Entrevista

"Sair do potencial para a realização"

Francisco Curihingana | Malanje

Malanje tem em curso vários projectos para enfrentar a crise económica provocada pela baixa do preço do petróleo, no quadro das estratégias nacionais definidas em Decrecto Executivo do Presidente da República. Em entrevista ao Jornal de Angola, o vice-governador provincial para o sector Económico, Domingos Manuel Eduardo, afirma que é preciso  sair do potencial para a realização, aponta a dificuldade de acesso a determinadas localidades já identificadas para o desenvolvimento de pólos agro-industriais como um dos problemas de solução prioritária.

Francisco Curihingana | Malanje
Fotografia: Eduardo Cunha |Malanje

Jornal de Angola – Que estratégias são adoptadas em Malanje para enfrentar o actual momento de crise económica que o país vive?

Domingos Eduardo
- A província de Malanje não é alheia ao contexto nacional. A situação é crítica e estamos a tomar medidas no sentido de ultrapassar esta crise. Como se sabe, foi recentemente aprovada por Decreto do Chefe do Executivo uma estratégia para a saída da crise e um dos vectores fundamentais são os programas dirigidos nos vários sectores. Malanje   desenvolve  projectos que têm muito a ver com a diversificação da economia. Está aqui um dos principais pólos de desenvolvimento agro-industrial, em Capanda. Temos também um grande potencial mineiro. Ainda não são conhecidas na totalidade as reservas minerais. Está a decorrer o Plano Nacional de Geologia, que nos vai dar indicadores mais precisos. Sabemos da existência de diamantes, ferro e outros minerais, que podem ser rapidamente exportáveis. O Executivo e o Governo da província  estão envolvidos na identificação de produtos tanto para satisfazer o mercado interno como para exportar. Devo também referir o turismo como um dos grandes recursos da província.

Jornal de Angola –Além do Pólo Agro-Industrial de Capanda, que outras acções se  enquadram no programa de diversificação da economia em Malanje?
Domingos Eduardo
- Na agricultura, o Governo da província tomou a iniciativa de localizar dois potenciais pólos agro-industriais, o primeiro na Baixa de Cassange, com 250 mil hectares, orientado para a produção de oleaginosas e, em particular, o algodão. Malanje já foi um grande produtor e exportador de algodão. O Governo   promove  a indústria têxtil nacional e faz todo o sentido que tenhamos aqui, na província de Malanje, um produtor e, se calhar, exportador de algodão.

Jornal de Angola – E o segundo pólo?

Domingos Eduardo
- O segundo pólo localiza-se no Alto Cuanza, na zona do Songo, também de 250 mil hectares, já demarcados, virados para a produção de arroz. Malanje também já produziu arroz no passado e tem condições climáticas e solos apropriados para a sua produção em grande escala. Decorrem contactos com o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), que já lançou um concurso para a identificação de consultores para a realização dos estudos técnicos e de viabilidade para o relançamento da produção do arroz, em particular nos municípios do Luquembo e Quirima. O grande problema dessas localidades prende-se com os acessos, mas temos a sorte de estarem incluídas no pacote da linha de crédito da China, de maneira que há boas perspectivas da sua reabilitação. Penso que estão a ser ultimados os aspectos técnicos e burocráticos para a libertação das verbas. Há também um concurso para empresas, incluindo chinesas, para a adjudicação das obras  sociais.

Jornal de Angola -  Qual é a participação do empresariado local neste grande desafio de diversificação da economia?

Domingos Eduardo
- Não podemos falar em diversificação sem ter em conta a participação activa do empresariado local. Temos relações privilegiadas com os representantes da classe empresarial, como a Câmara do Comércio. Sempre que possível, consultamo-los, eles são chamados a dar a sua opinião e a participar em projectos. Sei que, na nova linha de crédito da China, a questão das empresas nacionais tomou maior relevo, no sentido de  elas serem adjudicadas parcialmente obras de modo a privilegiar o trabalho de nacionais.

Jornal de Angola - Como está a questão do acesso ao crédito pelo empresariado local?

