Entrevista

"Somos parceiros do Estado"

Adalberto Ceita |

Criada com o objectivo de prestar assistência social e promover as políticas de reintegração socioeconómica dos associados, a Associação de Apoio aos Combatentes das Ex-FAPLA (ASCOFA) comemora hoje 14 anos de existência.

A ASCOFA é parceira estratégica do Executivo angolano no processo de reintegração social dos ex-combatentes e respectivas famílias
Fotografia: Dombele Bernardo |

Em entrevista  ao Jornal de Angola, o presidente de direcção, brigadeiro António Fernando “Samora”, garantiu que a defesa da dignidade dos antigos militares constitui uma preocupação constante da instituição, bem como o contínuo processo de recenseamento e controlo para melhor planificação. Embora admita limitações de recursos por força da crise financeira, o presidente da ASCOFA assegura que muitas acções estão em curso de modo a reforçar a melhoria das condições de vida dos gloriosos combatentes.

Jornal de AngolaEm que contexto surge a ASCOFA?

António Fernando “Samora”
– Em 1992, por força dos Acordos de Paz de Bicesse, foi desmobilizado um número elevado de combatentes das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), muitos dos quais acabaram por ficar com o futuro incerto pela inexistência de um projecto que visasse a sua reintegração social. A situação acabou por originar uma onda de reivindicação entre os ex-militares. Entretanto, o país mergulhou numa guerra pós-eleitoral que se prolongou por vários anos. Mas atento à condição social desses ex-combatentes, o Governo cria, em 2001, a ASCOFA.

Jornal de Angola
Inicialmente quais eram os propósitos da instituição?

António Fernando “Samora”
  – Havia a necessidade de aglutinar os ex-combatentes de modo a garantir efectivamente a sua participação efectiva na sociedade civil e atribuir-lhes o reconhecimento pelo empenho e patriotismo à causa justa do povo angolano. Mas devo aqui reforçar que a defesa da dignidade dos ex-militares das FAPLA constitui uma preocupação constante da instituição, bem como o contínuo processo de recenseamento e controlo para melhor planificação.

Jornal de Angola – Com que apoios contam actualmente?


António Fernando “Samora” 
– Somos parceiros estratégicos do Executivo no processo de reintegração social dos ex-combatentes e respectivas famílias. Prova disto, todas as questões relativas à mitigação dos problemas que se colocam aos ex-militares são conduzidos com a colaboração governamental. O processo de inclusão, inserção e reintegração social dos milhares de associados exige um trabalho aturado e planificação concertada das instituições do Estado e não só.

Jornal de Angola – Quantos associados controlam?


António Fernando “Samora”
– Os nossos registos contabilizam cerca de 177.968 associados. Importa referir que estamos representados em todas as províncias do país, embora se reconheça que as condições não sejam ideais do ponto de vista das infra-estruturas.

Jornal de Angola – Pode  descrever os tipos de projectos que estão em execução para a melhoria da condição dos ex-combatentes?


António Fernando “Samora”  –
Temos estado a implementar projectos nos domínios da agropecuária, pescas, artes e ofícios, e mantemos excelentes relações com diferentes Ministérios para encontrar soluções que visam minorar as dificuldades por que passam muitos dos nossos associados e seus dependentes.

Jornal de Angola – Em que províncias os projectos são mais visíveis?


António Fernando “Samora” 
– Temos inúmeras cooperativas em fase de dinamização devido à conjugação do trabalho conjunto com os governos provinciais. Por exemplo, no Huambo possuímos uma serração, uma fábrica de carteiras e um aviário. Em Benguela contamos com cooperativas de pescas, unidades de produção agropecuária e agrícola, esta última com bons indicadores de produção. Na província do Cuanza Sul, possuímos cooperativas de pescas e agropecuária em diferentes localidades e um projecto florestal, no município do Seles. No Bié, estamos presentemente a desbravar um extenso terreno para o cultivo de milho em grande escala. Em resumo, são diferentes projectos em execução um pouco por todo o país por militares das EX-FAPLA, associados da ASCOFA e organizados por cooperativas. E o ano de 2014 permitiu reafirmar essa estratégia de desenvolvimento com vista ao melhoramento da condição de vida dos ex-militares.

Jornal de Angola – A integração dos beneficiários aos projectos obedece a algum critério específico?


