Entrevista

Produtos angolanos procurados na Índia

Josina de Carvalho |

A Índia está aberta às exportações angolanas. O interesse tem sido manifestado pelos empresários indianos às autoridades nacionais naquele país asiático, que aponta inúmeras vantagens da cooperação bilateral em diferentes domínios.

Embaixador afirma que Angola beneficia do apoio incondicional da Índia
Fotografia: Josina de Carvalho

O embaixador de Angola na Índia, Eduardo Bravo, disse, em entrevista ao Jornal de Angola, estar prevista para este ano a revisão do Acordo Geral de Cooperação e a realização da reunião da Comissão Mista, para conferir uma nova dimensão à cooperação entre os dois países.

 

Jornal de Angola - Como avalia as relações de cooperação entre Angola e a Índia?

Eduardo Bravo - A avaliação é francamente positiva. Uma evidência deste facto tem sido o crescimento das trocas comerciais. Em 2007 situavam-se na ordem dos 445 milhões de dólares, em 2010 ultrapassaram os quatro mil milhões, e em 2013 mais de sete mil milhões. Mas estas cifras ainda não nos satisfazem, porque podemos ir mais longe. Prevemos que seja revisto e actualizado, ainda este ano, o Acordo Geral de Cooperação e se realize a sessão da Comissão Mista, que certamente vai conferir uma nova dimensão à cooperação bilateral.

Jornal de Angola - Pode  dizer-se que as relações entre os dois países são excelentes? 

Eduardo Bravo- Sem dúvida. Na verdade, as relações de amizade e de cooperação entre Angola e a Índia remontam à época da luta de libertação contra o colonialismo português, durante a qual guerrilheiros angolanos formaram-se em academias militares indianas. Nas plataformas internacionais, Angola beneficiou sempre do incondicional apoio político-diplomático da Índia, antes e depois da independência nacional. Um exemplo deste apoio ocorreu em 1968, quando a então Primeira-Ministra, Indira Gandhi, ao discursar na Assembleia Geral da ONU, declarou que a liberdade e a independência da Índia estariam incompletas, enquanto fossem recusadas a liberdade e independência do povo angolano e de outras colónias. 

Jornal de Angola- Nesse sentido, as relações são também históricas?

 Eduardo Bravo- É verdade. A Índia foi dos primeiros países a reconhecer a nossa Independência. Fê-lo a 13 de Novembro de 1975, 48 horas depois da proclamação, através de uma Declaração do Governo. E posteriormente, em sede do Parlamento Indiano, a Administração Indira Gandhi formalizou o reconhecimento do nosso Governo a 6 de Fevereiro de 1976. Por isso, este ano assinalamos 40 anos desde que o nosso Governo foi reconhecido pelo Governo da Índia.

Jornal de Angola – A índia é um parceiro estratégico de Angola?


 Eduardo Bravo - Com base na diplomacia proactiva, pragmática e patriótica, pretende-se que a Índia faça parte da segunda geração de parceiros estratégicos de Angola. A cooperação tem de ser cada vez menos transacional e menos ancorada na compra e venda, e passar a ser estratégica

Jornal de Angola - Quais são as áreas com maior potencial para fazer da Índia um parceiro estratégico de Angola?

 Eduardo Bravo – São muito variadas. A agricultura, que representa 18 por cento do Produto Interno Bruto da Índia, é uma dessas áreas. Hoje, a Índia é um dos maiores exportadores de alimentos no mundo. Por isso, considero que a cooperação no domínio agrícola será uma mais-valia para diversificarmos a nossa economia. Precisamos capitalizar o potencial dos 35 milhões de hectares de terras aráveis de que Angola dispõe e de cooperar também nas áreas da formação, investigação científica no ramo da agronomia, agropecuária e gestão agrícola. Na Índia existem 50 universidades agrícolas e 150 instituições de investigação científica dedicadas exclusivamente à agricultura. 

Jornal de Angola – A Índia estava interessada em financiar a aquisição de equipamentos agrícolas para Angola. O financiamento já foi concretizado? 

 Eduardo Bravo– Em 2012, o Exim Bank manifestou interesse em financiar a aquisição de tractores e equipamentos agrícolas na ordem de 23 milhões de dólares. Mas até onde vai o meu conhecimento, o Acordo de financiamento não chegou a ser celebrado. Mas o Executivo Indiano, através do Exim Bank continua aberto e disponível para contribuir para o financiamento da nossa economia. Importa também referir que, sob proposta da Índia, está a ser negociado o estabelecimento em Angola de um Centro de Incubação e Processamento Alimentar com tecnologia de ponta. O nosso Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural está envolvido no tratamento deste dossier.

