Entrevista

Sonho da Academia é realidade

Morais Canamua|

A Força Aérea Nacional completa hoje, 21 de Janeiro, 39 anos desde que, em 1976, foi proclamada pelo Presidente Agostinho Neto.

General Francisco Gonçalves Afonso destaca as responsabilidades deste ramo das FAA
Fotografia: Domingos Cadência

O comandante deste ramo das Forças Armadas Angolanas, general Francisco Gonçalves Afonso, concedeu uma entrevista ao Jornal de Angola onde aborda questões ligadas à evolução, o reequipamento, modernização e qualificação dos efectivos, no âmbito do processo de reedificação das Forças Armadas Angolanas.

Jornal de Angola: Que significado têm os 39 anos que a Força Aérea Nacional?

Francisco Gonçalves Afonso:
Os 39 anos são uma idade adulta. Olhando para trás, sabemos que foi uma caminhada dura, com muitos sacrifícios consentidos em prol da Pátria. É verdade que depois de 2002, em que alcançámos a paz efectiva, as coisas têm vindo a melhorar gradualmente. Gostávamos de estar mais longe em termos de reequipamento e de preparação, mas  há dificuldades que é preciso ultrapassar.

JA - Quais são as dificuldades?

FGA -
Depois de 2002, as atenções estiveram viradas para o esforço de reconstrução do país nas mais distintas áreas como  a saúde, educação,  construção de pontes, estradas, escolas. Agora há novas perspectivas de crescimento. Tivemos que esperar. Infelizmente, surgem agora situações de crise financeira, motivadas pela queda dos preços do petróleo no mercado internacional. Vamos ter de nos adaptar a essa situação. Mas as Forças Armadas têm de se fortalecer, porque temos responsabilidades históricas, regionais e continentais que são incontornáveis e para tal temos de nos reforçar nos mais variados domínios.

JA - Como espera ultrapassar as dificuldades financeiras?

FGA -
Como disse o nosso Comandante em chefe e Presidente da República, temos de ser parcimoniosos, adaptarmo-nos à nova realidade e cumprirmos sempre as nossas obrigações, fazendo  contenção de gastos. Na Força Aérea usamos aviões em que há um consumo elevado de combustíveis, por isso devemos ter um controlo mais elevado. Desde já, avisamos as muitas estruturas que nos solicitam aeronaves que isso significa muitos custos e dentro da gestão parcimoniosa da coisa pública, vamos cortar.

JA - A Força Aérea tem bons equipamentos?

FGA -
A Força Aérea Nacional tem três armas: a aviação, defesa anti-aérea e tropas radiotécnicas. Depois temos serviços que asseguram essas três áreas, como comunicações, saúde, finanças. Temos ainda de formar os homens nos estabelecimentos de ensino militar. Hoje trabalhamos no sentido de que essas três armas cresçam em todas as vertentes. Há dificuldades, mas pensamos que  no próximo ano é feita a aquisição de equipamentos para podermos cumprir os nossos planos. Estamos expectantes com o que acontece este ano.

JA - São necessários equipamentos de ponta que custam muito dinheiro?

FGA -
Sim, novos radares, novos equipamentos de defesa anti-aérea, novas aeronaves. Na realidade vamos começar a concretizar todos os programas que gizámos até ao ano passado. Portanto, durante este ano e no próximo, vamos começar a desenvolver todos esses programas.

JA - A Força Aérea tem capacidade para formar os seus especialistas?

FGA -
A nossa Academia sofre constrangimentos financeiros e burocráticos, mas temos enviado pessoal para o exterior com particular incidência para a Rússia. Não estamos parados em relação à formação do nosso pessoal. A Academia é um sonho que queremos concretizar este ano, custe o que custar. Temos as infra-estruturas praticamente criadas e apenas está pendente a questão dos apretrechamentos. Pensamos que muito brevemente ela vai arrancar.

JA - Em que ponto está a Academia da Força Aérea?

FGA -
Temos as coisas muito adiantadas e estamos crentes que o sonho da Academia vai ser realizado. Mas temos o Instituto e a Escola de Especialistas. O Instituto tem sido muito útil.  Recentemente encerrámos duas formações uma delas, o curso de aperfeiçoamento do pessoal de operações e tudo decorreu normalmente. Temos consciência que vamos crescer ainda mais, mas  com o que temos, vamos fazendo alguma coisa boa.

JA - Tem existido a renovação do pessoal?

FGA -
Este é o culminar de uma etapa. O testemunho deve ser bem passado. Há um forte entrosamento entre novos e velhos. Por causa disso é que estamos preocupados em ir escrevendo a história para passar realmente o testemunho. Na Academia, no Instituto e nas escolas encontramos militares com grande experiência. Estando hoje no sistema de ensino militar,  transmitem os seus conhecimentos às novas gerações. Mas também as tradições de luta, a História. Servir nas Forças Armadas,  não é um mar de rosas. Aqueles que pensam que entrar na tropa é ganhar bons salários estão enganados.

