Entrevista

País aposta na produção da mandioca para garantir a segurança alimentar

Natacha Roberto|

O coordenador do Programa Nacional de Investigação de Raízes e Tubérculos do Instituto de Investigação Agronómica (IIA), Moniz Paulo Mutunda, revelou, em entrevista ao Jornal de Angola, que Angola manifestou o interesse em fazer parte do Projecto de Aumento de Produtividade da África Austral (APPSA), estabelecendo o seu Centro Regional de Liderança (CRL) e elegeu o cultivo da mandioca como produto de excelência, devido ao seu potencial e à importância em termos de produção, área cultivada e contribuição para segurança alimentar e nutricional. O Centro Regional de Liderança, a ser instalado em Malanje, será implementado pelo Ministério da Agricultura e Florestas (MINAGRIF), através do Instituto de Investigação Agronómica (IIA), por um período de seis anos. Neste Centro, serão construídos laboratórios, estufas climatizadas para a reprodução de variedades melhoradas de mandioca, que serão disseminadas a nível do país e da região austral.

Fotografia: Kindala Manuel| Edições Novembro

Como se apresenta uma mandioca afectada por uma bacteriose?
A mandioca afectada por bacteriose, geralmente, começa a secar as folhas, atinge rapidamente o caule até à morte da planta. As raízes apresentam podridão e com um cheiro desagradável. Os sintomas são pouco visíveis, apresentando um listrado amarelo nas folhas, perceptível apenas por pessoas especializadas. Fazendo um corte transversal às raízes, vemos manchas castanhas na polpa, que se alastram até à raiz, provocando a podridão.

Quantos tipos de viroses de mandioca existem?
Existem mais de sete tipos de viroses de mandioca, começando pelo mosaico comum, a estirpe da América Latina, o vírus de mosaico africano da mandioca, o mais predominante em África, o vírus de mosaico do oeste africano, Camarões e outros. Acrescenta–se que os sintomas do mosaico caracterizam-se pela redução da área foliar, onde as folhas reduzem de tamanho, ficando deformadas e torcidas com zonas amarelas, separadas por áreas de cor verde normal.

Como acontece a contaminação da virose?
As viroses são disseminadas através das estacas contaminadas, campos usados rotineiramente como material de propagação vegetativa ou pela mosca branca. A disseminação, através de estacas, pode causar a introdução da doença a novas áreas e ser responsável pela ocorrência de enfermidades nas zonas onde não há propagação pela mosca branca. Outra causa consiste nas diferenças características do vírus, na sensibilidade do hospedeiro, idade da planta e factores ambientais.

O que está na causa da virose que afecta as províncias produtoras?
Uma das causas da prevalência da virose tem a ver com a utilização de material infestado de um campo para o outro ou mesmo a passagem de material de produtor a produtor, permanência da cultura no campo em tempo indeterminado e sem amanhos culturais, a falta de selecção do material na altura de plantação e a introdução ilegal de material de países vizinhos.

Os postos fronteiriços facilitam a entrada ilegal de plantas?
Os postos fronteiriços fragilizam a nossa produção. Quem, por exemplo, viaja para a República Democrática do Congo (RDC) pode trazer outra variedade de plantas e causar uma doença viral à nossa produção da mandioca. O Ministério da Agricultura e Florestas devia criar postos de quarentena nos Portos e Aeroportos para a fiscalização da entrada e saída de sementes, propágulos e plantas ornamentais sem certificado de sanidade. Na Nigéria, os passageiros estão proibidos de entrar com flores ou sementes, contrariamente ao que acontece no território angolano, onde a entrada e saída de plantas é realizada de forma livre e sem qualquer fiscalização. Desde 1960, a Nigéria determinou este processo de fiscalização para impedir que qualquer espécie ou virose contamine as suas plantações.

Na sua opinião, o movimento migratório agudizou a propagação das pragas e doenças em Angola?
Essas práticas fizeram agudizar a incidência de pragas e doenças da mandioca em Angola. Realizou-se um estudo, em 2008, com uma equipa de cientistas provenientes do Instituto Internacional de Agricultura Tropical, sediado na Nigéria, que envolveu fitopatólogos, virologistas, melhoradores e fitotécnicos. Nesta missão, produziu-se um relatório que foi enviado aos governos provinciais do Uíge, Malanje, Cuanza-Norte e Bengo.

