Entrevista

Relações passaram a excelentes com Jacob Zuma

Madalena José| Pretória

A partir da visita do Presidente Jacob Zuma a Angola, em 2010, e da deslocação do Presidente José Eduardo dos Santos à África do Sul, em 2011, as relações entre os dois países ganharam um grande impulso.

Embaixadora de Angola na África do Sul destaca impulso nas relações bilaterais com a chegada de Jacob Zuma ao poder
Fotografia: Dombele Bernardo

A partir da visita do Presidente Jacob Zuma a Angola, em 2010, e da deslocação do Presidente José Eduardo dos Santos à África do Sul, em 2011, as relações entre os dois países ganharam um grande impulso. O desafio do momento é manter esse nível elevado. A embaixadora de Angola na África do Sul está empenhada nesse objectivo. Em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola disse que em dois anos foram celebrados 27 acordos, entre memorandos e instrumentos de cooperação.

Jornal de Angola – Como avalia as relações entre Angola e a África do Sul?

Josefina Pitra Diakité -
É um prazer dar esta entrevista ao Jornal de Angola, desde que estou em Pretória deixei de ler o jornal em papel, por isso estou satisfeita por este reencontro. As relações entre Angola e a África do Sul são excelentes, pois após a ascensão do Presidente Jacob Zuma elas conheceram um novo alento. A partir da visita do Presidente Jacob Zuma a Angola, em 2010, e do Presidente José Eduardo dos Santos à África do Sul, em 2011, as relações conheceram um grande impulso. Desde então, são 27 acordos celebrados com a África do Sul, entre memorandos e instrumentos de cooperação.

JA -  Já existem resultados concretos?

JPD -
O desafio do momento é trabalhar para que haja resultados. Estamos a trabalhar com as autoridades sul-africanas aqui em Pretória e com a própria embaixada da África do Sul em Luanda, para ver o que já foi feito e o que está por fazer. Para nós, um ponto de honra é concretizar os acordos celebrados. Às vezes, temos dificuldades, do ponto de vista institucional, em fazer o acompanhamento das acções e compromissos estabelecidos. Mas vamos trabalhar mais com as instituições sul-africanas, no sentido de fazer crescer a cooperação e a execução dos acordos.

JA - Como estão as relações empresariais?

JPD -
Ainda não chegaram ao nível que desejamos atingir. Para isso, temos de desencadear algumas acções, como de efectivação de mais missões empresariais angolanas e sul-africanas. Os empresários de Angola deslocam-se pouco à África do Sul. Mas neste momento, temos empresários sul-africanos nas 18 províncias angolanas, a actuarem em diferentes ramos, como a agricultura, comunicações, indústria e energia.

JA - Como avalia o comércio entre os dois países?

JPD -
Em termos de balança comercial, pende para o lado angolano, por causa das relações económicas no sector da energia. Evitamos falar de números, porque há empresários que chegam de Angola por iniciativa própria e escapam ao nosso controlo. Também, há referências da Agência Nacional de Investimento Privado (ANIP) que precisamos de conciliar, para descobrir as empresas que existem na África do Sul a trabalhar para Angola.

JA - Qual é o perfil dos empresários sul-africanos que procuram o mercado angolano?

JPD -
Basicamente, são bons investidores. Na África do Sul, a construção também é de betão como em Angola. Há iniciativas do ponto de vista da indústria mineira, do turismo, do investimento em restaurantes e também no âmbito da agricultura. Temos boas relações com o departamento sul-africano do comércio e da indústria, mas precisamos de trabalhar no sentido de abrir portas para que mais sul-africanos se interessem pelo nosso mercado.

JA - Como está a cooperação na área da Ciência e Tecnologia?

JPD -
O Ministério da Ciência e Tecnologia é o que mais trabalhou no ano que está prestes a findar. Há um ano que cá estamos, tivemos a visita da ministra, que esteve cá a celebrar acordos, e logo se seguiram várias equipas do Ministério da Ciência e Tecnologia de Angola, que traçaram o programa de cooperação. Eles estão a trabalhar no âmbito da cooperação na área das ciências exactas e das tecnologias de ensino, como matemática, para ver até que ponto o Ministério da Ciência e Tecnologia da África do Sul pode ajudar o nosso país neste contexto e na definição de currículos.

