Entrevista

“Sempre acreditei numa Angola melhor”

José Meireles

Deixou, em 1987, a cidade de Aalborg, na Dinamarca, para abraçar uma causa na província do Bengo, numa altura em que havia muitas dificuldades no país, devido à guerra. Com 30 anos, Rikki Viholm deixou a família e a paz do país escandinavo, para se juntar aos angolanos, porque se apaixonou à distância por Angola e daqui não mais arredou o pé, até que adquiriu a nacionalidade, em 2002. Na conversa que se segue, a senhora dos "fardos" da ADPP (Associação de Desenvolvimento de Povo para Povo, uma ONG) diz que conhece as 18 províncias, é fã das músicas de Bonga, é adepta da equipa de andebol feminina do 1º de Agosto. Acrescenta que sabe cozinhar funje, adora kizaca e muteta e não se importa de degustar esse quitute onde quer que esteja

Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

A ADPP ou a senhora, quem chegou primeiro em Angola?

Primeiro, a ADPP que é um conjunto de pessoas.

Em que circunstâncias é que ouviu falar de Angola?

Sempre acompanhei Angola, a partir da Dinamarca. Visitei o país pela primeira vez em 1987. Nessa altura, não tínhamos implementado nada em Luanda, só em Caxito. Faltava muita coisa em Angola; faltou também solidariedade humana de muitas outras pessoas que não nasceram aqui. Angola fez e faz parte de Países da Linha da Frente na luta contra o Apartheid, na África do Sul, e a nossa organização na Dinamarquesa tinha como objectivo apoiar pessoas de vários países da Linha da Frente, entre eles em Angola, e fazer disso um movimento para reconstruir juntos, com os angolanos.

Disse que a implementação de projectos começou em Caxito?

Foi um acordo com o Governo. A ideia foi fazer uma escola só para crianças órfãs, que chegaram de várias províncias, por causa da guerra. A ADPP e o Ministério da Educação chegaram a consenso para fazer um primeiro projecto em conjunto, a chamada Escola Técnica Rural Paiva Domingos da Silva. Esta escola, antes da sua construção, já recebia crianças órfãs ou não que saíram de outras localidades.

Quando a senhora desembarcou em Angola, instalou-se em Luanda ou foi directamente para Caxito?

Quando cá cheguei, acabava de completar 30 anos e foi a partir daí que defini que quero trabalhar aqui. Visitei e acompanhei o trabalho que estava a ser feito e, em 1988, decidi fazer parte desse trabalho, por várias razões: Angola é um país muito bonito e poucas pessoas conheciam este país.

Quando cá chegou, qual foi a principal dificuldade?

A adaptação à Língua Portuguesa. Estava sempre a ler o Jornal de Angola e a ver a TPA.

Numa determinada altura, a ADPP ficou muito conhecida em Angola, por causa da venda de roupa usada...

A roupa usada era uma doação. Mas nem sempre uma doação deve ser entregue gratuitamente; tem de ter um preço razoável. As receitas ajudaram a criar fundos para desenvolvimento de projectos sociais.

E conseguiram criar muitos fundos?

Anualmente, criam-se fundos dessa maneira e este fundo é uma contrapartida. Há projectos que estão a beneficiar desses fundos.

Que tipo de projecto implementaram na altura, com a arrecadação desses fundos?

A escola construída em Caxito foi com os fundos provenientes da venda de roupa usada. Criámos um fundo para projectos sociais. Em 1989, criámos brigadas de arborização, plantámos um milhão de árvores na província do Bengo, até 1992, e depois fomos para o Namibe.

Quando a senhora chegou em Angola, vivia-se um período de guerra intensa. Não teve receio de deixar o seu país e vir para cá?

Não tive receio algum. Eu nunca escolhi uma vida fácil e quem nasceu aqui em Angola também não encontrou uma vida fácil.

Na altura deixou família, marido e filhos?

Marido e filhos não. Eu tinha apenas 30 anos de idade. Claro que deixei uma parte da família que continua a desenvolver um trabalho que eu estou a gostar.

Constituiu uma nova família em Angola?

Sim! Todos os meus amigos estão dentro e fora da ADPP. Reconheço os amigos como família. Quando cheguei, havia tantas dificuldades e talvez seja por isso que fiquei, porque eu queria tanto ver a paz em Angola e essa paz não chegava.

A senhora acompanhou todas as fases de transformação de Angola...

Quando cheguei, foi numa conjuntura económica social e política muito difícil, mas gostei da solidariedade das pessoas. Sempre acreditei numa Angola melhor. Na-quele tempo, não havia telefones móveis, usávamos apenas o rádio wolkie talkie. Para estabelecer comunicação com o exterior, era preciso ligar para a central da Angola-Telecom, foi incrível. Sem Internet, nem email, tínhamos que recorrer ao Centro de Imprensa Aníbal de Melo, para enviar um telex. Era a única forma de comunicar com o exterior.

A vinda a Angola foi uma decisão pessoal ou da organização?

A organização sugeriu, porque eu falava muito desse país. Então, decidi vir.


Porque razão falava tanto de Angola?

Por causa da guerra e dos obstáculos, naquela altura, aqui no país.

Quer dizer que a senhora se apaixonou pelos angolanos à distância?

Também foi uma das razões. Aliás, alguma coisa me dizia que os obstáculos para a paz em Angola demorariam até 2002.

