Entrevista

“Temos falhado no ensino da língua portuguesa”

Isaquiel Cori

É o nome mais visível da sua geração. É o fundador do Movimento Litteragris, inspirado no Surrealismo, um movimento literário vanguardista europeu de princípios do século XX. O Litteragris propõe-se a “revolucionar” a literatura angolana com base numa visão crítica assente no estudo das teorias literárias. Em poucos anos a acção do Litteragris “contagiou” jovens dos meios universitários de várias províncias do país. Hélder Simbad é o ideólogo deste movimento. Acompanhe a entrevista que ele concedeu a este caderno

Fotografia: DR

Como é que nasce em ti essa propensão para a literatura? Como é que tudo começou?

Cresci num quintal bantu, de família alargada, onde os filhos dos meus avôs, nesse caso meus tios, constituíram as respectivas famílias. Mas não éramos muito de chegar à casa do tio, nem tínhamos motivos para o fazer, como hoje temos. Começaram a surgir motivos por causa da TV. Eles tinham livros mas eu não tinha acesso aos mesmos. Desperto para a literatura através da escola.

Como é que surge o Litteragris?

Antes criámos a Juventude Alargada para o Desenvolvimento do Anangola, uma associação que organizava eventos culturais: palestras, debates, sessões de declamação de poesia, teatro, música, dança... Conseguíamos concentrar a juventude do bairro. E verdade seja dita, na altura em que fazíamos isso não havia tanta delinquência no nosso bairro. Nós ocupávamos mesmo os jovens. Conseguíamos meter mais de cem pessoas no quintal da minha avó. Passaram por lá artistas que se revelariam mais tarde, como o Ézio, o Trio Rir, a Maria Rosa, corista do Hora Quente, a Cíntia Gonçalves, que na altura era criança... Isso tudo foi em 2006/2007.

Essa organização associativista decorria em ambiente de plena liberdade?

Sim. A polícia só entrava no bairro para capturar marginais. Ninguém se importava connosco, não tínhamos água, nem energia. O Anangola [bairro situado entre a Estrada de Catete, defronte a FTU, o cemitério de Santa Ana e os bairros Popular e Palanca] era, e ainda é, um bairro fértil em produzir marginais. Lá muitos jovens acabam por cair no alcoolismo e na marginalidade.

E como é que surge então o Litteragris?

Comecei a estudar literatura sozinho, quando descubro o livro do Sapyruka “Quando o Sol Nascer Comum”, que começa a me despertar para as questões de estilo, o que é metáfora, etc, etc. “Poéticas na Literatura Angolana”, de Jorge Macedo, é outro livro que mexeu muito comigo. O livro do Sapyruka mudou-me até do ponto de vista da ideologia. Queria antes fazer parte da Brigada Jovem de Literatura mas comecei a ouvir falar de uma certa ligação desta com o poder. Quis aproximar-me do Núcleo de Estudos Literários do Jorge Macedo, mas infelizmente foi na altura em que ele morreu. Já eu estava na universidade, na altura na Agostinho Neto, e lá conheci um jovem membro do Núcleo de Estudos do Jorge Macedo, que me disse que iriam continuar a existir. Eles marcaram um encontro para o Centro Recreativo Kilamba e ninguém apareceu, o que me deixou muito decepcionado. É depois, já eu vivia em Viana, que ouço falar do Movimento Literário Vianense. Vou para lá mas esta organização fazia o que outros grupos já faziam. Eu queria fazer parte de um grupo que se dedicasse aos estudos literários. Decidi lá ficar, para tentar mudar o cenário. Dentro do Movimento Literário Vianense criámos, primeiro os Agricultores, que depois passou a chamar-se Agriscultores. Era um núcleo restrito de cinco ou seis pessoas. Acabamos por nos desentender com a direcção e nos desvinculamos da organização. Contactei então algumas pessoas com as quais tinha alguma afinidade ideo-estética a propor-lhes a criação de um movimento surrealista angolano. E fomos discutindo a melhor designação. Agriscultores não ficava muito bem, etc. E defendi então que se queríamos que a ideia de cultura, campo, estivesse presente, que juntássemos agris – campo – a littera, que significa letras, ficando então Litteragris. Consultei algumas pessoas, como o Bonavena, que acharam que agora estava melhor e assim ficou.

O Litteragris propõe-se revolucionar a literatura angolana. Como?

