Entrevista

Produção de carne passa pelas famílias

André dos Anjos

A substituição em 60 por cento das importações de carne pela produção nacional, uma das metas inscritas no programa do Executivo para o quinquénio 2017/2022, passa, entre outros factores, pela devolução às famílias da capacidade de criação de animais de pequeno porte, diz o especialista em Produção e Sanidade Animal, Ditutala Simão, para quem a meta está ao alcance do país, mas requer avultados investimentos. Na entrevista ao Jornal de Angola, o médico veterinário lembra que, nos anos 70, Angola tinha um património científico veterinário só comparável ao da África do Sul na região, do qual não restou pedra sobre pedra quando acabou a guerra.

Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

Angola tem condições naturais favoráveis para o fomento da pecuária e, consequentemente, para a inversão da condição de país importador de carne para exportador. 15 anos depois do alcance da paz, é plausível continuar apontar a guerra como causa do acentuado défice de produção que se verifica no sector?
A guerra é um dos factores que contribuiu para o retrocesso do desenvolvimento de Angola. Na pirâmide funcional do sector agropecuário, temos na base o sector primordial, onde encontramos os institutos de investigação e as instituições de fomento e vulgarização. Depois, temos o sector secundário, que alberga as micro, pequenas e médias empresas, maioritariamente familiares, responsáveis pela produção de parte substancial dos alimentos que diariamente nos chegam à mesa. Se a guerra afectou seriamente o sector primário, é claro que o sector secundário ficou desprovido de capacidade técnica para produzir o suficiente. A investigação veterinária é a que mais sofreu com a guerra, comparativamente a outras áreas científicas. A destruição foi selectiva e demorada e o miolo da investigação veterinária foi seriamente afectado.

O senhor foi, durante cerca de 10 anos, director-geral do Instituto de Investigação Veterinária. A investigação científica na área da pecuária cumpre devidamente o seu papel?
Já disse que a área de investigação veterinária é a que mais sofreu com a guerra em comparação com outros sectores científicos. Veja o que ocorreu: primeiro, foi a fuga de quadros na véspera da independência. Depois, foi a destruição progressiva do património científico e das estruturas físicas, o que afectou departamentos científicos, laboratórios regionais e estações zootécnicas. Lembro que, nos anos 70, Angola tinha um património científico veterinário só comparável com o da África do Sul na região. Nessa altura, o país produzia vacinas contra carbúnculos, doenças das aves e peripneumonia contagiosa bovina, com uso de estirpes locais. As vacinas eram reconhecidas e certificadas pela Organização Mundial da Saúde Animal. Na vigência do meu mandato (2001-2010), as prioridades incidiram na recuperação das infra-estruturas, formação e superação de quadros, revitalização dos laços científicos do sector com as organizações internacionais afins e o reinício da investigação veterinária aplicada.

Em termos de infra-estruturas e cooperação internacional, o que foi feito, concretamente?
Foram construídos os laboratórios regionais de Luanda, da Humpata e do Waku Cungo, e reabilitados os laboratórios regionais de Veterinária de Benguela, Malanje e Huambo, assim como as estações zootécnicas da Humpata, Caraculo, Cacanda, o Centro de Inseminação Artificial do Waku Cungo, um potencial gerador de produção de nitrogénio liquido para a conservação de sêmen no quadro da conservação dos recursos zoo-genético. Em matéria de cooperação científica, Angola assinou protocolos com a África do Sul, Rússia, Agência Internacional de Energia Atómica, só para citar alguns. Os quadros que beneficiaram de bolsas de estudo pagas pelo Estado e que regressam ao país com pós-graduação estão a dar conta do recado e, com a colaboração das instituições envolvidas, a investigação veterinária começa a dar sinais de revitalização.

O país gasta anualmente cerca de 800 milhões de dólares na compra de carnes. O que fazer para, no curto e médio prazo, começar a substituir as importações pela produção interna?

Se quisermos superar esta situação, temos de ter uma visão de longo prazo e delinear uma estratégia que, no curto prazo, nos conduza a uma maior diversificação das fontes de proteína animal. O que acontece é que se investe muito mais na parte comercial em detrimento do sector produtivo, o pilar basilar da cadeia de valores. Além de carnes, o país importa animais para abate, com fins comerciais, quando devia apostar mais na aquisição de animais para a reprodução e melhoria dos rebanhos.

