Entrevista

''O tráfico de drogas é um fenómeno de grande preocupação''

André da Costa |

Angola é um parceiro estratégico para a segurança interna de São Tomé e Príncipe. O ministro são-tomense da Administração Interna, Arlindo Ramos, realizou uma visita oficial de cinco dias a Angola, país que vai ajudar a reorganizar e modernizar a Polícia são-tomense, com a formação de 250 elementos em diversas especialidades, para responder de forma eficaz a crimes como tráfico de seres humanos e drogas.

Ministro da Administração Interna de São Tomé e Príncipe falando ao Jornal de Angola durante a visita realizada a Angola
Fotografia: Domingos Cadência

Em Luanda, Arlindo Ramos falou ao Jornal de Angola.

Jornal de Angola – Que avaliação faz das relações no domínio da segurança e ordem pública?

Arlindo Ramos – A cooperação com Angola vem desde a Independência dos dois países. Foram assinados vários acordos e protocolos de cooperação, mas sem muitos resultados.   Ainda assim, a avaliação da cooperação é positiva. Angola esteve ao lado de São Tomé e Príncipe nos momentos mais difíceis.

Jornal de Angola – Angola é um parceiro estratégico?
 

Arlindo Ramos  –  O Governo de que faço parte elegeu Angola como  parceiro estratégico no âmbito da segurança interna. Por isso, vim a Luanda solicitar ajuda. Gostávamos que Angola fosse mais interventiva e operacional na cooperação com as forças de segurança. Angola já formou polícias do meu país em várias especialidades. Estamos a rever os protocolos para adaptá-los à nova exigência. Viemos a Angola para, com o ministro do Interior angolano, vermos a possibilidade de intensificarmos a cooperação. São Tomé e Príncipe situa-se numa zona estratégica do Golfo da Guiné e pretendemos ter  controlo sobre as nossas fronteiras. Temos um mar extenso e um fluxo de migração da costa africana intenso que nos obriga a encontrar parcerias.

Jornal de Angola – Que aspectos devem ser melhorados?

Arlindo Ramos – A formação de quadros. Temos as forças de defesa e segurança construídas numa base legal de monopartidarismo. Tivemos mudanças políticas em 1991, optámos pela democracia pluralista e isso requer adaptação à nova realidade política. Pedimos a Angola que nos ajude a reorganizar e modernizar os serviços de segurança. Essa reorganização passa pela formação de quadros. Angola formou a nossa Polícia de Intervenção Rápida, mas devido a dificuldades financeiras, ela deixou de existir. Gostávamos de a reorganizar devido a assuntos complicados que exigem inteligência.

Jornal de Angola – Que garantias recebeu das autoridades angolanas?

Arlindo Ramos – Antes da minha visita a Angola, o ministro Ângelo Veiga fez deslocar a São Tomé e Príncipe uma delegação técnica que em 15 dias fez o levantamento das nossas dificuldades e necessidades. Tenho a garantia de que Angola está disponível para formar 250 polícias em São Tomé e Príncipe, devendo os instrutores e meios de trabalho de Angola estarem lá já no próximo mês. Temos já preparado um Centro de Instrução e Formação de Militares.

Jornal de Angola –  Que avaliação faz das estruturas que visitou, principalmente o Laboratório de Criminalística do  Serviço de Investigação Criminal?


Arlindo Ramos
– Gostei do que vi e disse aos responsáveis do laboratório que podíamos cooperar, porque temos crimes quase comuns com Angola. Estamos sem possibilidade de construir um laboratório idêntico, devido à falta de recursos financeiros. Mas podemos trabalhar juntos no âmbito do combate à criminalidade. Angola podia, por exemplo, instalar uma célula do laboratório em São Tomé e Príncipe, que pode prestar serviço a Angola no âmbito do trânsito da imigração ilegal. Aproveitávamos, assim, a transferência de competências para os quadros são-tomenses. Custa muito dinheiro construir um laboratório idêntico.

Jornal de Angola – O grupo Boko Haram é uma ameaça?

