Entrevista

Soyo é muito mais que petróleo e gás

João Mavinga | Soyo

Os 12 anos da paz em Angola proporcionaram o crescimento do Soyo. Os ganhos são visíveis na imagem do município. Surgiram novas escolas e hospitais, os arruamentos do casco urbano e arredores foram renovados.

A construção e reabilitação das estradas principais bem como as secundária tem permitido uma circulação fluída o que permite que o aumento da oferta de bens e serviços à província
Fotografia: Jornal de Angola |

Adriano Manuel Dánia, empresário, considera que o município está cada vez mais valorizado pela indústria petrolífera, mas por assumir um legado histórico justificado pelo nascimento do cristianismo na África Austral. Em entrevista ao nosso jornal, o empresário fala da recente assinatura da Custódia Bancária no município entre o Banco Nacional de Angola (BNA) e o Banco Africano de Investimento (BAI) e aconselha uma a­valiação ao crescimento do sector não petrolífero.   


Jornal de Angola - O Soyo completou 40 anos de existência como cidade. Que balanço faz?


Adriano Manuel
- Estou satisfeito pelo empenho e dedicação do Executivo no quadro da melhoria de bens e serviços no município. Como quadro da Banca e empresário, também estou feliz, pois o Soyo ganhou novos serviços e melhoraram as condições de vida das populações.

JA - Qual foi a contribuição do empresariado local na mudança da imagem do Soyo?

AM
- Quem percorre a cidade vê e sente a nossa contribuição. Temos muitos hotéis, vários edifícios novos, escritórios e habitações. Quem esteve no Soyo em 2002, se aqui voltar hoje, vai ver que o contributo empresarial foi grande. Mas precisamos de apoio do Governo Provincial. Não estamos a pedir dinheiro, estamos a pedir apoios em termos de legislação e incentivos. A classe empresarial pede apenas a redução da dependência do exterior, para isso, é preciso asfaltar os 200 quilómetros da estrada entre a Casa da Telha e o Soyo. 

JA - O que preconiza para o relançamento económico e social da província?


AM
- Acho que é chegado o momento do Governo Provincial estabelecer diálogo com o Banco Nacional de Angola, para a abertura de uma delegação no município do Soyo ou noutro local da província. Porque 95 por cento dos bancos comerciais já têm as suas agências abertas. Têm recorrido a Luanda ou a Cabinda, onde existe uma delegação regional do BNA, para as compensações. Por isso, hoje já quase não funcionam os cheques visados, nem os cheques bancários com a adopção do Sistema de Pagamento em Tempo Real.

JA - Quantos empresários se destacaram na projecção do Soyo?


AM
- Não posso enumerá-los nem fazer uma análise pelo volume de negócios, mais sim pela materialização dos objectivos preconizados. Acho que todos nos empenhámos muito.

JA - Há dificuldades de acesso ao crédito bancário?


AM
- Ainda persistem alguns problemas. A classe empresarial e os bancos comerciais estão preocupados com a situação económica e financeira do país. Solicitar um crédito à Banca, não pode ser de qualquer maneira, temos que ver onde é necessário ­fazer investimentos, ­tendo em conta o retorno do capital investido a médio prazo. Isto não está fácil, temos que ter garantias reais.

JA - Há mais negócios dos empresários locais?
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AM
- Sim. Quem anda pelo município do Soyo vai notar que há uma adesão considerável. No aeroporto, o número de aviões aumenta de dia para dia. Está aumentar o número de carros em circulação. Isto significa muito. Só com a circulação de pessoas e bens é que fomentamos o crescimento do município e da província.

JA - Qual é a maior dificuldade para atracção de negócios?  
 

AM
– O maior problema está na estrada e no porto comercial. Precisamos de estradas em condições, de um porto com maior capacidade, internacionalmente reconhecido, como os portos do Lobito, Luanda e Namibe. Os navios de grande porte, tirando os do grupo Safmarine, não escalam o nosso porto da Base Logística do Kwanda. Os navios recorrem a Ponta Negra, e depois pequenas embarcações trazem as mercadorias para o Soyo. É um processo lento e oneroso. Insisto nas estradas porque os 200 quilómetros que ligam o Soyo à Casa da Telha, ainda estão em péssimas condições. A viagem dura seis a sete horas e com o risco de perder a mercadoria e a vida.

JA - O que pensa do protocolo assinado entre o BNA e o BAI?


AM
- O protocolo veio minimizar uma situação complicada, mas não solucionou o problema. As pessoas responsáveis do sector parece que não acreditam na movimentação monetária do Soyo. O mercado do Soyo cresceu e a cultura de bancarização do cidadão também cresceu. Hoje, nenhuma empresa paga os salários em dinheiro, todos os empresários recorrem às instituições financeiras. Só a Função Pública absorve o valor da Custódia protocolada entre o BNA e o BAI. O mais correcto é termos uma delegação do BNA para acabarmos com as viagens a Luanda e Cabinda para fazer compensações e resolver problemas mínimos.

JA – Os negócios no Soyo precisam de muito dinheiro na mão?


AM
- A Custódia protocolada entre o BNA e o BAI veio aumentar a liquidez na província. Para os empresários é bom, porque os clientes  têm sempre no bolso dinheiro sonante, para pagar as suas contas. O mercado informal é maior que o formal, logo, o dinheiro na mão faz falta. Aqui no Hotel Nempanzu temos uma caixa electrónica do Banco Keve. Os clientes em menos de uma hora esgotam o dinheiro.

JA - A assinatura do protocolo de Custódia coloca o Soyo numa dimensão autónoma?


AM
– É uma autonomia em miniatura. Esta Custódia é da responsabilidade do Banco Central, não é do BAI. O BAI é apenas um cofre que guarda o dinheiro alheio. Este elemento é importante. Termos aqui um activo do Banco Central, já é muito bom e importante. Anteriormente os bancos comerciais e os clientes corriam todos os riscos sozinhos, hoje o BNA, como autoridade monetária máxima,  já se faz sentir e aí consegue mensurar os níveis da circulação monetária no Soyo e na província. Autonomia em termos de liquidez sim, descentralização não, porque ainda é cedo.

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