Entrevista

"Portugal foi ocupado e é vendido a patacos"

Guiomar Belo Marques| Lisboa

Foi um dos protagonistas da Revolução dos Cravos e é presidente da Associação 25 de Abril. Vasco Lourenço tem sido uma voz activa e incómoda para o actual poder em Portugal, que ele considera já nada ter a ver com os valores que levaram os militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) a acabar com o regime fascista, há 40 anos.

Protagonista da Revolução dos Cravos
Fotografia: Cedida pela Associação 25 de Abril

A sua passagem pela Guiné, na qualidade de oficial do exército colonial português, marcou-o de forma determinante. Permitiu-lhe perceber melhor o que se passava no seu país, mas também que os povos que lutavam pelas suas independências é que estavam do lado certo da guerra.

Jornal de Angola - A 24 de Setembro de 1973, a Guiné-Bissau declarou unilateralmente a independência. A primeira reunião do MFA foi a 9 de Setembro. Há relação entre estes factos?

Vasco Lourenço
- Não é só a Guiné. Sem a guerra colonial não tinha havido o 25 de Abril. A  guerra colonial tem uma influência absolutamente decisiva. Desde logo, abrindo-nos os olhos para a situação em Portugal. Éramos militares do quadro permanente, educados na defesa da pátria, de que a guerra era justa, que estávamos a defender o que era nosso.

JA - Quando percebeu que não era assim?


VL - Na Guiné abri os olhos e percebi o que aquela guerra era injusta, que eu estava lá a mais, que quem estava numa posição correcta era quem estava a lutar pela sua liberdade e independência, e, portanto, meti dentro de mim próprio que não voltava mais à guerra e que quando voltasse para Portugal ia fazer tudo para alterar a situação.

JA - Spínola teve influência?

VL
- Sou muito suspeito a falar dele, porque tenho uma péssima opinião da sua prática, mas o general Spínola teve uma coisa muito positiva: permitiu que se criasse um ambiente em que foi possível discutir abertamente o problema da guerra, que tinha de ter uma solução política e não uma solução militar. É isso que começa a influenciar os militares até nos levar ao 25 de Abril.

JA - Era preciso trocar as armas pelo diálogo?

VL - A guerra tinha de ter uma solução política, a via militar não é solução para nenhuma guerra. É, de facto, da Guiné, que sai a primeira onda de contestação ao Congresso dos Combatentes, de 1 a 3 de Junho de 1973, que é, em certa medida, aquilo que antecede a conspiração do Movimento das Forças Armadas (MFA).

JA - A Guiné era onde a tropa portuguesa morria mais?

VL - Era de facto o sítio mais complicado, com mais combates, com mais baixas, portanto, era a colónia pior. A guerra colonial abriu-nos os olhos, deu o motivo principal para nos unirmos e percebermos que para resolver o problema colonial tinha de se resolver o problema em Portugal. Portanto, há uma relação directa. Além disso, deu-nos a experiência militar que nos ajudou a fazer a conspiração e a delinearmos o 25 de Abril.

JA - Na planificação estratégica?

VL
- A guerra colonial permitiu que o 25 de Abril fosse a operação militar melhor planeada, executada e com melhores resultados que alguma vez as Forças Armadas portuguesas fizeram ao longo da sua história.

JA - Os povos que lutavam pela sua libertação são invencíveis?

VL
- Quem luta pela sua liberdade e pelos seus ideais é invencível. E uma guerra daquelas nunca se ganhou em lado nenhum, desde que os movimentos de libertação tenham o apoio das suas populações.

JA - Mesmo com menos meios?

VL - Sim, embora na Guiné o PAIGC tivesse meios importantes, começaram a ter melhor material que nós. Os meios que os guerrilheiros do PAIGC tinham eram superiores aos que nós tínhamos. E depois vieram os mísseis terra-ar, o que complicou tudo, porque nos tiraram o domínio do ar, que era fundamental para aquele tipo de guerra.

JA - Algum episódio em particular lhe abriu os olhos?

VL
- O momento crucial foi quando vi um miliciano, que estava ao meu lado, que foi infiltrado pelo PAIGC, morrer numa emboscada. Isso levou-me a pensar: mas afinal o que é que faz estes homens colocarem-se numa situação em que acabam por ser mortos pelos próprios companheiros? Para mim foi um clique. E debati, na altura, com os meus companheiros, que estávamos ali a mais, tal como disse aos meus homens: “a partir de agora não vamos fazer mais acções ofensivas, agora só vamos fazer acções defensivas”.

JA - A guerra colonial acabou com ela própria?


VL - É evidente que o 25 de Abril acabou por ajudar a que as independências fossem mais fáceis e mais rápidas. Ninguém deu a independência a ninguém. Todas foram conquistadas através de lutas,  a maior parte das vezes armadas. Nós, com o 25 de Abril, ajudámos a que fosse mais fácil, mas não tenho a veleidade de dizer que fomos nós que demos origem aos novos países.

JA - Pode dizer-se que no 25 de Abril o MFA foi o herói?

VL - A humildade a mais é uma vaidade, mas tenho a noção que nós, na verdade, fizemos uma coisa única. Não há situação semelhante à que nós fizemos. Pelo contexto todo e pelo facto de o termos feito por valores e não por interesses individuais. Por não querermos ficar com o poder e instituirmos a democracia, ao devolver o poder aos eleitos. É evidente que isso nos faz ficar na História, quer queiramos quer não.

JA - Rejeitaram o poder que conquistaram?

