Entrevista

Práticas culturais prejudicam combate ao Ébola

Josina de Carvalho |

O virologista angolano Jaime Lobo recomenda aos Estados africanos a disseminação a todos os níveis de informações sobre o alto grau de contágio do vírus do Ébola, incentivando a eliminação de práticas culturais que facilitam a sua multiplicação e propagação.

Especialista defende o estudo e a investigação para obter estratégias de combate aos vírus
Fotografia: Dombele Bernardo

 Em entrevista ao Jornal de Angola, o único médico veterinário angolano doutorado em doenças virais transmitidas por mosquitos, defende a união de todos os países do continente para combater a doença e os aconselha a não ficarem dependentes da ajuda da comunidade internacional. No seu ponto de vista, África não tem ainda recursos humanos suficientes para fazer face à situação, mas pode juntar meios financeiros para elaborar estratégias de combate ao Ébola e outras epidemias cíclicas.

Jornal de Angola -
A Guiné-Conacri, Serra Leoa, Libéria, Senegal, Nigéria e República Democrática do Congo continuam a registar vítimas mortais e casos suspeitos de Ébola. Como é que estes países podem controlar a doença?

Jaime Lobo – Não é possível controlar da mesma forma, porque cada país tem os seus hábitos e costumes, que são muito importantes no momento da elaboração das estratégias de combate à disseminação do Ébola. Este vírus dissemina-se pelo contacto com o sangue e pelas secreções corporais, como a urina, esperma, saliva, lágrimas,suoresecreções vaginais. Até um morto vítima do Ébola é uma fonte de contágio. Muitos não acreditam e mantêm a forma de se relacionar com esses corpos e com outras pessoas vivas. Não difere muito da nossa cultura, mas há especificidades na base das quais cada país tem de montar as suas estratégias para evitar o contágio.

JA -Se já se conhecem as formas de transmissão, por que razão se assiste ao avanço incontrolável da doença?


JL- O vírus do Ébola éaltamente contagioso. África, com o seu clima tropical e os seus costumes, tem condições propícias para a multiplicação e perpetuação do vírus. Tudo isso, adicionado à falta de informação e à ignorância, leva-nos a situações como a actual. As pessoas estão em pânico e muitas, por falta de conhecimento, acreditam estar enfeitiçadas. No entanto, qualquer informação científica que se dissemine ­para as proteger causa ainda mais confusão.

JA-Como é que os africanos devem lidar com esta situação?

JL- Temos tido até agoraum comportamento incorrecto que está associado à falta de capacidade científica para interpretar as coisas. Pensamos sempre que os nossos problemas são resolvidos com ajuda externa. Este problema deve ser resolvido com ajuda interna. Temos de estudar e aprender cada vez mais o que se passa connosco, para montarmos as estratégias de combate à doença. Quem tem conhecimento deve disseminar e garantir que chegue a todo lugar e estracto social de qualquer sociedade africana.

JA -Angola está no grupo dos países africanos em o risco de ser afectado pelo vírus do Ébola. Que medidas podem ser tomadas para impedir que tal aconteça?


JL- Deve-se disseminar a informação e garantir que as medidas de protecção estejam a ser aplicadas. Soube que o Executivo comprou sensores de medição de temperatura para instalar nas fronteiras e aeroportos. Mas é preciso também fazer o acompanhamento do estado de saúde das pessoas que vêm dos países afectados, pelo menos durante 21 dias, porque o vírus pode estar encubado na altura que elas passam pela máquina. Esse a­companhamento pode ser feito por telefone.

JA - A suspensão de voos para os países afectados pelo Ébola é uma medida necessária?

JL
-É uma medida de protecção e deve ser respeitada. Mas penso que prevenir é também ajudar esses países a livrarem-se da doença. O povo da Libéria está deprimido e sente-se incapaz de controlar o vírus. O mundo tem de ajudar os países afectados a resolver este problema, mas a preocupação maior deve ser de todos os africanos.

JA -Uma medida de biossegurança muito recomendada é a lavagem das mãos. É verdade que essa medida pode evitar o contágio do Ébola em 50 por cento?


JL-O vírus, depois de identificar a célula receptora, faz o primeiro contacto, aderência, fusão das membranas e penetração do material genético dessa célula. Este processo leva 15 minutos e durante esse tempo ele não precisa de energia para a penetração. Significa que se a pessoa lavar as mãos antes dos 15 minutos pode evitar o contágio.

JA - Que outras medidas devem ser tomadas?

JL-
O país tem de se manter em estado de alerta, porque o Ébola é um tipo de vírus que pode ser usado para guerras biológicas. E quem está a prosperar no mundo, como Angola, tem de ficar atento a acções de má fé que podem descontrolar o país. Na eventualidade de ser detectado um vírus, pode acontecer um pânico tremendo, mas acredito que isso vai nos capacitar ainda mais e fazer-nos reunir forças para conter o vírus.

