Entrevista

Pilares do ensino na Universidade

Isaquiel Cori |

Decano e docente da Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto, autor do manual “Economia-Lições Fundamentais” usado em quase todas as Faculdades de Economia do país e de alguns países africanos de língua oficial portuguesa, o Professor Redento Maia tem uma posição privilegiada para analisar a situação do ensino da ciência económica em Angola e das suas implicações na política económica.

Redento Maia garante que muitos quadros formados pala instituição auxiliam os poderes públicos na elaboração dos programas económicos
Fotografia: Isaquiel Cori

Como era de esperar, ele dá um alto valor ao tipo de instituição que dirige: “Muitos dos quadros  que formámos auxiliam os poderes públicos ou instituições públicas na formulação e elaboração dos programas de política económica e social, supervisionando a execução dos programas de política económica e social, sugerindo medidas de correcção de eventuais desvios (…)”. Em relação à qualidade intelectual dos jovens que actualmente disputam o ingresso no ensino superior, Redento Maia é igualmente optimista: “De forma geral, o panorama tem melhorado e tende a evoluir cada vez mais, para melhor”.

Jornal de Angola - Do ponto de vista académico, quais os principais problemas que a Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto (FECUAN) enfrenta?


Redento Maia
- A actividade universitária deve ser entendida na base dos seus três pilares, que são o Ensino, a Investigação e a Extensão. Actualmente, a Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto tem como foco o ensino, mas também a investigação e a extensão. Porém, o que diferencia uma Faculdade de outra é a qualidade dos resultados apresentados à sociedade. Tais resultados decorrem de projectos de pesquisa realizados. Estes constituem o grande “handicap” da nossa Faculdade.  Estendo este tipo de dificuldade às outras instituições similares. Justifico isto pelo seguinte: o resultado da pesquisa depende das condições financeiras de cada instituição. Exemplificando, se quisermos fazer um estudo comparado do impacto das políticas voltadas para o empreendedorismo em Angola, necessitamos de recursos financeiros e tecnológicos com o objectivo da efectivação do trabalho de pesquisa, como o transporte do investigador, alojamento, alimentação, ajudas de custo, material gastável, etc.  Entendemos que os custos variam de província para província. O que significa  que se o investigador tiver de percorrer as 18 províncias do país, como hipótese, estimando um valor de  400.000,00 kwanzas por província para custear as despesas, estamos a falar de um orçamento total de  7.200.000,00 kwanzas para a referida pesquisa. Com base no exposto, podemos comparar uma investigação da mesma natureza ao nível dos PALOP. Com certeza, a este nível, a Faculdade, tinha de despender valores avultados para apenas um investigador. Entendemos então que os recursos financeiros têm sido o maior problema na dinamização de projectos apresentados por investigadores afectos à nossa instituição.

Jornal de Angola - Com quantos docentes a instituição  conta? Destes, quantos são os estrangeiros?


Redento Maia
- A Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto conta com um total de 115 docentes, sendo 85 docentes em tempo integral e 30 docentes em tempo parcial. Destes, dez docentes em tempo integral são expatriados. Do número total mencionado contamos com 33 Doutores, 50 Mestres e 32 Licenciados. Contamos ainda com docentes visitantes para os Cursos de Pós-graduação. Não sendo residentes, evitamos a sua contagem no quadro do pessoal.

Jornal de Angola - Existe algum tipo de intercâmbio académico-institucional com as Faculdades de Economia de outras  Universidades nacionais? E estrangeiras?


Redento Maia
-A Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto é uma instituição aberta a propostas de intercâmbio académico-institucional com qualquer Universidade com cursos correlacionados, com mais ou menos experiências académicas, desde que com vantagens recíprocas entre instituições, sejam elas nacionais ou internacionais. A título de exemplo, para os programas dos cursos avançados (Mestrados e Doutoramentos), estabelecemos acordos com instituições internacionais, como o Instituto Superior de Economia e Gestão   da Universidade de Lisboa, o Instituto Universitário de Lisboa, a Nova School of Business Economics, a Faculdade de Economia da Universidade Federal da Baía, a Escola de Administração da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

Jornal de Angola - Sendo docente da Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto há vários anos e actualmente na condição de Decano, que opinião tem da qualidade dos conhecimentos dos jovens que entram através dos exames de admissão? O panorama já é bom?


Redento Maia
- Nos últimos anos, como sabe, temos recebido na altura de exames de acesso números elevados de candidatos ao ensino superior dentre os quais encontramos vários níveis de conhecimento. Actualmente, para a Faculdade de Economia, bem como para as outras Faculdades, apenas recebemos aqueles que conseguem ultrapassar os exames em que são submetidos; que provam a condição mais do que suficiente para se habilitarem ao acesso à Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto. De forma geral o panorama tem melhorado e tende a melhorar cada vez mais. Os ministérios da Educação e do Ensino Superior  têm criado projectos no sentido de melhorar a qualidade de ensino no país, nestes dois níveis, a curto, médio e longo prazos. No que tange ao curto prazo uma das principais preocupações tem sido a capacitação de docentes com Cursos de Agregação Pedagógica. Com vista a garantir a qualidade de ensino a médio e longo prazos existe o projecto do funcionamento do Ensino Superior que visa regular e melhorar o seu funcionamento no país.

