Entrevista

"Sonhamos oferecer teatro de qualidade"

Matadi Makola

Hoje, às 18h, no CCBA, dá-se a abertura da terceira edição do Circuito Internacional de Teatro - CIT, que promete cerca de 30 estreias Adérito Rodrigues “BI”, director do festival, frisa nesta entrevista exclusiva ao Jornal de Angola que Luanda ainda continua orfã de uma digna sala de teatro pública e que a classe se arroja onde for possível.

O CIT volta a erguer-se e, desta feita, pela terceira vez…?
Desde a primeira edição que atravessamos sempre dificuldades. Eu falo, principalmente, no apoio do Estado. Mas, e infelizmente, as pessoas entendem sempre que nos referimos ao dinheiro. Não é isso. É claro que o as-pecto económico está entre as grandes necessidades. Mas tentamos mostrar ao governo que juntos podemos fazer melhor e coisas grandes. O Ministério da Cultura pode, por exemplo, por via de mecanismos legais e trocas de serviço, apelar aos empresários para ajudarem.

Já podemos falar num público CIT?
Temos conseguido “dar de mamar” a esta criança que nasceu em 2016, na Centralidade do Kilamba, na qual rendemos homenagem a Diogo Colombo, quadro do Ministério da Cultura, que hoje já se encontra aposentado, e também agraciámos a obra “Cacinda Não Volta Atrás”, do grupo Nguizane Tuxicane. Nesta primeira edição, tivemos uma ocorrência de público que atingiu mais de 18 mil pessoas. Já na segunda edição, tivemos os “50 Anos de Mena”, uma figura que já fez muito (e continua a fazer) em prol do teatro. Tivemos quase 15 mil pessoas em todos os espectáculos e agraciámos a obra “Hotel Komarca”, do Henrique Artes. Ou seja, em cada edição, homenageamos sempre uma figura e uma obra de grande aceitação junto de um público considerável.

Nesta edição, quem será o homenageado?
O homenageado desta edição será Manuel Sebastião, pelos 44 anos ligados à actividade artística. Porque ele foi, dentre muitos e sem desprimor para ninguém, a pessoa que muito se esforçou para a dinamização e massificação do teatro em Luanda. Lembro, por exemplo, as noites no Teatro Avenida, sempre à quinta-feira, e o seu desempenho no extinto Prémio de Teatro Cidade de Luanda, desenvolvido no consulado de Aníbal Rocha. Eu acho que é merecido, porque ele olha para todas as disciplinas artísticas, principalmente a nível de Luanda. Virão outras, efectivamente. Este ano, a obra a agraciar será “O Feiticeiro e o Inteligente”, do grupo Etu-Lene, dirigido por Beto Cassua.

Quais serão as representações internacionais desta edição?
Já tivemos mais, na primeira edição, quando acolhemos grupos oriundos da Alemanha, França, Itália, Cuba, Portugal, Brasil e Moçambique. Na segunda edição tivemos Moçambique, Brasil e Portugal. Nesse ano, o exercício económico não permite que tenhamos mais, pelo que nos contentaremos com a vinda de duas companhias de Moçambique e três do Brasil. Muito desta edição acontece porque temos a sorte de se nos juntar a ANGOMART, como patrocinador, que esperamos que venha a ser o nosso patrocinador oficial nas próximas edições. No geral, a contar com os nacionais, teremos no total  34 espectáculos, com a particularidade de quase todos serem estreias. 

Será possível?
É um desafio muito grande. A ideia é moldar o circuito em cada edição. Acho que será a primeira vez que Angola acolherá um total de cerca de 30 estreias. Geralmente, faz-se uma ou duas esporádicas. Vamos sempre trazer inovações, para que não tenhamos uma organização estanque, como foram os vários brindes que a UNITEL deixou à disposição na edição passada.

A UNITEL continua com o CIT?
Não, este ano não está connosco. Esperamos tê-la de volta nos próximos anos. Essa “perda” também afectou na nossa gestão. Só nos restou levantar a cabeça e continuar. Quem não tem deve aceitar.

As estreias de grupos nacionais contam para o Prémio Nacional de Cultura e Artes?
Sim! Esta plataforma permitirá a exposição de estreias de grupos nacionais, que, naturalmente, estão dentro do pacote de avaliação do Prémio Nacional de Cultura e Artes, na disciplina de Teatro. O júri também terá o trabalho facilitado, até porque os próprios grupos terão aqui em Luanda condições que talvez não tenham lá nos seus sítios.