António Fernando “Samora” 
– Ao nível do campo não existem muitos requisitos. Neste particular, destaco a parceira que estabelecemos com o Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas, que passa por uma reciclagem para que o ex-combatente obtenha na prática conhecimento daquilo que vai desenvolver no campo. Foi assim que o primeiro grupo que frequentou o curso intensivo absorveu os conhecimentos e agora são instrutores dos outros associados. 

Jornal de Angola – E em relação à aquacultura?


António Fernando “Samora” 
– Estamos no início deste programa e da parte do Ministério das Pescas, que nos tem dado todo o apoio, estão a ser criadas as condições necessárias para que o seu arranque seja feito sem dificuldades.

Jornal de Angola – A questão educacional tem merecido o devido acompanhamento?


António Fernando “Samora” 
– Está em curso a preparação de um Memorando de Parceria Estratégica com os ministérios da Educação, Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, e Justiça e dos Direitos Humanos, em que tencionamos reforçar as consignações da alfabetização, de formação técnico profissional, e para o direito de obtenção de registo civil de muitos ex-militares que perderam a documentação devido aos constrangimentos decorrentes do conflito armado.

Jornal de Angola – Para quando o início do programa habitacional?


António Fernando “Samora” 
– É um programa que já está esquematizado e tem a anuência do Presidente da República. Ao todo são cinco mil habitações do tipo T3, T4 e T5, previstas para todo o país, mas infelizmente a crise financeira inviabilizou-o. Só que tão logo a situação melhore acreditamos que vamos avançar com as obras. Como experiência piloto gostaríamos de iniciar no Cuanza Sul.

Jornal de Angola – Porque é que a condição de vida dos Ex-FAPLA ainda impõe muitos desafios?


António Fernando “Samora” 
– São de facto muitos os desafios, entre eles está a morosidade no pagamento dos subsídios. Para contornar esse constrangimento já existe um gabinete específico e uma comissão criadas a nível do Estado-Maior General. A comissão tem a incumbência de trabalhar em todas as províncias e não se limitar apenas às capitais, e sim alargar o trabalho até aos municípios, comunas e aldeias. Vai ao encontro desses ex-militares para que seja feito um levantamento muito mais responsabilizado de todos que devem beneficiar dos subsídios. Acontece que o Estado angolano disponibilizava os valores para o pagamento desses ex-militares, mas só aqueles que tomavam conhecimento recebiam, enquanto os que tomavam conhecimento tardiamente ficavam sem esse subsídio. Daí que desta vez o levantamento deve  ser feito no seu todo para impedir essas situações.

Jornal de Angola – E quanto às reformas?


António Fernando “Samora” 
– Para evitar essa questão, neste levantamento está assegurado e tão-logo esteja concluído vamos trabalhar com a direcção principal de pessoal e quadros do Estado-Maior General no sentido de fazer com que aqueles oficiais que não conseguiram entrar na Caixa Social das Forças Armadas Angolanas sejam canalizados para este efeito.

Jornal de Angola – Existe um prazo para que isso seja feito?


António Fernando "Samora" –
Estamos a trabalhar, é um processo que temos a incumbência de concluir em três meses. Iniciou em Julho e até Setembro devemos concluir. Estamos a realizar um trabalho cauteloso para impedir a entrada dos aproveitadores que sempre estão à espreita. Vamos procurar verificar o processo individual de cada um para que o processo seja justo.

Jornal de Angola – Quais os motivos que levam a que os ex-militares por vezes se decidam pela manifestação?

António Fernando “Samora” 
– Devo aqui dizer que o ex-militar das FAPLA, pela disciplina absorvida na vida militar, é difícil aderir a manifestações, e eis a razão por que temos estado a alertá-los a estarem vigilantes contra as manobras oportunistas, porque a ASCOFA não compactua com a anarquia social. O ex-FAPLA não deve apenas reivindicar o seu direito, mas também apresentar contribuições ali onde acha que a direcção da ASCOFA falha. Estamos a trabalhar dentro da limitação de recursos financeiros, agora imposta pela actual crise financeira, e ainda assim muitas acções estão em curso. Apelo aos associados para manterem a calma, porque a situação está a ser revista e acreditamos que em 2016 se vai inverter para melhor. 

Jornal de Angola – Ao longo desses anos todos tem sido satisfatório trabalhar em prol dos ex-combatentes?

António Fernando “Samora” 
– Como ex-FAPLA realizo este trabalho com enorme satisfação, e tenho a vantagem de me sentir devidamente inserido no seio dos meus ex-colegas. Quase não existe novidade alguma que me possa criar constrangimentos, porque conheço como poucos as ansiedades e expectativas que assolam os ex-combatentes.

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