Entrevista

Professores qualificados no Lubango

Estanislau Costa | Lubango

O director-geral do Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla, José Luís, valoriza a qualidade de formação de quadros da instituição pelo desempenho demonstrado nas empresas públicas e privadas do país e não só.

Director-geral do Instituto Superior de  Ciências da Educação da Huíla José Luís
Fotografia: Estanislau Costa | Huíla-Edições Novembro

Nesta entrevista, o professor reconheceu os benefícios da instituição autónoma na concessão de projectos e desenvolvimento académico e científico.

Jornal de Angola - Como apresentaria o Isced?

José Luís -
O Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla existe desde 1980, é vocacionado para a formação de professores para vários subsistemas de ensino, além dos cursos de graduação, já possui também cursos de pós-graduação. Apesar da idade, o instituto caminha com os pés bem assentes no chão. As suas infra-estruturas são tão antigas, que já não satisfazem à demanda. Se, em 1980, abriu as suas portas para 121 estudantes, hoje, as solicitações de ingresso estão acima das seis mil.

Jornal de Angola - Valeu a pena a transformação em instituição autónoma?


José Luís -
Em 2009, houve o redimensionamento da Universidade Agostinho Neto e a divisão do país em várias regiões académicas. Neste âmbito, o Isced-Huíla passou a ser uma instituição autónoma e acreditamos que trouxe muitas vantagens, visto que passou a realizar os seus próprios projectos académicos, científicos e de extensão, passou a ter gestão própria sem interferência externa e a utilizar melhor os seus recursos, tanto financeiros como humanos. Realço que as dificuldades sempre existem, sobretudo, quando se colocam vários desafios. São elas que nos fazem pensar, fazer e seguir em frente.

Jornal de Angola - Como decorre o processo de formação de quadros?


José Luís -
O processo de formação decorre a bom ritmo, tanto ao nível de graduação, como na pós-graduação. A formação de professores é a razão da nossa existência, por isso, fazemos tudo para que o processo decorra sem sobressaltos. Somos uma instituição com experiência e que procura actualizar-se. Procuramos estar sempre na fronteira do conhecimento. Por isso mesmo, optamos, por melhorar os recursos humanos. Existem programas estratégicos de pós-graduação para os nossos docentes no país e no exterior. Temos também projectos para a formação do pessoal administrativo em várias áreas. Para formar quadros com qualidade, é necessário investir na construção de mais infra-estruturas apropriadas, apetrechar os laboratórios e ter um acervo bibliográfico rico e, na estratégia do Isced-Huíla, consta também a reforma curricular. De salientar que temos muitos docentes a frequentar universidades europeias e latino-americanas.

Jornal de Angola -
Quantos docentes tem o Isced-Huíla?

José Luís -
A nossa instituição é uma das poucas que conta com um corpo docente na sua maioria nacional, com 79 por cento, e tem feito os possíveis para aumentar e deixar de depender de docentes expatriados. Em 1980, a cifra era de 48 por cento. Temos 116 docentes efectivos, oito colaboradores e 13 expatriados. Dos efectivos, 27 são doutorados, 73 mestres e 26 licenciados. Dos colaboradores, três são doutorados e cinco mestres. Dos docentes expatriados, quatro são doutoras e nove mestres. Precisamos de mais docentes. Nos últimos dois anos, muitos docentes têm solicitado a reforma, o que provoca uma diminuição brusca. Precisamos, no mínimo, de 200 docentes.

Jornal de Angola
- Quais os cursos ministrados para os graus de licenciatura, mestrado e doutoramento?

José Luís -
Ministramos 14 cursos para licenciatura, nomeadamente, Pedagogia, Psicologia, História, Filosofia, Química, Física, Matemática, Informática Educativa, Geografia, Biologia, Educação Física e Desportos, assim como Linguística em Português, Francês e Inglês. Em relação à pós-graduação, temos dois mestrados prestes a entrar na terceira edição, com o mestrado em Desenvolvimento Curricular e em Ensino das Ciências. Aguardamos a autorização do Ministério para abrirmos mais dois mestrados em Ensino da História de África e Ensino da Língua Portuguesa. O doutoramento está nas previsões, por ser necessário, de acordo com as regras, ter três edições de mestrado em vigor e só depois podemos avançar.

Jornal de Angola -
Perspectiva-se a abertura de novos cursos?

José Luís -
Sim. No próximo ano lectivo, perspectivamos a abertura de dois cursos de pós-graduação, dependendo apenas da autorização do Ministério do Ensino Superior. Estamos também a trabalhar para o arranque da terceira edição dos mestrados já existentes. Trabalha-se ainda para termos novos cursos de licenciatura.

Jornal de Angola - O Isced tem parcerias com outras universidades?


