Entrevista

"O comércio electrónico tem margem para forte crescimento em Angola"

João Dias |

Fora de mercados tradicionais como os Estados Unidos, Ásia-Pacífico e Europa, onde estão as maiores plataformas, permitindo a movimentação de milhões de dólares, em Angola o comércio electrónico é um instrumento que, aos poucos, vai ganhando vitalidade com o surgimento de lojas o-nline. Ainda são poucas e a prática do comércio ainda é tímida.

Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Apesar disso, Fátima Almeida, criadora da plataforma angolana de comércio electrónico, BayQi, em entrevista ao Jornal de Angola, disse acreditar num forte crescimento deste segmento de negócios no país. A especialista defende a existência de um mercado melhor regulado com o objectivo de assegurar uma  maior protecção do consumidor e torná-lo imune a fragilidades daí decorrentes.Fora de mercados tradicionais como os Estados Unidos, Ásia-Pacífico e Europa, onde estão as maiores plataformas, permitindo a movimentação de milhões de dólares, em Angola o comércio electrónico é um instrumento que, aos poucos, vai ganhando vitalidade com o surgimento de lojas o-nline. Ainda são poucas e a prática do comércio ainda é tímida.  Apesar disso, Fátima Almeida, criadora da plataforma angolana de comércio electrónico, BayQi, em entrevista ao Jornal de Angola, disse acreditar num forte crescimento deste segmento de negócios no país. A especialista defende a existência de um mercado melhor regulado com o objectivo de assegurar uma  maior protecção do consumidor e torná-lo imune a fragilidades daí decorrentes.


Jornal de Angola - O que é afinal o comércio electrónico e como encarar este desafio no país, onde o nível de info-exclusão é ainda assinalável?


Criadora da plataforma de e-commerce, BayQi, Fátima Almeida
- Comércio electrónico ou e-commerce são transacções comerciais feitas na internet através de computadores, tablets e smartphones. O modelo do BayQi é B2C, significa o estabelecimento de uma relação que parte do vendedor para consumidor final, ou seja, há a criação de uma ligação entre ambos. O grande desafio a encarar, neste momento, passa por conectar o país de Cabinda ao Cunene, criando uma maior inclusão digital e permitir um acesso mais igual a todos os potenciais usuários angolanos. Investimos, por isso, num mecanismo que ajuda a criar proximidade entre os potenciais utilizadores da plataforma. A proceder assim, temos a certeza que vamos conseguir contribuir para a existência de uma cultura-web que dê primazia à segurança e à protecção, quer no acto de compra, quer pelo simples facto de usar ou visitar a plataforma.

Jornal de Angola - Como caracteriza o actual momento do comércio electrónico no mundo e em Angola em particular? Que futuro tem a BayQi, a pioneira no país?


Fátima Almeida - Deixe-me dizer alguns aspectos que acho importantes para haver a noção de quão promissor é o e-commerce que emergiu com o advento da Internet, do computador, tablet e smartphone. Em 2016, o comércio electrónico mundial atingiu os 22,049 triliões de dólares, um aumento de 6,0 por cento em relação ao ano anterior. Estima-se que as vendas devem superar os 27 triliões em 2020, mesmo com as taxas de crescimento anuais a apontarem para um certo abrandamento nos próximos anos. A realidade africana está ainda numa fase inicial deste processo. Ainda assim, em 2013, o continente movimentou oito mil milhões de dólares e espera-se que em 2018 possa atingir os 50 mil milhões de dólares. Eu acredito que o comércio electrónico em Angola vai crescer, mas vai precisar de ser regulado e mais bem organizado para que a protecção do consumidor esteja imune de fragilidades. O BayQi é a primeira plataforma de comércio electrónico no país que, nos últimos seis anos, foi traçando caminho nesta área. Tem boas perspectivas de crescimento e tem metas ambiciosas: entrar na NASDAQ com IPO (initial public offer) ou oferta pública de aquisição (OPA). Estamos a preparar-nos meticulosamente para isso. As tecnologias não têm fronteira. Isto é para dizer que, se continuarmos a seguir as normas, princípios e regras que regem a actividade, vamos chegar lá, com certeza, não importando de onde saímos.

Jornal de Angola - Como fazer com que o cidadão angolano lide com questões relacionadas com o e-commerce sem receio, quando as ameaças e burlas estão permanentemente à espreita?

Fátima Almeida -
O mundo digital ainda é uma novidade no seio da população angolana. Por isso, temos de quebrar muitas barreiras como o medo e a desconfiança. A estratégia que o BayQi adaptou para ultrapassar essas questões foi de dar uma máxima segurança ao cliente no acto da compra, com mecanismo de pagamento 100 por cento digital. Quando o cliente paga pela sua encomenda, o dinheiro fica guardado na conta do BayQi até que o produto lhe seja entregue. Caso haja alguma complicação durante o processo, o BayQi devolve o dinheiro do cliente. Com este mecanismo, o cliente pode comprar de forma segura na plataforma. Continuamos a permitir empresas, distribuidoras ou marcas de renome que vender no BayQi.