Além da falta de comunicação, qual foi a maior dificuldade que enfrentou?

A Língua, em primeiro lugar. Foi difícil. Depois, os obstáculos e a burocracia. Houve muita burocracia na altura. Não havia uma lei de associações. Eu vinha de um país com um historial de sociedade civil, criei na Dinamarca uma escola para adultos.

Hoje, a ADPP deu um grande salto em Angola...?

A ADPP sempre esteve muito forte. O primeiro projecto foi na área de Educação. Significa que, ao longo desses 31 anos, estamos na Educação. A organização está hoje em 14 províncias, com escolas de formação de professores.

Têm recebido apoios financeiros ou institucional do Governo?

A ADPP tem projectos co-financiados com os governos provinciais e com o Ministério da Educação. Estamos a pedir parceiros para continuar a apoiar a Educação em Angola e continuamos a implementar escolas no meio rural. E a cada ano, temos realmente acções no meio rural, para a Saúde e Educação, porque ainda existem 1,2 milhões de crianças, pelo menos, fora do ensino e muitas zonas rurais precisam de "Professores do Futuro" com qualidades.

Cumpriu com o objectivo que a trouxe a Angola?

O meu objectivo é fazer a diferença, para um mundo melhor e, com certeza, estamos a conseguir. Há muitas ameaças, como as alterações climáticas, e há 30 anos não pensávamos nisto. Hoje, é um novo desafio que o mundo tem. Há 30 anos, plantámos árvores no Largo do Ambiente. Lembro que foi nos anos 90, numa campanha, num sábado, com apoio da Polícia Nacional e Governo Provincial de Luan-da. A ADPP planta árvores desde que criou a primeira escola, mas também reabilitou um viveiro em Caxito.

Qual foi a etapa mais difícil da implantação da ADPP em Angola?

Cada início é difícil. Há desafios, porque o mundo está em movimento.

O que mais a marcou em Angola?

O que mais me marcou são os angolanos. Se não fosse pelos angolanos, eu não ficaria aqui. Quando a paz chegou, isso me marcou muito, porque sonhei igualmente com a chegada desse dia, como muitos angolanos.

O seu sentimento é de dever cumprido?

Eu cumpro com os meus deveres todos os dias. Gosto do meu trabalho, tenho vício pelo trabalho e gosto de criar coisas novas.

Alguma vez lhe ocorreu a ideia de desistir, largar tudo o que está a fazer em Angola e voltar para a Dinamarca?

Acho que não existe lugar fácil em nenhuma parte do mundo. A pessoa deve ter desafios e Angola é um lugar bom para quem quer desafios. Para mim, Angola foi sempre um lugar perfeito e continua a ser.

“Sei fazer funje e kizaca”

A senhora já está em Angola há 31 anos. Tem saudades da sua terra natal, tem ido para a Dinamarca regularmente?

Visito a minha família todos os anos, mas a minha vida está aqui.

Trouxe à luz algum filho em Angola?

Não tenho filhos. É um defeito meu. Nunca me casei e não tenho filhos. É uma decisão pessoal.

Mas pensa casar-se?

Não! Nem pensar.

Já tem a nacionalidade angolana. Quando, concretamente, a obteve?

Isso foi em 2002, mas já havia solicitado no ano 2000.

Quando terminar o seu mandato, vai continuar em Angola?

Eu sou angolana, vivo aqui e vou continuar até não poder trabalhar. Corro de manhã, na Marginal de Luanda, para ter a certeza de que ainda posso correr por muitos anos.

Qual é o seu prato preferido?

Gosto muito de peixe, mufete, funje com moamba de galinha, kizaca, feijão de óleo de palma e a muteta.

Come com regularidade quitutes angolanos?

Sim. E se encontrar muteta na rua, seguramente vou comprar e comer.

E sente saudade da comida da Dinamarca?

Gosto da comida angolana e da dinamarquesa.

E quem cozinha a sua comida?

Eu mesma.

Também cozinha pratos típicos de Angola?

Sim! Sei fazer, principalmente, o funje e a kizaca.

Normalmente, aprecia a comida angolana só aos fins de semana?

Aos fins de semana, aproveito para praticar desporto com os amigos. Noutras ocasiões, vou para um desses lugares bonitos que Angola tem.

Conhece toda Angola?

Sim, conheço as 18 províncias.

Mas a vida da senhora não tem sido só a ADPP?

Como eu disse, eu tenho vício pelo trabalho.

Como é que ocupa os tempos livres?

Leio, assisto filmes, sigo as coisas do mundo, as notícias. Gosto de saber tudo sobre a África Austral, que acompanho durante esses 30 anos, sendo o África Magazine, da Rádio Nacional de Angola, que passa aos sábados de manhã, o meu programa favorito.

Sobre a música angolana quem é o cantor que mais gosta?

Gosto muito das músicas do Bonga, mas não perco a Yola Semedo.

E sobre os escritores angolanos, tem alguma preferência?

O Pepetela é muito bom.

Tem ido a festas aqui em Angola?

Festas não são comigo.

Porquê?

Dançar não é comigo. Os angolanos dançam muito bem, mas eu não danço.

A senhora é adepta de alguma equipa do desporto angolano?

Gosto da equipa de andebol do 1°de Agosto.

Quando Angola e Dinamarca defrontaram-se no Mundial de Andebol, de que lado é que ficou?

Estou com Angola. O treinador é da Dinamarca, ele é bom.

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