Entrevista

Oposição só critica

António Gonçalves| Benguela

Jorge Alicerces Valentim é um dirigente histórico da UNITA, partido que abandonou por incompatibilidades com a actual direcção. Na sua residência da Canata, no Lobito, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola falou dos 38 anos da Independência Nacional.

Jorge Valentim critica postura da oposição
Fotografia: JAIMAGEM

E lançou duras críticas aos partidos da oposição que “apenas criticam o Executivo por criticar”.

Jornal de Angola - Como avalia o contributo dos jovens da sua geração na conquista da independência de Angola?

Jorge Valentim -
A luta pela conquista da Independência Nacional teve a participação dos mais velhos, mulheres e jovens de todas as regiões de Angola. Houve um grande movimento pela libertação do nosso país, antes dos combates de 1961, tanto em Luanda como no Lobito, especificamente no bairro da Canata, no Huambo, no Lubango e noutras regiões e cidades de Angola.O mais importante era destruir o sistema colonial português, que promovia rusgas e prisões arbitrárias de pessoas instruídas ou não, que eram enviadas para as roças de café onde faziam trabalhos forçados, para a Baía dos Tigres e outros ainda para a Europa. Os nacionalistas queriam acabar com o estatuto do indígena. Os jovens e os mais velhos participaram nessa luta durante muitos anos.

JA - Lembra-se de pessoas que participaram nessas acções?

JV -
Posso citar nomes como os de Lourenço João Sequeiro, o pai de João Lourenço, o professor Isaías Canutula, que era o pastor da igreja da Canata, Tomás da Cunha, Júlio Afonso e Alfredo Benje, que formavam um grande agregado nacionalista que mobilizava a população na recolha de depoimentos para serem apresentados nas Nações Unidas no sentido de contrariarem o estatuto de província ultramarina de Portugal.

JA - Como faziam chegar essas mensagens à ONU?

JV -
Para o envio destes depoimentos eram utilizados países como o Gana e a Libéria. Os representantes da Libéria na ONU faziam discursos que eram temidos pelos portugueses porque eram detalhados e precisos. Posso dizer que os jovens e intelectuais participaram na luta de libertação no seio dos três movimentos de libertação nacional, o MPLA, a UPA (FNLA) e a UNITA.

JA - A luta foi apenas dos movimentos de libertação?

JV -
Queria aqui chamar a atenção aos jovens, aos investigadores e intelectuais que não vale a pena continuarmos a questionar sobre a quem se deve o 4 de Fevereiro, o 15 de Março e o 25 de Dezembro, porque estamos a perder tempo com esta questão das datas. O 4 de Fevereiro foi uma iniciativa essencial do MPLA à qual devemos render homenagem. O 15 de Março foi uma iniciativa da UPA e o 25 de Dezembro, com o ataque à Vila Teixeira de Sousa, actual Luau, foi uma iniciativa da UNITA. Todas elas tiveram como objectivo a conquista da Independência Nacional.

JA - Quais são os grandes ganhos da Independência Nacional?

JV –
Hoje todo o país tem escolas. O que nos doía muito, no tempo colonial, é que a maior parte dos angolanos só podia atingir a quarta classe. Actualmente existem várias universidades em Angola e estamos preocupados sim, para que as nossas escolas e universidades se transformem em centros de instrução e técnica. Os hospitais que nos ajudavam no período colonial eram apenas missionários, como os do Quéssua, Dondi e Bunjei. Hoje temos hospitais em todos os municípios e centros e postos de saúde em todo o país.

JA - São esses os maiores ganhos da Independência Nacional?

JV –
Temos igualmente uma extraordinária rede de estradas. Hoje podemos percorrer todo o país em boas estradas. Até foram construídas vias onde não existia nada. Os transportes aéreos são dos mais avançados. Podemos dizer que as bases económicas estão a ser criadas para que haja um avanço harmonioso em todas as áreas de desenvolvimento do país.

JA - O que falta ainda fazer?

JV -
É preciso um pouco de coragem para informar o Presidente da República para algumas falhas. O desenvolvimento do bairro da Canata, na cidade do Lobito, não está a corresponder nem à história nem ao desejo daqueles que participaram na luta de libertação nacional. A Canata é um património histórico que precisa de uma atenção especial, carece de novas vias. Mais habitações, para que não se transforme numa zona comercial, cuja propriedade será de estrangeiros que aqui se estão a fixar. A população reclama e o que não quero é que a crítica seja subterrânea.

JA - Como vê a Angola de hoje?

JV -
A Angola de hoje apresenta muitos progressos. Mas podia estar ainda melhor. O problema é que os partidos políticos da oposição não têm um programa de desenvolvimento do país. Se alguém perguntar que alternativas têm para o programa que o Governo está a aplicar, a resposta é nula. A oposição confunde os seus sonhos com programas políticos e como não têm argumentos, fazem ataques pessoais e negam tudo. Devemos olhar para a situação de Angola pensando no passado, avaliando o presente e perspectivando o futuro. As críticas que continuam a ser feitas são apenas reacções à acção do que está a ser feito, mas sem programas alternativos. Pior ainda é o facto de estarem alguns a utilizar uma juventude mal informada e a agitá-la copiando fórmulas erradas que não deram em nada nos países onde ocorreram. Vejam o que está a acontecer na Líbia e no Egipto!

JA - Que mensagem deixa neste 38º aniversário da proclamação da Independência Nacional?

JV -
Honremos os heróis tombados pela Independência Nacional e trabalhemos para o progresso e a justiça social. Vamos trabalhar para melhorar as coisas e pedir aos governantes que escutem as sugestões e críticas. Mas criticar por criticar não leva a lado nenhum.

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