É possível uma espécie de planta selvagem contaminar uma de cultura alimentar?
Sim, é possível, porque a maior parte das culturas alimentares, hoje, é produto de um processo de domesticação. Existem espécies selvagens de batata-doce e, se estas estiverem infestadas, podem muito bem contaminar as espécies cultivadas. Realizaram-se estudos na província do Bengo e concluiu-se que as variedades de mandioca produzidas na região são provenientes de Mbanza Kongo e do Cuanza-Norte e apresentaram baixa produtividade.

As misturas de variedades são um grande problema?
Sim, as misturas de variedades são um problema. A mistura facilita, em grande parte, a proliferação de pragas e doenças. Para evitar essa situação, deviam-se criar produtores de sementes e material de propagação, que devem receber a semente e material de propagação básica do Instituto de Investigação Agronómica, para posterior multiplicação secundária e realizarem o seu negócio. Exis-te um grande desconhecimento do negócio de sementes em Angola.

Que medidas têm sido tomadas para travar as pragas e doenças da mandioca?
O Programa Nacional de Investigação de Raízes e Tubérculos possui material para as pragas e doenças. Existe material com bom potencial genético, que já foi testado em ensaios de rendimento, nas Estações Experimentais Agrícolas (EEA) de Malanje, Uíge, Luanda, Cuanza-Norte e Cuanza-Sul. Precisa-se é de condições de rega para que as estações produzam em massa o material.

Qual é a origem das novas variedades?
O Programa recebe material genético de mandioca via semente botânica para o programa de melhoramento e material in vitro, que é submetido a ensaios de avaliação clonal, de rendimento, adaptativo, multilocais, “on farmer” e de distinção de uniformidade e estabilidade (DUS). As variedades promissoras são multiplicadas e distribuídas aos multiplicadores e produtores, através do Instituto de Desenvolvimento Agrário.

Enquanto isso, a investigação prossegue?
A investigação agronómica é uma arte de melhor servir e contribuir para o desenvolvimento sustentável da agro-pecuária e da Segurança Alimentar e Nutricional dos países a nível do mundo. Angola possui condições ideais para a prática de agricultura e pecuária, respeitando a conservação ambiental. Surto de pragas e doenças haverá sempre. Mas a investigação desempenha um papel primordial na solução dos pacotes tecnológicos, através do melhoramento genético, utilizando germoplasma com genes resistentes e/ou tolerantes a essas doenças e pragas, correcção e fertilidade de solos, resiliências climáticas e outros efeitos. As investigações surtiram efeitos positivos das variedades de culturas alimentares tolerantes aos vários factores bióticos e abióticos, como a mandioca, batata-doce, batata-rena, milho, feijão e banana. Muitas destas variedades já obedeceram ao estudo a nível dos produtores.

Estas novas variedades vão eliminar a propagação de doenças?
Acreditamos que sim. As novas variedades melhoradas vão acautelar as inúmeras viroses que afectam os campos agrícolas da mandioca, em particular, e de outras culturas, em geral, nas várias províncias produtoras. Por regra, as variedades existentes na Vitrina Tecnológica são estudadas nos ensaios agronómicos a nível das EEAs do IIA e depois integram os ensaios multilocais, onde são testadas a resistência às pragas e doenças. Só assim é que são multiplicados em pequenos quites de semente pré-básica, que evoluirá para a semente básica conforme ora respondida acima.

Existem empresários agrícolas a trabalhar na produção de sementes de variedades melhoradas?
Existem sim. A fazenda Jardia Humpata, na província da Huíla, é um dos projectos, financiados pelo “Angola Investe”, que trabalha em variedades melhoradas. Temos ainda o projecto Cabondo, Nova Agrolider no Cuanza-Sul e, em Malanje, na zona de Quizenga, a Nutri-Moto decidiu apostar na produção de sementes melhoradas de milho, feijão, fruteiras, batata-rena e mandioca.

Como funciona a multiplicação das variedades de mandioca isentas a doenças?
Para termos variedades isentas a doenças só é possível através do material proveniente de Laboratório de Cultura de Tecidos, utilizando técnicas de meristemas. Só neste tipo de laboratório pode-se realizar a limpeza de plantas de mandioca com viroses.

Como tornar os agricultores bons utilizadores de variedades melhoradas?
O Governo de Angola tem financiado vários projectos de emergência e muitos outros de desenvolvimento a nível do país. Por exemplo: Sementes de Liberdade, PRODECA, CPVs, PROPLANALTO, MOSAP I e, neste momento, MOSAP II, onde os programas integram várias acções de formações dos técnicos do IIA, extensão, produtores de sementes e líderes de associações e cooperativas. Estas formações inte-
gram a parte teórica e prática. Demonstramos a importância da utilização das variedades melhoradas aos participantes (agricultores, produtores de material de propagação), as vantagens para obter um bom rendimento e alcançar uma alta produção. Os agentes de extensão rural têm levado os ensaios demonstrativos às lavras das associações, cooperativas e dos agricultores familiares, para todos participarem na escolha de pacotes tecnológicos provenientes da investigação, isto é, investigação participativa.