Jornal de Angola - A plataforma, a base deste tipo de comércio, é recente no país e representa um acto de inovação. Como vê o BayQi numa perspectiva de médio prazo?

Fátima Almeida -
O BayQi todos os dias conecta angolanos de uma ponta a outra de Angola, adicionando valor na vida do cidadão, o que representa muito para nós. Nos próximos dois ou três anos, a empresa pretende conseguir mais de 10 milhões de utilizadores activos e uma expansão em mais de cinco países africanos. Para nos darmos a conhecer aos angolanos, usamos marketing informativo e diariamente ensinamos as pessoas sobre o que é o BayQi e como utilizar a plataforma. Além disso, pretendemos ajudar para a inversão das taxas de info-exclusão ainda altas no país. Para tal, vamos associar-nos com provedoras locais que oferecem serviço de internet grátis e tornar o link www.bayqi.com grátis para navegar e efectuar a compra.

Jornal de Angola - Como e o que fazer para que qualquer cidadão beneficie dos serviços da plataforma?


Fátima Almeida -
O cidadão pode ter acesso à plataforma BayQi através do nosso endereço web www.bayqi.com. Pode também seguir-nos no Facebook, Instagram e posteriormente fazer download (baixar) a aplicação para telemóveis. Para beneficiar dos serviços da plataforma, o cliente deve registar-se com o número de telemóvel ou email. Ao seleccionar a opção “cliente novo”, após a criação da conta, fica disponível o acesso a serviços como “novidades”, “acompanhar encomenda” e a “recepção de newsletter de alerta”.

Jornal de Angola - Que projecções tem em vista no plano de parcerias, investimentos e uma possível entrada na bolsa a curto e a médio prazo?


Fátima Almeida - Temos grandes ambições, mas também grande comedimento. A nossa filosofia passa pelo estabelecimento de novas parcerias e o fortalecimento das existentes, adicionando novas técnicas e métodos capazes de acrescentar valor nos negócios. Todos os dias investimos no capital humano e valorizamos as nossas parcerias. No futuro, vamos triplicar o capital humano para garantir qualidade premium ao cliente nas áreas de tecnologia, logística, comercial, apoio e marketing. Pensar na bolsa de valor a curto prazo é uma ambição e conseguir isso seria histórico. Queremos entrar para a Bodiva e no médio prazo, disso tenho certeza: vamos estar na NASDAQ.

Jornal de Angola - O comércio electrónico passou a ser um traço cultural na Europa e na América. Entre nós, sente que teremos de trabalhar imenso para atrair usuários ou nem tanto assim?

Fátima Almeida - Não, na medida em que os angolanos se vão familiarizando cada vez mais com esta nova experiência de fazer compras o-nline. Aliás, Angola é um país de pequenos e médios empreendedores que todos os dias usam várias ferramentas para comercializar os seus produtos. Desde que o acesso à internet se massificou, surgiram empreendedores que começaram a praticar vendas online através do Facebook, Instragam e, actualmente, o whatsapp. Porém, quando se fala de e-commerce, o tema suscita ainda alguma inquietação e ainda é alvo de algum tabu por causa de algumas práticas menos abonatórias que se vão exercendo através da Internet. Mas usar internet deve ser também um acto de responsabilidade. O que posso dizer é que não há motivo para receios pelo que já referi acima. Quanto a nós, a segurança está na ordem do dia e proteger o usuário é para nós uma regra “sacrossanta”. 

Jornal de Angola - Que vantagens nos reserva a compra ou venda virtual face à clássica compra ou venda presencial como passam para o cliente a sensação de maior segurança?

Fátima Almeida -
A compra virtual oferece muitas vantagens ao comprador. Veja, por exemplo, o caso de a loja estar fora do país e não se ter capacidade, no momento, para viajar. Neste caso, pode-se efectuar uma compra online e esperar um par de dias para receber o produto. Veja-se também, nos casos em que haja reduzida disponibilidade para visitar lojas físicas. Neste caso, a compra online é fundamental. A vantagem é que o comprador pode receber os produtos no domicílio sem gastos adicionais e sem stress. Há muito boa gente sem tempo de segunda a sexta-feira para ir a uma loja. Em tais casos, pode comprar sem se deslocar. A compra ou venda online permite que usuários de Cabinda ou Huambo ou ainda de Antuérpia ou Lisboa, comprem algum produto que esteja numa loja em Luanda, sendo o inverso também válido. Isso, além de ser uma experiência muito boa, reduz, em grande medida, os custos de deslocação e outros associados. A venda virtual é extremamente vantajosa, pois os produtos comercializados têm maior visibilidade por todo o país e as vendas podem ser feitas sem limitações de horários. O custo operacional é bastante reduzido em relação às lojas físicas e a logística deixa de ser um encargo já que é feita pela plataforma.   