Domingos Eduardo
-O acesso ao crédito é, de facto, um problema. Sabemos que as condições estão a ser criadas para a cedência de créditos, mas é preciso que o empresariado esteja preparado e bem organizado ­para ser financiado. Os empresásios têm de cumprir determinados requisitos para ter acesso ao crédito e às vezes não têm essa capacidade. O INAPEM tem   apoiado na elaboração dos estudos e na formação dos empresários para permitir que o crédito seja bem empregue, porque já tivemos casos menos bons no passado e não os queremos repetir. Gostava de citar também o programa “Angola Investe”, que   funciona  em pleno e agora com maior pendor para os projectos virados para os produtos de maior consumo e também com carácter exportador. Em Malanje, temos 13 projectos maduros para serem financiados pelo programa “Angola Investe”. Podem parecer poucos, mas é melhor ter poucos e bons que ter muitos e maus. Temos três ou quatros projectos que já foram financiados pelo “Angola Investe”. Os outros estão em vias de financiamento.

Jornal de Angola - Há uma estratégia definida no domínio do turismo em Malanje?

Domingos Eduardo
- Temos de sair do potencial para a realização, mas ainda temos alguns obstáculos. A prazo, vamos ultrapassá-los para atrairmos mais turistas para o país. Precisamos de melhorar a qualidade da nossa oferta hoteleira e de restauração, temos de saber equacionar o binómio preço-qualidade. Malanje tem potencial, mas está sujeito a algumas questões estruturais em termos de turismo externo. Também há o turismo interno, que já se  faz  e precisa de ser potenciado. O Governo da província está envolvido na elaboração do seu plano director para o turismo, que vai definir as linhas orientadoras para o fomento do sector, enquadrado no Plano Nacional.

Jornal de Angola - O que há  de concreto no sector do turismo?

Domingos Eduardo-
Em concreto, temos o Pólo de Desenvolvimento Turístico de Calandula. Gostávamos que funcionasse melhor. Estamos a trabalhar com o pólo no sentido de conseguir algumas atracções no local, como a promoção de eventos, que tem tido alguma procura e pode fazer com que as pessoas contribuam nesta altura de escassez de recursos. Também estamos a pensar em parcerias público-privadas. Isto enquanto esperamos que outras estruturas se associem, como a desminagem. Não podemos fazer turismo com áreas minadas, mas as desminadas já podem ganhar outra dinâmica.

Jornal de Angola - A agricultura praticada em Malanje já pode substituir as importações?

Domingos Eduardo
- Para alguns produtos já, como a mandioca, de que Malanje  é auto-suficiente e é o terceiro produtor nacional, e a batata-doce, em que estamos no topo da produção do país. Malanje tem uma fábrica de transformação da mandioca e estamos a trabalhar na cadeia e produção de fuba de bombô, farinha e outros derivados. Queremos aproveitar também o amido da mandioca, que é um produto de procura internacional.

Jornal de Angola - Os agricultores continuam a queixar-se da falta de escoamento dos produtos para os grandes mercados?

Domingos Eduardo
- É uma queixa velha e recorrente. O Governo criou o Programa de Escoamento de Produtos Agro-Pecuários (PAPAGRO). Está a funcionar, mas nós pensamos que a dinâmica ainda é insuficiente. O Governo da província estabeleceu um programa próprio de complemento ao Papagro e vai potenciar os comerciantes com meios pesados para contribuir no escoamento dos produtos a partir dos principais pontos de produção. O Governo orientou os administradores municipais para reactivar os mercados rurais de modo a que os camponeses tenham a possibilidade de, periodicamente, comercializarem os seus produtos.

Jornal de Angola – Como decorrem as acções do Programa de Combate à Pobreza, de que é coordenador?

Domingos Eduardo-
O Programa Provincial do Combate à Pobreza, que o Governo desenvolve desde 2010, apesar de todos os esforços, está a ser afectado pelo momento em que vivemos, mas os resultados são visíveis nos municípios e comunas. O programa podia ter um desenvolvimento mais acentuado caso não tivéssemos este choque   nos recursos, mas o Governo está a fazer tudo para que a agenda social não seja  afectada.

Jornal de Angola – A crise interrompeu o programa de construção de 200 fogos por município?

Domingos Eduardo-
Não interrompeu. Houve um abrandamento, fruto da disponibilidade de recursos, mas os programas continuam. Na maior parte dos municípios da província, o programa dos 200 fogos já estava a cerca de 70 por cento a 80 por cento. Estava a entrar na fase de acabamento das infra-estruturas de apoio às habitações. O plano continua, só que a um ritmo mais lento, mas temos esperança que as obras recomecem em breve.

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