Entrevista

"Os malanjinos hoje desfrutam da estabilidade"

Filomeno Manaças e Sérgio V. Dias|

Boaventura Cardoso, homem com vasta trajectória política e com passagem pela diplomacia e pelos pelouros da Informação e da Cultura, está, desde Novembro de 2008, à frente dos destinos da província de Malanje, região do Nordeste de Angola onde pontifica a imponente Palanca Negra Gigante.

Governador de Malanje aponta a desminagem como um dos ganhos da província
Fotografia: Mota Ambrósio­­

Boaventura Cardoso, homem com vasta trajectória política e com passagem pela diplomacia e pelos pelouros da Informação e da Cultura, está, desde Novembro de 2008, à frente dos destinos da província de Malanje, região do Nordeste de Angola onde pontifica a imponente Palanca Negra Gigante. O número um do Governo de Malanje fala dos ganhos que a província obteve ao longo destes 10 anos de paz. Sublinha que “os malanjinos desfrutam da estabilidade e podem, hoje, desenvolver os seus projectos sem grandes constrangimentos”. Boaventura Cardoso afirma-se convicto de que Malanje se pode tornar numa “placa giratória” para o crescimento da região Leste do país. Atente à entrevista que se segue.

Jornal de Angola – Em tempo de reconstrução económica e social, que balanço pode traçar para Malanje em dez anos de paz?

Boaventura Cardoso –
O balanço é, naturalmente, positivo. Gostaria de destacar, em particular, o grande esforço que o Executivo central fez no sentido de inverter o quadro que a província de Malanje herdou do período pós-conflito. De forma muito particular, quero sublinhar o trabalho de desminagem que foi feito em várias localidades e o esforço de reabilitação das vias primárias, sobretudo daquelas que ligam a capital da província às sedes municipais. Hoje, podemos dizer que viajamos pela província sem grandes constrangimentos, já que há ainda zonas com estradas em estado bastante precário. Mas é já um avanço o facto de podermos circular por toda a província.
Eu, pessoalmente, já percorri por duas vezes toda a província de carro. Não há o perigo de passar por zonas minadas. Esse foi um trabalho louvável que permitiu o desenvolvimento de outras áreas da vida económica e social de Malanje. A circulação de pessoas e bens, a construção e a reabilitação de infra-estruturas das comunidades, das unidades hospitalares e sanitárias, das administrações municipais e comunais, a melhoria do comércio rural, sobretudo naqueles municípios mais próximos da capital da província, hoje são um facto. Portanto, é um balanço manifestamente positivo comparando com o período anterior ao restabelecimento da paz. Os malanjinos podem, hoje, desfrutar desse quadro de estabilidade e desenvolver os seus projectos sem os constrangimentos que havia antes devido ao factor guerra. De uma forma geral, repito, o balanço é positivo.

JA – Requalificação e novas centralidades são termos em voga no âmbito da reconstrução. O que há para Malanje neste domínio?

BC –
Nós temos os projectos de requalificação dos bairros à entrada da capital da província, nomeadamente do Campo de Aviação e da Cangambo; depois, descendo um pouco mais para a zona do Kafuco-Fuco e da marginal do rio Malanje. É um projecto de grande envergadura que vai ser, brevemente, apresentado a público.
Temos também um projecto de requalificação do corredor da antiga estação de caminhos-de-ferro, porque aí pretendemos implantar o Centro Político e Administrativo de Malanje. Nele, estarão instalados o governo e todos os seus órgãos dependentes, institutos e certamente também áreas comerciais nos extremos do corredor. Vamos requalificar igualmente o campo de jogos do Valódia, que nos faz muita falta para a massificação do desporto, nomeadamente o basquetebol, andebol, hóquei em patins e também para a realização de algumas actividades recreativas e culturais. Estas obras vão começar este ano. Também temos um estudo muito importante para a implantação de circulares alternativas à estrada nacional 230, que passa pelas cidades de Ndalatando e de Malanje. É uma via que, nessa altura, regista grandes constrangimentos, porque está sobrecarregada a todo o instante devido à passagem de camiões. É uma via com muitos acidentes e também porque vamos implantar o centro político e administrativo ao longo da mesma, é imperativo que desviemos a circulação para outras latitudes da cidade de Malanje.
O Hospital Geral de Malanje encontra-se também na avenida Comandante Dangereux que é, precisamente, a estrada nacional 230. Isso resume as grandes obras de requalificação. Quanto às novas centralidades, temos a destacar a da Carreira de Tiro II com 6.000 fogos, cujo projecto começa a ser implementado no segundo semestre deste ano. Os trabalhos preliminares estão em curso. A entidade que vai monitorar este grande investimento é a Sonip.