Jornal de Angola - O Governo indiano também pretende instalar em Angola uma linha de montagem de tractores e de misturadoras de fertilizantes. Que passos já foram dados?

 Eduardo Bravo - Há negociações em curso entre entidades angolanas e indianas. Na Índia fabricam-se anualmente cerca de um milhão de tractores e a produção é inteiramente da responsabilidade de companhias privadas que desejam estabelecer-se em Angola, através de “joint-ventures”, ou mesmo através de parcerias público-privadas. Do ponto de vista tecnológico, parece-nos ser consensual que os tractores indianos são dos que mais se compatibilizam com a realidade africana e melhor correspondem às necessidades de mecanização e modernização da agricultura no continente.

Jornal de Angola – No âmbito da cooperação bilateral, que outras áreas podem ser exploradas?

Eduardo Bravo - A área de energias renováveis, sobretudo a solar. A Índia é um dos protagonistas da Aliança Solar Internacional e líder neste domínio. Tem aeroportos internacionais como o de Cochin, que é o maior aeroporto do mundo operacionalizado única e exclusivamente com energia solar. O sector da Geologia e Minas também tem grandes probabilidades de ser um eixo forte da cooperação. O saber e a perícia dos indianos no segmento das gemas e da joalharia, com especial realce na lapidação de diamantes, são reconhecidos globalmente. A Índia é o maior centro de lapidação de diamantes do mundo. Não é por acaso que o sector das gemas e joalharia contribui com cerca de sete por cento para o PIB da Índia. Penso que Angola poderá beneficiar imenso com o reforço da cooperação nesta esfera. É importante que seja uma cooperação directa e aberta, e que prescinda de terceiros países ou de cidadãos de terceiros países, como intermediários.

Jornal de Angola - Sabe-se que a Índia tem um grande potencial no sector da Saúde. Que vantagens Angola pode obter neste domínio?

 Eduardo Bravo - É verdade, sobretudo no que toca à formação, estágio e reciclagem de médicos e técnicos de saúde. O intercâmbio de experiências e conhecimentos entre médicos e técnicos de saúde dos dois países seria de grande utilidade. Precisamos racionalizar gastos, explorando e descobrindo a Índia como um destino de turismo médico e um país onde podemos contratar médicos especialistas e profissionais da saúde altamente qualificados, minimizar o nosso défice. Na Índia e na Tailândia, onde também estou acreditado como embaixador não-residente, obtém-se tratamento médico e medicamentoso de primeiro mundo, a preços de terceiro mundo. Além da saúde, a área dos antigos combatentes e veteranos da pátria é passível de cooperação, tendo em conta que a Índia tem três milhões de antigos combatentes. A troca de conhecimentos e de experiências quer entre os Governos, quer entre associações e fundações de antigos combatentes, pode  ser-nos útil para aprimorarmos a reintegração social e o enquadramento produtivo dos nossos antigos combatentes, nas áreas da agricultura, pecuária, agro-indústria e outras.

Jornal de Angola - Os dois países estudam mecanismos de cooperação bilateral no domínio das tecnologias de informação, para permitir que jovens angolanos se formem na Índia nesta área. Que avanços foram feitos neste sentido?

 Eduardo Bravo – Está na forja a concepção de tais mecanismos por parte do nosso Ministério das Telecomunicações e das Tecnologias de Informação. Este Departamento ministerial está engajado em fortalecer a cooperação neste domínio, que rendeu à Índia 132 mil milhões de dólares em 2014-2015. Devemos continuar a aproveitar as bolsas de estudo oferecidas pelo Governo Indiano para formar jovens em engenharias, ciências exactas e outras áreas tecnológicas.

Jornal de Angola - Quando começa esta cooperação no domínio dos petróleos?

Eduardo Bravo - Actualmente este sector é o que maior peso tem nas transações comerciais. A república Índia importa sensivelmente 80 por cento do petróleo que necessita e Angola tem contribuído significativamente para a segurança energética deste país amigo. Existe um Memorando de Entendimento entre os Ministérios dos Petróleos dos dois países e recentemente tanto os dois Ministros dos Petróleos, quanto os Presidentes dos Conselhos de Administração da Sonangol e da ONGC Videsh (empresa pública indiana), durante encontros em Viana e Luanda, abordaram as perspectivas de um maior envolvimento da Índia na exploração e produção de petróleo e gás em Angola.

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