Entrevista

"Prevalência da Sida estável há cinco anos"

Manuela Gomes |

A directora do Instituto Nacional de Luta contra a Sida (INLS), Ducelina Serrano disse ao Jornal de Angola, que desde 2007 a prevalência da Sida no país é estável, embora haja alguma variação estatisticamente insignificante.

A médica Ducelina Serrano
Fotografia: João Gomes

A directora do Instituto Nacional de Luta contra a Sida (INLS), Ducelina Serrano disse ao Jornal de Angola, que desde 2007 a prevalência da Sida no país é estável, embora haja alguma variação estatisticamente insignificante. Em Angola em 100 adultos sexualmente activos dois estão infectados e em cada cem mulheres duas ou três estão infectadas. 

Jornal de Angola - Qual é o grupo alvo do Instituto Nacional de Luta contra a Sida?

Ducelina Serrano -
O nosso grupo alvo tem sido as mulheres grávidas em consulta pré-natal. Utilizamos as mulheres grávidas porque precisamos de um grupo que acorra às unidades de saúde voluntariamente, não porque está doente mas porque precisa de uma forma rotineira de avaliar a sua condição de saúde. Quem tem essas características é a mulher grávida. Este grupo alvo é sexualmente activo. Este é o grupo de referência utilizado para depois serem feitas as inferências ou extrapolações para a população geral.

JA - Quais são os métodos utilizados para o cálculo da prevalência da Sida?

DS - Desde 2007 que a prevalência neste grupo alvo está à volta dos três por cento. A prevalência na mulher grávida é inferida para a população geral através de metodologias estatísticas usadas no âmbito de um programa que é fornecido pela ONU/SIDA e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O programa internacionalmente utilizado, o EPP espectro, dá-nos todas as informações relativas à situação da epidemia no país: adultos infectados, crianças e mulheres grávidas, número de óbitos e as novas infecções.

JA - O trabalho é feito sempre à base de estimativas?

DS -
Trabalhamos com base em estimativas, porque se sabe que, mundialmente, apenas 40 por cento das pessoas infectadas conhecem a sua condição serológica e 60 por cento não. A partir desses 40 por cento, as organizações internacionais estimam a população mundial que vive com o vírus da Sida.

JA - O combate à Sida em Angola está no bom caminho?

DS –
Todos os anos há novas orientações para melhorarmos, daí termos lançado as metas que estão a ser estabelecidas. Anualmente, há revisões relativamente às metas que temos que alcançar. Consideramos que estamos, sim, num bom caminho, mas ainda há muito para fazer. Tem-se dito, e com toda a razão, que a Sida não é só um problema de saúde pública mas também de segurança nacional.

JA – Angola regista diminuição de infectados?


DS -
A prevalência no nosso país mantém-se estável desde 2007. Em mulheres grávidas, a prevalência anda à volta dos três por cento e, em adultos dos 15 aos 49 anos, anda à volta dos dois por cento. Isto quer dizer que, desde 2007, em cem adultos sexualmente activos, dois estão infectados e em cada cem mulheres duas a três estão infectadas.

JA – Por que razão algumas pessoas evitam fazer o teste voluntário?


DS -
Só cada um sabe por que não o faz. Mas acho que o grande factor é o estigma e o preconceito que ainda está à volta da doença. A Sida é vista, erradamente, como uma doença apenas de transmissão sexual, porque, quando uma pessoa aparece infectada, toda a gente vai pensar que se infectou pela via sexual. Há, na verdade, pessoas, que depois de terem praticado sexo inseguro, sofrem com a dúvida de que estão ou não infectados. Porém, o sofrimento é maior se preferir estar na dúvida do que ir fazer o teste e saber se está ou não infectado.

JA – Como é feita a campanha de prevenção nas áreas rurais?

DS -
Não é fácil. Nem nas zonas rurais nem nas urbanas. Mas procuramos fazer o nosso máximo, ser persistentes para que a mensagem possa ser percebida. Não basta pôr as pessoas a ouvirem a mensagem. É preciso perceberem. Temos procurado encontrar a melhor forma de fazer com que a mensagem seja compreendida nas localidades onde há parceiros da sociedade civil que procuram desempenhar a sua acção. Recorremos também às rádios locais que têm programas em língua portuguesa e em línguas nacionais.

JA - Há estudos em Angola para determinar o género e a faixa etária mais afectados pela doença?

DS -
Já foram feitos estudos. Em função do total de casos diagnosticados entre Janeiro e Setembro, temos um registo de 14.918 pessoas seropositivas, das quais 9.754 são adultos e 9.172 crianças.

JA – Há casos de Sida resultantes de relações homossexuais em Angola?

DS - Há. Realizámos, no ano passado, um estudo em homens que fazem sexo com homens e a prevalência neste grupo é maior do que na população geral: oito por cento. Este estudo só foi feito na província de Luanda. Não é possível extrapolar para o país.

JA - Quantos angolanos estão infectados com o vírus da Sida e quantos não sabem que têm a doença?

DS - Temos verificado, desde 2007, a estabilização da prevalência do VIH em Angola. O Instituto Nacional de Luta contra a Sida é uma instituição séria, que procura desenvolver trabalho com profissionalismo. Nesta base, quando divulgamos qualquer tido de informação é com evidências específicas e claras. Assim temos partilhado com o público que a prevalência em Angola tem-se mantido estável, com variação estatisticamente não significante. 

JA - Quantos infectados recebem tratamento?

DS -
Os medicamentos são gratuitos para toda a população. Há critérios para iniciar a terapia. Nem todo o infectado por VIH necessita de medicamentos. Há uma avaliação clínica e laboratorial à qual o seropositivo é submetido para avaliar se há ou não necessidade de iniciar um tratamento.

JA – Este procedimento é resultante de alguma recomendação da Organização Mundial da Saúde?

DS-
Este ano houve uma actualização das normas. Agora, em função das novas orientações da OMS, que recomendam o início cada vez  mais precoce da oferta dos medicamentos, desde o ano passado que iniciámos o tratamento em situações em que o cidadão ainda não está doente.

JA- A adesão de um maior número de doentes ao tratamento criou transtornos no stock de medicamentos?

DS - Desde 2011, fruto da recomendação da OMS, mais pessoas estão a ser tratadas, o que provocou uma crise já ultrapassada. Há medicamentos para as unidades sanitárias receitarem aos seropositivos de três em três ou de seis em seis meses. 

JA - Há um plano para a construção de mais unidades como o Hospital Esperança?

DS - Acho que ainda não há necessidade de mais hospitais como o Hospital Esperança. O que precisamos é de integrar e reforçar os serviços de assistência aos seropositivos nos hospitais, algo que já existe em todo o país. Temos mais de duas mil unidades de saúde a nível nacional a darem assistência a portadores do VIH.

JA - O tratamento da Sida  é multidisciplinar?

DS -
A Sida faz parte das doenças transmissíveis. Por este facto, é preciso que a sua abordagem seja integrada noutras unidades. O paciente infectado precisa de ser avaliado por outros especialistas.

JA - Qual é a forma mais eficaz de dar uma resposta às necessidades dos doentes?

DS -
O mais correcto é integrar a abordagem do VIH nas várias unidades de saúde que existem no país. Assim, o cidadão, quando vai a uma unidade, independentemente de estar ou não infectado, não precisa de saltar de hospital em hospital.

JA – Por que razão nasceu o hospital Esperança?

DS-
O Hospital Esperança surgiu numa época especial, porque não havia médicos especialistas para acompanhar pacientes com VIH e porque não havia uma estrutura ideal para integrar essas acções a nível doutros hospitais.

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