Entrevista

Peças de viaturas roubadas são vendidas no mercado

André da Costa |

Jair Rodrigues Coelho, do Serviço de Investigação Criminal (SIC), garante em entrevista ao Jornal de Angola que continuam a trabalhar para reduzir o número de roubos de viaturas.

Especialista do SIC Jair Rodrigues Coelho dá conselhos úteis aos automobilisatas para evitarem assaltos
Fotografia: José Cola|Edições Novembro



Como as vítimas de roubo devem reagir para evitar serem mortas durante os assaltos de viaturas?
As vítimas devem tudo fazer no sentido de sempre que forem abordadas por marginais evitar reagir, justamente para preservarem o bem maior que é a vida. Os marginais realizam o assalto munidos de arma de fogo, pelo que todo o cuidado deve ser observado. 

Até que ponto circular sozinho pode constituir perigo para os automobilistas?
Muitos marginais aproveitam o facto dos automobilistas muitas vezes andarem sozinhos para facilmente concretizarem os assaltos. Por isso, é sempre melhor fazerem-se acompanhar de alguém, principalmente no período da noite, para inibir o pensamento dos marginais. Quando alguém está a circular dentro de uma viatura a sós, os marginais têm maior possibilidade de realizar o assalto. 

Até que ponto a escuridão na via pública, quer nas centralidades, quer nos bairros pode constituir perigo para os automobilistas?
As zonas escuras facilitam a actividade dos criminosos, na medida em que eles se sentem mais à vontade, porque está escuro e possuem armas de fogo. É importante evitar ao máximo circular em zonas com pouca iluminação pública e assim evitarem os assaltos.

Até que ponto o sistema electrónico GPS constitui uma mais-valia para a segurança das viaturas?
O sistema electrónico GPS facilita a localização imediata da viatura em caso de furto ou roubo, porque em menos de 48 horas há grandes probabilidades de a viatura ser encontrada. A experiência que temos com viaturas com este sistema e que foram roubadas, é animadora, porque a maior parte foi recuperada.

É seguro para os cidadãos comprarem carros na rua e muitas vezes sem a devida documentação?

Todos os cidadãos que pretenderem adquirir viaturas devem fazê-lo somente nas mãos dos legítimos proprietários e evitarem os intermediários. Ou ainda, devem dirigir-se aos locais destinados à comercialização de viaturas como os representantes, por exemplo.

Existe o hábito de denunciar roubos de viaturas?
Sim, há cidadãos que apresentam queixa junto dos piquetes de Polícia sempre que lhes for roubada ou furtada a viatura, bem como outros crimes comuns. É muito importante apresentar queixa às esquadras de Polícia, para permitir que o Serviço de Investigação Criminal desenvolva diligências no sentido de encontrar a viatura e ser restituída ao lesado.

São muitos os cidadãos que recorrem ao mercado para adquirir peças para viaturas?
Infelizmente, ainda são muitos os cidadãos que recorrem ao mercado do Golfe dos Correios, por ser lá onde se comercializam acessórios de viaturas roubadas com mais frequência, apesar de existirem também outros mercados. Os cidadãos devem procurar as lojas autorizadas para a venda de peças, porque, infelizmente, é no mercado do Golfe que se comercializam mais peças retiradas de viaturas roubadas.

O Serviço de Ivestigação Criminal tem em sua posse viaturas cujos donos não aparecem a reclamar a propriedade. Porquê?
Há casos em que nós não temos registo na nossa base de dados como sendo viaturas roubadas. Quando isso ocorre fica difícil localizar os utentes das viaturas. Normalmente, depois do roubo ou furto de viatura, os marginais trocam a matrícula. Depois de recuperarmos, só assim conseguimos detectar que as matrículas são falsas.

De que forma é que os cidadãos podem verificar se é ou não a sua viatura?
Todos os cidadãos, cujas viaturas foram roubadas ou furtadas, devem deslocar-se ao Serviço de Investigação Criminal para verificarem a sua viatura e proceder ao seu levantamento imediato, conforme a documentação apresentada. É importante os cidadãos apresentarem queixa junto à esquadra de Polícia mais próxima.

