Entrevista

Ruanda reconhece Angola na paz dos Grandes Lagos

Adalberto Ceita |

No mês em que o seu país comemora o 23º aniversário do 4 de Julho, Alfred Gakuba Kalisa reafirmou o apoio do Governo ruandês nos esforços de Angola para o fim dos conflitos.

Embaixador do Ruanda em Angola
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Senhor embaixador, 23 anos depois que significado tem para o Governo e povo ruandês o 4 de Julho, data comemorativa do dia da liberdade no seu país?

É uma data de importância vital para o Ruanda, pois nela assenta a preservação da vida e da liberdade, recusa da divisão étnica, apelo ao perdão e à unidade nacional, aspectos fundamentais que deram aos ruandenses a oportunidade de transformar e desenvolver a sua sociedade e economia.  

Como é que caracteriza a situação socioeconómica no Ruanda?


O Ruanda não dispõe de muitos recursos naturais e a base da nossa economia está no sector da agricultura que é muito desenvolvido e rentável. Além disto, dispomos de bens e serviços de vária ordem, alta tecnologia e um sector turístico bastante atractivo. Em resumo, temos estado a aproveitar ao máximo os poucos recursos que dispomos de modo que a nossa população tenha uma condição de vida com qualidade.
Depois dos trágicos acontecimentos de 1994, se verificou uma grande recuperação económica e um desenvolvimento, que têm sido motivo de constantes elogios. Qual é o segredo desta reviravolta?
O estado em que estamos hoje é fruto de uma gestação acertada e coerente. Mas importa dizer que, inicialmente, tivemos vários apoios e destaco aqui o Banco Mundial, o Banco Africano de Desenvolvimento e a União Europeia. Foi também determinante a cooperação estabelecida com diferentes países da Europa, América do Norte e Ásia. Hoje, o Ruanda tem vontade de partilhar a sua experiência com os outros países africanos, porque crê que a multiplicação das trocas económicas entre países vizinhos é indispensável para o desenvolvimento. Ao nível da União Africana ou das organizações regionais do continente, encorajamos o crescimento de relações económicas, mas a paz e a segurança são condições primárias para realizar essas oportunidades económicas. Temos desafios da paz na Região dos Grandes Lagos da qual somos membros e, neste capítulo, o Ruanda vai continuar a apoiar a liderança de Angola.

Qual é a posição do seu Governo sobre os conflitos existentes na Região dos Grandes Lagos?

Estamos envolvidos no desenvolvimento económico e não é possível fazê-lo com sucesso numa região em conflito e sem envolver os países vizinhos. Conforme disse atrás, apoiamos os esforços de Angola em busca da paz e da estabilidade na Região dos Grandes Lagos. Por esta razão, o Estado ruandês disponibilizou mais de cinco mil tropas e polícias para as operações de paz na região sob mandato das Nações Unidas e da União Africana, nomedamente na República Centro Africana, Sudão, Sudão do Sul.

E no caso particular do conflito na República Democrática do Congo?

O Congo Democrático é vizinho do Ruanda. Dividimos a mesma história colonial e conhecemos o benefício de trabalharmos num clima de paz. Por isso, o Ruanda apoia cada esforço para trazer a paz na República Democrática do Congo. E fizemos isto muitas vezes com a liderança angolana na Região dos Grandes Lagos. Hoje, penso que o processo eleitoral em curso na República Democrática do Congo tem trazido mais tensão com o nosso vizinho. Podemos verificar o que está a acontecer com Angola devido à movimentação de milícias e o fluxo de milhares de refugiados do Congo Democrático, provenientes da região do Kassai. Reitero que o Ruanda vai continuar a apoiar a República Democrática do Congo para que consiga realizar as eleições num clima de paz e tranquilidade, porque acreditamos que o problema reside na realização das eleições.

Que avaliação faz da presidência de Angola na Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos?

Angola tem feito um trabalho louvável. Imprimiu uma nova dinâmica e, desde o primeiro mandato à frente da organização, foram realizadas muitas cimeiras, quer ao nível dos Chefes de Estado, ministros da Defesa e das Relações Exteriores. Tem sido de uma grande contribuição e foi fundamental na resolução de conflitos na República Centro Africana, Burundi, Sudão e Sudão do Sul. Apesar da instabilidade, os focos de conflitos na República Democrática do Congo estão sob controlo das autoridades. De um modo geral, Angola tem desempenhado um bom papel.

A propósito, como avalia as relações entre Angola e o Ruanda?

Penso que são boas e a decisão de abrir a Embaixada do Ruanda na República de Angola, em Junho de 2015, revela a nossa missão que é reforçar as relações políticas e económicas. No âmbito político, trabalhamos em conjunto para a resolução de conflitos na Região dos Grandes Lagos, enquanto, no âmbito económico, temos estado a analisar o que consideramos potenciais áreas de cooperação como a agricultura e a educação.

Que futuro se pode esperar das relações entre os dois países?

Os países africanos precisam apostar na livre circulação de pessoas e mercadorias. Penso que o futuro das relações entre os dois países e, no geral, entre os países africanos, tem de estar virado na cooperação económica.

"Cada povo ou país tem a sua própria história e democracia"

O que se lhe oferece dizer nove anos depois de o Ruanda se ter tornado no primeiro país a eleger uma legislatura maioritariamente composta por mulheres?


Tínhamos de ser realistas e pragmáticos no nosso processo de desenvolvimento. As mulheres representam a maioria da população. Ter mulheres na liderança aumenta o incentivo e as  oportunidades no seio das outras e foi neste Ruanda contexto que elas conquistaram esta parte justa na liderança do país. Como é óbvio, a mudança ou inovação provoca resistência, mas agora os homens ruandeses habituaram-se a ver as mulheres na posição de poder.

Embora o país possua índices baixos de corrupção tem sido constantemente criticado por organizações internacionais por limitar os direitos humanos?

Cada povo tem a sua própria história e a democracia não é monopólio de um país. A evolução da democracia depende da experiência histórica de cada nação e, dado o recente passado histórico, o Ruanda tem o foco virado na unidade nacional e no desenvolvimento económico. Modelamos as instituições políticas para o alcance destes dois objectivos. O consenso é importante para o alcance dos nossos objectivos. O Ruanda não é a
América do Norte, nem a Europa e vai construir a sua democracia no interesse do povo.   

As eleições presidenciais acontecem no próximo dia 4 de Agosto. Como é que está a ser vivido o ambiente eleitoral?


Actualmente o ambiente é de paz e tranquilidade, porque hoje nenhum ruandês deseja reviver o clima de violência. Entre os vários concorrentes, está o Presidente Paul Kagame, que se candidata à sua sucessão, depois de o referendo de 2016 lhe ter dado a oportunidade para se apresentar a um outro mandato.

Perfil


Alfred Gakuba Kalisa

Naturalidade
Nasceu em Huye, ao sul do Ruanda.

Formação
Frequentou o ensino secundário e universitário no Burundi. Formou-se em 1977 com uma licenciatura em Economia. Mudou-se para Boston, EUA, em 1978, e frequentou um programa de mestrado na Universidade de Boston.

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