Entrevista

"Queremos participar mais na reconstrução do país"

João Dias |

A arquitectura em Angola começou a ganhar expressão a meio da década de 1980, quando um grupo de arquitectos terminou a licenciatura na Universidade Agostinho Neto (UAN). A partir daí, com dificuldades pelo meio, a profissão tem ganho espaço e prova disso é a criação em 2004 da Ordem que veio regular e impor mais organização ao sector.

Bastonário da Ordem Victor Leonel
Fotografia: João Gomes

Angola, com cerca 20 milhões de habitantes, tem 600 arquitectos. O bastonário da Ordem, Victor Leonel, em entrevista ao Jornal de Angola falou dos desafios da agremiação e disse estar preocupado com “a quase falta de encomendas” para a grande maioria dos arquitectos, o que torna a profissão “boa para alguns e difícil para outros”.

Jornal de Angola - Como caracteriza o exercício da profissão no país?


Victor Leonel -
O número de arquitectos que temos em Angola ainda é muito reduzido, perto de 600.Deste número, 90 por cento está em Luanda e apenas dez no resto do país. Mas o problema não é apenas esse  e ainda bem que foi criada a Ordem que impõe mais organização ao exercício da actividade.

JA - A questão do número de arquitectos por habitante  em Angola pode ser resolvida em pouco tempo?


VL - A União Internacional de Arquitectos define um arquitecto para dez mil pessoas e em Angola temos um para 33 mil, mas na capital, com aproximadamente seis milhões de pessoas, há um para 12 mil, o que é uma situação inaceitável.

JA – Que perspectivas para a profissão?

VL -
A tendência é atingirmos a suficiência nos próximos dez anos. Angola tem 12 escolas a ensinar arquitectura, pelo que dentro de uma década devemos ser auto-suficientes, mas temos de ter cuidado com o problema do excesso que cria naturalmente o subemprego. A função de um arquitecto é idealizar, projectar, delinear e definir com estética e arte os espaços e torná-los sustentáveis e funcionais e por isso com o aumento do número de profissionais vai ser possível tratar facilmente a questão da arquitectura e do bem-estar.

JA – Em que estado está a profissão neste momento de reconstrução do país?


VL - O arquitecto não trabalha isoladamente e depende das encomendas. É assim em todo mundo e as maiores encomendas são as públicas e são essas que quase não as temos. Há muitos trabalhos a serem desenvolvidos, que precisam do envolvimento de profissionais inscritos na Ordem dos Arquitectos de Angola.

JA - O que está na base desta situação?

VL – A questão é de grande complexidade, mas o que é verdade é que as encomendas são poucas ou quase nenhumas. Os arquitectos angolanos, principalmente os inscritos na Ordem, quase não têm encomendas públicas. Alguns abrem ateliers e por falta de encomendas têm de os fechar e arranjar outro emprego. Neste momento, a profissão é famosa para uns e para muitos nem tanto assim.

JA - Porquê?


VL - Os vários sectores do Executivo deviam dar oportunidades dos arquitectos participarem mais em concursos e projectos nacionais. Além disso, muitos dos trabalhos são feitos por gabinetes de empresas estrangeiras. Não é que não possam fazê-lo, mas é fundamental que se saiba que existe uma ordem profissional que regula a actividade e que para a exercer é preciso estar inscrito.

JA – Que solução?


VL -
Vamos estabelecer contactos com o Executivo nesse sentido e abordar a questão do ponto de vista da protecção das instituições nacionais. As ordens profissionais existem para controlar o exercício da profissão.

JA – Em relação às nossas cidades, o que lhe ocorre enquanto arquitecto?

VL - Estão muito bem-feitas se olharmos para o traçado arquitectónico. Mas precisam de crescer de modo correcto, sustentável e funcional. O caso de Luanda é ímpar. Tem o crescimento que tem porque as outras cidades registaram uma saída enorme da população devido à guerra. Agora que as pessoas procuram regressar às terras de origem é preciso preparar as condições, pois não adianta voltarem para musseques à volta das cidades.

JA - Luanda também é hoje resultado do êxodo rural?

VL - Para aqui confluem cidadãos de praticamente todo o mundo e de todos os pontos do país, mas o motivo que originou a saída das pessoas do campo foi essencialmente a guerra. Não foram para as cidades por as acharem atractivas e muitas querem voltar porque a experiência não foi boa, mas é preciso que encontrem boas condições para o seu bem-estar e produção. É bom saber que as pessoas numa aldeia têm próximo delas hospitais, bibliotecas e se possível cafés.