Os roubos de viaturas em Luanda preocupam as autoridades policiais?
O roubo de viaturas constitui nos dias de hoje um fenómeno que temos estado a registar de forma permanente. Há alturas em que os níveis baixam e outras em que sobem. Mas a Polícia tem tudo feito para que os níveis baixem cada vez mais. As estatísticas de roubo de viaturas mantêm-se.

Os marginais agem de forma isolada ou organizada?
Agem mais em grupos de três ou quatro. Dificilmente um marginal faz um assalto de viatura sozinho. Mas temos já desmantelado vários grupos devido às acções incrementadas quer pela Polícia Nacional, quer pelo Serviço de Investigação Criminal. Vamos continuar a fazer todos os esforços para combatermos estas práticas e conduzir os malfeitores à instância superior, no caso o Ministério Público.

Qual tem sido a motivação para esses meliantes enveredarem por este caminho?
Os jovens roubam as viaturas para venderem a outros que as desmontam e comercializam a retalho e há ainda grupos que roubam por encomenda. Fazem disto uma forma de ganhar a vida de forma mais fácil. Só que o crime não compensa. Muitos estão a pagar por esta prática a todos os níveis reprovável.

Muitas pessoas têm ansiedade em adquirir uma viatura e…
Justamente por isso é que caem nas malhas dos marginais, porque o desejo é comprar imediatamente uma viatura, mas se esquecem que correm o risco de comprar uma viatura roubada.  Por isso é que temos apelado, constantemente, à população para que se dirija aos locais apropriados de venda de automóveis.  Não enveredem pelo caminho mais fácil. Porque o barato pode sair caro.

 

  Há necessidade das populações continuarem a denunciar os ladrões de automóveis

Mas também há viaturas roubadas que aparecem com  documentação…
Sim. Se as viaturas aparecem com documentação é porque os marginais são inteligentes. Quando roubam as viaturas tudo fazem para se apossarem da documentação como livretes e título de propriedade. Muitas vezes vendem a viatura com a documentação do legítimo proprietário. A Polícia continua a apelar aos automobilistas a estarem muito atentos, principalmente quando estão a circular noperíodo nocturno.

Há viaturas que levam muito tempo a serem recuperadas?
Sim, porque cada caso é um caso. Há o exemplo de uma viatura que temos aqui apreendida, cuja proprietária diz que foi roubada em Janeiro, mas só em Junho  é que apareceu [para reclamar]. Muitas vezes só conseguimos chegar aos marginais devido às informações recebidas por parte dos populares, que têm sido fundamentais. Há necessidade de continuar a denunciar elementos que praticam esse tipo de acção, para que o SIC faça o seu trabalho e leve os marginais às barras do Tribunal. Mas é bom saber que as forças da ordem têm estado a desencorajar esse tipo de crime. A Polícia está atenta e pede a colaboração da população, denunciando esses marginais.  

A proibição de entrada de viaturas usadas aumentou o roubo de viaturas?
Sim, aumentou, e hoje é um dos motivos que leva os meliantes a roubarem carros para desmancharem e venderem as peças no mercado informal  e lojas de peças de viaturas. Muitos cidadãos sem grandes possibilidades financeiras recorrem ao mercado informal para adquirirem as peças um pouco mais baratas. Aqui gostaria de dizer às pessoas para não comprarem peças em locais suspeitos.

A Polícia devia ou deve fazer mais publicidade para que o cidadão não recorra a esses locais para adquirir peças que, supostamente, são retiradas de viaturas roubadas ou furtadas?
É verdade. Mas temos feito esse trabalho, só que muitos cidadãos acham que adquirir peças no mercado paralelo traz vantagem, quando não. Mas vamos continuar a fazer o nosso trabalho. Acredito que muitos utentes de viaturas já não recorrem aos mercados, porque acreditam que podem ser enganados.

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