Entrevista

Produção de sal em grande escala

Cristina da Silva |

O sector da Pesca Artesanal aumentou este ano a produção em quase 30 por cento. A pesca semi-industrial atingiu níveis satisfatórios. O Executivo tem projectos em carteira para fomentar a aquicultura e o processamento de peixe salgado e seco. As salinas podem produzir, em breve, todo o sal higienizado e iodizado de que o país necessita. A secretária de Estado das Pescas, Vitória Barros Neto, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, fala dos projectos em marcha.

Vitória Barros Neto afirma que os salineiros estão mais organizados para os créditos
Fotografia: Eduardo Pedro

O sector da Pesca Artesanal aumentou este ano a produção em quase 30 por cento. A pesca semi-industrial atingiu níveis satisfatórios. O Executivo tem projectos em carteira para fomentar a aquicultura e o processamento de peixe salgado e seco. As salinas podem produzir, em breve, todo o sal higienizado e iodizado de que o país necessita. A secretária de Estado das Pescas, Vitória Barros Neto, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, fala dos projectos em marcha.


Jornal de Angola – Que avaliação faz do sector das pescas?

Vitória Barros Neto -
O sector das pescas, agora, faz parte do Ministério da Agricultura. É um sector complexo que tem como tarefa principal a produção de pescado para abastecimento à população. A produção faz-se no mar e nos rios e lagos. Existe ainda a possibilidade do aumento da produção do pescado através do desenvolvimento da aquicultura.

JA - Há condições em Angola para a aquicultura?

VBN –
Felizmente, o nosso país tem condições muito boas para o desenvolvimento das pescas, no mar, nos rios e lagos. A aquicultura é uma área que precisa de ser trabalhada e os projectos que temos nesse domínio são ainda poucos.

JA – A aquicultura é apenas na água doce?

VBN -
Não. Estamos a falar da possibilidade de cultivarmos o peixe de forma artificial. A aquicultura é uma tecnologia para a reprodução do peixe e a sua engorda em tempo recorde para o abastecimento às populações.

JA - Em Angola já se faz aquicultura?

VBN -
Em Angola faz-se alguma aquicultura, embora de forma incipiente. Temos um potencial grande para esta técnica, mas é necessário uma aposta séria. No mundo existem países em que a aquicultura tem um grande significado económico e de produção de alimentos. Em África existem alguns países que têm apostado nesta técnica.

JA - O que falta para desenvolver a aquicultura?

VBN -
Falta que o Estado fomente a actividade e também o interesse do sector privado. Existem projectos que vão ser desenvolvidos no próximo ano que consiste na criação de centros de larvicultura. Vamos fornecer as larvas aos empresários para engorda. Os centros de larvicultura têm uma componente de formação e investigação muito grande que o Estado deve assumir.

JA - A aquicultura pode viver sem fábricas de alimentação para peixes?

VBN -
Estamos conscientes de que a base de sustentação da aquicultura é a alimentação, que infelizmente ainda é muito cara e difícil de obter. Pensamos, no próximo ano, fazer uma fábrica de rações para sustentar o projecto e diminuir as dificuldades.

JA - O Estado tem interesse em fomentar a aquicultura?

VBN -
Tem todo o interesse. Pretendemos com isso deixar de pressionar o mar, os rios e os lagos. Achamos que em vez de dependermos da produção natural, possamos também produzir pescado através da aquicultura.

JA - Os índices de pesca marítima continuam a aumentar?

VBN -
Na pesca marítima tivemos um aumento de captura na pesca artesanal, na ordem dos 26 por cento, em relação ao ano anterior. A pesca industrial ainda tem algumas limitações e a semi-industrial está num nível satisfatório.
JA - O pescado nem sempre é utilizado de imediato. Que acções estão a ser realizada para a conservação através da salga?
VBN - É preciso melhorar a qualidade dos produtos processados. E aqui, o realce vai para a produção do peixe salgado e seco. Ainda temos algumas dificuldades, porque a produção é feita sem as condições higiénicas que gostávamos de exigir.

JA - O que está a ser feito para melhorar esta área?

VBN -
Vamos relançar a produção de peixe salgado e seco, com a construção de novas infra-estruturas adequadas. Com isso pretendemos organizar as mulheres que trabalham nas, por serem elas que desenvolvem, em larga maioria, esta actividade. É necessário que elas trabalhem de forma organizada, higiénica e que tenham a possibilidade de comercializar o peixe de forma adequada, afim de que criarem riqueza. Se conseguirmos dar condições a estas mulheres, vamos melhorar a qualidade de vida dos consumidores e aumentar a sua confiança.