Jornal de Angola - Qual é o número de vagas disponíveis na Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto para o ano lectivo de 2016?


Redento Maia
- A Faculdade de Economia coloca à disposição 700 vagas para o ingresso de novos estudantes no Ensino Superior nos seus cinco cursos, Economia, Gestão de Empresas, Gestão Financeira, Contabilidade e Auditoria e Contabilidade e Administração.

Jornal de Angola - A Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto tem em curso programas de estudos da realidade económica histórica, actual e prospectiva do país?


Redento Maia
- A Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto, atenta à nova realidade do país, tem desenvolvido internamente, em colaboração com parceiros, Seminários, Palestras e Jornadas Técnico-Científicas e outras acções sobre temas voltados à realidade económica do país.

Jornal de Angola  - Que contributos a Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto pode dar, ou tem dado, para ajudar o país a sair da crise económica em que se encontra?


Redento Maia
- Uma Faculdade, em qualquer país, pode ser considerada a indústria mais importante, onde os estudantes entram como matéria-prima e daqui são transformados em produto acabado. Assim é na Faculdade de Economia da UAN, onde a matéria-prima  é transformada em Economistas, Gestores, Contabilistas, Auditores, Empreendedores, Analistas nas mais diversas áreas das ciências económico-empresariais. Muitos desses quadros auxiliam os poderes públicos ou instituições públicas na formulação e elaboração dos programas de política económica e social, supervisionando a execução dos programas de política económica e social, sugerindo medidas de correcção de eventuais desvios, organizando ou supervisionando as áreas de contabilidade das empresas públicas e privadas, realizando auditorias internas e externas, supervisionando os meios financeiros de qualquer empresa ou instituição pública ou privada. A Faculdade de Economia tem desempenhado um papel estratégico no crescimento e desenvolvimento da economia angolana, até porque é uma das Faculdades mais antigas do país nesta área do conhecimento científico. É preciso sublinhar que os quadros formados pela nossa Instituição têm servido para potenciar várias indústrias, incluindo estratégicas como no ramo dos Petróleos, Águas, Energia, Ministérios, Tribunais, Forças Armadas Angolanas e várias outras instituições públicas e privadas. Muitos  quadros  desenvolvem negócios próprios, gerando empregos e, através disso, contribuem progressivamente na redução da pobreza, da criminalidade e como consequência no desagravamento da despesa pública.

Jornal de Angola - Como economista e Decano de uma Faculdade de Economia sente que os economistas do país são devidamente ouvidos pelos políticos?


Redento Maia
- Evidentemente que sim. Ora vejamos. Frente ao actual cenário económico-financeiro do país estão permanentemente a ser criadas políticas, projectos de âmbito macroeconómico nos domínios cambial, monetário e fiscal que têm contribuído de forma decisiva para combater os efeitos devastadores da crise que assola principalmente os países produtores e exportadores de petróleo.

Jornal de Angola - Para quando o funcionamento da Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto em instalações próprias? Ou essa é uma questão que não faz sentido?


Redento Mai
a- Actualmente encontramo-nos a funcionar numa única instalação  na Marginal de Luanda. Como sabe, somos uma Universidade pública e dependemos dos projectos do Executivo. Quanto às alterações estruturais ao nível de mobilidade, temos o nosso Campus Universitário  Agostinho Neto, no Camama, que foi dimensionado na perspectiva de albergar todas as Unidades Orgânicas da UAN.

Jornal de Angola - O Professor  é autor do livro “Economia -Lições Fundamentais”, que, pelo que sabemos, é usado em todas as Faculdades de Economia do país. Acredita que o livro tem estado a servir plenamente o objectivo que o moveu na escrita do mesmo?


Redento Maia
- Certamente que sim, visto que é um livro escrito com uma dose de pedagogia bem acentuada para permitir que o seu conteúdo seja facilmente entendível, criando condições para  os discentes, e não só, poderem ter bases para interpretar outra leitura sobre economia. Esta é a razão do título “Lições Fundamentais”. Repare que o livro, na sua primeira edição, foi comercializado a nível dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Sob proposta da editora vão ser lançadas as edições em francês, inglês e espanhol.

Jornal de Angola - No seu livro, o Professor escreve: “Estudar economia não o faz enriquecer, mas  proporciona-lhe algumas ferramentas que o auxiliam a atingir essa finalidade”. Pode referir  algumas dessas ferramentas?


Redento Maia
- Com certeza que sim. Por exemplo, a estrutura de capitais é uma ferramenta de extrema importância, a nível da gestão empresarial, que permite ao gestor perceber se a sua estrutura de capitais está equilibrada ou desequilibrada de forma desvantajosa, logo qualquer gestor atento à sua estrutura de capitais pode adoptar novos critérios que comprometem de forma positiva a organização no curto, médio e longo prazos.

Jornal de Angola - Prevê a publicação de mais alguma obra especializada em Economia?


Redento Maia
- Como sabe, a escrita por vezes vicia. Por este facto sinto que estou contagiado. Veja que, onze meses após o lançamento da primeira edição (esgotada), vai ser publicada, em Fevereiro de 2016, a segunda edição do livro “Economia-Lições Fundamentais”.

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