Entrevista

Perturbar a paz em Cabinda é contra os direitos humanos

Adalberto Ceita | Cabinda

O comandante Lelo Congo bateu-se de armas na mão, nas fileiras da FLEC. Entrevistado pelo Jornal de Angola diz que está perturbado “pelos ecos que me chegam de apelos à guerra”.
Adalberto Ceita | Cabinda

Comandante Lelo Congo
Fotografia: Eduardo Pedro

O comandante Lelo Congo bateu-se de armas na mão, nas fileiras da FLEC. Em 1993 foi ferido em combate e algum tempo depois o governo iniciou o processo que culminou com o Memorando de Entendimento do Luena. Hoje vive em Cabinda com a sua gente mas os seus dias são perturbados “pelos ecos que me chegam de apelos à guerra por parte de intelectuais que enriqueceram à custa do sangue dos guerrilheiros que se bateram nas matas”. Um pássaro verde e amarelo poisa num galho e solta o seu canto alegre. É um tchimpepele. O comandante aponta para a ave e diz: “este pássaro gosta de se aproximar das pessoas quando elas estão a conversar. Vai dar-nos sorte”.

Jornal de Angola - A sorte que lhe faltou quando foi ferido em combate?

Lelo Congo
- Quem vai à guerra não espera pela sorte. Sofri graves ferimentos, perdi um braço e coxeio de uma perna. Mas se pensarmos bem, tive sorte. Estou vivo e regressei ao convívio dos meus amigos e familiares. Vejo o meu país progredir. Os angolanos vivem hoje melhor do que viviam ontem e pelo que estamos a ver, amanhã vamos todos viver muito melhor. O tchjimpepele está comigo.

JA - Porque razão ainda há homens da FLEC em armas?

LC –
Essa pergunta deve ser feita ao Nzita Tiago e ao Alexandre Tati. Eles que respondam, mas com verdade. Digam por que razão continuam a fazer a guerra quando decidimos que a solução é o diálogo. Mas há outros que ainda têm mais responsabilidades do que ele nessa loucura de alimentar um clima de belicista.

JA - Há quem mande mais do que eles na FLEC?

LC -
Hoje temos de falar da FLEC Estado, capitaneada pelo Nzita, e da FLEC Enclave, dirigida pelo Alexandre Tati. Teoricamente, eles é que mandam. Mas nesta fase, em que não há um único homem em armas na província de Cabinda, quem manda é o dinheiro. Os negócios escuros dominam a organização pela qual me bati e derramei o meu sangue.

JA - Quer explicar melhor?

LC
– É a primeira vez que a comunicação social me dá esta oportunidade. Vou aproveitar. Alexandre Sambo é um dos responsáveis pelo clima belicista. O Félix Sumbo é outro. Esses dois fazem tudo para matar o diálogo e a paz. Se forem falar com alguns empresários de Cabinda, vão ficar a saber de coisas ainda mais graves. Quero recordar que certos políticos da FLEC se especializaram na chantagem e na extorsão de dinheiro. O Félix Sumbo trabalha aqui em Cabinda. O Alex Sambo foi mandado pela sua empresa para Luanda. Temos o diabo em casa.

JA - São eles os senhores do dinheiro?

LC -
Calma. Tenho mais a dizer. Outro que faz tudo para matar o diálogo e promover a guerra, é o Belchior Tati. Este é professor de economia na Universidade 11 de Novembro. Mas também é dono de uma padaria em Cabinda e de uma empresa de madeira no Necuto. Os madeireiros da região tinham que pagar muito dinheiro à FLEC. O Belchior está isento. Ele devia explicar aos angolanos o que faz com o dinheiro que angaria supostamente para alimentar os combatentes da FLEC.

JA - Está a dizer que um professor de uma universidade pública defende a guerra em Angola?

LC
- Estou. Mas digo mais. O Ivo Macaia, que se intitula secretário da Defesa, está implicado em acções terroristas. Com o dinheiro extorquido aos empresários e ao povo, adquiriu explosivos e armamento para fazer um atentado contra o aeroporto de Cabinda. Ele e o seu grupo recomendam ataques terroristas contra militares isolados, de preferência embriagados depois de saírem das festas, e contra pessoas de raça branca. Isto é muito grave.

JA - E os padres da FLEC?

LC -
Os padres excomungados são os maiores violadores dos direitos humanos na província de Cabinda. As organizações que dizem defender os direitos humanos nunca falaram comigo. Aqui lhes deixo um desafio: venham falar comigo a Cabinda que eu dou-lhes provas irrefutáveis de que eles e os seus amigos violam gravemente os direitos humanos.

JA - De que está a falar?

LC
- Vamos devagar. A situação actual aqui em Cabinda é esta: o Raul Danda quer continuar com as mordomias de deputado e por isso diz que a FLEC deve continuar aliada à UNITA. O padre Jorge Casimiro Congo defende uma aliança com a CASA-CE do senhor Abel Chivukuvuku. Pelo menos é corajoso. O padre Raul Tati não quer uma coisa nem outra. Diz que é preciso mobilizar o povo para a guerra. E dá exemplos a seguir: Xanana Gusmão em Timor e Nelson Mandela na África do Sul.

JA - O que tem isso a ver com a febre do dinheiro?

LC -
Já lá vamos. O padre Raul Tati está enganado. Nelson Mandela não fez a guerra na África do Sul. Foi ao contrário. Os sul-africanos fizeram uma guerra destrutiva e sangrenta em Angola para decapitar o partido de Mandela, o ANC. É preciso ser verdadeiro. Um padre não pode mentir só porque a febre do dinheiro comanda a sua vida.

JA - Raul Tati quer a guerra para ganhar dinheiro?