Isso também abre a possibilidade de uma certa injustiça para com os grupos das províncias, na competição ao Prémio Nacional de Cultura e Artes?
Eu acho que não. Porque é uma questão estrutural. Porque, se formos coerentes, é preciso aceitar que a capital, em qualquer país, é onde as coisas acontecem primeiro, mesmo até no que toca à formação. Ou seja, as coisas demoram um pouquinho a ir para as demais províncias. A haver coisas dessa maneira, é certa a possibilidade de saírem penalizados. Aliás, é a tentar quebrar estas assimetrias que o CIT tem a característica itinerante, no sentido de um dia andarmos.

Já não se fica pelo Kilamba?
Já não. Nesta edição, estaremos na LAASP e Centro Cultural Brasil-Angola. Mas, se tudo correr bem com o patrocinador, queremos que a quarta edição ocorra entre Luanda e Benguela.

Cerca de 30  estreias em duas salas de teatro. É possível?
É muito difícil. Seria uma mais-valia se Luanda nos desse a oportunidade de fazer o circuito nos seus quatro cantos. Infelizmente, como quase não há salas de teatro, temos sempre que nos remediar na LAASP, onde será apresentado a maioria dos espectáculos.

A LAASP tem as mínimas condições necessárias?

Não. Enquanto sala de teatro, não oferece as condições desejadas. Só o Centro Cultural Brasil-Angola e a Casa das Artes é que oferecem dignidade. Financeiramente, pelo menos para nós, não é possível termos a sala da Casa das Artes. É o nosso sonho rodar por Luanda e dar teatro de qualidade equitativamente. Mas a cidade não ajuda, porque só temos o Talatona e a baixa de Luanda. Não temos como ir à Viana ou Cacuaco.

E a mania dos convites…
É preciso criar nas pessoas hábitos de assistir teatro e matar essa “mania” dos convites. Porque muito dos temas que se apela em notícias de jornais e televisão são retomados e refeitos pelos grupos de teatro, desde a violência doméstica ao repatriamento de capitais. O CIT tem grande aderência e pode ajudar na sensibilização da população. Por outro lado, também precisamos de sermos nós, fazedores de teatro, a ajudar com a nossa presença. Porque os actores raramente assistem a peças de outros grupos com os quais não estejam ligados. Da passagem do Pitabel (companhia que dirijo) por Portugal (no festival Periferias), Cabo Verde (no festival Mindelact), Brasil (FETILIP) e Moçambique (FITI), pude avaliar positivamente o grau de disciplina, divisão de tarefas e envolvimento da classe. Muitas pessoas que iam nesses festivais eram artistas de diversas disciplinas e pagavam as suas entradas, o que só valoriza a luta pela profissionalização. Não vi nada de convites. Muitos dos nossos artistas só se movem à base de convite. É de facto uma “mania de grandeza” que já não se justifica.

Mas, o que se passa?

Acho que a minha geração, isto no início, ficou condicionada pelas muitas querelas pessoais entre os directores e homens de cultura. O ego deles muitas vezes falou mais alto. Esse foi um dos nossos azares. Nós, hoje, compreendemos mais a natureza do tempo deles. Hoje, com idade e tempo de vida no teatro, já consigo perceber melhor as coisas e olhar diferente. Mas, quando mais jovem, cai também nesta onda de invejar e rivalizar, tudo por puro ego. Mas a minha geração tem tudo para dar a volta por cima e fazer melhor e com verdade.

E o que dizer do regresso de “Em Cena”?
Sinto que não tem a mesma força, um pouco pelo horário. Não sei se é o cenário. Também é uma faca de dois gumes, porque pode acomodar as pessoas em casa. Hoje o programa dos Tunezas está a dar uma “cossa” terrível ao “Em Cena”. Porque teatro de televisão não é o mesmo que teatro de palco.  

O Prémio Cidade de Luanda, nesta fase, deveria ser reactivado?

Sim, o Prémio Cidade de Luanda era muito crítico. Caso o governador não desse conta do que se estava a passar, ele, ao assistir à peça, questionava-se se era mesmo naquele ou noutro município visado. Isso obrigava-o imediatamente a deslocar-se. O teatro pode orgulhar-se disso. E nós só levávamos situações reais da vivência de Luanda em palco.

PERFIL

Nome:
Adérito Rodrigues

Estado civil:
Casado (com a actriz Carla Rodrigues)

Cargo
Director da Companhia Teatral Pitabel

Historial
Faz teatro há 32 anos. Começou em 1986, no Horizonte Njinga Mbande, sob o olhar de Adelino Caracol

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