Entrevista

“Política fiscal expansionista do Governo angolano deu prioridade a grandes investimentos”

Isaque Lourenço

Segundo Tobias Maier, em Angola, registaram-se desenvolvimentos encorajadores, que são um bom presságio para investimentos estrangeiros como, por exemplo, o recentemente anunciado contrato de protecção de investimentos com Portugal, as actualizações recentes para rodovias, ferrovias e portos, assim como a nova lei de investimento privado que facilita os investimentos estrangeiros

Fotografia: DR

Desde quando é que a DHL opera em Angola e quais são as expectativas para com este mercado?
“O nosso grupo tem uma história muito longa e de que nos orgulhamos em Angola. A nossa empresa Hull Blyth iniciou as operações em Angola em 1847. Em 1984, a DHL começou a oferecer os seus serviços de logística em Angola e, em Maio de 2020, lançámos a nossa mais recente marca, a Saloodo!, a nossa plataforma digital rápida, inteligente e fiável de transporte rodoviário de mercadorias.

Qual é a vossa base de clientes e que serviços oferecem?

A Saloodo! é uma plataforma digital de transporte rodoviário de mercadorias que une os expedidores e os fornecedores de transporte. Estamos a trabalhar com uma base de clientes diversificada, com necessidades de camiões em todos os sectores industriais. Os nossos clientes vão desde pequenos lojistas e empresas recentemente criadas a grandes empresas multinacionais.

Fale-nos um pouco dos vossos investimentos para África, em geral, e Angola em particular...

A DHL tem muito orgulho em estar presente em mais de 220 países e territórios em todo o mundo. Há décadas que estamos presentes em todos os mercados africanos, onde continuamos empenhados nos nossos objectivos de unir pessoas e melhorar vidas. Dispomos de um portfólio abrangente de serviços de logística, incluindo expedição de mercadorias por via aérea, marítima e rodoviária, entregas expressas, armazenamento e logística de contratos e desalfandegamento. Recentemente, lançámos a Saloodo!, a nossa plataforma digital de transporte rodoviário de mercadorias em Angola, para unir expedidores e fornecedores de transporte, assinalando a primeira vez que uma plataforma digital internacional de transporte rodoviário de mercadorias é disponibilizada no país para satisfazer as necessidades de transporte rodoviário das empresas angolanas.

O custo-benefício ainda vos motiva a fazerem mais investimentos em Angola?

Enquanto empresa logística líder no mundo, consideramo-nos facilitadores do comércio e, onde quer que a actividade comercial ocorra, poderemos sempre adicionar valor. Escusado será dizer que a facilidade de fazer negócios, uma instalação eficiente e eficaz da infra-estrutura, baixos custos operacionais e um pipeline de talentos são ingredientes essenciais para atrair investimentos que, por sua vez, impulsionarão o crescimento e a riqueza. Registaram-se desenvolvimentos encorajadores em Angola, que são um bom presságio para investimentos estrangeiros como, por exemplo, o recentemente anunciado contrato de protecção de investimentos assinado com Portugal, as actualizações recentes para rodovias, ferrovias e portos, assim como a nova lei de investimento privado que facilita os investimentos estrangeiros.


Os bons serviços de transporte rodoviário de mercadorias são, geralmente, suportados por uma boa infra-estrutura. Angola oferece estas condições?

Comparando com outros países da região, Angola fez progressos assinaláveis nos últimos anos. A política fiscal expansionista do Governo angolano deu prioridade a grandes investimentos na reparação, expansão e modernização das estradas e das infra-estruturas, tornando finalmente possível o lançamento da Saloodo! pela DHL. Segundo um relatório recente do Banco Mundial, Angola possui uma extensa rede rodoviária, tendo a maioria das redes de estradas principais e complementares cerca de 26.000 km e 17.500 km, respectivamente. Esta rede será fundamental para o sucesso da Saloodo!.

Estas recentes atualizações para estradas, ferrovias e portos são um bom presságio para o sector da logística angolana como um todo. Estou convencido de que este é um momento oportuno para lançar a Saloodo!, ultrapassando os processos tradicionalmente manuais para injectar maior transparência e eficiência no ecossistema do transporte rodoviário de mercadorias. Ao fornecer visibilidade em tempo real, os expedidores podem identificar facilmente transportadoras de mercadorias fiáveis em Angola e em vários países vizinhos para transportarem os seus bens. Isto, por sua vez, ajudará as transportadoras a gerirem as frotas existentes e a optimizarem a capacidade com carregamentos de camiões completos.

