Entrevista

“O Ubuntu está mais para sabedoria do que para conhecimento”

Osvaldo Gonçalves

“Sou pela justiça distributiva”, assim se apresenta António Kassoma, no seu mural no Facebook, onde perfila como Nguvulu Makatuka, sócio e consultor sénior de uma empresa de consultoria. Já trabalhou como director nacional de Negociações das Concessões e como Docente de Direito Constitucional, Sociologia do Direito e Filosofia do Direito, numa universidade privada, e foi assistente para os Assuntos Parlamentares, Políticos e Constitucionais, na Casa Civil do Presidente da República, entre outros cargos e funções. Trabalhou ainda como repórter e subeditor aqui mesmo, no Jornal de Angola. Este jovem, natural do Ukuma, província do Huambo, vive em Luanda e termina todas as intervenções públicas e privadas com a saudação-despedida “Ubuntu”. É dessa filosofia-conceito que ele fala. Para o jurista e jornalista, “o Ubuntu está mais para sabedoria do que para conhecimento.”

Fotografia: Dimas Diogo

Como explica a filosofia Ubuntu ao leitor angolano?
Como ponto prévio, direi que não vejo Ubuntu como filosofia. Pelo menos, não no sentido em que julgo significar “Filosofia”. Isto é, desde o prisma da cultura dominante, de radical ocidental-judaico-cristão. Nas comunidades africanas que conservam os modos ancestrais de vida, fica difícil falar em “amor ao conhecimento”. Assim, Ubuntu não poder ser visto como algo do plano intelectual ou racional. Dito de outra maneira,  Ubuntu está mais para sabedoria que para conhecimento. Sendo que Ubuntu é compaginável com uma ideia de sabedoria individualmente detida ou limitável ao indivíduo, mas uma sabedoria colectivamente apropriada e impregnada na identidade das partes e formam o todo comunitário e, como tal, impregnada na identidade e nos sentimentos da comunidade como um todo.
Com a ressalva dos parágrafos anteriores, digamos que Ubuntu seja a convicção e o sentimento individual e colectivo de que o outro é a medida da nossa própria humanidade. Quando se adopta o Ubuntu passa a ser conatural ao indivíduo a postura moral e ética de agir de modo a contribuir para o bem de outrem, uma vez que nós próprios somos irremediavelmente beneficiários das vantagens daí decorrentes. Os ovimbundu têm sobre isso um provérbio segundo o qual, "o que afecta o pé tem efeito sobre o tornozelo". Noutra variação do mesmo dito, usa-se como referência à relação do tornozelo com o joelho. São partes distintas do corpo, mas o joelho torna-se inútil, caso o tornozelo esteja comprometido. O tornozelo é muito importante, mas deixaria de ser importante, se as outras partes do pé não estivessem em condições de cumprir a sua parte.
Voltando ao Ubuntu, originalmente, esta ferramenta comunitária (ou Filosofia colectivamente apropriada e instintivamente praticada, caso se prefira ver desde esse prisma) foi sendo associada apenas a comunidades da África do Sul (considerando que a expressão é derivada de uma língua deste país), mas a verdade é que esta ideia-força está presente na maioria das comunidades africanas que mantêm a forma ancestral de organização e suporte da vida em comunidade, com maiores ou menores variações.
Em muitas dessas comunidades, eventualmente, não existem expressões próprias como o universalmente adoptado “Ubuntu”, mas esse mesmo espírito está presente em vários aspectos essenciais do sentir e agir das comunidades de outras nações africanas, em particular as de radical bantu.
Em suporte a esta visão, pode ser tomado como exemplo paradigmático o facto de nas diferentes línguas africanas de Angola não existir uma expressão equivalente a “felicitação”. Assim o é porque as nossas gentes não sentem o feito positivo de outrem como sendo algo externo a si.