JA – Ainda na esteira do Programa Nacional de Fomento Habitacional em Malanje, como se encaixam as reservas fundiárias e a auto-construção dirigida como solução para promover a qualidade de vida?

BC –
Para além do que já foi referenciado em relação às novas centralidades, temos outras obras de intervenção urbanística. Temos a zona de expansão da cidade que está localizada no bairro da Catepa, para onde estamos a encaminhar grande parte dos projectos imobiliários, em que o Estado cede os espaços e as empresas privadas constroem e vendem às pessoas interessadas. Para além da reserva fundiária da Carreira de Tiro II, temos ainda a de Cangambo, com 212 hectares. Portanto o trabalho vai desenvolver-se normalmente. Nos outros municípios também há reservas fundiárias identificadas e já reajustadas.
O Programa Nacional de Urbanismo e Habitação não se vai confinar a Malanje, mas sim estender-se a toda a extensão da província com o subprograma dos 200 fogos por município. Desse modo, totalizar-se-á a cifra de 2.600 fogos nos demais treze municípios, excluindo a sede provincial que vai ter um tratamento especial com 6.000.

JA – Dos projectos referenciados nesse domínio, quais são, em princípio, os que deverão terminar ainda este ano?

BC –
 O subprograma dos 200 fogos para os municípios começa a ser implantado este ano. Portanto, arranca este ano e, naturalmente, pode terminar em 2013, porque pode haver algum atraso numa ou noutra localidade, sobretudo devido aos acessos aos municípios. Desse modo, podemos prever que até o próximo ano os 2.600 estejam já todos concluídos.

JA – Falemos do combate à fome e à pobreza, que é uma das bandeiras do Executivo central para melhorar o modo de vida das populações em todo o país. Que acções concretas foram ou estão a ser desenvolvidas em Malanje?

BC –
O programa de desenvolvimento rural e combate à pobreza ganha cada vez maior visibilidade nos municípios e nós sentimos, nas nossas deslocações, que as sedes municipais e mesmo algumas comunais começam a mudar de rosto, passe a expressão. No âmbito desse programa, foram realizadas 209 acções e concluídas 119, encontrando-se em curso outras 87 que vão terminar no decorrer de 2012. O programa integrado de combate à pobreza é transversal a outros, nomeadamente, os ligados aos cuidados primários de saúde, de “água para todos”, da merenda escolar e de promoção do comércio rural. Nesse sentido, ainda, foram reabilitados e construídos postos de saúde, residências para técnicos do sector, para professores, escolas, furos e manivelas, pequenos sistemas para abastecimento de água potável, jangos comunitários e centros infantis. Foi feita ainda a aquisição de ambulâncias, “inputs” agrícolas, tractores e outros.

JA – Que passos foram dados no domínio da municipalização dos serviços de saúde?

BC –
Em relação ao programa dos cuidados primários de saúde, gostaria de assinalar a construção e a reabilitação de unidades sanitárias e de residências para os técnicos do sector, a aquisição de viaturas, ambulâncias, motorizadas, equipamentos hospitalares e mobiliários. Já em relação ao “programa água para todos”, vale frisar que registou a princípio algum atraso, mas a partir de 2011 começamos a implementar mais acções como forma de cobrir toda a província. Esse programa ainda não chegou a todos os municípios. Estamos preocupados porque na verdade se temos muita água, em contrapartida o líquido de muitos dos rios não tem qualidade devido à natureza e composição de certos solos. Há zonas muito argilosas onde se nota a olho nu que a água não é apropriada para o consumo humano. Para além disso, é de notar também que há rios que são sazonais. Estes no tempo seco registam um nível freático baixo de tal forma que as suas águas desaparecem por completo. Isso faz com que as populações nessa fase tenham de percorrer dezenas de quilómetros para a obtenção do precioso líquido.