Algumas pessoas afirmam que Angola é um verdadeiro centro regional com um enorme potencial. Como planeia maximizar as oportunidades existentes?

África sempre foi um mercado importante para a DHL - o que é óbvio pela nossa presença de longa data no mercado. Específico para os planos da nossa plataforma digital de transporte rodoviário de mercadorias, Saloodo!, o nosso objectivo é ligar extensivamente expedidores e transportadoras locais, porque estamos convencidos de que a digitalização ajuda a facilitar o comércio não apenas dentro do país, impulsionando também atividades na grande região continental. Para tal, é imperativo que pressionemos activamente no sentido de acelerar a digitalização com vista a impulsionar o crescimento do negócio para os nossos clientes. Paralelamente à expansão desta solução em muitos mercados africanos, planeamos unir os pontos e criar uma forte rede de transporte rodoviário de mercadorias em todo o continente africano. Uma das nossas aspirações é, um dia, estabelecermos ligações regulares de transporte rodoviário de mercadorias entre Tanger, Durban e o Cairo.

Anunciaram recentemente o lançamento de um novo produto / serviço.Fale-nos um pouco mais disso.

Após lançarmos a nossa plataforma digital de transporte rodoviário rápida, inteligente e fiável, a Saloodo!, na Europa, em 2017, iniciámos a sua expansão para o Médio Oriente em Maio de 2019 e para África no Outono de 2019. A ideia principal é fornecer uma opção fácil e contínua para expedidores que necessitam de opções para mover carga com transportadoras e camionistas com a capacidade necessária. Tudo está organizado na nossa plataforma digital de última geração e acesso gratuito - pode enviar solicitações de expedição, enviar ofertas, fazer reservas, rastrear os seus envios e organizar toda a sua documentação num só lugar. As transportadoras que estão a submeter propostas passam por um processo de verificação antes de se poderem envolver na plataforma. Isto tem como objectivo garantir que cumprem os nossos padrões rigorosos e, por fim, que todas as relações contratuais sejam organizadas através da nossa entidade DHL, proporcionando tranquilidade a todas as partes.

Qual será o impacto desta solução?

O mercado mundial de camiões, apesar de ser um dos maiores sectores e contribuidores para o PIB global, ainda caracteriza-se por um enorme nível de fragmentação e ineficiências. Queremos nivelar o campo de actuação de todos os participantes do mercado para fazer melhor uso das infra-estruturas e dos activos de logística existentes, em particular dos camiões. Se eu for um expedidor, não tenho de passar horas ao telefone ou no e-mail a procurar motoristas que possam tratar da minha carga. Basta publicar um pedido e receberei várias ofertas num curto espaço de tempo que posso reservar imediatamente. Se eu for uma transportadora, posso maximizar a utilização dos meus camiões - e, acima de tudo, depois de fazer uma entrega, posso procurar imediatamente uma carga de retorno que permita aumentar o meu rendimento ao mesmo tempo que se reduz o tráfego.

A crise do consumidor e a fraca procura do mercado não inibem as vossas intenções?

Embora ainda não tenhamos percebido completamente qual será o impacto económico da pandemia, o que esta situação demonstrou foi a importância das soluções e ofertas digitais. Como tal, a crise fortaleceu ainda mais a nossa convicção de que os esforços que realizámos na digitalização do negócio ao longo dos últimos anos nos colocaram no caminho certo para o crescimento no futuro. Esta continua a ser uma das principais áreas de foco da agenda de crescimento do Grupo para os próximos cinco anos – “Strategy 2025 - Delivering Excellence in the Digital World”.

Em termos práticos, quais os benefícios e vantagens que as vossas soluções apresentam para as pessoas comuns?

Há aqui vários aspectos. Para as pessoas activamente envolvidas nos processos de transporte rodoviário, ajudaremos a reduzir o tempo perdido na busca de fornecedores que possam gerir as necessidades de capacidade, oferecer novas oportunidades para aumentar o rendimento, economizar custos e reduzir os prazos de entrega.