Pode detalhar um pouco mais este aspecto ... ?
Por que razão existiria uma palavra para algo que as pessoas não sentem, muito menos (re)conhecem? O que os bantu de Angola recebem da sua raiz ancestral é que o sucesso de um membro da comunidade  tem reflexo positivo sobre todos e cada um dos seus membros. Por isso, as expressões usadas para essas ocasiões equivalem às usadas para agradecer. Ndapandula, Ngasakidila, N’tondele… etc.
Mas claro que não tenho a ilusão de acreditar que a expressão real e efectiva dessa ferramenta seja conforme referimos. Existem eventualmente pessoas no seio da comunidade que fogem a este paradigma. Tal como o corpo tem células que fogem à sua codificação e tendem a propiciar eventos cancerígenos. Na sociedade, esses seriam os “oviliangu”, “muloji” e afins.  Não necessariamente por associação a artes ocultas ao serviço do mal, mas pela simples tendência de sentimentos como a inveja e a cobiça, em vez da inspiração e crença no sucesso próprio com base no prévio sucesso do próximo. 

O que o torna tão ligado ao Ubuntu?

Não sei se seria correcto estimar que eu seja muito próximo ao Ubuntu. Mas admito que faço um esforço consciente e permanente para atingir maior emulsão existencial com essa ferramenta, que acredito ser a codificação de base de todos os humanos enquanto seres, que (ainda) não sucumbiram ao império do “ter, fazer e parecer” como elementos centrais de uma existência que era suposto assentar fundamentalmente sobre o ser, sendo as outras componentes auxiliares ou acessórias em relação à ontológica.
Portanto, tudo o que faço é tentar ser humano. E acredito que Ubuntu constitui uma ferramenta simples, eficiente e com vocação universal, de que pessoas dos diferentes pontos do espectro da humanidade podem lançar mãos para se religarem à sua essência. E qualquer pessoa média pode atingir esta sincronização do ADN da alma e da raça humana, sem necessidade de recurso à complexidade das ciências, nem aos sacrifícios das religiões.

Que influência teve Nelson Mandela nessa sua ligação ao Ubuntu?
As várias intervenções e exortações de Mandela assentes na ideia-força de Ubuntu ajudaram a sistematizar o que já eram as minhas percepções e convicções sobre o assunto. E, na verdade, a maior parte das ideias de Madiba sobre este assunto ganharam maior divulgação, após a sua passagem para o plano dos ancestrais.
Como a maioria das pessoas que viveu num ambiente urbano e sob forte influência da concepção ocidental de civilização e cultura, o meu ponto de partida para as preocupações da alma foram as visões e ideias da filosofia com origem nas civilizações europeias. Mas, felizmente, tive uma aceitável exposição à cosmovisão ancestral bantu. O convívio com as pessoas mais velhas (com destaque para as minhas avós) deu-me a percepção, por exemplo, de que quase todas as máximas latinas e atribuídas aos filósofos da antiguidade europeia pretendiam significar o mesmo que vários dos nossos adágios ancestrais. E provavelmente os nossos tinham algumas vantagens em termos de largura do espectro de codificação, descodificação e aplicabilidade na resolução de problemas concretos das nossas gentes. Por via dessa “descoberta”, passei a dedicar mais tempo a “ler a nossa própria realidade” e a reflectir sobre ela, em vez de me limitar a estudar o que os outros escreveram sobre os feitos que servem de sustentação ao seu modo de ser e estar no mundo.
Claro que sequer chego à categoria de aprendiz no que toca à sabedoria colectiva das nossas gentes, mas tenho a ousadia e coragem de falar e escrever sobre as migalhas de sabedoria ancestral que a vida permitiu que retivesse na alma. 
O contacto tardio com os valores da ancestralidade parece ser um traço característico da maioria da população actual de África, tamanha foi a força das ideias e da religião trazidas da Europa, no quadro do evento da colonização e consequente aculturação das gentes do nosso continente.
Note-se que o próprio Nelson Mandela admite que levou um tempo considerável para perceber e divulgar massivamente esta perspectiva de sabedoria que recebeu dos ancestrais. Teve larga exposição a esta sabedoria durante a infância, mas o caminho para o “sucesso e realização” que estava a seguir provavelmente tinha mais a ver com a perspectiva ocidental, em detrimento da visão ancestral assente no Ubuntu.
Foi, em grande medida, “graças” à grande e prolongada exposição à solidão e à dor durante a reclusão que conseguiu atingir um nível de liberdade mental e sentimental bastante para viajar até ao seu âmago originário e dele resgatar, de modo claro e estrutural, o Ubuntu e todo o conjunto de valores ancestrais subjacentes a este poderoso instrumento de humanização das pessoas e das comunidades.