JA – Ainda em relação ao ensino. Malanje tem hoje uma Faculdade de Medicina e cursos superiores de Pedagogia e de Teologia. Em que medida o Ensino Superior veio contribuir para o desenvolvimento da província?

BC –
Anteriormente, era uma grande lacuna na província que, felizmente, foi suprida há três anos com a instalação da Faculdade de Medicina. Hoje, para além dessa, temos as de licenciatura e enfermagem, as de pedagogia e de matemática, mais recentes. A adesão da juventude, em particular, é muito grande. Antes de termos aqui o Ensino Superior,  muitos jovens deslocavam-se a outras províncias para prosseguirem os seus estudos, nomeadamente para o Kwanza-Norte e Uíge. Hoje, já há um movimento inverso e cremos que mais cursos serão instalados para que a província possa desenvolver-se. Isso é uma mais-valia muito grande, porque notamos a grande satisfação no seio da juventude, que antes não beneficiava desse tipo de formação académica.

JA – Em que pé está a expansão do sistema bancário para os diferentes municípios da província de Malanje?

BC –
Caminha a passos significativos. Hoje, temos bancos nos municípios de Malanje, Cacuso, Kalandula, Caculama e Cangadala. Brevemente, teremos em Kiwaba-Nzoge e no Quela. Por isso, estamos expectantes porque a vinda dos bancos vai significar uma mais-valia para a vida económica da província. Para além disso, queremos também resolver um problema que tem a ver com a bancarização dos salários dos trabalhadores da administração pública. Actualmente, muitos dos que são colocados em municípios distantes consomem muito tempo a virem à capital da província para levantar os salários, com prejuízos enormes nas suas áreas, uma situação que pretendemos evitar. Para estarmos de acordo com aquilo que é a norma hoje, todos os trabalhadores já têm de ter os seus salários bancarizados. Por isso, queremos chamar cada vez mais os bancos comerciais para se instalarem na província e temos criado, para o efeito, uma política de atracção e para dar azo a esse plano mantemos contactos permanentes com os empresários para que invistam nesta nossa bela província.

JA – Falou de política de atracção de investimentos. Com as estradas, o regresso do comboio e a reabilitação do aeroporto, acha que o nível de penetração de investimentos já corresponde à aposta feita para a implantação destes?

BC –
Nesse particular, diria que estamos satisfeitos, mas não totalmente, porque há ainda muito trabalho por se fazer. Estamos, porque o número de iniciativas privadas, nos mais diversos ramos, tem estado a aumentar. Surgem novos investimentos, para exemplificar isso, pode-se referir que em Novembro e Dezembro últimos foram inauguradas duas fábricas de água de mesa, de nascentes, que geraram novos empregos. E, porque temos um índice de desemprego muito grande em Malanje, precisamos de mais indústrias, mais serviços, enfim, de mais iniciativas privadas em variados sectores. Daí, o apelo constante que fazemos aos investidores. Temos apelado também aos nossos funcionários e órgãos no sentido de facilitarem e não dificultarem no que toca à emissão de licenças e alvarás para que os empresários se sintam à vontade e invistam realmente na província de Malange.

JA – Considera que tem havido dificuldades nesse sentido?

BC –
Nalguns sectores. Mas por se tratar de toda uma cadeia, todos esses sectores têm de estar sincronizados. Esses obstáculos de ordem administrativa vão desaparecendo na medida em que vamos pressionando também esses sectores e fazendo compreender sobretudo os funcionários que estão ligados a essas áreas que isso é muito bom para a província. O licenciamento de serviços e de novas unidades fabris vem dar um impulso à província. Hoje, há uma procura maior e estou em crer que os empresários têm estado a sair daqui bastante satisfeitos.

JA – Sobre os investimentos, é possível quantificar as intenções dos últimos anos?

