Entrevista

"Os intelectuais só são influentes junto dos que vivem de negócios"

Adalberto Ceita|

Engenheiro agrónomo de formação, Sebastião Yongo foi um dos mais altos dirigentes da FLEC: “durante muitos anos fui o oficial de ligação entre o topo e as bases militares no terreno.

Sebastião Yongo afirma que os intelectuais perceberam que tinha chegado ao fim do reinado da extorsão e sabotaram tudo porque já havia local e data para a assinatura do acordo
Fotografia: Eduardo Pedro| Cabinda

Engenheiro agrónomo de formação, Sebastião Yongo foi um dos mais altos dirigentes da FLEC: “durante muitos anos fui o oficial de ligação entre o topo e as bases militares no terreno. Recebia instruções de Nzita Tiago e levava-as aos comandantes, para serem cumpridas”. Sebastião Yongo foi capturado no passado mês de Março, pelas Forças Armadas Angolanas. Dois meses volvidos, é um homem livre e trabalha num ambicioso projecto agrícola na aldeia do Yabi. Ele garante que vai inundar Angola de abacaxi, banana e citrinos: “vamos produzir fruta biológica”. A guerra para este técnico é apenas uma amarga recordação. Agora quer viver a paz e a liberdade.

Jornal de Angola – Foi capturado em combate ou abandonou a FLEC porque estava cansado da guerra?

Sebastião Yongo-
Caí numa emboscada e fui capturado pelas Forças Armadas Angolanas no dia 26 de Março de 2012, próximo da fronteira com a República Democrática do Congo (RDC).

JA - Estava há muito tempo na FLEC?

SY -
Entrei na FLEC no dia 8 de Agosto de 1974. Nesse dia abandonei a cidade de Cabinda e fui para as matas. Durante a minha militância vivi muito tempo na República Democrática de Congo, onde também me formei em agronomia. Em 1979, fui para a República Popular do Congo onde permaneci até ao ano de 1997, altura em que regressei a Kinshasa. Paralelamente à minha actividade política na direcção da FLEC criei uma fazenda com três mil palmeiras e comecei a dedicar-me à venda de coconote e óleo de palma.

JA - Agora vive em Cabinda, sente-se bem em casa?

SY -
Sinto-me feliz e em paz. Tenho boas condições de vida e digo aos meus irmãos que ainda estão nas matas e apostam na guerrilha, que nada se pode obter sem o diálogo. Aproveito esta oportunidade que o Jornal de Angola me dá, para fazer um pedido ao Executivo: estenda as mãos aos combatentes da FLEC que desejam regressar a Angola voluntariamente. A esmagadora maioria é gente de bem que anda a ser enganada há muitos anos. A propaganda incide no ódio contra o governo. Os combatentes vivem num grande sofrimento, isolados do mundo, acreditam em tudo o que lhes dizem.

JA - Quem anda a enganar os combatentes da FLEC?

SY -
Infelizmente, são dirigentes com responsabilidades. Cada combatente para eles dá alto rendimento. É por isso que a FLEC está tão dividida. Qualquer dia um homem é uma ala.

JA - Entre os que enganam os combatentes estão os chamados intelectuais que vivem na cidade de Cabinda?

SY -
Esses estão viciados na extorsão e na intriga. É gente perigosa, porque há na FLEC quem os oiça e siga os seus conselhos. Chegámos a um ponto em que todos mandam. Mas não quero falar de quem só sabe viver da extorsão. São delinquentes que se apresentam como grandes senhores.

JA - Eles tiveram um papel revelante na assinatura do cessar-fogo unilateral?

SY -
Os intelectuais só têm influência junto dos que vivem dos negócios. E naqueles angolanos que morrem de fome nos centros de refugiados dos países vizinhos.

JA - De quem partiu a iniciativa do cessar-fogo?

SY -
Em 2010, o senhor António Nzita, filho do presidente Nzita Tiago, teve um encontro com o Presidente da República, engenheiro José Eduardo dos Santos, a quem manifestou o interesse no diálogo. Depois desse encontro, ele falou connosco e nós acolhemos as suas ideias com muita satisfação. Mandatámos o senhor José Luís Vera e imediatamente rubricámos um cessar-fogo em Brazzaville.

JA - António Nzita falou com o Presidente da República e logo a seguir atacaram a caravana desportiva do Togo?

SY -
Foi depois. Aquela operação fez muito mal à FLEC. Foi por isso que fizemos tudo para dialogar com o Governo e acabar com a guerra. Depois dessa reunião de alto nível com António Nzita foi-me dada a missão de ir a todas as zonas onde estavam combatentes da FLEC a fim de se preparem para a paz. Estava em vigor o cessar-fogo.

JA - Os combatentes aceitaram essa trégua?

SY -
Mais do que aceitar, o cessar-fogo foi aclamado por todos, em todas as bases.

JA - Então o que correu mal?

SY -
Os intelectuais perceberam que tinha chegado ao fim do reinado da extorsão e sabotaram tudo. Já tínhamos local e data marcada para a assinatura de um acordo de paz. Mas a delegação da FLEC não compareceu. Os dirigentes que faziam parte da nossa delegação recusaram-se a comparecer, alegando que tinham medo de ser presos ou mortos. As intrigas dos delinquentes têm muita aceitação junto dos que só pensam na guerra.