Arlindo Ramos
– Fazemos parte de várias organizações internacionais. Quando se criou o Comité do Golfo da Guiné foi com o objectivo de combater a pirataria marítima. Mas o Golfo da Guiné tem sido palco de muitas influências e a Nigéria, como um dos países membros, tem problemas internos e um deles é o  Boko Haram. As acções desse grupo não se limitam à Nigéria. Tivemos exemplos do Chade, Camarões e tentativas no Congo Brazzaville. Devemos tomar medidas preventivas relativas a alguns cidadãos nigerianos que emigram para São Tomé e Príncipe, pois podemos estar a acolher elementos do Boko Haram.

Jornal de Angola – Existe esse receio por parte do Governo?

Arlindo Ramos – Temos esse receio porque a imigração nigeriana é quase diária. Cidadãos nigerianos podem entrar em São Tomé e Príncipe de avião ou em navios de pequeno e grande  porte. Temos nigerianos instalados em São Tomé e Príncipe com elevada capacidade financeira. Temos recebido nigerianos com visto de turista, mas já não regressam, alegando a situação instável no seu país. Como somos humanos, aceitamos que permaneçam. Devemos tomar medidas preventivas.

Jornal de Angola – Quais são os crimes mais frequentes em São Tomé e Príncipe?


Arlindo Ramos
– Furtos, roubos, tráfico de drogas e de seres humanos e a prostituição. Relativamente ao tráfico de seres humanos, conseguimos, com a colaboração da Interpol, recuperar algumas crianças. A violação também é uma preocupação. Cidadãos nacionais e estrangeiros estão envolvidos nesta prática. Temos registado três crimes de violação por semana, o que para nós é muito, se tivermos em atenção a extensão do país. Algumas pessoas constituem-se em organizações para levarem jovens para o serviço de prostituição, o que nos deixa muito preocupados. Mas o crime que mais nos preocupa é o de tráfico de drogas.

Jornal de Angola – Em que termos isso acontece?

 Arlindo Ramos – Sentimos que São Tomé e Príncipe tem sido usado como plataforma de embarque e desembarque de drogas. Registámos casos de cidadãos são-tomenses envolvidos nisso em Angola, Brasil, Cabo Verde e Portugal. São sinais que nos transmitem preocupação. Precisamos de cooperar com Angola nesta área, porque o fluxo é grande. Há uma placa giratória entre Luanda, São Tomé e Cidade da Praia. São cidadãos são-tomenses e estrangeiros envolvidos no tráfico de drogas.

Jornal de Angola –  Como entra a droga?


Arlindo Ramos
– Alguma  por via marítima e outra  por via aérea. Já detectámos “mulas” que transportam drogas no estômago. Detectámos uma mulher que se dizia  angolana, mas não era. Era camaronesa e usava um passaporte angolano falso. Infelizmente desconhecemos quem são os cabecilhas do tráfico. São todas estas questões que exigem uma maior cooperação com Angola, por causa da fraude documental e do fluxo de migração. Há tempos destruímos plantações de liamba, mas o consumo não diminuiu. Temos cadastrados alguns consumidores. Temos pistas de traficantes portugueses e nigerianos que já estão sob investigação.

Jornal de Angola – Como combatem a criminalidade?

Arlindo Ramos
– Criámos um programa televisivo de educação e de informação, produzido pela Polícia com transmissão de mensagens positivas para inibir os jovens de roubar. Criámos um policiamento de proximidade junto das populações. Reorganizámos a Polícia em comandos distritais. Aumentámos o policiamento nas praias, devido aos assaltos a turistas. A criminalidade tem estado a diminuir com estas ­medidas, mas precisamos de cooperação. Estamos a trabalhar para aumentar as viaturas de combate aos incêndios. A Sonangol ajudou-nos com dois carros de bombeiros e encomendámos mais seis.

Jornal de Angola –  Quais são os desafios para o desenvolvimento de São Tomé e Príncipe?

Arlindo Ramos
– O Governo está a preparar grandes projectos de desenvolvimento. Vamos ter uma mesa de doadores em Agosto. As populações querem mais água, luz e estradas. Inaugurámos há dias o maior depósito de água, com capacidade para cinco milhões de litros diários, que permite abastecer mais de 40 por cento da população. Estamos a electrificar o país, algumas comunidades críticas já têm luz, faltando talvez 30 por cento do país. Ao mesmo tempo, aumentámos a capacidade de produção energética. Comprámos quatro geradores de alta potência que estão a ser instalados. Pensamos que até finais deste ano temos  solucionado o problema da água e da luz.