Que estratégias vão acelerar a produção da mandioca?
Considero importante incutir nos produtores práticas culturais, que vão permitir produzir mais de 50 toneladas por hectar. As práticas de produção de sementes têm de ser treinadas na presença dos produtores, com a intervenção do Instituto de De-senvolvimento Agrário (IDA). O IDA faz assistência técnica aos produtores e o Instituto de Investigação Agronómica (IIA) cria pacotes tecnológicos que chegam ao produtor com variedades melhoradas e que possuem níveis de adubação ou correcção de solos. O IIA possui Laboratórios de Cultura de Tecidos nas EEAs de Mazo-zo e Malanje, que têm de ser operacionalizadas, e irá construir estufas climatizadas, casas hidropónicas e aeropónicas, nas províncias do Huambo, Malanje e Luanda, onde se encontram estes la-boratórios. Essas casas vão ser fundamentais para a propagação do tubérculo nos campos agrícolas.

Existe desperdício da mandioca?
Sim. Em muitas províncias do centro e sul de Angola, como Huambo e Bié, cultivam a mandioca em co-associação com milho e feijão. Depois da colheita do milho e do feijão, a mandioca fica abandonada no capim e muitas vezes é queimada. Depois de haver fome na região, preocupam-se em colher as raízes desta mandioca que não é desenvolvida. Os campos de mandioca devem ser plantados em sistema de monoculturas ou em faixas, obedecendo o mesmo tratamento de limpeza, adubação, correcção do solo, como de milho, feijão e de batata. Nas outras províncias produtoras e consumidoras, a mandioca é plantada e o seu armazenamento é no solo, ficando mesmo até 3 anos e depois aparece a podridão da raiz. Falta muito conhecimento sobre a mandioca. Da mandioca pode-se tirar muitos derivados para realizar grandes negócios, mas somente nos limitamo à farinha torrada, musseque e fuba para funge.

Que projectos vão melhorar a produção da mandioca?
Angola, através do Projecto de Aumento de Produtividade da Africa Austral (APPSA), elegeu o sistema de cultivo baseado na mandioca, como sendo o produto de excelência, devido ao seu potencial e à longa tradição de cultivo no país e dada a sua importância, em termos de produção; área cultivada e sua contribuição para segurança alimentar e nutricional. O Centro Regional de Liderança já foi aprovado em Abril de 2019, pelo Banco Mundial e esperamos apenas a autorização do Governo para a concessão do financiamento. É o único projecto que possui financiamento para a investigação da mandioca e outras culturas. Os primeiros subprojectos aprovados da cultura de mandioca a nível da SADC são: Recolha de Gemosplas-
ma, caracterização e conservação em Bancos de Germoplasma; Outro tem a ver com a Fitossanidade da mandioca (pragas e doenças) e outro é de Estudo de Stress da Mandioca (para encontrar variedades resistentes à alta altitude e seca). Estes subprojectos irão trazer resultados para o aumento da produtividade da mandioca em Angola.

O que é o projecto APPSA?
O Projecto “APPSA” é um programa do aumento da produtividade das culturas a nível da Africa Austral, que iniciou em países como Malawi, que elegeu o Centro de Liderança da cultura de Milho; Zâmbia, com a cultura de Leguminosas, Moçambique, com a cultura de arroz, e Lesotho, que elegeu as hortofrutícolas.

Existem quadros suficientes no Instituto de Investigação Agronómica?
O Instituto de Investigação Agronómica tem mais de 21 doutorados em várias especialidades. O que existe é fonte de financiamento de projectos, mas precisamos apostar mais na investigação, o que não é suficiente para a realização da investigação que se precisa para um país com diferentes zonas agroecológicas. O produtor quer resultado rápido, mas o investigador trabalha e vai dando respostas às várias questões colocadas pelos produtores. Estamos a trabalhar com o Projecto de Desenvolvimento de Agricultura Familiar e Comercialização em pequena escala, designado (MOSAP II), onde fizemos demonstrações junto das lavras dos agricultores, em 20 localidades, nas províncias do Huam-bo, Bié e Malanje. Estamos a trabalhar para demonstrarmos aos produtores quais são as valências das nossas variedades, aplicação de fertilizantes, correção do solo e outras técnicas culturais, comparando com as dos agricultores. Este tipo de investigação participativa irá permitir que os próprios agricultores façam com-
paração entre as tecnologias trazidas pela investigação e as formas como eles têm trabalhado com as suas sementes e técnicas tradicionais. Neste tipo de investigação, os produtores fazem a sua escolha e, a partir daí, multiplicam a variedade para esta localidade.

