiar desta era tecnológica. Hoje, podem ser criados órgãos em ambiente laboratorial e num processo que envolva células-tronco, tiradas do próprio paciente, para formar uma nova parte do corpo com o suporte do que se convencionou chamar de bio-impressão. No caso de Angola, vejo desenvolvimento por todos os lados. Já há muita tecnologia dispersa.


Instalação do satélite próprio é como uma revolução

Jornal de Angola - E então, como vê o futuro do nosso país no que toca ao desenvolvimento tecnológico?


Fátima Almeida - Daqui a dez anos, consigo visualizar um crescimento digital forte e competitivo. Não há desenvolvimento sem tecnologia e, a cada segundo, Angola avança nessa direcção. Há, no país, toda esta preocupação de avançar, actualizar e estar entre os grandes.  Angola foi o primeiro país em África a disponibilizar serviços em LTE  (long-term evolution), o que permitiu uma maior qualidade do acesso à Internet via rede móvel. Isso, parecendo que não, é um passo importante. O mais importante para darmos um grande pulo é o país estar a preparar para breve a entrada em operações de um satélite próprio e ter empresas de peso nesta área. Além disso, vamos ter fibra óptica, o que representa um aceno à inovação. 

Jornal de Angola - Estamos num processo de diversificação da economia nacional. Qual deve ser na sua opinião,  o lugar das tecnologias neste desafio?

Fátima Almeida -
Tudo gira à volta da tecnologia. Em Angola, já estamos a dar grandes passos neste domínio. É notável tudo quanto está a ser feito no plano das tecnologias. Aliás, está em vista a entrada em órbita do satélite angolano (Angosat). Há, ainda no sector, entre outras, a Angola Cables que tem vindo a desempenhar um papel importante no engrandecimento do sector no país e até na diversificação da economia. Mas, o seu papel não é só notável em Angola, é-o também no continente. É preciso perceber que a diversificação da economia é um processo em que devem estar envolvidas não só a agricultura. Penso que as empresas de tecnologia jogam também um papel fundamental. Não se diversifica apenas com agricultura. As tecnologias são uma opção a ter em conta. O trabalho das grandes empresas de tecnologia tem sido excelente, o que permite a entrada de novos players tecnológicos como é o caso do BayQi, que, à sua medida, vai ajudar na diversificação da economia.

Jornal de Angola - Diversificar não é só com agricultura. As tecnologias de informação devem ser levadas em linha de conta?

Fátima Almeida - Todos os países precisam de desenvolvimento agrícola. Hoje em dia, se queremos agricultura a sério, não a fteremos sem tecnologia. Dado o êxodo rural existente e por forma a atrair o capital humano aos campos, terá de se investir forte na formação tecnológica das pessoas. O BayQi pode ter um papel fundamental no desenvolvimento do sector agrícola, ajudando no escoamento dos produtos e no aumento das trocas de bens e serviços a nível nacional. Se o cliente estiver em Luanda e quiser comprar batata rena de uma fazenda que esteja localizada no Bié, pode fazê-lo através do BayQi. Feito isto, resta-lhe esperar que o produto chegue à  sua porta. Isto é bom, mas o que temos de fazer agora é quebrar a resistência à inovação existente. E esta é ainda forte.

Jornal de Angola - Estamos hoje na chamada auto-estrada da informação e o mundo está mais digital. Pelo que vê, os jovens angolanos são apenas meros utilizadores ou sente que já tiram partido das tecnologias para inovar e desafiar-se mais?

Fátima Almeida -
Existem muitos génios no domínio das tecnologias de comunicação e informação capazes de fazerem coisas que podem mudar a estrutura do país, isso reconheço. E o BayQi é um exemplo. Acredito que em breve teremos muitas aplicações tecnológicas criadas por jovens angolanos a serem utilizadas noutros países, da mesma forma que usamos aplicações que foram criadas por americanos, como é o caso do Facebook, Instagram, Whatsapp, entre outras. Já é possível ver na app store dos smartphones aplicativos de criadores angolanos. Isso é mesmo um bom sinal.

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