Entrevista

Projecto Camabatela pronto para arrancar

Marcelo Manuel| Ndalatando

O director provincial da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas do Kwanza-Norte, Fernando Humberto Mesquita, em entrevista concedida, na passada semana, ao Jornal de Angola, fala detalhadamente sobre os projectos de desenvolvimento agro-pecuário em curso na província, com destaque para os do planalto de Camabatela e do perímetro irrigado do Mucoso.

O planalto de Camabatela tem excelentes condições climatéricas para o desenvolvimento de projectos pecuários e agrícolas
Fotografia: Kindala Manuel

O director provincial da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas do Kwanza-Norte, Fernando Humberto Mesquita, em entrevista concedida, na passada semana, ao Jornal de Angola, fala detalhadamente sobre os projectos de desenvolvimento agro-pecuário em curso na província, com destaque para os do planalto de Camabatela e do perímetro irrigado do Mucoso. O responsável faz, igualmente, o ponto da situação das culturas da palmeira e da banana, esta última afectada por uma praga.

Jornal de Angola - Em que estado se encontra o projecto de desenvolvimento  pecuário do planalto de Camabatela?

Fernando Humberto Mesquita -
Tivemos alguns constrangimentos financeiros, por causa da crise económica mundial, que ofuscou a planificação e materialização de alguns componentes do projecto. A situação do nosso país está a voltar à normalidade e acreditamos que este ano vai ser decisivo no que diz respeito ao cumprimento das acções inerentes ao projecto. Apesar de ser de iniciativa pública, o projecto de desenvolvimento agro-pecuário do planalto de Camabatela vai ser gerido por uma instituição privada, o que pode permitir uma certa organização dos criadores situados ao longo do planalto, que abrange municípios da província do Uíge, Malange e Kwanza-Norte.

JA – Concretamente, quais as metas que se pretende alcançar com o projecto?

FHM -
Visamos o crescimento gradual do gado bovino. O projecto abarca ainda a construção de um matadouro industrial. Os primeiros materiais para a sua implementação já se encontram no porto de Luanda. Aguardamos apenas por alguns trâmites burocráticos para a sua retirada e consequente transporte para Camabatela, para que, nos próximos meses, a sua estruturação arranque de forma efectiva. O matadouro vai ter capacidade para abater diariamente 200 cabeças de gado bovino e 300 de caprino.

JA – Pode falar-nos da situação actual do programa de repovoamento pecuário da província do Kwanza-Norte?

FHM -
A província do Kwanza-Norte conta, actualmente, com mais de nove mil cabeças de gado bovino registadas, mais mil em relação ao ano de 2008, para além das 11 mil 950 de caprinos, sob cuidado dos criadores tradicionais. Temos um total de 62 fazendas no município de Ambaca, duas em Cambambe e Lucala, uma em Kikulungo e 14 em Samba-Cajú. Todas elas funcionam, mas a maioria de forma deficiente por falta de condições, com excepção das fazendas "Pamado" e "Juale", localizadas na região de Nhanga ya Pepe, em Cambambe. As restantes apresentam estruturas débeis, outras quase nem as possuem e o gado encontra-se sob cuidado de pessoas não especializadas para o efeito. A situação agrava-se pelo facto de alguns bancos não estarem ainda preparados para financiar projectos de tal índole por alegada falta de seguro agrícola por parte dos criadores.

JA – O gado existente é submetido a vacinação? Quais as doenças que mais o afectam?

FHM -
A vacinação do gado continua a ser da responsabilidade do Estado, visto que muitos criadores ainda não possuem condições para tal. As maiores enfermidades que afectam o gado são a pneumonia, o carbúnculo e a doença do sono animal. No ano passado o departamento de veterinária recebeu do Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas um total de dez mil doses de cada tipo de vacina.

JA – Como caracteriza a produção agrícola da época 2009/2010?

FHM -
Tivemos um ano agrícola satisfatório, por termos criado as condições primárias que permitiram a implementação dos nossos programas, sendo o de maior expressão o de extensão rural, cujo impacto atingiu todos os municípios da província. A princípio tínhamos uma previsão de introduzir no programa 73 mil e 26 famílias, mas por razões técnicas e de movimentação das populações de um local para outro à procura das margens de rios que lhes possibilitasse o cultivo de hortaliças, só foi possível integrar 70 mil e 217 famílias.

JA – Com quantas associações e cooperativas trabalham?

FHM -
Trabalhamos com 464 associações e 100 cooperativas. Sabemos que o sector camponês se antecipa ao sector público, na preparação e cultivo. Os camponeses preparam o ano agrícola em finais de Julho e durante o mês de Agosto. Em Setembro, após as primeiras chuvas, aplicam a sementeira para que ao fim de 90 dias possam ter já algum milho, amendoim e feijão, tidos como os produtos essenciais pela população local.

JA- Em 2010, a produção aumentou em relação à campanha anterior, ou nem por isso?