Também esperamos ter um impacto positivo na população em geral - uma melhor organização dos camiões resultará em menos tráfego e poluição e ajudará as empresas a reduzirem os seus custos logísticos. Em última análise, isto resultará em preços para o consumidor inferiores na cadeia de abastecimento.

Podemos esperar a criação de novos empregos, o aumento dos níveis de rendimento, uma força de trabalho mais qualificada e maior confiança externa no mercado angolano?

Um dos três pilares principais da nossa estratégia é sermos um dos melhores empregadores. Para atrair e desenvolver uma força de trabalho altamente qualificada e motivada, criámos o nosso programa certificado de longa duração que garante que, de forma global, as nossas equipas são formadas nos principais fundamentos com vista a adoptarem um nível de serviço padronizado para os nossos clientes. Como parte deste programa, formamos, desenvolvemos e aperfeiçoamos continuamente os nossos funcionários. Acreditamos convictamente que os investimentos que fizemos na contratação de especialistas locais e no reforço da nossa rede em África produzirão resultados com vista a garantir que podemos continuar a oferecer excelência aos nossos clientes.


Receia que uma possível falta de transparência em Angola possa afectar adversamente as vossas operações comerciais?

Aumentar o nível de transparência num ambiente de mercado altamente fragmentado é uma das nossas principais funções. Assim sendo, na minha opinião, consideraria esta uma grande oportunidade para a nossa plataforma Saloodo!, pois agora podemos injectar maior transparência e eficiência no ecossistema do transporte rodoviário de mercadorias. Ao fornecer visibilidade em tempo real, os expedidores podem identificar facilmente transportadoras de mercadorias fiáveis em Angola e em vários países vizinhos para transportarem os seus bens. Isto, por sua vez, ajudará as transportadoras a gerirem as frotas existentes e a optimizarem a capacidade com carregamentos completos de camiões.

Está a monitorizar o processo de privatização? Como avaliaria o ambiente empresarial que o Estado deseja introduzir e aplicar no sector privado?

Somos facilitadores do comércio e estamos sempre prontos a satisfazer as necessidades dos nossos clientes.

Portos, aeroportos e estações são essenciais para o seu negócio. Os existentes em Angola cumprem os requisitos do seu negócio?

Angola é uma parte importante da nossa rede aqui no continente e estamos a investir em soluções importantes como a Saloodo! para apoiar ainda mais as necessidades dos nossos clientes. Vemos cada vez mais investimentos nas infra-estruturas por parte do Governo, tal como a melhoria do fluxo de tráfego no Porto de Luanda e a construção de um novo porto comercial na Barra do Dande (norte de Luanda), aumentando assim a acessibilidade de Luanda do ponto de vista logístico – sendo que todos estes movimentos vão numa direcção positiva e permitem o crescimento da economia.

Consegue dar-nos uma descrição geral dos movimentos de carga nos últimos 3 anos?

Enquanto empresa, está a correr bem em todo o mundo, e isso não é excepção para esta região. Em geral, os volumes de carga estão a crescer, mas estamos a acompanhar a dinâmica das mudanças para garantirmos que estamos a par do mercado e ajustamos as nossas posições para nos adaptarmos. A pandemia actual teve um efeito desestabilizador na capacidade, dadas as restrições em termos de fronteiras e deslocações, mas conseguimos obter sucesso na nossa extensa rede global e parceiros em soluções alternativas.

Qual é a parte de Angola nestes números?

Angola é um mercado importante para nós na região do Médio Oriente e África. Como parte de uma empresa de capital aberto listada no DAX, não disponibilizamos uma discriminação dos nossos números por país.

Os clientes estão satisfeitos com o desempenho e a rapidez das vossas operações?

Os nossos clientes apreciam os nossos serviços, o acesso à nossa rede global e as ferramentas que desenvolvemos e implementámos nos últimos anos. Especialmente durante esta pandemia da Covid-19, os nossos clientes apreciam muito o facto de conseguirmos oferecer soluções e manter cadeias de abastecimento a funcionar.

Transporte mundial de cargas em crise

O transporte aéreo mundial de cargas apresentou uma queda de 3,3 por cento em 2019, na comparação com o ano anterior.