JA - Porque o Ébola é tão mortífero? />
JL-O Ébola é composto de aminoácidos ribonucleicos, passível de muitas mudanças e de escapar da protecção imunológica humana e animal. Cada vez que passa de uma pessoa para outra ou de uma espécie animal para outra, aumenta a sua virulência e causa mais danos aos seres vivos. Mas ao morcego, que é o seu reservatório natural, não.

JA - Os vírus do Ébola e do Marburg provocam os mesmos sintomas. Têm alguma relação?

JL-São da mesma família. Em termos clínicos, não há diferenças. Mas o vírus do Ébola, durante a invasão da célula receptora, produz uma glicoproteína que o Marburg não produz. O resto é tudo igual.

JA -Qual é o tratamento específico para combater o Ébola?

JL-É a vacina ou o soro, que são os anticorpos monoclonais. Este soro produz-se extraindo os anticorpos da pessoa que sobreviveu à doença. Depois, filtra-se até subtrair as imunoglobulinas. Estes anticorpos são incorporados nas células cancerígenas, criando assim um híbrido cancerígeno que se multiplica sem fim. O anticorpo multiplicado é extraído e purificado, podendo ser injectado nos pacientes. Mas em situação de crise, é possível tirar sangue de um indivíduo que sobreviveu à doença e injectar no músculo daquele que apresenta os primeiros sintomas. O resultado só é positivo antes de o vírus causar danos irreversíveis, como hemorragias internas e externas.

JA - Se parece fácil, porquê que ainda não foi desenvolvida uma vacina?

JL-Produzir uma vacina e colocar no mercado leva muito tempo por razões de experimentação e administrativas. Com o Ébola, por se tratar de uma doença tão virulenta e estar a causar elevados danos, a preocupação é maior, mas não será tão cedo como se pretende. E quando for produzida vai custar muito caro e beneficiar um número reduzido de pessoas, talvez, numa primeira fase, os funcionários da saúde.

JA -Quanto tempo leva produzir uma vacina?

JL-
Não quero especular. Trabalhei com hibridomas, células que se multiplicam sem parar, e tínhamos de mudar os alimentos destas células a cada três dias e mudar de frasco a cada semana. O frasco ficava completamente cheio destas células. Portanto, se tenho todos os mecanismos, em uma semana tenho células suficientes. Não sei qual é a quantidade de anticorpos que podemos tirar daí, mas em um mês, trabalhando sem dormir, há progressos.

JA -Até ser testada, o tempo é muito maior?


JL- Ao produzir a vacina,a primeira análise que se faz é laboratorial. Quando a hibridoma se multiplica, tenho o anticorpo. E se produz o hibridomas em uma semana, com o anticorpo incorporado, e depois purifico essas células, selecciono e junto ao vírus no laboratório, no fim do dia sei como ele vai se comportar.

JA -Então, Angola pode combater o vírus da Ébola?


JL- Sim. Temos é de ter dinheiro, recursos humanos e científicos para multiplicar os nossos conhecimentos e juntar uma geração de angolanos que comece a pensar nas doenças virais. Dizemos que já não há febre-amarela em Angola. Mas um dia podemos nos assustar com a existência de casos desses. Não quero criar polémica.

JA - Em situação normal, que tipo de assistência deve receber um paciente com Ébola?

JL-A única terapia disponível é a reidratação, que é a restituição dos líquidos e eletrólitos que o paciente vai perdendo com a perda intensa do sangue, que nem sempre há. Em geral, o indivíduo com Ébola morre por perda de sangue (hipotensão) e por disfunção dos órgãos vitais. Portanto, na fase em que os sintomas são idênticos aos da Malária, sem ocorrência ainda da hemorragia, a reposição dos líquidos pode salvar o paciente. Mas se ele estiver já com hemorragia, tem poucas possibilidades de sobreviver. Por isso, as pessoas devem estar em estado de alerta para reconhecer os sintomas e irem rapidamente ao posto de saúde mais próximo.

JA - O surto actual é o maior registado desde que a doença foi descoberta, em 1976. Como evitar o surgimento de outros em maior ou menor grau?

JL-
Este surto é o maior registado em todo o mundo. Para evitar, a solução é produzir a vacina. Como virologista, desafio os jovens formados em Biologia a pesquisarem sobre os vírus para a produção de vacinas, por causa da futura guerra biológica no mundo. África não está livre disso. Podemos sofrer porque não temos meios, nem capacidade para descobrir os vírus. É o que está a acontecer. Se nós os africanos não mudarmos de atitude depois deste surto, vamos sofrer muito mais. Devemos fazer com frequência a vigilância epidemiológica activa para a descoberta de vírus no ecossistema, antes que atinja os humanos.

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