Entrevista

"O povo angolano foi o grande vencedor com o alcance da paz"

Adalberto Ceita |

O vice-presidente do conselho executivo do Centro de Estudos Estratégicos de Angola (CEEA), Manuel Correia de Barros, em entrevista ao Jornal de Angola apontou um conjunto de factores e acções que concorreram para o êxito das negociações que levaram ao Acordo do Luena de 4 de Abril de 2002. Embora admita que, após a morte de Savimbi, através da subversão, a UNITA tivesse a possibilidade de continuar a guerra por mais alguns anos, o também brigadeiro das Forças Armadas Angolanas destacou que a linguagem de reconciliação, o início de um processo de vencedores sem vencidos e a vontade das partes em acabar com a guerra, foram fundamentais para o alcance da Paz que o povo angolano há muito reclamava e merecia.

Brigadeiro Correia de Barros diz que a UNITA tinha forças dispersas em partes de Angola que podiam continuar uma guerra de guerrilha
Fotografia: José Cola





Jornal de Angola – Em que ponto do desenrolar do conflito militar se tornou claro que o desfecho era aquele que veio a acontecer?

Manuel Correia de Barros
– Após os Acordos de Lusaca, em 1996, a UNITA tentou criar um exército semi-regular, com artilharia pesada, blindados e tanques e só não o conseguiu porque as Forças Armadas Angolanas (FAA) desbloquearam a situação com o ataque, em 1998, ainda que falhado, no Bailundo e nas Boas Águas. Pouco antes, a alteração da situação política no vizinho Zaíre (actual RDC) levou a UNITA a perder a sua retaguarda segura, que lhe permitia, para além de negociar os resultados do garimpo, receber o material de guerra de que necessitava. A operação “Restauro”, que se seguiu, com a conquista pelas FAA dos seus bastiões no centro do país – Bailundo e Andulo – e logo depois da Jamba, criaram a maioria das condições que permitiram o desfecho que se tornou previsível.

Jornal de Angola – Além   dos   meios   militares   em   confronto   no   terreno,   que   outras   situações concorreram para esse desfecho?

Manuel Correia de Barros
– Há todo um conjunto de factores e acções que   concorreram para o êxito das negociações que levaram ao Acordo do Luena de 4 de Abril de 2002. Nomeadamente, a incorporação nas FAA, no pós-Bicesse e Lusaca, de antigos militares da UNITA, veio mostrar que, afinal, o “inimigo” era composto por irmãos e que só as circunstâncias de então nos levaram a estar em trincheiras diferentes. Era evidente o cansaço de todos – população e militares – face à continuação da guerra. Acresce a isto o aproveitamento de um momento favorável – a   morte   em   combate   de Savimbi – por parte do Governo ao lançar, num curto prazo (cerca de 20 dias), uma Agenda de  Paz que incluía  um cessar-fogo unilateral  imediato, uma amnistia geral, para a promoção da segurança e da reconciliação nacional, as instruções dadas aos comandantes no terreno para o contacto com os seus opositores para a criação de condições ­favoráveis à implementação desse cessar-fogo, o patriotismo demonstrado pelos generais da UNITA ao aceitarem as propostas do Governo, a rapidez com que as FAA e as forças da UNITA construíram e puseram a funcionar os locais de aquartelamento em todo o país e que, 90 dias após a cessação das hostilidades,  conseguiram criar as condições  para  albergar e alimentar mais de 400.000 pessoas.

Jornal de Angola – A vontade das partes em conflito foi determinante?

Manuel Correia de Barros –
Com uma linguagem de reconciliação e não discriminação e acusação mútua, foi notável a vontade das partes que colocaram acima dos interesses partidários os interesses de Angola e do povo angolano. E, fundamentalmente, por se ter criado um processo de vencedores onde não houve vencidos. O povo angolano foi o grande vencedor ao alcançar a Paz que há muito reclamava e merecia. Vencedor o Governo e o MPLA, que conseguiram acabar com o principal entrave à reconstrução, que permitiria a saída do subdesenvolvimento, o acabar com a pobreza e a fome, melhorando a vida de todos. Vencedor também a UNITA que conseguiu conquistar um lugar para a sua luta, não já com armas, mas sim com a discussão e os votos dos cidadãos.

Jornal de Angola – Após a morte de Jonas Savimbi, era possível às forças residuais da UNITA prosseguirem as acções armadas?

Manuel Correia de Barros 
– Na realidade existia essa possibilidade.

Jornal de Angola – De que forma?

Manuel Correia de Barros –
A UNITA tinha forças dispersas em partes de Angola que, através da subversão, podiam continuar, por mais uns anos, uma guerra de guerrilha, como era o caso da sua Frente Norte (províncias de Luanda, Bengo e Cuanza Norte) e Centro (Benguela) e se isso se tivesse verificado não estávamos hoje a comemorar os 14 anos de paz.

Jornal de Angola – Passados 14 anos, temos uma paz efectiva no país?

Manuel Correia de Barros –
Apesar de o mundo estar em grandes  convulsões e poder resvalar para mais um conflito generalizado, para o qual, como é usual, muitos inocentes vão ser arrastados, no que respeita a uma guerra fratricida em Angola, na minha opinião  temos uma situação de Paz efectiva e duradoura.

Jornal de Angola – A situação militar em Cabinda voltou a ser notícia com o comunicado da FLEC-FAC sobre a retomada das acções militares. Como vê o desenrolar dessa situação?

Manuel Correia de Barros –
Não acredito muito que as suas ameaças sejam reais. Será que ao fim destes anos todos de Paz, os dirigentes da FLEC-FAC ainda acreditam que alcançarão qualquer objectivo político através da luta armada?

Jornal de Angola – Essa possibilidade está fora de questão?

Manuel Correia de Barros –
Definitivamente, acredito que sim.

Jornal de Angola – Angola tem tido um papel cada vez mais importante na mediação de conflitos em África, em particular na região dos Grandes Lagos. As nossas unidades estão  capacitadas para intervir em situações de conflito no continente no quadro de acções de pacificação da ONU ou da União Africana?

Manuel Correia de Barros
– Sem dúvida. As FAA estão preparadas e Angola ganha com essa participação. Não vejo como é possível desempenhar um papel real e com êxito na prevenção e ou na resolução   de   conflitos   na   região,   somente   com   a   acção   diplomática   e   o   apoio financeiro e humanitário, recusando envolver os seus militares nesse trabalho. Deixar esse papel para os outros não me parece correcto.

Jornal de Angola – Como vê Angola dentro de 14 anos?

Manuel Correia de Barros –
Vejo uma Angola mais madura, com avanços importantes na resolução dos principais problemas nacionais, nomeadamente a saúde, a educação, a segurança e o emprego. Uma Angola com um melhor funcionamento das suas instituições oficiais. Uma Angola mais igual e sem tantas diferenças entre ricos e pobres, homens e mulheres, cidade e campo, interior e litoral. Uma Angola livre das pechas ligadas à burocracia, à corrupção  e ao esbanjamento. Uma Angola  que deu a volta por cima, ao abrir oportunidades legais aos inúmeros empreendedores que têm surgido e sobrevivido no mercado informal. Uma Angola ainda mais alegre e a xinguilar bwé e onde seja difícil estar-se triste. Espero ainda estar por aqui a assistir a tudo isso.

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