Entrevista

''Podemos ter boas estradas e amigas do ambiente''

Guilhermino Alberto |

Aníbal Costa  é licenciado em Gestão de Negócios e Projectos pela Thams Valley University de Londres.

Especialista em ecologia e com experiência em Câmaras Municipais de Londres Aníbal Costa diz ser possível poupar nas estradas
Fotografia: Miqueias Machangongo

Trabalha como consultor nas áreas em que se licenciou, e tem como campos de pesquisa   a Ecologia, Inovação, Contratos, Gestão de Projectos e Gestão Populacional. Foi com este especialista que falámos sobre gestão ambiental, construção e manutenção de estradas. Aníbal Costa diz que Angola pode poupar muito dinheiro se a rede viária for“amiga do Ambiente”. Para isso basta que os empreiteiros utilizem compostos químicos biodegradáveis.

Jornal de Angola - Apesar dos grandes investimentos na rede viária, continuam os buracos, ravinas e em alguns casos, pouca durabilidade nas nossas estradas. É possível travar este flagelo nacional?


Aníbal Costa - Devo dizer que tive a oportunidade de trabalhar e estudar em três países do chamado primeiro mundo, inclusive trabalhei em duas Câmaras Municipais, nomeadamente em Hounslow e Ealing, West London, onde tive contacto directo com o seu sistema de gestão, as boas práticas para preservação do Ambiente e da saúde das populações. Ao verificar o volume de investimento e despesas com a construção e manutenção das estradas,  particularmente as de terra batida, concluí que proporcionalmente o nosso país gasta com essas obras quase três vezes mais do que é necessário, mas com resultados pouco satisfatórios.

JA-Como é que chegou a essa conclusão?

AC - Decidi pesquisar e descobri que na construção e na manutenção das estradas, os países que pretendem poupar recursos, que são sempre limitados para necessidades ilimitadas, utilizam compostos químicos biodegradáveis, não tóxicos, não corrosivos, inofensivos aos seres humanos, fauna e flora, que reduzem de forma significativa os custos e dão mais resistência e durabilidade às obras.

 JA - As autoridades têm conhecimento da existência desses produtos?

 AC - Tenho a certeza que sim.Temos no Executivo engenheiros provenientes de grandes Universidades e de competência inquestionável. Também existem muitas empresas estrangeiras a executar obras de pavimentação, com tais produtos. Por isso, é óbvio que há conhecimento da existência desses produtos biodegradáveis.

JA - O que falta para a utilização de produtos amigos do Ambiente na construção das nossas estradas?

AC  - O Executivo sempre revelou uma atitude muito responsável em relação ao Ambiente. Mas os preços dos produtos ecológicos não encorajam a abandonar as práticas tradicionais de construção de estradas.

 JA - Que produtos são esses?


AC - São basicamente dois produtos. Supressor de Poeira,  que é uma solução de polímero transformada em emulsão, que depois de aplicada na estrada a água evapora-se e as partículas de polímero agrupam-se, formando uma película contínua. Depois temos o Estabilizador de Solos, que é a combinação de enzimas, electrólitos e tensioactivos que funcionam através da libertação de água a partir do solo, o que permite uma compactação para uma forma mais densa. Manipula a argila para ligá-la de forma permanente, aumentando a sua resistência e densidade.Ao usar argila existente nos terrenos por onde passa a estrada, reduz-se significativamente os custos com escavações, aquisição e transporte de inertes.

JA - Esses produtos que aconselha são biodegradáveis?


AC - Depois de testes em países como Canadá, EUA, Brasil, Peru, Equador, México, Rússia, Nigéria, Gana, África do Sul, China e outros, o reconhecimento está na sua  utilização por esses países com resultados satisfatórios. Convido os interessados, a visitarem o website www.cypherenvironmental.com, onde,  a­lém de informação técnica, podem encontrar resultados de testes, testemunhos e certificações nacionais e internacionais que esses produtos receberam ao longo dos anos.

JA - Quer com isso dizer que dispensa o parecer técnico das autoridades angolanas e basta o acesso a um website?

AC- Claro que não. Ao contrário, torna-se indispensável a aprovação e parecer das entidades angolanas. A empresa detentora dos direitos de representação e comercialização exclusiva dos produtos em Angola existe há mais de 15 anos, é de direito angolano e constituída 100 por cento por sócios angolanos. Já tem a aprovação do Ministério do Ambiente desde 2009, e está em contacto com o Laboratório de Engenharia de Angola. Também tem amostras para disponibilizar às Universidades angolanas que o solicitarem.

JA - Já existem no mercado angolano esses produtos?


AC -    O mercado angolano é tão dinâmico que é bem provável que já existam. Porém, com o grau de biodegradabilidade e amigo do Ambiente como esses, não creio que haja.

JA - Chove muito em Angola. Tem a certeza que esses produtos funcionam nos solos angolanos?

AC - Tenho a certeza absoluta, porque o produto de combate a poeiras é eficaz em qualquer tipo de solo e clima. Para a sua eficácia, basta determinar o volume de tráfego, o local alvo e aplicá-lo em conformidade. Quanto ao Estabilizador de Solos, este já requer estudos prévios sobre as características do solo a beneficiar do tratamento: a sua plasticidade, tamanho das partículas, humidade, ­hi­dro­metria e valor da resistência de sustentação do solo.

JA - Como é que esses produtos podem beneficiar as estradas de Angola?


AC - O Supressor de Poeira deve ser usado para minimizar os riscos das poeiras para a saúde. Estima-se  que cada veículo que percorra dois quilómetros por dia numa estrada de terra batida, todos os dias do ano, deposita uma tonelada de poeira num raio de 150 metros. O supressor controlador de poeiras é muito eficaz e um travão das ravinas.

JA - Que equipamentos são necessários para a aplicação desses produtos?

AC -Para o Supressor de Poeira basta uma cisterna de água com pulverizador. O produto não é tóxico, não é corrosivo nem oxidante, portanto não prejudica o equipamento nem faz mal à saúde  de quem o manuseia.A mesma cisterna pode voltar a ser utilizada para o transporte de água potável. Relativamente ao Estabilizador de Solos, este é um produto que quando aplicado em estradas não pavimentadas, reforça a sua resistência através da argila, reduzindo substancialmente o custo da sua construção e consequente manutenção na ordem dos 70 por cento. A estrada pode ficar de cinco a sete anos sem manutenção.

JA - Esse produto biodegradável substitui o asfalto?


AC - Não, mas vai dar ao asfalto mais resistência, durabilidade e redução nas despesas com a preparação das estradas para a sua aplicação, assim como com a manutenção. 

JA - Sabe se esses produtos já foram testados em Angola?

AC -Já foram testados em Luanda e com sucesso.

JA - O valor médio na construção de uma estrada asfaltada, vai de 600 a 850 mil dólares por quilómetro. Esses produtos em quanto vão reduzir estes preços?


AC - Podemos garantir que com a utilização desses produtos na construção e manutenção de uma estrada, as despesas ficam reduzidas em 50 por cento em relação aos métodos tradicionais.

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