JA - Faltaram ao encontro sem dar satisfações?

SY –
Sim, mas foi marcado outro encontro, desta vez no exterior de Angola. Alguns dirigentes influentes opuseram-se a que a assinatura do acordo fosse feita fora do nosso país. Face às divergências, mandatámos uma equipa para ir a Paris ouvir o presidente Nzita Tiago. E este desautorizou o filho António e recusou parar a guerra. O braço dos intelectuais que manobram na cidade de Cabinda é muito longo e chegou primeiro que nós. O fim da guerra é o fim dos seus negócios.

JA - Como evoluiu a situação depois desse encontro com Nzita Tiago?

SY -
Aconteceu o que todos temíamos: uma fractura no seio da FLEC. Fizemos uma reunião de emergência e os comandantes militares decidiram afastar Nzita Tiago. Posteriormente, íamos assinar o cessar-fogo. Era preciso fazer chegar fundos aos combatentes, roupa, medicamentos, géneros de primeira necessidade. O Governo entregou a Alexandre Tati, vice-presidente da FLEC e que esteve sempre próximo das tropas, uma verba muito avultada. Na hora da verdade, os senhores Alexandre Tati, o “Rótula”, chefe da segurança e ministro do Interior e Estanislau Boma, ministro da Defesa e chefe do estado-maior desviaram os fundos atribuídos pelo Governo e compraram vivendas em Kinshasa. Ficaram com o dinheiro para fins próprios. Logo depois demarcaram-se da assinatura do cessar-fogo.

JA - Vão conseguir mobilizar de novo os comandantes e combatentes?

SY -
Duvido muito. A FLEC já não consegue mobilizar ninguém. Mas na guerrilha tudo é possível. Sei que eles andam à procura de armas como morteiros ou RPG7, que lhes permitam alvejar de longe e provocar estragos. O terrorismo é sempre possível.

JA - Depois da recusa de Alexandre Tati em assinar o cessar-fogo, como evoluiu a situação?

SY -
Eu e outros comandantes fomos apanhados em contra mão. Ficámos sem alternativas. Por isso decidimos escrever ao Presidente da República. Foi uma situação frustrante. Esta foi a origem da divisão da FLEC. Enquanto uns defendiam a paz outros apostavam na guerra. Os activistas que vivem em Cabinda influenciam os que só querem sangue. O dinheiro tem muita força. O caricato é que se apresentam como defensores dos direitos humanos.

JA - Qual é a vossa posição?

SY –
Nós compreendemos que a guerra só destrói e não termina sem diálogo. Depois da morte de Savimbi veio o diálogo e com ele a paz, que perdura. Eu decidi ficar do lado daqueles que não queriam a guerra. O mesmo não aconteceu com o grupo que agora é liderado por Alexandre Tati, do qual faziam parte os 29 combatentes capturados em Agosto do ano passado. Um general sem tropas, nada vale. Só pode mesmo servir os que querem fazer da guerra uma capa para negócios escuros.

JA - Desde que está em Cabinda já falou com os dirigentes da FLEC?

SY -
Só falo com gente decente, por isso, os profissionais da intriga e da extorsão, não me interessam. Quanto aos dirigentes do exterior, deixei de ter contactos. Mas gostava que eles estivessem aqui comigo. Percebiam até que ponto as mentiras e as intrigas estão a prejudicar o nosso povo. Os delinquentes pintavam da nossa cidade um quadro de terror. Aqui estou. Ando por onde me apetece, para todo o lado e sou respeitado por todos. Agora vou pôr a andar o projecto de produção de frutas biológicas. Sou útil a Angola e ao nosso povo.

JA - As pessoas acreditam mesmo que em Cabinda correm perigo de vida?

SY -
Acreditam. Muito por culpa da forte influência exercida pelos activistas que vivem aqui na cidade de Cabinda. Estão permanentemente a fazer propaganda negativa nos campos de refugiados dos países vizinhos. São mentiras sobre mentiras. Depois é fácil chegar a um empresário e extorquir-lhe dinheiro para que as suas máquinas não sejam queimadas.

JA - Pensa que eles voltam para a guerra?

SY -
Do conhecimento que tenho, a FLEC já não tem material suficiente para encarar uma nova guerra, mas tudo é possível. Quem está nesta vida de guerrilha sabe daquilo que estou a falar. Repito, não estou lá, mas tudo é possível. Realço que existem, mesmo aqui ao lado, mercados ilegais de venda de armas. À luz do dia em plena rua.

JA - Abandonou a política?

SY -
Enquanto Alexandre Tati não honrar os compromissos assumidos, não quero mais nada com a organização. Com o outro lado também não posso trabalhar. Como membro do alto comando, participei e assinei o afastamento do presidente Nzita Tiago. Quando decidirem assinar o acordo de cessar-fogo, posso rever a minha posição. Mas para já apenas estou preocupado com o projecto do Yabi. Vão nascer ali, rapidamente, 200 hectares de pomares com plantas produzidas in vitro. Mas tenho pena que os meus antigos companheiros de direcção recusem a mão que lhes está a ser estendida. Se reflectirem bem, ainda podem dar o passo que é preciso para todos vivermos em paz. Assim tenham coragem para escolher o diálogo franco e sincero.

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