JA - Fala da instalação de cidades médias?

VL -
Não é preciso que sejam cidades médias. Basta que haja cidades pequenas com serviços essenciais para a vida no campo ser mais aconchegante e convidativa. Sem tais condições o processo do retorno ao campo é complicado. As cidades não crescem do zero. Há um motivo que as faz crescer. Com 11 anos de paz, o investimento aumenta e também o emprego e a qualidade de vida. O campo não pode ser esquecido nesse processo.

JA - O que mais o preocupa?


VL - As reduzidas encomendas. Precisamos trabalhar para ganhar dinheiro e a ausência de encomendas dificulta-nos a vida.

JA - O que são cidades bem feitas ou esteticamente bem estruturadas?

VL - As cidades dizem mais se conseguirem ser sustentáveis e funcionais e com consequência confortáveis. Não me interessa muito o formato do pilar ou estilo da janela dos edifícios, mas o conforto no interior, a facilidade na mobilidade e integração dos serviços. Temos de olhar para o espaço em termos de conforto e privilegiar a dimensão cultural.

JA - Como estamos nesse sentido?

VL - Se olharmos para os traços arquitectónicos das obras de Luanda verifica-se haver pouca sensibilidade em relação à parte cultural. Muitas pessoas pensam que a arquitectura é uma indústria, o que é errado, pois é essencialmente arte e cultura. Preocupa-me esta questão porque nos nossos edifícios, vivendas e escritórios isso não é contemplado. Não têm motivos angolanos explorados ou identificados.

JA - Quer dizer que arquitectura é também vector cultural?

VL – Quando ouvimos um semba, samba ou uma música sul-africana, identificamo-las de imediato. Observa-se isso noutras áreas da arte, mas não na arquitectura nacional. É fundamental ter casa, mas é preciso que tenham traços culturais. O que diferencia a casa chinesa da angolana são os motivos.

JA - Que papel tem o arquitecto perante um contexto em que se tende a ocidentalizar os traços arquitectónicos sem olhar para as características do país?

VL - Os novos edifícios são apelativos, mas parece não se estar a olhar para a questão da sustentabilidade. Os edifícios envidraçados não são sustentáveis. Por um lado, vidros que não deixam penetrar os raios solares são caros, o que encarece o edifício e por outro, consomem muita energia eléctrica. A nível dos países mais desenvolvidos já se define, uma taxa de consumo de energia, quando se aprova a construção de um edifício. Por mais interessantes que sejam, se os níveis de consumo de energia não obedecerem aos requisitos, não é aprovado.

JA - É utópico falar-se de sustentabilidade no urbanismo e arquitectura nacional?

VL – Não, a questão é nova, mas não impede que se traga para arquitectura nacional o ecológico e sustentável. Mas temos muitos bons exemplos de edifícios com uma arquitectura excelentíssima e sustentável. Os dos Ministérios do Urbanismo e Habitação e Construção são exemplos disso.

JA - Temos mesmo cidades dormitórios na verdadeira acepção da palavra?

VL – Nem tudo são cidade, em muitos casos são aglomerados, mas a solução para cidades desta índole passa pelos serviços integrados. Se não existirem, as pessoas têm de trabalhar fora do local de residência e as consequências vêm sempre ao de cima.

JA – Quais os desafios da Ordem para os próximos anos?

VL – Inúmero, mas é importante conseguirmos mais encomendas e por isso vamos desenvolver esforços para os arquitectos estarem mais envolvidos no processo de reconstrução nacional. Também vamos criar uma série de prémios, pois temos de conhecer os nossos arquitectos tal como sabemos quem é o Mantorras e continuar a apostar na formação.

JA - O que pensam fazer em concreto?

VL - Vamos criar cursos que ajudem os arquitectos a montar ateliers que sejam também geradores de emprego. Se olharmos para o número de escolas médias de urbanismo, construção civil e arquitectura verificamos que a quantidade de técnicos médios que se formam é elevado e que muitos acabam por abandonar a profissão e abraçar outras áreas por falta de espaços para trabalhar e de encomendas.

JA - Com que parceiros conta a Ordem dos Arquitectos de Angola?

VL - A Ordem é filiada na União Internacional de Arquitectos desde o primeiro mandato de António Gameiro, na União Africana de Arquitectos e no Conselho Internacional de Arquitectos de Língua Portuguesa e assume a vice-presidência da União Africana de Arquitectos para região sul.

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