Entrevista

"O turista não altera os nossos hábitos e costumes"

Yara Simão |

O desenvolvimento do Turismo no país segue um Plano Director Nacional, que contempla diversas áreas e inclui a criação de infra-estruturas, formação de quadros, capacitação empresarial, assim como o envolvimento das comunidades e a formação de uma cultura de mobilidade ao nível interno, disse ao Jornal de Angola o director do Instituto de Fomento Turístico (INFOTUR), Eugénio Clemente.

Director do INFOTUR diz que é preciso explicar ao povo a importância do Turismo
Fotografia: José Soares

Jornal de Angola - Qual foi o percurso do INFOTUR desde a sua criação?

Eugénio Clemente
- O Instituto de Fomento Turístico foi criado em 1997. Com a sua fundação, o Ministério da Hotelaria e Turismo pretendeu impulsionar a estruturação da actividade turística nacional, mas a situação política no país não permitiu que este órgão do Estado vocacionado para o acompanhamento e a definição das políticas do Turismo tivesse condições para funcionar. Só a partir de 2002 e até 2011, o Instituto ganhou consistência, com a aprovação do Plano Director Nacional do Turismo, para que a oferta turística passasse a ser feita dentro daquilo que são os padrões e normas internacionalmente aceites.

Jornal de Angola - Quais os principais desafios do Instituto no momento?

Eugénio Clemente
- Estamos a trabalhar na consolidação da oferta turística, tendo em conta o património cultural e paisagístico, sol e mar, e a própria identidade dos angolanos, para que o nosso país ganhe estruturas que o tornem competitivo ao nível da indústria do Turismo internacional. Precisamos também de olhar para o Turismo no plano interno, para assegurar que o povo, que vai receber os turistas, tenha conhecimentos, educação e prática do Turismo. É preciso haver complementaridade porque as pessoas, sem estarem preparadas  podem pensar que os turistas vêm pôr em risco os seus hábitos e costumes.

Jornal de Angola - O que está a ser feito para envolver as comunidades nesse esforço?

Eugénio Clemente - Temos de desenvolver campanhas para tornar o Turismo num elemento de unidade nacional e lançar programas direccionados às escolas, para se criar uma cultura de mobilidade no país. Precisamos de criar marcas provinciais. As nossas províncias precisam de ter identidade local. O sector do Turismo, pela sua importância, deve apostar rapidamente no ensino técnico-profissional para fortalecer toda a cadeia. Precisamos de ter recursos humanos bem preparados para dar suporte às infra-estruturas.

Jornal de Angola - A formação dos trabalhadores é essencial ao desenvolvimento do Turismo?

Eugénio Clemente
- O INFOTUR é o garante de um projecto que o Ministério pretende desenvolver, com a instalação dos hotéis-escolas em seis províncias do país, Uíge, Huambo, Moxico, Huíla, Benguela e Luanda, numa primeira fase. Pela dimensão do país, faz todo o sentido   pensar em infra-estruturas académicas vocacionadas para a indústria da hospitalidade, para garantir qualidade nos serviços. 

Jornal de Angola - Já temos um tecido empresarial a contento?

Eugénio Clemente - Outro grande desafio é a formação das competências empresariais para dar suporte às unidades que o Turismo pode criar. Nós percebemos que existe vontade, mas é importante que ela se entrelace com o conhecimento das áreas em que essas pessoas podem desenvolver as suas aptidões. Estamos a procurar formas de criar mecanismos que permitam o desenvolvimento destas competências a nível local, para a formação da consciência empresarial.

Jornal de Angola - Que passos devem ser dados a seguir?

Eugénio Clemente - Com as escolas montadas, queremos incentivar o desenvolvimento e surgimento de mais investimentos para a capitalização do sector. É necessário capitalizar os que já existem, protegê-los e garantir a entrada de outros que vão dar cobertura aos vários segmentos da indústria do Turismo. Se tivermos programas de Turismo social, se desenvolvermos a identidade local, as escolas do Turismo e criarmos uma consciência nacional de que o Turismo é bom para o país, podemos lançar-nos na competitividade externa com bases devidamente sólidas, estruturas montadas e serviços com preços aceitáveis.

Jornal de Angola - O INFOTUR já gera receitas para o Estado?

Eugénio Clemente - O Instituto ainda não tem arrecadado receitas para o Estado porque só está a trabalhar há um ano. Temos de reestruturar as formas de gestão das zonas turísticas.

Jornal de Angola - Um grande projecto em curso é o Okavango-Zambeze.

Eugénio Clemente - Sobre o Projecto Okavango-Zambeze, estamos confiantes de que se vai tornar num projecto atractivo. Há cada vez mais trabalho a ser desenvolvido pelas entidades locais e do Cuando Cubango, apesar dos constrangimentos com a desminagem e o assentamento das populações. Ali onde esse trabalho já foi feito, vamos começar a actuar com o Turismo, para que a população e os visitantes possam desfrutar das belezas naturais.

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