LC -
Ele está a ganhar imenso dinheiro. Tanto que nos três últimos anos teve o prémio de melhor cliente do BAI. Esse dinheiro vem dos grupos de oração nas capelas dos bairros. Ele impôs dízimos aos fiéis. Os catequistas dizem ao povo: esta semana pagam cinco mil. E eles entregam o dinheiro que eles exigem. Depois depositam milhões na conta pessoal do padre excomungado. Vou dar uma notícia em primeira mão: aquela contestação a D. Filomeno Vieira Dias foi um mero truque.

JA - Pode explicar?

LC -
Ele e os seus apoiantes há muito que queriam impor na Igreja de Cabinda um dízimo arbitrário. Mas nunca conseguiram, o bispo era contra. Quando o Vaticano decidiu nomear novo bispo para Cabinda, chegou às autoridades eclesiásticas uma lista com os nomes de Raul Tati e Jorge Congo. Não foram aceites. O vaticano propôs um padre do Necuto que vivia em Roma. Eles trataram de inventar coisas para o denegrir. A escolha acabou em D. Filomeno. Raul Tati contestou, mas o que ele queria era um pretexto para sair e ficar com mãos livres para cobrar o dízimo. Então fundou a Lubundunu (União) e começou a extorquir dinheiro aos crentes, nas capelas dos bairros. Está milionário! Ele serve-se da FLEC para enriquecer.

JA - O dinheiro angariado não é para a FLEC?

LC -
Agora temos a certeza que não. Os 29 guerrilheiros capturados e que foram para Benguela aprender profissões, estão de volta a Cabinda e já estão a trabalhar. Falámos com eles. Nos acampamentos da FLC na República Democrática do Congo não há medicamentos nem comida. Combatentes e população sofrem com fome e doença. De longe a longe aparece alguma comida. Faço um desafio às organizações de defesa dos direitos humanos: peguem nestes homens como guias e vão a esses autênticos campos de concentração para verem o que se passa. O povo e os combatentes estão sequestrados. Os que querem regressar são ameaçados. Metem-lhes medo. Isto é desumano.

JA - Como sabe que o dinheiro fica com os dirigentes que estão em Cabinda ou Luanda?

LC –
Os próprios catequistas afirmam que depositam o dinheiro na conta pessoa do padre Raul Tati. Dizem a toda a gente que depositam tudo na conta dele. E o BAI considera-o um grande cliente. O povo de Cabinda dizia que ele era um enviado de Deus para salvar-nos e afinal é um diabinho.

JA - Perdeu a confiança dos crentes que o seguiram?

LC -
Tinha que perder. O homem casou em Dezembro com a médica Maria Carlota, que tirou o curso em Cuba com uma bolsa do nosso governo. O Raul Tati perdeu a cabeça e diz que mesmo quando era padre já namorava com a doutora, que trabalha no Hospital de Cabinda. É esta a moral desse senhor. Por isso, o catequista Jorge Simba, das capelas do bairro Chiweca, já o abandonou e regressou ao seio da Igreja. Eles sabem que D. Filomeno é um grande bispo e tem sempre as portas abertas, mesmo aos que tão mal o trataram.

JA - E o padre Congo?

LC -
Esse manda os outros para a luta enquanto fica na retaguarda a enriquecer. Ele jamais ficará sem um braço e a coxear de uma perna como eu estou. É dono de uma clínica, de uma padaria e de uma carpintaria. Os fiéis que o seguem compram-lhe os caixões quando têm que enterrar algum familiar. Ganha dinheiro que se farta. Era bom que explicasse o destino do dinheiro que devia ser enviado para os desgraçados da FLEC que ainda andam na mata, na RDC.

JA - O padre Congo ainda é o homem de confiança de Nzita Tiago, a FLEC Estado?

LC -
Foi despromovido. O Nzita trocou-o pelo Belchior Tati que agora coordena todas as acções e também trata do dinheiro. Estou a falar de um professor numa universidade pública e que participou, com o grupo de Paris, no atentado à comitiva desportiva do Togo. O Executivo exagera na defesa dos direitos humanos. Até protege suspeitos de acções terroristas. Se as organizações que dizem defender os direitos humanos quiserem ouvir-me, eu revelo-lhes todas as acções terroristas destes senhores. Penso que o pior atentado contra os direitos humanos é matar civis indefesos e disparar sobre jornalistas e desportistas. Espero que em breve todos esses senhores que se dizem intelectuais da FLEC respondam pelos seus crimes, que são graves atentados aos direitos humanos.

JA - Quem apoia Nzita Tiago e Alexandre Tati no exterior?

LC -
O Alexandre Tati está em Ponta Negra. O Presidente Denis Sesso Nguesso diz que é amigo de Angola mas deixa-o organizar ataques terroristas contra Angola. Os seus parceiros estão todos na República Popular do Congo. O Presidente Kabila deu ordens para expulsar o pessoal da FLEC da República Democrática do Congo. Menos mal. Mas o Manuel Vaz António está em Kinshasa.

JA - É dirigente da FLEC?

LC
- É jornalista e funcionário da ONU. Este senhor é que despacha falsas notícias para os jornais e blogues que fazem a propaganda da FLEC. É também ele que paga os serviços dos jornalistas. Aqui em Angola temos alguns que recebem dinheiro manchado com o sangue de angolanos inocentes. Noutra oportunidade digo o nome deles todos e dos blogues e jornais onde trabalham. Por agora faço-lhes um apelo: deixem Angola e os angolanos em paz! E desafio o professor Belchior Tati a abraçar o diálogo ou então que se demita de funcionário do Estado Angolano. Seja leal, pelo menos uma vez na vida. Um professor universitário não pode ser um senhor da guerra disfarçado.

Tempo

Multimédia