BC –
Falando em termos concretos, desde o início do consulado do actual elenco governamental, em Novembro de 2008, inaugurámos uma fábrica de chapas de zinco, estão em construção e em fase bastante avançada uma cerâmica industrial, referi-me já às duas fábricas de água de mesa, o sector agro-industrial tem estado a avançar significativamente, sobretudo na região de Cacuso, que é a zona mais rica e desenvolvida que nós temos aqui na província. Nessa região, temos a fazenda de Pungo Andongo e a Biocom, que vai produzir álcool e açúcar, e também energia que vai entrar na rede geral, num perímetro de mais de 400.000 hectares, que é gerido pela sociedade agro-industrial de desenvolvimento de Kapanda. Em Cacuso temos grandes fazendas. O sector agro-pecuário começa a dar sinais de revitalização e, com os acessos melhorados, estamos na expectativa de mais investimentos aqui na província. Várias acções traçadas pelo Governo vão ser implementadas. Para além do pólo industrial, estamos a prever a construção de um matadouro. Temos, ainda, a assinalar a construção de várias unidades hoteleiras. Aguardamos ainda para este ano a conclusão de um grande hotel, que vai comportar cerca de 140 quartos e que vai ser a nossa grande esperança no ramo. Portanto, há investimentos em todos os sectores. No hoteleiro, industrial e noutros.

JA – A maior barragem hidroeléctrica do país situa-se em Malanje. Como está Malanje servida em termos de energia eléctrica e de abastecimento de água?

BC –
A situação melhorou muito desde finais de 2009 em termos de abastecimento de água e de energia. Hoje, em relação à água no casco urbano da cidade já não há carência nesse domínio e há muitas ligações domiciliárias para o seu abastecimento. Já em relação à energia eléctrica, temos neste momento à volta de 7.000 ligações domiciliárias. A demanda começa a aumentar e nós queremos de facto corresponder a isso. Mas ainda assim, tem de se proceder a algumas restrições, porque a capacidade instalada já não é suficiente para a demanda. Por isso, estamos a propôr o aumento da potência da subestação elevatória da Empresa Nacional de Electricidade em Kapanda para que as subestações de Malanje e de Capopa possam, também, fornecer um pouco mais de energia, sem constrangimentos. Mas até lá tem de fazer-se algumas restrições. Hoje, podemos dizer que estamos muito melhor servidos comparativamente há cerca de três anos atrás. Nesse sentido, foi feito um trabalho profundo por uma empresa espanhola e outra chinesa, por isso é que a apreciação hoje é positiva, porque antes havia na periferia muitas zonas às escuras. Hoje, a energia já chega a muitos bairros, o que facilita a circulação das pessoas e reduz substancialmente o risco que havia de estas circularem em zonas não iluminadas. Carecemos que a médio prazo essa potência de energia seja aumentada em cerca de 80 MVAs, para que possamos dizer que estamos bem servidos em termos de energia eléctrica. Esta demanda é mesmo necessária, porque temos um projecto do Pólo Industrial de Malanje. Vamos ter aqui unidades fabris que vão precisar de energia de média e de alta tensão, que vão ser implantadas a médio e a longo prazos.

JA – Falemos da região Songo, que compreende Cangandala, Kambundi-Katembo, Quirima e Luquembo, e é potencial na cultura do arroz. Em que pé está o seu relançamento?

BC –
Em relação à cultura do arroz, a região Songo é, exactamente, a área eleita desde há muitos anos para a produção da cultura desse cereal. Mas, devido aos acessos - as estradas estão em estado precário -, não há ainda a produção industrial do arroz. Distribuímos pequenas unidades para os camponeses dessa região com vista à materialização desse desiderato, mas, ainda assim, não temos, de facto, a produção industrial do arroz. O grande factor de estrangulamento tem a ver com o estado ainda precário em que se encontram as vias de acesso para esse município da região Songo. Estamos expectantes quanto à retoma do cultivo do arroz que é uma das riquezas desta região. Mas temos de esperar pelo melhoramento das vias de acesso. Nessa esteira, vale dizer que, em relação à época agrícola do ano passado, foram produzidas cerca de 30.000 toneladas de arroz na região Songo.