José Luís -
Temos parcerias com instituições de ensino superior nacionais, estrangeiras e organizações, entre elas a Universidade Mandume ya Ndemufayo, Universidade Katyavala Bwila, Universidade José Eduardo dos Santos, Isced-Huambo, Instituto Superior de Educação Física de Luanda, Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, Universidade Autónoma de Lisboa, Universidade de Évora, Universidade de Aveiro e o Instituto Camões. Em breve, vamos assinar protocolos de cooperação com a Universidade Eduardo Mondlane de Maputo, Aulp e Forges.

Jornal de Angola - Quais os ganhos dessas parcerias?

José Luís -
As parcerias entre as instituições trazem muitas vantagens por permitirem a troca de experiências, melhorar a qualidade dos serviços prestados à sociedade e elevar o Isced para outros patamares. Favorece também a realização de projectos de investigação e extensão conjuntas.

Jornal de Angola - Quantos estudantes estão matriculados, foram formados e qual o aproveitamento?

José Luís -
Neste ano lectivo, matriculámos 6.610 estudantes e formámos 4.251 licenciados e 356 mestres. Temos acompanhado de perto os melhores estudantes, sendo que alguns são seleccionados como monitores e passam a dar aulas. A maioria dos nossos docentes já foi estudante desta instituição.

Jornal de Angola - Como avalia os trabalhos de fim-de-curso?   

José Luís -
De maneira geral, os trabalhos de fim-de-curso são tidos como ensaios, ou seja, primeiros passos para a investigação científica que, depois de analisados, podem servir de consulta para os leitores, assim como de base para outros níveis de pesquisa. As dissertações de mestrado devem ser bem trabalhadas e publicadas para servir de base para outros níveis de investigação ou projectos de doutoramento.

Jornal de Angola - Acha que muitas teses de licenciatura e mestrado deviam ser publicadas?

José Luís -
Estamos numa instituição superior de ensino e investigação. Os estudantes, aqui, devem aprender tudo sobre os passos a dar para a realização de uma investigação para que não tenham dificuldades quando se depararem com situações que careçam disso. A produção de obras de investigação dos estudantes dos cursos de mestrado deve ser de carácter obrigatório. Quanto aos cursos de licenciatura, pode-se também ver a possibilidade de realização de estágios durante um ano lectivo ou a realização de uma aula magistral.

Jornal de Angola - Que destaque a instituição dá à investigação?

José Luís -
A investigação ocupa um lugar especial na instituição, visto ser esta uma das três grandes missões, além da formação e extensão. Temos centros de investigação, com realce para o CIDE e o CEBEA, onde decorrem projectos de investigação relevantes para a solução de problemas sociais. O Centro de Investigação e Desenvolvimento da Educação (CIDE) alberga e realiza projectos de estudo sobre as crianças fora do sistema de ensino ou em risco de abandono escolar e a Carta Escolar da Província da Huíla, em parceria com o governo da província e o Unicef, e perfil socioeconómico da província, com parceria da AIF. Já o Centro de Estudo da Biodiversidade e Educação Ambiental (CEBEA) alberga e realiza projectos de Estudo da Biodiversidade Florística da Escarpa de Angola e Atlas dos Mamíferos de Angola, numa parceria Angola-África do Sul, Implementação de Observatórios de Biodiversidade, Diversidade da Fauna de Desenvolvimento de capacidades em matéria de biodiversidade com parceria da Universidade de Hamburgo.

Jornal de Angola - Como está o acervo bibliográfico do Isced?

José Luís -
O nosso acervo bibliográfico conta com mais de 90 mil livros para várias áreas do saber. Estão também disponíveis os museus do Laboratório de Antropologia, cujas peças estão a ser recuperadas e classificadas com apoio do Museu Regional da Huíla, de Ornitologia e Mamalogia, e o Herbário, o Insectário e Reptário. Em breve, entra em funcionamento o laboratório de química que foi já adquirido. A infra-estrutura da biblioteca já não possui espaço suficiente para exposição de todos os livros que a instituição tem, nem espaço suficiente de leitura. Precisamos de um espaço específico e maior.

Jornal de Angola  - Quais os projectos da instituição em desenvolvimento?

José Luís -
Existem vários projectos, com destaque para a construção de mais infra-estruturas apropriadas para salas de aula, laboratórios, nova biblioteca, anfiteatros, etc, criação da página web dinâmica para a expansão dos nossos serviços, melhor interacção entre docentes, discentes e sociedade.

Jornal de Angola - O Isced-Huíla corresponde à política nacional de formação de quadros?

José Luís
- Estamos a corresponder com a política nacional de formação de quadros. Basta visionar as nossas estatísticas com um elevado número de quadros qualificados, colocados em muitas instituições públicas e privadas, cujo desempenho tem merecido o desejável reconhecimento. Se analisarmos profundamente a história desta instituição, podemos ver quão grande tem sido o papel do Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla para o nosso país.



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