Entrevista

Prestação dos serviços de saúde é aceitável

Manuela Gomes |

A Sociedade Angolana de Pediatria organiza, a partir de amanhã até ao dia 24, a sétima edição das Jornadas Médicas. Especialistas em pediatria levam à discussão vários temas relacionados com a assistência médica destinada às crianças.

O médico afirmou que o sistema de saúde tem evoluído com a municipalização dos serviços
Fotografia: Domingos Cadência

A Sociedade Angolana de Pediatria organiza, a partir de amanhã até ao dia 24, a sétima edição das Jornadas Médicas. Especialistas em pediatria levam à discussão vários temas relacionados com a assistência médica destinada às crianças. O porta-voz das jornadas, César Freitas, concedeu uma entrevista ao Jornal de Angola, em que faz uma síntese daquilo que são os serviços pediátricos prestados em Angola, onde há ainda um défice acentuado de médicos especializados. “Pediatria no ambulatório” é o principal tema que junta a comunidade de médicos pediatras.



Jornal de Angola - A Sociedade Angolana de Pediatria foi criada com que objectivos?

César Freitas
- A SAP é uma Organização Não-Governamental sem fins lucrativos e tem como objectivo congregar todos os profissionais que trabalham com a criança.

JA - Como surgiu a iniciativa que resultou na criação da sociedade?

CF
- Surgiu há muitos anos quando dois conceituados médicos pediatras, o doutor Luís Bernardino, actual director do Hospital Pediátrico de Luanda “David Bernardino”, e o malogrado doutor Nimi Ambrósio participaram num congresso africano sobre pediatria. Os dois médicos acharam que Angola devia ter uma instituição que agrupasse os especialistas pediatras para zelar e promover a saúde da criança. Foi assim que se deu corpo à criação da Associação Angolana de Pediatria, que foi proclamada em 2007.

JA - Que contribuições têm dado para a melhoria dos serviços de saúde destinados à população infantil?

CF
– Contribuímos através da formação de profissionais na área e da sensibilização da sociedade em torno do problema da saúde da criança. Temos realizado jornadas de formação em algumas províncias, onde procuramos chamar a atenção das pessoas para os problemas específicos da saúde, como as doenças agudas e outras que vitimam as nossas crianças. Procuramos sempre trabalhar em parceria com os governos locais.
JA - Como avalia o estado dos serviços de pediatria em todo o país?
CF - A prestação dos serviços de saúde destinados à criança a nível nacional felizmente é aceitável, embora reconheçamos haver poucos médicos pediatras, uma realidade que não se coloca muito em relação a Luanda, onde existem cerca de 50 médicos pediatras. Devido ao défice de pediatras, somos obrigados a trabalhar com outros prestadores da saúde, como enfermeiros.

JA – Há províncias em que o técnico de saúde que cuida de crianças tem apenas conhecimentos de enfermagem?

CF
– Em algumas províncias, o que acontece é que quem cuida da criança geralmente são os enfermeiros, o que, para nós, também é uma mais-valia. O que é necessário é dotar esses técnicos de conhecimentos para serem capazes de detectarem e darem respostas aos problemas relacionados com a criança.

JA – A saúde da criança não pode ficar comprometida?

CF
- Muitos pensam que, pelo facto de ser atendida por um enfermeiro, diminui a precisão do problema. Mas não! É por isso que existem vários programas que a Sociedade Angolana de Pediatria apoia, como o de Atendimento Integral à Criança e o de Atendimento à Malnutrição. Este último visa proporcionar protocolo que são formas pautadas de como o enfermeiro deve actuar.

JA - O país está bem servido de médicos pediatras?

CF
- Ainda não da forma como nós desejamos. Temos de continuar com a promoção de iniciativas de capacitação e de formação de mais especialistas. O que temos de fazer é adequar o número de especialistas ao número da população. Mas ainda assim estamos num bom caminho.

JA - A política de municipalização dos serviços de saúde pode corrigir as insuficiências que ainda se registam a nível da assistência primária de saúde? 

CF
- Estamos num processo de municipalização dos serviços de saúde. Temos que garantir ao público doente informações de confiança. Para isso, temos de garantir nas unidades sanitárias profissionais competentes.

JA - Existe uma matriz relativamente à assistência médica pediátrica?

CF
- A pediatria em Angola resolve-se a partir da base. Daí que são vários os aspectos que precisamos de aperfeiçoar para uma boa saúde, como os aspectos da economia e educação. O sistema de saúde está a evoluir com a municipalização. Temos de criar condições para que a saúde não fique atrás. Se queremos levar a saúde com qualidade à periferia temos de apostar na formação e na edificação de infra-estruturas.

JA - Quantos médicos pediatras angolanos o país formou?

CF
- De uma forma aproximada, os médicos pediatras formados em Angola estão à volta de 80. Actualmente, ainda existem muitos em formação, o que é uma mais-valia. O hospital pediátrico tem um programa de formação que integra todos os médicos que querem inserir-se na área da pediatria

JA - Qual é o número desejável para a cobertura nacional?

CF
- O que normalmente as organizações internacionais sugerem é um médico para mil habitantes. Pessoalmente, não fico muito frustrado com os números. Não são os números que determinam a prestação de uma assistência médica aceitável ou não. Penso que o que devemos fazer é organizar-nos cada vez mais e trabalhar com outros profissionais e com os materiais e instituições de que o país dispõe. É esta a filosofia da Sociedade Angolana de Pediatria. Vamos todos trabalhar para proporcionarmos uma boa saúde às nossas crianças.

JA - Qual é a província com maior carência de pediatras?

CF
- As províncias com maior carência de médicos pediatras são o Cunene, Zaire e Moxico. Mas, como já disse, esta situação não pode constituir um ponto fraco. O que é preciso é fazer com que os que estão no terreno possam ter capacidade de responder aos problemas da criança. A falta de profissionais no momento pode ser superada se as condições forem devidamente criadas.  

JA – O Hospital Pediátrico de Luanda recebe doentes doutras províncias?

CF -
O que acontece, hoje em dia, desde que alcançámos a paz, há dez anos, é que as pessoas circulam e se comunicam, e o hospital pediátrico está a ser cada vez mais procurado, principalmente por doentes vindos do interior do país, especialmente de áreas das províncias do Cunene, Zaire e Moxico.

JA - Como deve ser encarada pelo Ministério da Saúde a formação de médicos para que diminuamos a cooperação estrangeira?

CF
- O Ministério da Saúde  deve apostar sempre na formação dos médicos nacionais, em todas as especialidades da medicina. Pensamos que é uma das principais formas para uma melhor prestação de serviços de saúde em Angola. De momento, temos necessidade de mais especialistas nacionais em pediatria. Vamos aproveitar as acções e programas criados pelo Executivo na área da saúde. Felizmente, a Sociedade Angolana de Pediatria tem as portas abertas no que toca à formação de quadros.

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