JA – O turismo é a indústria da paz. Malanje tem “matéria-prima” suficiente neste sector: as Quedas de Kalandula e a Palanca Negra, entre outros atractivos. Que investimentos há e que infra-estruturas foram construídas para potenciar o sector?

BC –
A província de Malanje  consideramo-la como sendo a capital do turismo em Angola. É a província que mais recantos turísticos tem no país. O grande problema prende-se com os acessos a esses recantos turísticos. Mas hoje viaja-se bem para alguns desses pontos, como é o caso das Quedas de Kalandula, as Pedras Negras de Pungo Andongo e os Rápidos do Kwanza, já que as vias para o seu acesso estão asfaltadas. Para Kalandula, foi criado no ano passado um pólo de desenvolvimento turístico do município. Este pólo vai ter um gabinete de gestão com certa autonomia, o que traduz um passo bastante importante.

JA –Temos notícias de que já há gente que se desloca a Malange não apenas para visitar Kalandula e Cangandala. Os Rápidos do Kwanza também são muito visitados…

BC –
Exacto. Temos outras áreas que carecem de investimentos. Temos recebido várias intenções para investimentos na área de turismo nos Rápidos do Kwanza, em Cangandala, Pungo Andongo e também em Kalandula. Este é um sinal bastante encorajador, porque quando tivermos as vias estruturantes em bom estado de certeza que vamos colher muitas receitas do turismo. Mesmo assim, já se pode assinalar um grande movimento turístico para esses locais que citou. Aqui, aos fins-de-semana, é normal termos sempre muita gente e quase sempre nunca há lugares nos hotéis para albergar a grande demanda das pessoas. Vamos continuar a insistir nessa vertente do turismo, porque é extremamente importante. Posso, também, adiantar que temos no nosso Programa de Investimentos Públicos (PIP) a reabilitação da via que dá acesso ao Parque Nacional de Cangandala, onde está localizado o santuário da Palanca Negra Gigante. Este ano vai-se construir, aqui, em Malanje, um centro de informação e turismo e, a par deste sector, desenvolver também e fomentar o artesanato, porque a nossa província é rica nessa vertente. Temos notado que o artesanato carece de estímulos. Regista-se alguma desorganização nessa área, já que devido à guerra os artesãos estão espalhados e fazem tudo, menos este ofício. Então, queremos, também, fomentar o artesanato, associando-o ao turismo.

JA – Falou do artesanato e isso traz-nos à mente o facto de que é um homem de cultura. Como se pode caracterizar este sector na província aos olhos de uma pessoa, como o senhor governador, que tem uma vasta experiência nessa área.

BC –
A cultura, enquanto manifestação natural dos povos, nunca morre. Ela está patente em todas as aldeias, enfim, quando nós entramos no interior da província a primeira manifestação que temos é mesmo cultural. Mas no que se refere à elevação dessas manifestações em arte, nós temos ainda um constrangimento que tem deixado a juventude um pouco inquieta e de certo modo desesperada. Refiro-me concretamente à falta de infra-estruturas. Nós vamos reabilitar o Valódia por ser um campo que se presta muito a essas manifestações culturais e artísticas. Vamos cobrir esse recinto, porque chove muito aqui na província de Malanje. Aguardamos também com grande expectativa a reabertura do cine Turismo, que está em obras. As obras estão já na sua fase final. Levamos a cabo tudo isso, porque queremos promover várias actividades culturais. Temos vários grupos de música, de dança, de teatro, o que falta são as infra-estruturas para que estes se possam exibir. E é a pensar no sector a nível de Malanje que vamos organizar em Setembro do próximo ano um encontro provincial da Cultura. Nesta actividade, vamos preparar e patentear todas as manifestações artísticas e culturais desta província. Será também um momento de reflexão sobre a cultura. Para além dessas manifestações que citei, que são muito visíveis, há outras, como é o caso das línguas nacionais, enfim, as criações culturais, que carecem também de alguma revitalização, bem como o próprio património, quer material, quer imaterial. Vamos com esse encontro marcar de forma bastante profunda a juventude, em particular, e os mais velhos, para que, de facto, possamos ter um verdadeiro movimento artístico e cultural na província de Malanje.