Que investimentos o país deveria ter feito no sector da pecuária e que não fez, nos últimos anos?
Devíamos apostar na criação de zonas económicas de produção pecuária, na restituição da capacidade produtiva dos institutos de investigação e serviços de veterinária, para assegurar o fornecimento de matrizes para a produção e reprodução. Devíamos apostar na assistência técnica aos criadores familiares e na protecção dos rebanhos contra as principais endemias e epidemias. Devíamos apostar, ainda, na devolução, às famílias, da capacidade de produzir animais de pequeno porte e num programa de gestão dos recursos genéticos, sem esquecer a necessária reformulação da estratégia da banca nacional, que deve incorporar um banco de crédito agropecuário de apoio aos criadores tradicionais e às novas gerações de criadores.

O chamado Programa de Repovoamento Animal do Planalto de Camabatela, a cargo do Ministério da Agricultura, tem em conta, entre outros, os riscos que podem resultar da fraca capacidade de adaptação das espécies a serem introduzidas no país?
O Programa de Repovoamento Animal do Planalto de Camabatela está no bom caminho e, quando o mercado financeiro chamar a si a liderança da cadeia produtiva e de valores do sector pecuário, esta região vai contribuir, em grande escala, para a redução das importações de carne e derivados. As condições naturais da região (clima, água e pastos) são promissoras. Quanto aos riscos, é preciso não esquecer que, tal como os seres humanos, os animais precisam de cuidados sanitários, sem os quais morrem. Os criadores que recorrem aos serviços competentes do Ministério da Agricultura minimizam esses riscos. Recebem aconselhamento sobre o tipo de gado que podem introduzir no país e sobre os lugares de onde devem fazer a aquisição. Quem assim procede é aquele que realmente vive da pecuária. Aqueles para quem a pecuária é um divertimento pouco se importam com os serviços de apoio. Muitos deles fazem o acompanhamento das fazendas pelo telefone celular. Mas há também os criadores familiares, os camponeses, que desconhecem esses riscos, mesmo quando vivem essencialmente da criação de animais. É para estes que devemos continuar a prestar maior atenção.

Como se explica o facto de as zonas do país mais ricas em pasto e água, o leste e o norte, serem, paradoxalmente, as menos povoadas em gado, particularmente o bovino?

Por natureza, o angolano não é criador de gado de grande porte como bois, cavalos e burros. O angolano é essencialmente agricultor e criador de animais de pequeno porte (galinhas, cabritos, ovelhas, porcos, coelhos e porcos da Índia). A criação de gado bovino é feita predominantemente no sul do país, em decorrência de processos de transumância que, ao longo dos tempos, trouxeram àquela região, entre outros povos com vasta experiência na pecuária, os bóeres da África do Sul. No norte e leste do país, precisa-se de uma classe empresarial especializada, forte e apoiada pela banca para implantar essa capacidade produtiva. Mas é um erro crasso pensar que a pecuária se desenvolve apenas com a criação do gado bovino. A carne de vaca é a mais cara do mundo, porque a sua produção é bastante onerosa.

A maior parte dos efectivos bovinos está em mãos de criadores tradicionais, que, desprovidos de técnicas modernas para lidar com as adversidades da natureza, deslocam frequente as suas manadas. Até que ponto a transumância afecta negativamente o desenvolvimento da pecuária no país?

A transumância continua a ser vista como um desafio às competências dos governos africanos na busca de soluções para os graves problemas que afligem a pecuária no continente. É um fenómeno que propicia a transmissão de doenças, muitas delas de declaração obrigatória. Preocupada com o desenvolvimento económico do continente, a União Africana, através do Gabinete Inter-africano dos Recursos Animais da União Africana (IBAR), lançou um estudo que define a Estratégia de Desenvolvimento da Pecuária para o período que vai de 2015 a 2035. No documento, a organização continental apela para necessidade de os Estados membros criarem o ministério da pecuária, tendo em vista o aumento do peso do sector no produto interno bruto de cada país.

Por que razão Angola, apesar de possuir o quarto maior efectivo de gado bovino na África Austral, não exporta carne?  

As razões são simples: Angola, até agora, não conseguiu erradicar nenhuma doença de declaração obrigatória, como a peripneumonia contagiosa dos bovinos, a febre aftosa, a dermatite nodular bovina ou os carbúnculos. Por outro lado, o país não tem nenhuma estratégia consolidada para o desenvolvimento da pecuária, como tem por exemplo nas Pescas. Os apoios do Governo não passam de campanhas de vacinação e manutenção ou “controlo” das doenças.