VL - Os militares de Abril tiveram o poder e não usufruíram dele para interesse próprio. Não aproveitaram para enriquecer, nem para arranjar tachos aqui ou ali. O pior que pode acontecer aos oportunistas, que ocupam o poder e depois o usam mal, são os heróis vivos, porque os heróis mortos não fazem mal a ninguém.

JA - Está a referir-se às comemorações deste ano no Parlamento?

VL - Nós não queremos nada, mas temos o direito de ser cidadãos iguais aos outros, de corpo inteiro. Portanto, se um cidadão normal pode influenciar decisões, nós também o queremos fazer. Mas quando damos opiniões, aqui d’el rei, lá estão eles armados em donos do 25 de Abril. Temos a postura que temos e se a nossa opinião tem peso, é porque as pessoas acham que nos devem prestar atenção.

JA - Os Capitães de Abril foram impedidos de falar no Parlamento por medo do que têm para dizer?

VL
-. O nosso posicionamento quando fomos convidados foi o de mantermos aquilo que fizemos há dois anos e no ano passado e que foi dizer: não vamos! Consideramos que as condições que nos levaram a não ir há dois anos e no ano passado não só se mantêm como se agravaram. A política que está a ser praticada não tem nada a ver com o 25 de Abril, muito pelo contrário. Estão a destruir tudo o que tem a ver com o 25 de Abril. E nós não aceitamos ir ao Parlamento para ser a cereja em cima do bolo ou a florzinha dentro da jarra.

JA - Era essa a situação, se os Capitães de Abril não discursassem?

VL - Claro que era. Mas não podemos fazer de conta que não se está a passar o que se passa no país. E agora vamos bater umas palmas aos militares de Abril! Não aceitamos isso e dissemos: não vamos, acabou. A presidente da Assembleia da República insistiu que eram 40 anos, que nós éramos insubstituíveis, que éramos imprescindíveis, que a cerimónia seria uma coisa totalmente diferente sem a nossa presença e portanto insistiu bastante para irmos.

JA - Qual foi a resposta que lhe deu?

VL
- Perante a insistência eu disse-lhe: senhora presidente há uma maneira de eu convencer os meus camaradas de direcção a alterarmos a nossa posição, que é deixarem-nos usar da palavra para dizermos aquilo que pensamos. Para dizermos isto: “deixem lá de nos estar a aplaudir e de nos estarem a dar palmadinhas nas costas e tratem de parar de destruir o que eu ajudei a construir”. Esta frase que corre nas redes sociais e nos mails é atribuída ao meu camarada Salgueiro Maia.

JA - Era essa frase de Salgueiro Maia que os Capitães de Abril queriam ir dizer à Assembleia da República?


VL – Era apenas isso que nós queríamos ir lá dizer. As loas não nos servem de nada, nós queremos é que pratiquem uma política de acordo com os valores de Abril. Acharam que não. Pronto, estão no seu direito, têm esse poder, nós não vamos. O que não significa que estejamos contra a instituição Assembleia da República. Mas vamos dizer aquilo que pensamos noutro sítio, simbólico.

JA - No Quartel do Carmo, onde caiu o fascismo. Vão ter uma multidão, como há 40 anos?


VL - Estou convencido que vai ser maior.

JA - A independência nacional está posta em causa?

VL - Sim, sim e de que maneira. Considero que, neste momento, estamos ocupados, só falta a bota cardada a pisar-nos. Estamos a ser vendidos a patacos permanentemente. Tudo o que é de valor está a ser vendido aos estrangeiros.

JA - Incomoda-o que os angolanos invistam em Portugal?

VL - Não, não, pelo contrário Angola é um país independente. O 25 de Abril permitiu, felizmente, que as relações com os novos países fossem amigáveis. É evidente que com Angola as coisas foram sempre muito mais complicadas, porque o problema angolano em Portugal fez sempre parte da política interna portuguesa. Houve sempre uma relação muito especial e estreita entre portugueses e angolanos.

JA - Como vê as relações agora?

VL – Tive a oportunidade de um dia dizer ao Presidente José Eduardo dos Santos, com quem mantive sempre muito boas relações e vários contactos, que compreendo mas não aceito a postura de Portugal em relação a Angola. Porque nós olhamos para Angola como o desgosto de ter visto o filho que se emancipou e saiu de nossa casa. O pai tirano, que gosta de ter tudo sob controlo, apesar da felicidade do filho.

JA - Mas só foi assim com este filho, não é verdade?

VL - Precisamente porque a relação com Angola é muito forte. E, portanto, nós olhamos para ali com pena de não continuar a controlar o filho. Mas, por seu lado, o filho que se emancipou reage sempre muito pior com o pai de quem se emancipou do que reage em relação a outros. E aceita menos qualquer coisa, qualquer recriminação, do que aceita de outro lado. Aceitam sempre muito pior uma crítica de Portugal do que, por exemplo, da França, quando a França tem atitudes muito piores.

JA - Há mágoas?


VL
- Não digo que haja mágoas. O filho emancipou-se e ainda bem que se emancipou. O pai que perdeu o filho ainda não assumiu que o filho já é independente, já saiu de casa, e portanto há aqui uma relação de amor, de ligação, que cria situações que também existem nas famílias. Depois, também tem a ver como se formam as fortunas em Angola.

JA – Alguém comenta como se formaram as fortunas em Portugal?

VL
- Com certeza, com certeza! E ninguém comenta como se formam noutros sítios. Cá em Portugal são muito mais intransigentes com Angola. E, depois, há aquela interrogação: “mas se eles foram colónias nossas como é que são eles agora que estão aqui a investir?” Não querem perceber que Angola é um país independente e ainda bem que os angolanos estão cá a investir. Eu estou à vontade, nunca me passou pela cabeça que  os angolanos queiram colonizar Portugal!

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