JA - De Washington para Pretória, qual é a diferença?

JPD -
Não acho que haja grande diferença. Em Washington tínhamos uma vida frenética, muito dinâmica e surpreendente. O trabalho na África do Sul é mais ou menos ao estilo de Washington. Aqui temos uma actividade diplomática na perspectiva de cooperação Sul-Sul. É agradável porque continuamos com a mesma dinâmica de trabalho. Nos Estados Unidos trabalhávamos as questões numa perspectiva abstracta. Aqui estamos no terreno e acho que a diplomacia em África é mais real. Há um contacto mais directo entre os políticos.

JA - O que nos pode dizer sobre a comunidade angolana na África do Sul?

JPD -
A comunidade angolana na África do Sul é constituída por estudantes, intelectuais e empreendedores.

JA – Como está a questão dos angolanos que pertenceram ao Batalhão Búfalo?

JPD -
A comunidade da região de Pomfret é composta por antigos militares do Batalhão Búfalo e respectivas famílias. As dificuldades desta comunidade são diversas, mas é preciso sobretudo apoiar as crianças órfãs e o elevado número de viúvas. Há também a necessidade da embaixada apoiá-los para que possam ligar-se mais facilmente ao país. Era bom instalar antenas da Televisão Pública de Angola (TPA) para que possam ter um maior acompanhamento da situação do país. A comunidade de Cape Town também é constituída por muitas crianças não escolarizadas e jovens mães que não trabalham por falta de formação.

JA - O que fazer para melhorar a situação desses angolanos?

JPD -
Em pleno século XXI não é aceitável encontrar crianças não escolarizadas e pessoas adultas analfabetas. É muito constrangedor. Temos de criar condições para que elas possam estudar.

JA - Os angolanos estão seguros na África do Sul?

JPD –
Ninguém está 100 por cento seguro em parte nenhuma do mundo. Nos EUA são bem conhecidos e fazem manchetes os níveis de criminalidade. Na África do Sul os índices de criminalidades também são elevados, mas assistimos a todos estes problemas e desafios com tranquilidade. A situação já foi mais calma e estável do ponto de vista de segurança. De algum tempo a esta parte começamos a experimentar novamente alguns problemas que vivemos no passado, como assaltos à mão armada. Membros de uma delegação do Ministério da Comunicação Social, ao sair do aeroporto para o hotel, foram assaltados.

JA - Quem é Josefina Pitra Diakité?

JPD  -
Não sei se me sei descrever, mas eu sou a embaixadora de Angola na África do Sul. Venho de Washington, foi a minha segunda missão, depois da primeira na Suécia, onde comecei, aos 35 anos. Sou licenciada em Direito pela Universidade Agostinho Neto, casada, mãe de três rapazes. Gosto muito da família e de relações sociais.

JA - Que recordações tem do período antes da Independência Nacional?

JPD -
Eu participei no movimento estudantil, saltei da JMPLA para a OMA, no bairro Catambor. Trabalhei também na alfabetização, nos primeiros comités no bairro do Golf. O período pré-independência é indescritível. Não há palavras para descrever o dia da independência. O período colonial não é para esquecer, porque estas coisas não se esquecem. As memórias desse tempo só servem como referência, para um futuro cada vez melhor, para nós e para as gerações futuras.

JA - Qual é o seu hobbie?

JPD -
O meu hobbie é desporto, caminhar, leitura e ouvir música.

JA - Consegue conciliar as tarefas de embaixadora e de mãe?

JPD -
Como mulher e mãe tenho de reconhecer os esforços que o Executivo tem feito no sentido da promoção da mulher. A mulher angolana é forte, é batalhadora. E como referência e homenagem às nossas mães, temos feito o nosso melhor, para que o género nunca esteja em causa. Às vezes é quase impossível a conciliação das tarefas. Comecei na vida diplomática solteira, em Outubro de 1993. Na altura só estava disponível para o trabalho. Entretanto casei-me e fui mãe. A partir dessa altura passei a conciliar o papel de mãe e de diplomata. A primeira vez em que me encontrei com o rei da Suécia, depois da apresentação das cartas credenciais, estava grávida de sete meses.

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