JA – A pesca artesanal está a ser apoiada?

VBN -
Há uma dotação orçamental ao abrigo de créditos adicionais que visa concluir os centros de apoio à pesca artesanal que estão a ser construídos no Buraco, em Luanda, no Kikombo, província do Kwanza-Sul, e  Damba Maria, em Benguela.

JA - Como é feito o aproveitamento do peixe não consumido?

VBN -
Temos um projecto para a recolha de todos os desperdícios do processamento e do peixe sem valor comercial e que muitas vezes é rejeitado. Estes produtos vão ser reconduzidos para a fábrica de óleo e farinha de peixe para as rações.  

JA - Está a ser melhorada a área do congelamento?

VBN -
Neste momento temos bons resultados na província de Benguela, onde o sector privado conseguiu organizar-se. Com a criação de condições de congelação, a situação é satisfatória. Na província do Namibe, temos algumas limitações. É importante aumentar a capacidade de congelamento no Namibe. Temos em carteira, também para o próximo ano, a construção de dois entrepostos frigoríficos que vão ser instalados na cidade do Namibe e no Tômbwa, para abastecer as fábricas, uma vez que a prioridade é dada ao consumo humano.

JA - Os centros de formação estão operacionais?

VBN -
Em termos institucionais, temos ainda alguns problemas relativamente às escolas de formação. O Cefopescas, no Cacuaco, o Hélder Neto, e a Academia de Pesca do Namibe, estão a funcionar mas a meio gás. O Cefopesca funciona mas não em pleno. A Escola Médio Hélder Neto também tem alguns problemas, o que nos obriga a repor a sua capacidade de formação através de construção de novas infra-estruturas. Em Benguela, o Governo Provincial conseguiu inserir no seu programa de investimentos públicos a construção do Infopesca e trabalhamos para a continuidade das obras na Academia de Pescas do Namibe, vocacionada para o ensino superior.

JA - Há projectos para reactivar as salinas?

VBN -
Existem em Angola algumas salinas, mas infelizmente estão desactivadas. Para o próximo ano existe a possibilidade da criação de novas zonas para salinas. Pretendemos com atingir a auto-suficiência na produção do sal.

JA - A activação das salinas é para já?

VBN -
Evidentemente. Nesta primeira fase, vamos trabalhar com algumas salinas do Namibe, Benguela e Kwanza-Sul e posteriormente em Luanda e Zaire. O projecto não trata apenas da produção do sal, mas também da sua higienização e iodização. É um programa global. Felizmente os salineiros estão organizados, têm uma associação que trabalha com o ministério. Estamos a trabalhar com o Banco de Desenvolvimento Angolano (BDA) para facilitação de créditos aos empresários do ramo.

JA - Qual é produção de sal prevista?

VBN -
A meta é nos próximos anos produzir 150 mil toneladas de sal por ano. Estão criadas as condições para que Angola seja auto-suficiente na produção de sal.


Acções para relançar o sector

O Executivo tem programado, para o próximo ano, acções para dar continuidade ao estabelecimento de um regime de exploração dos recursos vivos aquáticos, conciliando as limitações de ordem biológica e ecológica do potencial produtivo das águas angolanas (marinhas e continentais). O regime deve ser responsável pela captura de pescado, mediante o emprego de técnicas de cultura e inovação tecnológica.
Para o próximo ano, estão ainda previstas acções de gestão integrada às zonas costeiras e compatibilização dos seus diferentes usos, além de incentivos à investigação científica, à inovação e à valorização do saber tradicional.

Produção do sal

A costa angolana possui características favoráveis à produção de sal e esta potencialidade pode ser desenvolvida pela dinamização do sector e introdução de tecnologias modernas de processamento do produto.
Apesar das potencialidades, os níveis de produção têm caído de forma drástica, nos últimos anos. A maior parte das salinas da província de Benguela, que contribui com mais de 70 por cento do total, foi, no ano passado, destruída pelas chuvas.A produção da província, este ano, situou-se em 40 mil toneladas, o que levou o Ministério do Comércio a cobrir o défice com a importação de 90 mil toneladas.
Angola importou, em 2009, até Setembro, 17,5 milhões de toneladas de sal contra 3,1 milhões de toneladas em todo o ano anterior. Os maiores fornecedores são Portugal, Namíbia, África do Sul, França e Egipto.
O maior índice de produção no país foi em 1990, ano em que Angola chegou às 73 mil toneladas. A partir de 1993 foi decrescendo devido a condições ambientais e ao estado obsoleto dos equipamentos. A partir de 2002, têm sido feitos novos investimentos e a produção e iodização do sal tem apresentado várias flutuações.

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