  “Liderar é uma honra e um privilégio que ninguém se concede a si mesmo”

As actuações dos políticos africanos não entram em contradição com o Ubuntu?
Em poucas palavras, direi que, na maioria dos casos, os nossos políticos ainda não fizeram as pazes com a história e com as heranças positivas da nossa ancestralidade. Uma das consequências disso é que, na sua acção, raros são os casos em que os políticos africanos lançam mão de ferramentas políticas pré-coloniais, como é o caso da inteligência colectiva e do Ubuntu. Fingimos que o exercício individual e excludente do poder faz parte da nossa essência, quando os ancestrais deixaram ensinamentos poderosos sobre as virtudes da colegialidade e da participação como base do compromisso. Kowuñi K’eyau. Ou seja, é por meio da democracia e da participação inclusiva que se consegue encontrar soluções aceites por todos e que permitam superar os obstáculos.

Que ganhos a retirar ?
Esta forma ancestral de agir e fazer acontecer a política tem a vantagem de não requerer grandes sacrifícios pessoais. Ao dispensar a existência de heróis e de messias, previne-se que a pessoa colocada numa posição de liderança perca a perspectiva de que liderar é uma honra e um privilégio que ninguém se concede a si mesmo, pelo que devemo-lo sempre aos outros. Liderar é honrar e servir aqueles que mantêm os seus pés em águas turvas e lama  para que, sobre os seus ombros, o líder divisar no horizonte os caminhos que alimentam a esperança e conduzem para a mudança. Em vez dessa perspectiva, os líderes africanos parecem insistir em tentar competir com o colonizador, num jogo cujas regras foram criadas por ele. Para que possamos ter uma política diferenciada e harmonizada com as nossas características, precisamos de olhar mais vezes para dentro e despertar. Precisamos de aprender a ouvir e sentir até o silêncio. Há muitas palavras que não são ditas, não porque as pessoas não tenham coisas úteis e sábias para dizer, mas por impossibilidade de comunicação, em consequência do facto das putativas elites apenas usarem as ferramentas e a linguagem do colono. Justamente as que o colono havia implementado no quadro da assimilação e esterilização das nações africanas e que nas suas próprias pátrias foram há muito extirpadas e repudiadas. 

Que futuro se pode esperar para o Ubuntu nos dias de hoje, em África, em particular?
Não apenas em África. Em todo o mundo. No nosso continente, o Ubuntu é mais expressivo apenas porque ficamos durante mais tempo protegidos da complexidade alienante que a humanidade ganhou, ao ter-se espalhado pelo globo e ter deixado parte da sua essência para trás, em nome da sobrevivência. O crescimento e o desaparecimento dos impérios, as várias globalizações ocorridas até agora, a industrialização e a urbanização terão levado a que, algures no caminho, as pessoas tenham deixado de ser aferidas pelo seu ser, sobrepondo-se a aferição, desde a perspectiva do ter, do fazer e do parecer. Em suma, é hoje um desafio global da humanidade reencontrar-se com a matriz existencial codificada no Ubuntu.
Quem assume o Ubuntu como ferramenta do seu pensar, sentir e agir, certamente não precisa(rá) de religião para que veja no outro o seu próximo, com igual direito ao mundo, que é único e de todos. Em última instância, caso se atingisse um nível elevado de universalização e operacionalização do Ubuntu, a religião tornar-se-ia desnecessária, senão mesmo obsoleta. E sinto que isso talvez corresponda ao plano inicial do absoluto, se tivermos em conta que os mitos sobre o paraíso não fazem menção à existência de religiões. Se existe alguma religião verdadeiramente universal, esta talvez seja a assumpção do outro como parte e medida do nosso ser, enquanto humanos.

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