Entrevista

Reveses da feitiçaria revistos com “Caça às Bruxas”

Adriano de Melo

"Caça às bruxas" é o novo livro de Albino Carlos, que é apresentado ao público esta quinta-feira, às 18h00, na sede da União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda. Com um título, que desperta a curiosidade de qualquer um, o livro lança um alerta social para a consequência que certas práticas podem ter na vida das pessoas, em particular, e na sociedade, em geral. Para conhecer um pouco mais das motivações por trás da publicação, o Jornal de Angola "conversou" com o autor.

Fotografia: DR

Jornal de Angola - Num dos trechos da nota de imprensa, a UEA diz que o livro revela a imperiosidade dos angolanos exorcizarem os seus fantasmas. O que o "Caça as Bruxas" traz de novo ao leitor?

Albino Carlos - O livro traz um pouco da alma angolana. Traz o folclore, a oralidade, a narrativa do universo maravilhoso e uma arrojada tentativa de proposta de um novo cânone do romance angolano. O livro mostra-nos que as crenças, os mitos e superstições podem emperrar o desenvolvimento do país, para alem de constituir amarras para às pessoas a titulo individual. É também uma tentativa de desmistificação de aspectos importantes da nossa existência como povos e Nação e uma homenagem à heróica localidade do Cuito Cuanavale e as suas gentes.

JA - O que o seu leitor, já habituados a títulos como "Issunje", pode esperar deste livro?

AC - É uma obra diferente, que faz incursões nas formas tradicionais de narrar e mistura com técnicas moderna do romance. Há muito trabalho estético quer em termos de conteúdo quer em termos de apresentação das estórias. Há mistura de géneros literários e géneros jornalísticos, pelo que o meu lado de jornalista esteve em grande evidência. O livro é no fundo uma homenagem às vitimas das acusações de feitiçaria que têm ocorrido por todo país, denunciando as atrocidades que se têm cometido em nome da tradição e de outras desculpas esfarrapadas. Revela também a incapacidade do Estado em lidar com essas questões, sendo certo o papel que as autoridades tradicionais podem desempenhar na gestão da justiça no meio rural e nos locais por onde não se faz sentir a presença do Estado e da Justiça.

JA - Então é um livro sobre a feitiçaria?

AC - A questão da feitiçaria é apenas um pretexto para abordar questões mais profundas sobre quem somos nós, os angolanos, e fala dos fantasmas que perseguem os angolanos desde antes da colonização, no período colonial, no pós-colonial, a fundação da Nação, o contacto com o estrangeiro e o lidar com o poder entre os compatriotas. Enfim, tenta mostrar a encruzilhada em que se encontra, em termos de perspectiva pessoal, os angolanos a nível individual. É um livro sobre os problemas existenciais que atormentam os angolanos.

JA - A história é o fuzilamento sumário de 7 feiticeiros no Cuito Cuanavale. Porque este caso em particular? O que mais lhe chamou atenção? Afinal casos de feitiçaria são muitos no país e alguns até são bem polémicos, porque envolvem crianças.

AC - Escolhi este caso porque foi um dos mais mediáticos, tendo mobilizado várias pessoas e instituições, desde a política à polícia, a justiça e direito, lei costumeira e poder tradicional e a comunicação social. O facto que mais atenção me despertou foi como um homem (no caso o governador do Kuando Kubango, na altura) no desempenho de funções de Estado coloca as suas crenças e processo de socialização primária no epicentro do acto político, ao invés de se submeter à Constituição. Os estudiosos dessas questões do direito teorizaram as mais diversas teses, sendo certo a necessidade de se compatibilizar, em certos casos, a perspectiva moderna do direito com formas tradicionais de gestão da Justiça.

JA - A feitiçaria ainda está tão enraizada na cultura nacional, mesmo com estes "novos ventos da modernidade"?

AC - A feitiçaria faz parte da idiossincrasia dos angolanos. É um tema recorrente nas artes e ofícios, na cultura e no pensamento, enfim na vida dos angolanos, em particular, e dos africanos em geral. Este também foi um dos propósitos do livro, mostrar o lado negro da alma angolana.

JA - Quer dizer que temas como este ainda são um problema. No seu ver qual seria a melhor saída?

AC - Muito recentemente, o Presidente do Tribunal Supremo, Rui Ferreira, deslocou-se em missão oficial a província do Zaire e visitou o tribunal tradicional local. Chamou-me a atenção o facto de Rui Ferreira ter tratado os sobas e as autoridades tradicionais com muito respeito e consideração, chegando ao ponto de os considerar colegas na actividade de administrar e gerir a justiça. Penso estar aí o caminho, a necessidade de começarmos a reconhecer o grande papel social e cultural das autoridades tradicionais e de algumas entidades tradicionais na coesão social e na consolidação da ideia de Nação e país. O caso Kamutukulenu abalou as estruturas dos princípios de organização do Estado Angolano. Há muitos livros e artigos à respeito. Ao invés de usar como matéria de estudo ao nível do Direito, da Antropologia ou da Sociologia, preferi fazer desse caso o ponto de partida para parodiar a nossa existência como Estado, Povos e Nação, escrevendo um romance tão intrigante quanto brutal.

JA - A nota também faz alusão ao humor negro no qual o livro é revestido. É mesmo um tema que podemos usar o humor negro?

AC - Os homens avaliam-se também pela capacidade que têm de sorrir dos seus próprios problemas. O riso muitas vezes constitui a melhor forma de encarar os problemas. Mas a minha obra não é uma comédia. É um autêntico drama. Saber quem somos, os espíritos e fantasmas das guerras e atrocidades de todos os tempos, a indefinição do futuro, tudo isso é um grande drama que o angolano carrega às costas e que ensombra o seu destino.

 

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