Entrevista

ONU elogia preparação do Censo

Gabriel Bunga |

A representante do Fundo das Nações Unidas para a População em Angola, Kourtoum Nacro, disse ao Jornal de Angola que o êxito do Censo da População e Habitação depende de todos os angolanos.

Kourtoum Nacro representante do PNUD
Fotografia: Dombele Bernardo

Em entrevista, a burquinabe ao serviço da ONU elogiou o Executivo por realizar uma operação muito complexa e referiu que ela vai levar os investidores internacionais a olharem para Angola de uma outra perspectiva.

Jornal de Angola - Qual a importância do censo populacional para um país?

Kourtoum Nacro
- É muito importante. É uma grande operação, que não é fácil de organizar. Em Angola, este primeiro censo é particularmente importante, porque sem ele não temos uma informação correcta sobre a situação da população e, sem esses dados, é difícil fazer a planificação económica. O censo ajuda à realização de pesquisas e quando acompanhado de cartografia permite estabelecer bases para a elaboração correcta das amostras. Os investidores, por exemplo, vão ter uma ideia da realidade em termos do número de habitantes, onde vivem e como. O censo dá outra visão do país e por isso foi adoptado como regra que cada Estado realize um a cada dez anos.

JA - Que experiência tem de trabalhar em países sem dados censitários?

KN –
Sem um censo, fazem-se projecções, mas como aqui o último censo geral da população é de 1970, as projecções não são muito sólidas. Por isso, o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, destacou a importância da realização do censo na sua mensagem do Ano Novo.

JA - Qual é o risco de se trabalhar com projecções?

KN
- O de os planos nunca serem sólidos. Trabalha-se com base em aproximações. Sem os dados censitários não é possível fazer planos exactos para as políticas públicas.

JA - Como encaram as Nações Unidas a realização deste censo?

KN
- Estão satisfeitas com esta iniciativa e felicitam o Executivo. O Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), em particular, está muito satisfeito, porque é a nossa área (de actuação). Desde 2009 que apoiamos os esforços do Executivo e assim começámos com este exercício. Quando aqui chegámos, viemos com dois especialistas de Nova Iorque, que ajudaram a elaborar o projecto do censo, aprovado pela Assembleia Nacional e pelo Executivo. Conseguimos enviar dois funcionários do Instituto Nacional de Estatística (INE) para fazerem um mestrado em demografia para ajudar no processo. Ambos terminaram os estudos em Dezembro de 2012, já voltaram e estão no INE a trabalhar. Também ajudámos à elaboração da cartografia desde 2010.

JA - Qual é a expectativa do FNUAP em relação aos resultados do censo?

KN
- Vamos esperá-los. Não comecemos a especular. Devemos ser abertos e todos os angolanos o devem encarar com seriedade e ajudar os agentes recenseadores, porque se uma pessoa não aceita ser entrevistada está a impedir o processo. Quando os agentes recenseadores baterem à nossa porta, ninguém se deve negar a dar a entrevista. O sucesso do censo não depende dos homens do INE, mas da população. Cada angolano tem um papel a desempenhar e esse papel é o de se deixar entrevistar.

JA - Que outro apoio o FNUAP está a dar a Angola?

KN
- É um apoio técnico e também financeiro. A formação dos dois funcionários do INE nos Estados Unidos foi paga pelo Fundo. O salário de todos os consultores que vêm para produzir este plano estratégico e fazer a cartografia também são pagos por nós. Felicito o INE, pois desde a antiga directora, que infelizmente faleceu muito jovem, conseguimos estabelecer uma parceria para a vinda de consultores. O INE dá alojamento e paga o bilhete de passagem, enquanto o FNUAP paga os salários. É uma boa parceria. Angola tem capacidade de financiar o censo e o Executivo deve ser felicitado por se tratar de um grande compromisso, já que é uma operação muito cara.

JA – O que é necessário para os dados recolhidos serem fiáveis?

KN
- A cartografia é a base para se poder planificar. Também é importante ter um plano estratégico, que o FNUAP ajudou a elaborar, num trabalho conjunto com o INE. Está agora a ser editado, porque foi escrito em inglês e traduzido para português. O plano estratégico integra todas as operações do censo até à divulgação dos resultados e sem ele a execução das operações era muito difícil.

JA - Participou antes em operações do género?

KN
- Desde a sua criação, o FNUAP tem ajudado todos os países em desenvolvimento a realizarem o censo populacional. Não participei de forma directa, mas ajudei a planificar e estou agora aqui em Angola com toda essa experiência. Sou demógrafa de formação. Em Nova Iorque também estava encarregada dos assuntos do censo e estou aqui a pôr em prática o que aprendi, pois trabalhei com muitos países. Estou muito contente por mais esta experiência.

JA - Qual é a margem de erro para uma operação destas ser realmente fiável?

KN -
Uma operação censitária nunca é a cem por cento. O importante é assegurar que todas as entrevistas são bem feitas e os dados bem recolhidos, registados e analisados. Tenho a certeza que vai ser feito um bom trabalho.

JA - Se o INE cumprir todos os procedimentos previstos no plano estratégico, pode considerara-se que foi bem feita?

KN
- As pessoas devem ser bem entrevistadas e os recenseadores tomarem bem as notas e não inventarem dados, que têm de ser gravados e analisados. Existe um livro, como uma bíblia, de métodos sobre como fazer o censo, elaborado pelas Nações Unidas, e Angola está a seguir esse livro.

Tempo

Multimédia