Qual é o papel do MOSAP II?
O MOSAP II é um Projecto de Desenvolvimento da Agricultura de Pequena Escala e Comercialização – SADCP, geralmente denominado MOSAP II, sob tutela do IDA, tem como objectivo geral o aumento da produtividade, produção e comercialização das culturas de milho, feijão, mandioca, batata-rena e hortícolas (repolho e tomate), nas províncias do Huambo, Bié e Malanje. No âmbito deste projecto, foi celebrado um memorando de entendimento entre o IIA e o IDA, no qual a instituição de investigação é responsável para a implementação da subcomponente 1.3, que visa reforçar a capacidade institucional do sistema de investigação agronómica em Angola, na sua missão de solucionar problemas emergentes na produtividade, produção e cadeia de valor das culturas agrícolas.

Temos um Sistema Nacional de Sementes funcional?
O Sistema Nacional de Semente não está ainda bem estruturado e os produtores desconhecem o negócio de sementes, seja da mandioca ou de outras culturas. Existem algumas empresas que iniciaram este negócio, mas ainda estão longe de satisfazer as necessidades em sementes do país. Dentro da cadeia de valores da mandioca, estes intervenientes são poucos. Se aparecerem mais produtores de sementes de mandioca, teremos material disponível para os produtores. O Instituto de Investigação Agronómica tem a responsabilidade de criar a semente pré-básica em pequenos kits, que será multiplicada para o aumento de stocks, passando para a semente básica. Essa semente básica depois de ser produzida pelo IIA, tem que passar para os produtores ou multiplicadores de semente certificada. Estes são os potenciais produtores para o au-mento do stock da semente ou do material vegetativo que chega aos agricultores familiares e empresariais.

Protecção das espécies tropicais

Quem protege as espécies das culturas tropicais?
Existem varios centros do grupo CGIAR sediadas em vários países. No caso da mandioca, a responsabilidade é do Instituto Internacional de Agricultura Tropical, sediada na cidade de Ibadan, na Nigéria. Este instituto tem a responsabilidade de velar pela conservação de espécies tropicais da mandioca, inhame, banana, soja e outras culturas. Este ano, Angola irá reforçar a cooperação com este instituto. Temos em vista a criação do Centro Regional de Liderança da Mandioca, que terá laboratórios, estufas climatizadas, e estufas hidropónicas, que vai velar pela conservação e aumento de variedades melhoradas que serão disseminadas a nível de Angola e em troca de informações científicas com outros países da região Austral.

Quais são os ganhos com a criação de um banco de germoplasma da mandioca?
O país ganha com o aumento da diversidade genética, onde estará disponível acessos com determinados genes dominantes que serão utilizados pelos melhoradores dos institutos de investigação agrícola e Universidades Agrárias. Na cadeia da mandioca, podem ser variedades com alto índice de amido, açúcar e outras que podem ser utilizadas na indústria cervejeira, como em Moçambique, aguardente, panificação, indústria farmacêutica, etc. A mandioca é um bom negócio. No Brasil, gera receitas aos cofres do Estado, uma vez que o pão de queijo, a tapioca e outros alimentos possuem 25 por cento de amido da mandioca. A mandioca pode ajudar na redução da importação de trigo e encontrar produtores de mandioca de grandes áreas e processadores que conseguem fazer a separação dos derivados. A mandioca é cultura de segurança alimentar, porque onde há mandioca não há fome. Os produtores têm de começar a produzir anualmente, utilizando variedades de mandioca de oito a 12 meses para aumentar a sua produção. O importante é que todos intervenientes da cadeia de uma determinada cultura devem desempenhar a sua função, desde a investigação (criação de pacotes tecnológicos), Regulador do sistema de sementes (SENSE), produtores de semente e ma-terial de propagação, agricultores familiares e empresariais, processadores, comerciantes grossistas e retalhistas, intermediários e no fim os consumidores. Assim, teremos o aumento da produção que pode contribuir para o aumento do PIB nacional.

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