Entrevista

Produção de farinha de trigo ronda os 98 por cento

Adérito Veloso

A produtividade nos primeiros quatro meses de 2020 da Grandes Moagens de Angola (GMA) atingiu 107.104 toneladas de farinha de trigo e 31.700 de farelo de trigo.

Produção de farinha de trigo ronda os 98 por cento
Fotografia: Edições Novembro

Em entrevista ao Jornal de Angola, o administrador da empresa, César Rasgado, revelou que em Maio, devido aos efeitos da Covid-19, as vendas registaram um decréscimo de 46,5 por cento face à média dos primeiros quatro meses do ano, provocado pelo impacto no poder de compra dos principais clientes

Que balanço a Grande Moagens de Angola (GMA) faz da actividade produtiva, no primeiro semestre de 2020?

A produtividade da GMA nos primeiros quatro meses de 2020, embora não atingindo o máximo da capacidade instalada, esteve em linha com o estimado pela administração para esse período, com uma produção a rondar os 98 por cento em produto, farinha de trigo, entregue mensalmente aos nossos clientes. Infelizmente, em Maio, devido aos efeitos da Covid-19 no mercado com impacto no poder de compra dos angolanos, as vendas registaram um decréscimo de 46,5 por cento face à média dos primeiros quatro meses do Ano. Significa que neste momento estamos a produzir abaixo do que foi a média de produção entre Janeiro e Abril.

Qual foi a produção total neste período?

Até ao final do mês de Maio a GMA produziu 107.104 toneladas de farinha de trigo e 31.700 toneladas de farelo de trigo.

Um dos objectivos da GMA é o de contribuir para abastecer o mercado nacional. Nesta fase,como é que a empresa está a trabalhar para ultrapassar os obstáculos criados pela Covid-19 e como é que consegue manter o abastecimento?

A GMA reforçou internamente as medidas de segurança e higiene, para manter a sua capacidade de produção inalterada. Entretanto, temos feito um trabalho sistemá-tico e sério de articulação com os nossos distribuidores habituais para garantirmos que podem continuar a abastecer o mercado de acordo com as necessidades que são identificadas.

A desvalorização cambial e a dificuldade na obtenção de divisas dificultam a vossa actividade?

A dificuldade na obtenção de divisas tem um impacto directo na capacidade produtiva da nossa unidade industrial, porque a disponibilidade das divisas é imprescindível para a compra de matéria-prima no exterior. A GMA produz a farinha de trigo e o farelo em Angola, nas suas instalações, mas infelizmente tem de importar a matéria-prima para o poder fazer. Relativamente à desvalorização cambial, naturalmente que tem impacto directo na definição do preço de venda, visto que 90 por cento dos custos da GMA são em moeda estrangeira.

Têm estado a encontrar dificuldades na importação de matéria-primaou o mercado angolano (produtores nacionais) cobrem as vossas necessidades?

Pese embora um dos nossos objectivos, assim como das restantes empresas que actuam no mesmo sector de actividade, seja a promoção e a recuperação da produção local de trigo –que já existiu no passado e que actualmente existe em pequena escala – a matéria-prima (trigo) usada na nossa unidade industrial é 100 por cento importada. O mercado nacional não atingiu ainda o nível de desenvolvimento necessário, quer em quantidade quer em qualidade, para que a indústria possa prescindir da importação do trigo para a sua transformação em farinha.

Haverá rupturas na produção de farinha de trigo nos próximos meses?

Tendo em conta a capacidade instalada em Angola (não só da GMA, mas também das outras duas moageiras), e se a importação de matéria-prima estiver assegurada através da disponibilização de divisas, não existe qualquer razão para que possa haver rupturas de farinha de trigo em Angola.

Qual foi o investimento feito até ao momento pela GMA?

O investimento realizado em Luanda é de aproximadamente 100 milhões de dólares americanos.

Existem outros projectos em carteira para este ano?

A intenção da GMA é a criação de um cluster industrial a médio prazo. Este ano, a conjuntura que atravessamos irá atrasar os nossos planos de expansão, mas não o nosso objectivo principal, que é o de fornecer o mercado, assentes numa boa relação qualidade/preço com produto cem por cento nacional. Gerando valor para a empresa, para os seus parceiros, designadamente os distribuidores, e para a sociedade em geral. Porque ao fazê-lo, acabaremos por gerar mais emprego e por contribuir para o aumento do poder de compra e do bem-estar de mais angolanos.

Havia a intenção da GMA abrir uma unidade fabril, ainda este ano, na província de Benguela. A pandemia causada pelo coronavírus poderá impedir a concretização deste projecto?

A intenção da GMA mantém-se intacta. Inclusive já investimos nesse projecto cerca de 25 milhões de dólares. A pandemia, e a crise consequente, aconselham por agora prudência. Mas a GMA continua a acreditar no potencial do mercado Angolano e a comprometer-se com o objectivo estratégico de tornar o país autossuficiente na produção de farinha de trigo. Queremos também ser um dos players impulsionadores da produção nacional, para que possamos ser autossuficientes em toda a cadeia e para possamos também exportar para os países vizinhos. A exportação deverá ser feita ao abrigo do programa PRODESI, lançado recentemente pelo Governo.

Mas, 2017, a GMA celebrou um contrato de concessão por 30 anos com o Porto de Lobito, tendo feito investimentos na ordem dos 25 milhões de dólares para a reabilitação de silos e para aquisição de outros equipamentos. Dois anos e meio depois, o projecto da construção da fábrica ainda não arrancou?

Este projecto ainda não arrancou porque continuamos à espera de uma posição oficial do Porto do Lobito, ainda que tenhamos em nossa posse um contrato de concessão devidamente assinado pelas partes envolvidas. Infelizmente, num tempo em que as autoridades apelam ao investimento na industrialização e na diversificação da economia para se aumentar a produção nacional, mas nós, que o queremos fazer, continuamos à espera de resposta para podermos prosseguir. É um contrassenso – parece-nos. Mas este é o ponto de situação.

Até que ponto a privatização dos terminais agora anunciada pelo Governo pode vir a constituir uma ameaça acrescida ao investimento da GMA?

Não havendo qualquer desenvolvimento relativamente à concessão que nos foi atribuída e contratualizada, ob-viamente que essa indefini-
ção nos preocupa. Acresce que como já investimos 25 mi-lhões de dólares neste projecto, achamos que deveríamos no mínimo ser contactados e considerados no processo de privatização do terminal em questão.

Perante este impasse, começam a desenhar-se pelos menos três cenários: ou a revogação consensual do contrato, ou o pagamento de uma indemnização à GMA, ou ainda o recurso a um "lesse back" dos silos. Qual destas soluções poderá ser mais vantajosa para a GMA?

A GMA não tem qualquer opção preferencial que não seja o cumprimento do acordado entre as partes. Esta é, naturalmente, a nossa posição. Qualquer outra opção ou proposta tem de vir da parte do Porto do Lobito ou do Governo, sendo que deveremos em qualquer situação de ver os nossos interesses salvaguardados, quando já foram investidos dezenas de milhões de dólares.

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