Nos últimos anos, Angola apostou fortemente na construção de matadouros industriais e modulares. A prioridade não devia incidir, primeiro, no fomento da pecuária?
Uma coisa não tem nada a ver com outra. Os matadouros fazem parte das cadeias de produção e de valores. Os matadouros construídos no país fazem parte da estratégia global traçada pelo Ministério da Agricultura com o apoio da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Os matadouros não funcionam de forma isolada, são parte da cadeia produtiva onde entram criadores especializados na reprodução e na engorda de animais para abate.

O aproveitamento que o país faz dos subprodutos resultantes do abate de animais, tais como peles, estercos, vísceras, entre outros, é mais racional?

 A indústria de curtumes está parada. Alguém tem de promover este sector, porque tem a sua importância na cadeia de valores.

 "Avicultores mostraram ser muito mais rápidos na assimilação de noções de gestão"

A avicultura parece estar, de longe, mais avançada do que a pecuária propriamente dita. Já se pode falar em auto-suficiência neste subsector?
Considero os avicultores como os “melhores alunos” das sucessivas mudanças que se produziram nos sistemas económicos ensaiados no país. Assimilaram rapidamente as noções de gestão económica dos tempos de “prejuízos planificados.” Hoje, o país não importa ovos, se o faz, fá-lo em pequenas quantidades para suprir alguma demanda acima do consumo habitual, como acontece às vésperas e durante a quadra festiva.
O país tem potencialidades para ultrapassar as metas fixadas no programa do Executivo, mas a concretização desses objectivos requer avultados investimentos. É preciso ver o problema a montante e a jusante. Temos o problema das infra-estruturas de apoio como as vias terciárias por reparar, a distribuição de energia nas zonas de produção por melhorar, a estratégia bancária para atribuição de créditos por aperfeiçoar, entre outros aspectos. Mas também temos o problema da credibilidade do investidor exógeno em relação ao modelo económico a implantar ou em curso.

O senhor foi comissário-geral adjunto de Angola na “Expo Milano 2015” onde, durante 180 dias, o país procurou atrair investidores para os mais variados sectores da economia, com destaque para a agropecuária. Fale um pouco dessa experiência...

A “Expo Milano 2015”, que decorreu sob o lema “Alimentar o Mundo, energia para a vida”, foi uma grande montra para a Angola do pós-guerra. Recaiu sobre mim a responsabilidade de elaborar o protocolo de pesquisa que norteou os trabalhos dos conteúdos, a museografia e a definição do roteiro do pavilhão, bases que ajudaram a equipa, constituída por arquitectos angolanos e europeus, a idealizar toda a arquitectura interna que o pavilhão de Angola apresentou no certame. A riqueza dos conteúdos e a museografia foram bastante expressivas e permitiram passar a mensagem de como os angolanos estão fortemente dedicados à produção alimentar, em todas as vertentes. Serviram, ainda, para mostrar a relação cultural existente entre os alimentos e as tradições culturais dos nossos povos e as potencialidades naturais. Arrecadámos quatro medalhas.
Mas também colhemos algumas experiências. Como representante do Ministério da Agricultura, efectuei visitas a Emilia-Romagna, Mediglia,  Novara e Lodi, regiões muito conhecidas pelo seu potencial agro-pecuário. Para os italianos, a noção de micro empresa não tem nada a ver com capacidade financeira ou com o tamanho do negócio. Os conhecimentos são os mesmos entre empresários, as tecnologias são altamente difundidas e estão ao alcance de todos. A título de exemplo, visitei uma empresa com apenas dois hectares onde são colhidas 40 toneladas por cada temporada agrícola, quando os nossos agricultores ocupam entre dois e cinco mil hectares para produzir dois a cinco quilos de mandiocas.

Perfil

Ditutala Lucas Simão
Natural de Quibocolo, província do Uíge, estudou no Instituto
de Medicina Tropical (IMT) Antwerpen, na Bélgica.

Estado civil

Casado

Profissão
Médico Veterinário, especialista em produção e sanidade animal tropical

Ocupação actual
Consultor do ministro da Agricultura para a esfera da Pecuária

Línguas
fala e escreve fluentemente kikongo, português, inglês, espanhol e francês

 

Tempo

Multimédia