Entrevista

Patriota apoia a reconstrução

Kumuênho da Rosa |

Em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, António Patriota, ministro brasileiro das Relações Exteriores, realçou o vigor da cooperação no espaço CPLP, além de considerar que existem boas perspectivas de óptimos resultados quando o trabalho é feito de forma coordenada.

Ministro brasileiro António Patriota diz que existem boas perspectivas de cooperação
Fotografia: Rogério Tuti

Em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, António Patriota, ministro brasileiro das Relações Exteriores, realçou o vigor da cooperação no espaço CPLP, além de considerar que existem boas perspectivas de óptimos resultados quando o trabalho é feito de forma coordenada. António Patriota diz que o Brasil está bastante encorajado com o esforço de Angola em “recuperar o tempo perdido” e garante que existem boas perspectivas de um aprofundamento das relações bilaterais.

Qual a sua visão sobre a cooperação na CPLP?

R: Há três vertentes, como se diz no modo geral, que seriam o diálogo político, a cooperação propriamente dita, a cooperação técnica, cooperação para o desenvolvimento e a promoção e a disseminação da língua portuguesa. E nessa reunião ministerial vamos examinar também, com especial ênfase, a questão da Guiné-Bissau, que está em pauta. Eu acabo de manter um encontro com o ministro Chicoty, depois com o chamado quarteto, que inclui também os ministros de Portugal, Cabo Verde, além do Brasil e Angola.

Como vê a dinâmica e que perspectivas se abrem a nível da cooperação na comunidade?

R: Eu vejo a CPLP como um espaço de cooperação de muito vigor, porque é constituído por países que vêm de diferentes regiões do Mundo, América Latina, Europa, África, Ásia e são países comprometidos com a democracia, com o crescimento, com a justiça social, com o multilateralismo, o sistema das Nações Unidas, o direito internacional, com a solução pacífica de contenciosos, portanto, há muito que nos une, para além da actividade linguística e de uma história que nos aproximou.
Em torno de plataformas comuns, a coordenação pode ser muito eficaz na promoção desses valores. Para dar um exemplo bem recente de como trabalhamos juntos, eu acho que não poderia deixar de expressar o meu reconhecimento, o meu agradecimento a todos os países que integram a CPLP, muito em particular o país anfitrião, Angola, pelo apoio que prestaram à eleição de um brasileiro, o professor José Graziano da Silva, à direcção da FAO, porque é uma demonstração de como, trabalhando juntos conseguimos favorecer uma certa linha de pensamento.

Como pode o Brasil contribuir para a redução da fome e pobreza?

R: O professor Graziano foi um dos grandes idealizadores da política brasileira de combate à fome e à pobreza durante o governo do presidente Lula e produziu resultados tão encorajadores, permitindo que dezenas de milhões de brasileiros superassem a situação de pobreza extrema e tivessem acesso a uma vida mais digna, uma alimentação mais saudável. A ênfase do professor Graziano vai ser no desenvolvimento rural, em regiões do mundo onde políticas como aquelas implementadas no Brasil possam ser replicadas, na segurança alimentar e em regiões do mundo onde existem vulnerabilidades, especialmente de Ambiente.

Como avalia a cooperação entre o Brasil e Angola?

R: Essa é uma visita que estou realizando a África. Eu estarei em cinco países, estou vindo da Guiné-Bissau. Angola é o único país onde vou passar dois dias, de modo que isso já reflecte uma certa importância que eu estou atribuindo. Valorizo muito o diálogo que eu já tenho mantido com o ministro Georges Chicoti, que compareceu na posse da presidente Dilma Rousseff, em Janeiro desse ano. Pudemos conversar longamente sobre uma série de assuntos políticos aqui em África.
Depois disso, conversámos por telefone algumas vezes e agora tenho o prazer de visitá-lo em Luanda e amanhã (hoje) na ministerial da CPLP. Angola é o terceiro mercado para as exportações em direcção a África. Se tomarmos em conta o comércio nas duas direcções é o quinto parceiro comercial do Brasil em África, de modo que é um parceiro muito importante, mas sobretudo um país onde também existe uma forte presença do sector privado brasileiro.

