Entrevista

"Os Pólos de Desenvolvimento são a base da industrialização"

Helma Reis |

A criação dos pólos de desenvolvimento mineiro no país é uma das principais apostas do Executivo, no âmbito do seu projecto de diversificação da economia.

Professor da Faculdade de Economia da Uniersidade Agostinho Neto José Cerqueira
Fotografia: Maria Augusta

 A ideia, que já tem estado a ser implementada, requer o levantamento das potencialidades de Angola neste sector. O Jornal de Angola falou com o docente e antigo quadro do Ministério das Finanças José Cerqueira para saber qual o reflexo destes ganhos na vida dos angolanos. José Cerqueira, que lecciona na Faculdade de Economia, da Universidade Agostinho Neto, considera os pólos  uma janela aberta para o crescimento do mercado de investimentos no país.

Jornal de Angola – O que representa a criação dos pólos de desenvolvimento mineiro para a economia do país?

José Cerqueira – O surgimento dos pólos representa uma base para a industrialização. Um aspecto muito importante, porque nesta fase de crise nas vendas de petróleo, o renascimento, em grande, da indústria angolana é uma melhoria em todos os sentidos, por significar também progresso na vida do cidadão. Com a criação dos pólos temos rendimentos altos e podíamos ser mais auto-suficientes  a ponto de não dependermos tanto das importações.

Jornal de Angola - Quando fala em melhorias, a que campos se refere concretamente?

José Cerqueira - Falo em especial dos empresários angolanos, assim como do cidadão comum, que tem  a possibilidade de vencer num mercado de trabalho mais amplo. São mais e novos postos de trabalho a que eles  podem concorrer. O que é preciso agora é acelerar esse processo, de forma a reduzirmos, significativamente, o índice de desemprego, em especial entre os jovens.

Jornal de Angola - Na sua opinião, o que devemos fazer para ajudar a acelerar esse processo?

José Cerqueira - É preciso uma divisão de tarefas mais coesa. O Executivo tem de preparar as infra-estruturas básicas, como a água, energia, comunicações e estradas. Mas cabe à classe empresarial apresentar projectos  viáveis, assim como aos cidadãos ajudarem, mais activamente, neste propósito. Actualmente existem planos para tornar essa divisão mais célere. A Zona Económica Especial em Viana é um exemplo disso.

Jornal de Angola - Como define o conceito de projectos viáveis dos empresários.

José Cerqueira - Os empresários e investidores é que devem definir qual o tipo de fábrica  pretendem implantar numa determinada área. Não me parece boa filosofia  o Executivo ter a tarefa de montar as fábricas e depois esperar que os investidores venham. Não devemos dispensar esforços e sim fazer as coisas por etapas e de forma organizada.

Jornal de Angola - Como encara a actual crise do petróleo? Que saídas sugere?

José Cerqueira - Espero que passe o mais rápido possível, mas sei que conseguimos aprender muito com ela, assim como sabemos agora como lidar com futuros problemas do género. Apesar da dificuldade na venda ainda temos bastante petróleo, mas, claro, vamos ter de adiar a exploração de algumas reservas. Angola é membro da Organização de Países Exportadores de Petróleo e não pode aumentar a produção de acordo com a sua vontade. Como não podemos exportar, devíamos apostar mais  nas demais matérias-primas do petróleo, de forma a fortalecer a indústria química.

Jornal de Angola - Quais as áreas na indústria dos petróleos que precisam de maior ­intervenção?

José Cerqueira  - A indústria química baseia-se muito no petróleo e nós temos muita matéria-prima rara  pouco explorada. Caso esse sector ganhe mais impulso podemos exportar, dentro de anos, outras matérias. Na minha opinião sempre que o país tiver uma matéria-prima, em quantidade importante, deve ter a aposta do Executivo, como os diamantes e o ferro.

Jornal de Angola - Como vê a exploração destes outros mineiros existentes no país?

José Cerqueira - Acredito que precisa de uma maior aposta, assim como de homens visionários, capazes de verem este sector como uma oportunidade para a criação de postos de trabalho, ou o desenvolvimento económico do país.

Jornal de Angola - De que forma os pólos mineiros são enquadrados no projecto?

José Cerqueira - Os pólos representam uma aposta na especialidade, embora tenhamos de reconhecer que a população angolana é mais envolvidas com a terra. Portanto, quem vier investir na zona rural ou em minas tem que trazer um programa bem organizado com o Executivo, de modo que a população local se sinta a principal beneficiada e acolha os investidores positivamente. Esse tido de medida mostraria que o investimento feito inclui também a componente da responsabilidade social.

Jornal de Angola - Quais os campos da área social e económica beneficiados?

José Cerqueira - Na área económica o Executivo tem de estabelecer parcerias até no domínio das infra-estruturas, em sectores como a energia e a água, porque enquanto não tivermos um fornecimento regular o sector da industria terá muitas dificuldades para vincar. Uma das saídas é o Executivo criar parcerias e permitir maior investimento privado nestes dois sectores. O Executivo deve ter apenas a tarefa de averiguar e fiscalizar os preços a serem implementados.

Jornal de Angola - Apesar dos ganhos, existe algum aspecto preocupante na criação dos pólos?

José Cerqueira - O aumento da exploração mineira representa um ganho para muitas profissões e sectores. Porém, também requer uma forte aposta na formação e capacitação dos quadros nacionais, de forma a não dependermos tanto, em especial nesta fase de desenvolvimento do país, dos técnicos estrangeiros. É preciso que os jovens apostem mais na formação profissional superior, porque quando se faz um projecto mineiro envolve-se todo um conjunto de trabalho e máquinas, que precisam de quadros especializados.

Jornal de Angola - A aposta na formação é importante?

José Cerqueira - Claro que os ganhos da formação seriam reflectidos no crescimento do mercado de emprego e na diversidade deste. Imagine o que aconteceria se toda essa juventude que hoje trabalha na rua tivessem empregos na indústria?. É essa a grande transformação que tem de acontecer na nossa sociedade com o surgimento dos pólos.

Jornal de Angola - Com estes projectos  que perspectiva faz para a economia angolana?

José Cerqueira - A economia angolana vive um mau período hoje com a crise da baixa do preço do petróleo, o nosso principal produto de exportação. Esta súbita queda mostrou debilidades na economia nacional. Porém também ajudou a ver outras contramedidas para o problema, assim como as reformas a serem feitas. Agora é preciso fortalecer a economia, através de uma forte aposta no investimento estrangeiro e na agricultura.

Jornal de Angola - Que perdas podíamos ter caso este projecto não seja implantado?

José Cerqueira
- É difícil medir o nível de dificuldades, porque no momento não contamos com a nossa principal fonte de rendimento. Por isso, todas as saídas apontadas são bem-vindas e precisam do apoio de todos. Neste sector, por exemplo, o investimento demora muito tempo a ser recuperado. Por norma, o tempo nunca é inferior a dez anos. Mas precisamos de criar uma perspectiva para o investidor e para os angolanos, de forma a que os ganhos sejam para todos. É preciso  manter o diálogo permanente com a população, de forma a que conheça  os seus ganhos neste projecto, numa altura em que as próprias companhias petrolíferas dizem que se deve reformar o sector.

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