Jornal de Angola - Como olha para o futuro das tecnologias no mundo e em Angola com o emergir de novas descobertas, inovação e um investimento colossal em muitos países?


Fátima Almeida -
Promissor! Tão simples quanto isso. Hoje, é comum imaginar como será o futuro e fazer conjecturas do que podemos esperar daqui a algumas décadas. Será que os tão esperados carros voadores podem vir a fazer parte da nossa realidade de uma forma mais alargada e massiva, ou será que poderemos ter ao lado um amigo robot que, de alguma forma, já não constitui grande novidade, pois, em alguns países, tal realidade existe. Hoje, temos várias tecnologias a emergir no espaço e no tempo e outras que vão sendo cada vez mais aprimoradas. Até 2050 muitas vão popularizar-se, tal é o caso, por exemplo, de um carro feito com tecnologia de impressão 3D, conectado à Internet e ao qual estarão ligados triliões de pequenos sensores. A medicina pode beneficiar desta era tecnológica. Hoje, podem ser criados órgãos em ambiente laboratorial e num processo que envolva células-tronco, tiradas do próprio paciente, para formar uma nova parte do corpo com o suporte do que se convencionou chamar de bio-impressão. No caso de Angola, vejo desenvolvimento por todos os lados. Já há muita tecnologia dispersa.


Instalação do satélite próprio é como uma revolução

Jornal de Angola - E então, como vê o futuro do nosso país no que toca ao desenvolvimento tecnológico?


Fátima Almeida - Daqui a dez anos, consigo visualizar um crescimento digital forte e competitivo. Não há desenvolvimento sem tecnologia e, a cada segundo, Angola avança nessa direcção. Há, no país, toda esta preocupação de avançar, actualizar e estar entre os grandes.  Angola foi o primeiro país em África a disponibilizar serviços em LTE  (long-term evolution), o que permitiu uma maior qualidade do acesso à Internet via rede móvel. Isso, parecendo que não, é um passo importante. O mais importante para darmos um grande pulo é o país estar a preparar para breve a entrada em operações de um satélite próprio e ter empresas de peso nesta área. Além disso, vamos ter fibra óptica, o que representa um aceno à inovação. 

Jornal de Angola - Estamos num processo de diversificação da economia nacional. Qual deve ser na sua opinião,  o lugar das tecnologias neste desafio?

Fátima Almeida -
Tudo gira à volta da tecnologia. Em Angola, já estamos a dar grandes passos neste domínio. É notável tudo quanto está a ser feito no plano das tecnologias. Aliás, está em vista a entrada em órbita do satélite angolano (Angosat). Há, ainda no sector, entre outras, a Angola Cables que tem vindo a desempenhar um papel importante no engrandecimento do sector no país e até na diversificação da economia. Mas, o seu papel não é só notável em Angola, é-o também no continente. É preciso perceber que a diversificação da economia é um processo em que devem estar envolvidas não só a agricultura. Penso que as empresas de tecnologia jogam também um papel fundamental. Não se diversifica apenas com agricultura. As tecnologias são uma opção a ter em conta. O trabalho das grandes empresas de tecnologia tem sido excelente, o que permite a entrada de novos players tecnológicos como é o caso do BayQi, que, à sua medida, vai ajudar na diversificação da economia.

Jornal de Angola - Diversificar não é só com agricultura. As tecnologias de informação devem ser levadas em linha de conta?

Fátima Almeida - Todos os países precisam de desenvolvimento agrícola. Hoje em dia, se queremos agricultura a sério, não a fteremos sem tecnologia. Dado o êxodo rural existente e por forma a atrair o capital humano aos campos, terá de se investir forte na formação tecnológica das pessoas. O BayQi pode ter um papel fundamental no desenvolvimento do sector agrícola, ajudando no escoamento dos produtos e no aumento das trocas de bens e serviços a nível nacional. Se o cliente estiver em Luanda e quiser comprar batata rena de uma fazenda que esteja localizada no Bié, pode fazê-lo através do BayQi. Feito isto, resta-lhe esperar que o produto chegue à  sua porta. Isto é bom, mas o que temos de fazer agora é quebrar a resistência à inovação existente. E esta é ainda forte.

Jornal de Angola - Estamos hoje na chamada auto-estrada da informação e o mundo está mais digital. Pelo que vê, os jovens angolanos são apenas meros utilizadores ou sente que já tiram partido das tecnologias para inovar e desafiar-se mais?

Fátima Almeida -
Existem muitos génios no domínio das tecnologias de comunicação e informação capazes de fazerem coisas que podem mudar a estrutura do país, isso reconheço. E o BayQi é um exemplo. Acredito que em breve teremos muitas aplicações tecnológicas criadas por jovens angolanos a serem utilizadas noutros países, da mesma forma que usamos aplicações que foram criadas por americanos, como é o caso do Facebook, Instagram, Whatsapp, entre outras. Já é possível ver na app store dos smartphones aplicativos de criadores angolanos. Isso é mesmo um bom sinal.

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