JA – Falou da reabilitação da reabilitação do campo do Valódia. Que outras acções há em vista que beneficiam o desporto na província e particularmente o futebol, que se confronta com um “mar de dificuldades”?

BC –
Neste momento, temos incluída no Programa de Investimentos Públicos (PIP) a reabilitação do campo 1º de Maio, que é a única infra-estrutura que serve a modalidade de futebol. Em relação às outras modalidades, sentimos igualmente essa necessidade, porque estamos em contacto permanente com as associações desportivas. Nas reuniões que temos tido, surgem lamentações em relação à falta de infra-estruturas para que os desportistas se possam exibir e praticar as mais distintas modalidades. De uma forma geral, o desporto carece de muitos apoios. O governo provincial não tem o orçamento para apoiar de forma sistemática e satisfazer as necessidades das várias modalidades. O nosso apoio é pontual, particularmente quando há deslocações das equipas de Malanje para outras províncias. As associações solicitam-nos apoio e dentro das possibilidades prestamos esse apoio.

JA – Angola vai organizar no próximo ano o Mundial de Hóquei em Patins. A província de Malanje está preparada para acolher uma das fases da competição?

BC –
Estão a ser criadas as condições para a nossa província albergar, de facto, uma das fases desse grande evento. A organização impõe que as províncias que albergam a prova têm de ter um campo alternativo e por isso estamos a reabilitar o Valódia. De igual modo, a organização dessa competição vai construir um pavilhão multi-uso em Malanje, cuja área identificada é a Catepa. Para além disso, aguardamos também pela conclusão desse grande hotel que vai comportar 142 quartos, para a acomodação dos nossos visitantes no decurso da prova. São essas condições que estamos a criar. Recebemos ainda, a propósito da organização dessa prova pelo nosso país, uma delegação multi-sectorial em Dezembro último, dirigida por um alto funcionário do Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD). Reunimos com os membros desta delegação que deixaram algumas orientações, pois não queremos perder essa oportunidade de albergar uma das fases do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins, em Setembro de 2013.

JA – A questão das comunicações traduz outro calcanhar d’Aquiles da província. Que perspectivas há para a melhoria do quadro nessa área?

BC –
Em termos de comunicação, a telefonia móvel melhorou substancialmente na nossa província. Todas as sedes municipais da nossa província já têm a rede da Unitel a funcionar. Para além dessa, muitas das comunas, também, beneficiam dos serviços da operadora de telefonia, isto dependendo da distância. Isso data de há uns meses atrás. Por isso, vamos caminhando no sentido de melhorar esses serviços.

JA – E em relação à operadora Movicel qual o comentário a fazer?

BC –
A Movicel tem marcado também passos, mas não cobre toda a extensão do território da província de Malanje.

Produção de café em Kalandula

JA – Quanto ao café, que perspectivas há?

BC –
Quanto ao café, há, também, a registar passos significativos no município de Kalandula, mais concretamente na comuna do Kinge, que faz fronteira com a província do Kwanza-Norte. Em relação a esse produto, posso dizer que, no tocante à campanha agrícola do ano passado, foram colhidas cerca de 10.000 toneladas. É uma fase ainda bastante incipiente, mas estamos em crer que vamos poder, daqui a um tempo, aumentar essas cifras para muito mais. Mas este é, certamente, um problema conjuntural, porque a produção de café que tínhamos na época colonial era feita num contexto particular, e, mesmo em relação ao algodão. Hoje, temos um contexto completamente diferente. Vamos, por isso, aguardar por melhores dias.

Plataforma logística do Lombe

JA – Malanje representa uma plataforma para as mercadorias para o Leste do país. A chegada do comboio veio potenciar essa perspectiva. Que trabalhos estão em curso para transformar em realidade esse pensamento?

BC –
Há, nesse sentido, um projecto muito importante de plataforma logística do Lombe, no município de Malanje, cujas obras já arrancaram. Esta infra-estrutura é de extrema importância para que, de facto, Malanje se transforme numa placa giratória desta região. Esse investimento vai arrastar outros e já temos alguns sinais de que isso, efectivamente, vai acontecer.

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