FHM –
Em 2010, tivemos um aumento na ordem dos 30 por cento. Os camponeses produziram nove mil e seis toneladas de ginguba, três mil 450 de milho, cinco mil  e 272 de feijão, dez mil e 500 de batata-doce, 41 mil e 135 de mandioca. Os municípios de maior produção são os de Banga e Cazengo, com 500 hectares, seguidos por Ambaca e Lucala, com 400 hectares cada. O aumento da produção deveu-se à selecção de novas áreas de cultivo, originadas pelos vários processos de desminagem, associada à introdução de 53 tractores com os respectivos equipamentos, pertencentes ao sector público e privado. Estes tractores, durante a época em referência, lavraram três mil e 500 hectares.

JA – O crédito agrícola já está a surtir algum efeito no aumento da produção?

FHM -
O crédito agrícola, de forma singular ou colectiva, tem permitido que os camponeses e agricultores produzam segundo os seus ideais, ao contrário do que acontecia quando era o Executivo a fornecer directamente as sementes, muitas das quais já possuíam.

JA- Qual é o quadro actual da produção da banana, depois da  virose conhecida como Sigatoca ter afectado os bananais?

FHM -
A produção da banana ainda regista problemas sérios. Até agora não atingimos a produção desejada, em função desta praga que iniciou há alguns anos. A nossa grande preocupação é juntar esforços para efectuarmos ensaios de algumas espécies que se adaptem melhor aos terrenos locais e resistam à praga. Já adquirimos algumas espécies provenientes de institutos agronómicos do Ghana.

JA – Estas espécies estão a revelar-se resistentes?

FHM -
Temos sido infelizes pelo facto de alguns elementos da população vandalizarem os campos de ensaio situados no Centro de Investigação Agronómica de Kilombo, que está sem qualquer vedação e com pouca segurança. A situação obrigou-nos a distribuir o tal material genético a alguns produtores, o que tem surtido efeito.

JA - Que projectos existem a favor da revitalização da produção de óleo de palma nos municípios do Ngonguembo e Golungo Alto?

FHM -
Embora o Ministério da Agricultura já tenha traçado planos para a exploração dos derivados da palmeira, a produção do óleo de palma ainda é feita de forma rudimentar e apenas para o consumo familiar e pequenas vendas. No ano passado tivemos a visita de uma equipa de especialistas provenientes da Indonésia, que tem uma grande experiência, mundialmente reconhecida, na produção do óleo de palma. A vinda desses especialistas serviu para avaliar o material genético local. E o que nos pareceu é que eles levaram uma boa imagem do nosso dendém.

JA – Existem projectos para a expansão da produção do óleo de palma para lá do quadro familiar e artesanal?

FHM -
No quadro do aproveitamento dos derivados da palmeira, estamos a desenvolver uma estação experimental com três hectares, já recuperados, no sector do Zanga, 22 quilómetros a leste da cidade de Ndalatando. Aí prevemos partir para o fomento da cultura do óleo de palma, visando responder aos anseios do Ministério da Agricultura e do Executivo em relação à produção de biocombustíveis. Temos também a esperança de que, nos próximos tempos, o Banco de Poupança e Crédito possa despoletar o crédito ao investimento no sector agrícola, com valores entre 50 mil e 250 mil dólares. Isso pode incentivar os produtores a comprarem fábricas de óleo de palma de médio porte, visando produzir mais.

JA – Para além da banana e da palmeira, quais são os outros projectos agrícolas existentes na província do Kwanza-Norte?

FHM –
Na região, temos os projectos de âmbito central e os de carácter local. O de maior referência é o programa de reabilitação do perímetro irrigado do Mucoso, que vai abranger uma área útil de 500 hectares. Neste momento estão a ser reabilitados os canais de irrigação e a estação de captação da água. Prevê-se a implementação do método de irrigação gota a gota, viabilizando assim o fomento da cultura de hortícolas, citrinos e outras. Para além da produção de vegetais, o projecto do Mucoso prevê a recuperação de escolas e postos de saúde, para além da inserção de cerca de duas mil e 700 famílias camponesas.

JA – Quais os ganhos que se prevê ter a partir da reabilitação do perímetro irrigado do Mucoso?

FHM -
O programa vai contemplar a reconstrução das residências dos técnicos e da população na zona do perímetro. O objectivo principal é melhorar a dieta alimentar da população e abastecer a indústria transformadora do município de Cambambe, como o caso da fábrica de bebidas Vinelo, que se encontra em reabilitação. Os componentes de rega vão ser constituídos por quatro electro-bombas, com capacidade de bombear 450 metros cúbicos de água por hora, a partir do rio Kwanza, suportadas por 90 quilowatts de energia.

JA – Quando é que, efectivamente, a produção no Mucoso arranca?

FHM -
Acreditamos que a primeira fase de produção arranca no mês de Setembro ou Outubro de 2012. Temos informações de que as hortaliças vão ser cultivadas numa extensão territorial de 106 hectares. Cerca de 112 hectares são para o cultivo de ananás e mangas e 168 para os citrinos. Os talhões vão ter caminhos primários com oito metros de largura, para a passagem de camiões e tractores. Os caminhos secundários vão ter seis metros de largura. 

Tempo

Multimédia