Foi o primeiro ano em que o sector apresentou retracção desde 2012 e é o pior desempenho desde a crise financeira mundial de 2009, quando o frete aéreo global sofreu uma queda de 9,7 por cento. Os números são da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA). A entidade reúne as 290 maiores empresas de aviação do mundo, que juntas respondem por 82 por cento do tráfego aéreo mundial.

De acordo com agências, o actual cenário de encerramento de fábricas, cortes nas cadeias de abastecimento de algumas indústrias e as restrições no transporte internacional estão a provocar um impacto significativo em muitas empresas de transporte de mercadorias.

A ANTRAM, associação que representa cerca de duas mil empresas de transporte rodoviário de mercadorias e um total de oito mil empresas do sector, estima que a presente crise implicará, apenas num mês, perdas de 439 milhões de euros.

Segundo uma projecção da ANTRAM, citada pelo português Expresso, a associação estima que o sector tenha incorrido em perdas de 70 milhões de euros na semana de 15 a 22 de Março e de 108 milhões na semana seguinte, quando a pandemia da Covid-19 começou a alastrar-se por vários países. Estimativas apontam para a ocorrência de perdas na ordem dos 261 milhões de euros em duas semanas.


Situação na China

As empresas que transportam mercadorias para dentro e fora da China estão a lidar com uma forte alta nos preços do frete aéreo devido à drástica redução do número de voos em operação no país, uma das consequências da epidemia do novo coronavírus.

Os preços para enviar cargas do aeroporto de Frankfurt, na Alemanha, para o de Xangai Pudong, por exemplo, subiram de 0,86 euros por quilo para 2,55 euros ainda recentemente, de acordo com o TAC Index, consultora que analisa dados do frete aéreo.

A alta no custo do frete complica os esforços das empresas chinesas de manter o suprimento das linhas de produção, já afectadas pelas quarentenas impostas pelo governo local para impedir a propagação da Covid-19.

O número de voos de carga na China caiu 80 por cento desde o início da pandemia, segundo Lilian Chiu, director da Hankyu Hanshin Express, de Hong Kong.

O mesmo ocorreu com os voos domésticos e internacionais de passageiros, também usados no transporte de mercadorias.

Visão da Nações Unidas

A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que o volume global de transporte de mercadorias em 2020 venha a cair um terço, devido à crise trazida pela Covid-19.

Numa recente nota intitulada “Pedido conjunto pela facilitação de transportes e para países em desenvolvimento sem saída para o mar”, a entidade exorta líderes do globo a suspenderem restrições comerciais injustificadas, bem como cancelarem bloqueios económicos nas fronteiras para conter o avanço do coronavírus que possam ser solucionados de outra forma.

“A maioria das medidas em resposta à Covid-19 isentou o transporte de mercadorias essenciais, ao mesmo tempo que introduziu requisitos sanitários essenciais. Mas isso não significa que as cargas tenham sido capazes de circular livremente. O fecho de fronteiras, restrições de viagens e triagem aumentada resultaram em longas filas nas fronteiras terrestres e congestionamentos em portos e aeroportos em todo o mundo”, diz o documento, também assinado pelo secretário da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), Mukhisa Kituyi.

A ONU destacou que o impacto maior tem se dado sobre países em desenvolvimento sem acesso ao mar, que, diante das restrições impostas por agentes sanitários, acabaram por perder espaço no comércio internacional e, assim, viram as condições económicas e sociais se deteriorarem rapidamente.

“Solicita-se aos sectores públicos e privados que trabalhem em estreita colaboração para facilitar o comércio e o transporte e manter o funcionamento das cadeias de suprimentos e das operações de frete transfronteiriço”, completa a entidade multilateral.


Perfil

Tobias Maier
cresceu numa pequena aldeia na Alemanha, não muito longe de Estugarda.

Juergen Klopp, treinador do Liverpool FC, jogou lá futebol na sua juventude

Após estudar economia

trabalhou durante alguns anos na indústria de FMCG em Zurique, na Suíça, antes de entrar para a Deutsche Post DHL em 2008

Desempenhou várias funções escritórios em Bona (Alemanha), Londres (Reino Unido), Joanesburgo (África do Sul) e agora no Dubai (Emirados Árabes Unidos)

 

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