Jornal de Angola – Há outros grandes projectos?


Arlindo Ramos
– Um dos projectos é o porto de águas profundas, cuja construção está para breve. Temos um acordo de parceria com a Sonangol para a ampliação e modernização do Aeroporto de São Tomé. Uma parte já foi executada, faltando outra que a Sonangol pode terminar a qualquer momento.

Jornal de Angola – Há muitos angolanos no turismo?

Arlindo Ramos – Estamos a liberalizar o mercado do turismo para permitir que os operadores privados invistam neste ramo. O maior número de turistas que escala São Tomé é angolano, principalmente aos finais de semana. 

 Jornal de Angola – Como vê o desenvolvimento de Angola?

Arlindo Ramos
– Internacionalmente, algumas pessoas colocaram em causa a forma como Angola alcançou a paz. De forma inteligente, Angola foi capaz de responder às pessoas que tentaram impor a sua  vontade ao país. A inteligência dos angolanos, com destaque para o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, fez com que Angola hoje tenha uma paz sólida.Angola é um exemplo do que os africanos podem fazer pelos seus países. Somos nós, os africanos, que temos de solucionar os nossos problemas.

Jornal de Angola – De que forma os políticos africanos podem ultrapassar as suas diferenças e ter um continente mais pacífico?


Arlindo Ramos – Temos de ser verdadeiramente africanos. No dia em que começarmos a pensar no nosso continente, seremos os melhores. Temos o continente com maiores recursos e não há razão para estarmos sempre a ser vistos como mendigos. É preciso marcar a nossa posição como um continente rico e com gente capaz de pensar.  Muitas vezes a nossa ambição leva-nos a destruir tudo de bom que se construiu. Devemos respeitar as nossas tradições. Precisamos de desenvolver os nossos países, como a África do Sul, Angola e o Ghana, cujos níveis são aceitáveis.

Jornal de Angola – Angola já é vista com outros olhos...

Arlindo Ramos – Poucos países respeitavam Angola quando estava em guerra, mas hoje há um respeito generalizado. Hoje todos querem ser angolanos. A Europa está em crise e muitas pessoas estão à procura de Angola para solucionar os problemas europeus. Por isso, Angola tem de se cuidar. Quando Angola está bem, toda a gente quer vir e quando está mal querem ir embora. É preciso que os africanos pensem nos seus países e trabalhem para  o continente ser melhor e não podemos ser inferiores aos outros.

Jornal de Angola –  O exemplo de Angola pode ser seguido por outros países africanos?

Arlindo Ramos – O exemplo de Angola deve servir para alguns países africanos. Alguns países que se dizem estáveis também têm problemas. Alguns dirigentes africanos são muito ambiciosos. É preciso pensar primeiro, antes de tomarem uma decisão. É preciso entender os países que se esforçam para ajudar outros, como é o caso de Angola. Há quanto tempo Angola está presente na República Democrática do Congo? Há muito tempo. Mas a própria RDC tem de entender que também deve fazer a sua parte. Angola tentou ajudar a Guiné-Bissau e surgiram comentários vários que nem vale a pena lembrar. Mas uma coisa é certa, se quisermos alcançar a paz em África, temos de seguir o exemplo de Angola. 

Jornal de Angola – Até que ponto a União Africana pode contribuir para  termos uma África cada vez mais pacífica?

 Arlindo Ramos
– A União Africana deve  tornar-se numa verdadeira organização continental. Muitas vezes só age em situações pontuais e isso não soluciona o problema definitivamente.

Jornal de Angola –  É preciso trabalhar mais para uma verdadeira União Africana?

Arlindo Ramos – Existe desunião na União Africana. É de facto preciso trabalhar para que a União Africana seja uma organização verdadeiramente forte.

Jornal de Angola – Como caracteriza os 40 anos da Independência  de Angola?

Arlindo Ramos – Felicito antecipadamente os dirigentes e o povo angolanos pelos 40 anos de Independência Nacional e espero que continuem a construir e a preservar a paz, construam um país na base da unidade, não obstante as opiniões diversas sobre a forma de governar. O essencial é que Angola continue a ser vista em África e no mundo como um país exemplar e que os angolanos se sintam orgulhosos do país e dos dirigentes que têm.

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