JA -  Servir na Força Aérea exige muito?

FGA -
Há coisas difíceis. Os que entram devem ter a percepção de que é difícil. Para estar nas Forças Armadas Angolanas e particularmente na Força Aérea Nacional todos devem ter a percepção de que a missão é ingente e árdua. Aqui encontramos os verdadeiros valores. Aprendemos a respeitar o próximo, a termos solidariedade, coesão, camaradagem, enfim, princípios que só se ganham com o espírito de corpo. Essa é a lição que faz das Forças Armadas uma grande escola da vida.

JA - Os jovens adaptam-se bem a esses desafios?

FGA -
O pensamento de que aqui vão ter bons salários subsiste, até porque, de uma forma gera hoje as pessoas continuam a ver a entrada para as Forças Armadas, como um emprego e uma forma de ganhar a vida. São vários os casos em que somos abordados para ajudar alguém que precisa de emprego mas a Força Aérea não é um local de emprego. Quem abraça a vida militar, tem que se dar de corpo e alma.

JA - Há casos de deserções?

FGA -
O que existe é um certo desencanto dos jovens que vinham na perspectiva de ter boa vida, pensando ganhar bem, sem esforço. Mas aqui exigimos muito esforço. Os meses de recruta deve ser duros e exigentes para temperar quem vem para as Forças Armadas. Ou aguenta ou não aguenta. Muitos deles, depois da recruta, abandonam pura e simplesmente e desertam sem a mínima noção das consequências que isso acarreta para a sua vida e carreira. As consequências são várias, uma delas é cortar a possibilidade de viajar para exterior, estudar ou trabalhar.

JA - Qual a saída que aponta?

FGA -
Hoje as empresas que fazem recrutamento de força de trabalho deviam exigir a comprovação da situação militar regularizada. Nunca deviam empregar indivíduos que não estão aptos nem têm direito a um posto de trabalho. Na sociedade há regras e devem ser seguidas. Claro que esta abordagem não é linear. Há indivíduos que conseguem aguentar todas as adversidades e outros não, o que é normal, porque entende-se que a visão de cada um em relação à vida, não é idêntica havendo aqueles que se dão bem e os que se dão mal.

JA - Na recruta os jovens ganham espírito patriótico?

FGA -
Sim ganham. Isso é indiscutível. As pessoas, mesmo essas que acabam por sair, saem muito melhores do à entrada. Podemos estar seguros que esses jovens que passam pelas Forças Armadas, são pessoas melhores porque têm já a noção do sacrifício e da dificuldade e isso, com a camaradagem e a percepção da solução dos problemas em conjunto, no pelotão, na companhia,  vivem os problemas de forma conjunta, daí tornarem-se pessoas melhores.

JA - Quais os desafios imediatos para a  Força Aérea?

FGA -
Os desafios são vários e permanentes. A Força Aérea Nacional, em particular, e as Forças Armadas Angolanas, em geral, têm homens, infra-estruturas e equipamentos e cada um dos ramos tem a sua missão. Para cumprir bem essa missão,  os homens têm de se preparar. Têm de ter conhecimentos e manusear esses equipamentos. O desafio é sermos cada vez melhores no manuseio do equipamento, termos a capacidade de criar condições e formar o pessoal. Aí se explica por que os desafios são permanentes.

JA -O processo de aprendizagem é contínuo?

FGA -
Com a aquisição de equipamentos mais modernos, vão-se colocando outros desafios. Um é aprender a manuseá-los, tudo isso faz parte do processo de aprendizagem contínua Para isso, criamos condições para que a formação seja mais fácil. Portanto, a preparação, criação de condições sociais e de trabalho e aquisição dos equipamentos, acabam por ser os nossos desafios permanentes.

JA -  A Força Aérea Nacional pode melhorar ainda mais?

FGA -
Essa é realmente a perspectiva. Enquanto Força Aérea, não temos todos os dados na manga. Há uma cadeia de comando. Há dificuldades que o país vive. Não estamos isolados desta realidade e, obviamente, poderemos sofrer as consequências de toda essa dinâmica. Mas, queremos afirmar que a predisposição,  a entrega e o espírito de abnegação estão presentes em nós para o que der e vier.

JA - Que mensagem deixa aos efectivos da Força Aérea?

FGA -
A nossa mensagem é de esperança. Temos de estar disponíveis e sempre em prontidão. Há uma preocupação grande da direcção das Forças Armadas Angolanas na criação de condições, particularmente fazer a entrega de equipamentos no sentido de que a nossa missão seja cumprida como está previsto.

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