Entrevista

"Salvemos as espécies ameaçadas de extinção"

Manuela Gomes |

Comemora-se hoje o Dia Mundial da Biodiversidade. A efeméride foi instituída em 1992 pelas Nações Unidas, no dia em que adoptou o texto final da Convenção da Diversidade Biológica, com o objectivo de aumentar o grau de consciencialização e conhecimento sobre este tema.

Director nacional da Biodiversidade do Ministério do Ambiente preocupado com a caça furtiva da palanca negra gigante e dos gorilas
Fotografia: DR

Este ano, o tema escolhido foi “Biodiversidade e Turismo Sustentável”. Em entrevista ao Jornal de Angola, o director nacional da Biodiversidade, Joaquim Lourenço Manuel, disse que Angola, em termos de áreas de conservação, ainda possui zonas não proclamadas e que vão contribuir para a gestão sustentável dos recursos naturais.


Jornal de Angola - Que programa ou estratégias o Executivo, particularmente o Ministério do Ambiente (MINAMB), tem no que toca a uma maior preservação da biodiversidade angolana?


Joaquim Manuel -
Como se sabe, o Ministério do Ambiente é o departamento ministerial auxiliar do Presidente da República que tem por missão propor a formulação, conduzir, executar e controlar a política do Executivo relativa ao ambiente numa perspectiva de protecção, preservação e conservação da qualidade ambiental, controlo da poluição, áreas de conservação e valorização do património natural, bem como a preservação e uso racional dos recursos naturais renováveis. Existem estratégias e políticas criadas que são materializadas com a elaboração da legislação pertinente e a garantia de que a mesma é observada com rigor. Estas estratégias passam pela Política Nacional das Florestas, Fauna Selvagem e Áreas de Conservação, Estratégia Nacional da Biodiversidade e Áreas de Conservação, Estratégia Nacional das Alterações Climáticas e pelo Plano Nacional de Gestão de Resíduos Urbanos. Estratégias também estão a ser implementadas através de programas, projectos e planos de acção como o Programa de Qualidade Ambiental, de Gestão da Bacia do Cuvelai, de Formação do Pessoal do Ministério do Ambiente, o Plano Nacional de Expansão das Áreas de Conservação, o Projecto de Conservação da Palanca Negra Gigante, de recuperação das áreas de conservação, de construção de laboratórios de controlo de qualidade, de construção e gestão dos centros de monitorização ambiental e a construção e gestão da Escola Nacional de Formação. 

Jornal de Angola - O Ministério do Ambiente actua sozinho nesse processo?

Joaquim Manuel - Naturalmente que não. O Ministério do Ambiente conta com o apoio dos seus parceiros nacionais e internacionais na angariação de fundos, bem como na disponibilização de meios técnicos e humanos. Podemos destacar o apoio incondicional das associações ambientais nacionais e locais, amigas do ambiente, das comunidades locais residentes no interior dos parques nacionais e arredores, bem como de parceiros internacionais como a SADC, WWF (Fundo Mundial para a Natureza), Elefante sem Fronteiras, o Programa de Protecção da Chita e Mabeco, PNUD, FAO, União Europeia, Programa de Apoio do Japão, CITES e CBD, entre outros. 

Jornal de Angola - Qual é o quadro actual em relação à sobrevivência das espécies? Temos alguma em extinção?

Joaquim Manuel - Em relação às espécies consideradas ameaçadas, em vias de extinção e extintas, podemos afirmar que em Angola temos várias espécies ameaçadas tais como a palanca negra gigante, a girafa, o rinoceronte preto e branco, o chimpanzé, o gorila, também variadas aves como o papagaio cinzento, o peixe-boi e outros. Muitas destas espécies com grande declínio dos indivíduos da sua população, apresentam em alguns grupos população inferior a 20 indivíduos. Porém, para afirmar que uma espécie está ameaçada, é preciso um estudo para aferir o grau da ameaça e hoje é a actividade mais fácil de ser realizada. Também um estudo científico em todo o território nacional nas zonas naturais do seu habitat para indicar a existência, o número de indivíduos e a sua capacidade reprodutiva, de modo a calcular o seu índice de sobrevivência natural e, consequentemente, atestar o seu estado de ameaça. Em função da conclusão do estudo, podemos considerar a espécie ameaçada, em vias de extinção ou mesmo extinta das áreas naturais de habitat. De ressaltar que as espécies ou indivíduos de espécies introduzidas não fazem parte desta investigação.

Jornal de Angola - Fale-nos do estado actual da biodiversidade em Angola...


Joaquim Manuel -
A biodiversidade em Angola tem um nível médio de conservação. A nossa flora tem um nível mais aceitável de conservação em relação à fauna. Devido à pobreza no nosso país, principalmente nas zonas rurais, há uma grande pressão sobre os recursos disponíveis, a floresta e os animais selvagens para a obtenção gratuita de alimento, abrigo e meios de trabalho. Esta é a via mais fácil a que as populações recorrem para a sua sobrevivência, pressionando a fauna com o abate indiscriminado de várias espécies para a sua alimentação e comércio, onde vários compatriotas aproveitam-se para a actividade de lucro fácil. Outro dos grandes empecilhos de protecção total da biodiversidade é a falta de um orçamento adequado para a gestão efectiva da mesma, deixando algumas actividades em gaveta. Recordemos que a biodiversidade actua como uma pessoa que tem fome e se não comer morre.

Jornal de Angola - Quando podemos contar com um inventário nacional das espécies animais e vegetais?

Joaquim Manuel -  Infelizmente, até à presente data não foi realizado o Inventário Nacional da Fauna ou estudo pontual para a verificação da ameaça contra a fauna em Angola. É uma actividade programada há alguns anos, mas, por indisponibilidade financeira, ainda não foi concretizada. É uma actividade estimada em cerca de 20 milhões de dólares americanos para a contagem nacional de todos os animais da fauna angolana (através de meios aquáticos, terrestres e aéreos).

Jornal de Angola -  O que nos separa de um cenário em que podemos considerar equilibrada e rica a nossa biodiversidade, como vemos em outros países?

Joaquim Manuel - A protecção e conservação da biodiversidade passa por várias fases e aqui podemos citar o pessoal adequado e treinado, um orçamento efectivo a todos os níveis de governação, políticas e estratégias revistas e implementadas com um programa de monitorização mensal, semestral e anual, meios técnicos e humanos disponíveis, população educada e consciencializada, bem como a existência de instituições de protecção e conservação a nível de comuna, município e província fortes e coesas. Para tudo isto é necessário um esforço titânico do Governo. Porém, é impossível realizá-lo em um ano. Estando o sector a trabalhar em prol do alcance de uma biodiversidade mais rica, temos já elaborada a visão do Governo até 2025 onde constam todas estas actividades e estamos convictos de que é possível a sua materialização.

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