O que dizer da coincidência de estar a decorrer a Feira Internacional de Luanda, que é um acontecimento que tem uma já tradicional presença brasileira?

R: Coincide realmente esta reunião ministerial com a Feira Internacional de Luanda, que é um evento importante empresarial. O empresariado brasileiro está comprometido com o progresso de Angola e nós estamos muito encorajados por constatarmos a rapidez com que Angola tem recuperado o tempo perdido, de certa maneira, porque a guerra civil foi extremamente devastadora e violenta, de modo que para mim é uma satisfação pessoal, porque eu trabalhei na missão brasileira nas Nações Unidas durante os anos 90, quando aqui ainda havia tensão, guerra civil, violência em larga escala e hoje eu constato que o país se pacificou, se estabilizou, é uma democracia vigorosa, uma economia que cresce a um ritmo muito acelerado, de modo que há muitas oportunidades e nós queremos também fazer parte desse esforço de desenvolvimento angolano.

Que perspectivas existem para o alargamento ou o reforço da cooperação entre os dois países?

R: Já existe uma interacção grande também entre as nossas sociedades. Há um número grande de angolanos estudando no Brasil, 80 por ano se beneficiam de bolsas de estudo, algumas centenas estudam por conta própria. O ministro Chicoti expressou o desejo de intensificar essa cooperação educacional, inclusive a nível da educação técnica. Nós vamos examinar diferentes fórmulas para atracção de maior número de angolanos a estudar no Brasil e eventualmente o estabelecimento de centros de formação profissional aqui em Angola baseados na experiência desenvolvida pelo Brasil, no próprio Brasil e também em terceiros países, de modo que são só alguns dos sectores em que nós temos perspectivas promissoras de cooperação.

A Agricultura é ou não uma área de grande interesse?

R: Eu mencionei a eleição do professor Graziano, mas aqui, bilateralmente, a Embrapa, que é hoje considerado o instituto mais avançado no mundo em termos de pesquisa agrícola tropical, poderá também formar especialistas angolanos.As condições geográficas, climáticas e de solo são muito semelhantes entre Angola e o Brasil. Não conheço o Huambo, que é o centro do país, mas me dizem que é muito semelhante ao cerrado brasileiro. E no Brasil, o que muitos chamam de revolução agrícola se deu justamente na ampliação da fronteira agrícola em direcção ao cerrado, que aqui seria o planalto.

O que dizer da convergência de posições entre Angola e o Brasil sobre a urgência de reformas no Conselho de Segurança da ONU?

R: Queria assinalar a coincidência feliz de dois membros da CPLP estarem no ano de 2011 entre os membros do Conselho de Segurança e também expressar o reconhecimento brasileiro e a valorização das manifestações da CPLP a favor de uma reforma do Conselho de Segurança que inclua novos membros permanentes, de entre eles o Brasil, num Conselho de Segurança ampliado. É uma questão que adquire uma urgência cada vez maior na medida em que o Mundo evolui em direcção a uma configuração mais multipolar de poder. Nós já vimos que de certa forma o G-20 superou o G-8, outras instâncias de governação global estão sendo idealizadas para repetir este mundo mais multipolar de modo que já é tempo de o CS ser ampliado para incluir membros permanentes, não só como o Brasil, mas também de África, da Ásia Meridional e outros entre aqueles que farão parte de um novo órgão mais em sintonia com o século XXI.

O conflito na Líbia é hoje uma questão inevitável em termos de política internacional. Qual é a posição do Brasil em relação ao que se passa nesse país africano?

R: Nós apoiamos os esforços da União Africana e trabalhamos para que seja possível um cessar-fogo monitorado internacionalmente e que contribua para que se promova uma conciliação nacional, uma transição política que leve a uma Líbia mais em sintonia com as aspirações da população, que tem se manifestado e que são aspirações que nos sensibilizam também no Brasil, como aquelas do Egipto, da Tunísia, da Síria e de outros lugares do Mundo árabe, por maior liberdade de expressão, maior participação nos processos políticos e geração de oportunidades, de emprego e progresso económico e social.

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