Procuramos separar a nossa doutrina de estudos literários, de interpretação literária, da nossa doutrina estética ou de criação. Em termos de criação literária somos a favor da liberdade e acreditamos, como os surrealistas, que a arte deriva do inconsciente. Não se deve forçar a escrita, que deve nascer naturalmente. E preferimos fazer a distinção do Movimento Litteragris, como algo mais artístico, do Círculo de Estudos Literários e Linguísticos Litteragris, que é um movimento só de estudo. Tanto é assim que a revista Tundavala poderá ter apenas mais uma ou duas edições, porque queremos nos centrar nos estudos literários. Neste momento estamos a fazer formações, para aprimorar a nossa crítica literária naquilo que nós defendemos. Para o estudo da narratologia recorremos à psicologia, pelo que vamos ter formação em psicologia (teorias comportamentais e psicanálise, como devemos entender as personagens como pacientes, sem sairmos da esfera da ficção). Usando o método da psicologia queremos fazer uma crítica dialéctica mais ampla, que analise a obra literária do ponto de vista antropológico, filosófico e psicológico.

A prioridade que dão ao ensaio, à crítica, partiu do reconhecimento da existência de um défice nesse campo, na literatura angolana?

O Litteragris rompe com o Movimento Literário Vianense por esse motivo. Todos estavam a ir pelo mesmo caminho do Levarte, que é o do palco, a declamação, simplesmente o texto. Ninguém se preocupava com o debate literário. O Litteragris vem para fazer essa diferença. O Núcleo de Estudos Literários Jorge Macedo, na verdade, teve alguma influência em tudo isso, porque tinha desaparecido. A nossa maior preocupação é o debate literário. Líamos muita teoria literária, muita história da literatura e constatamos que o debate sempre esteve presente. Aliás, as mudanças de período deram-se sempre através de confrontos de gerações e esse confronto dava-se a nível do debate literário, elegante ou menos elegante. E assim a literatura evoluía.

A ênfase que o Litteragris dá ao estudo da literatura, à leitura, é também uma forma da vossa geração se defender da acusação dos mais velhos, de possuírem fraco domínio da língua, escreverem mal, etc, etc.?

Isso surge depois. Até porque quando vou para o Movimento Vianense eu quase não tinha contacto, digamos assim, com a “civilização”. O meu pai quase não me deixava sair de casa. E até aos meus vinte e tal anos tinha fobia da estrada. Essas críticas, de que os mais jovens não escrevem bem, e outras, não chegavam a mim. Mas deixa-me dizer que o Litteragris foi germinando e se desenvolvendo com a ajuda do Mabanza, Waxakulo Francisco, Cíntia Gonçalves, Ernesto Daniel...

Mas já tinham conhecimento de outros movimentos na história da literatura angolana, Uandange, Kiximbula, Brigada Jovem, só para referir os que surgiram depois de 1975?

Na fase dos Agricultores não, do Litteragris sim. As chamadas de atenção dos mais velhos foram importantes depois, e tornam-nos pessoas mais atentas. Por exemplo, na primeira edição da revista Tundavala não estávamos muito preocupados com a revisão dos textos. Na segunda edição já não apresentámos as deficiências da primeira. Mas essa questão dos erros acredito que é um problema geral, não tem só a ver com a minha geração. Nós lemos livros do passado e deparamo-nos também com esse problema.

Historicamente os movimentos literários têm as suas etapas de nascimento, o auge e depois ou acabam por ser assimilados na corrente geral, deixando marcas, ou simplesmente desaparecem. Como é que o Litteragris encara o seu próprio futuro?

Sempre tivemos medo, eu particularmente, de transformar o Movimento Litteragris numa instituição assim como a UEA ou a Brigada Jovem de Literatura. E estamos conscientes que o Litteragris tem um ciclo de vida, não é eterno. Por isso já nos antecipamos e dissemos que não vamos avançar para mais que uma ou duas edições da Tundavala, o espaço onde publicamos os nossos manifestos.

A UEA, na gestão do Carmo Neto, deu-vos um apoio substancial, em termos institucionais. Isso foi fundamental para o vosso crescimento?

Foi extremamente importante, não temos como negar isso. A UEA dava-nos apoio institucional para quase tudo. Lá fazíamos colóquios, simpósios, makas...

Agora estão mais ligados, nesse aspecto, à Fundação Agostinho Neto?

A FAAN deu-nos a possibilidade de animar o Centro Cultural Dr. Agostinho Neto, no Bairro Operário. O responsável das actividades culturais desse centro também é membro do Litteragris.

Pessoalmente, e os membros do Litteragris, como se enquadram em termos geracionais?

Isso é meio complexo. A minha geração seria a do Litteragris e daqueles que comungam a nossa visão do universo. Eu em termos de período, e não de geração, enquadro-me no pós 4 de Abril de 2002, já que o que terá propiciado o surgimento de todos esses movimentos literários é o alcance da paz efectiva, que nos permite, felizmente, nos movermos de um lado para o outro. Como escritor estou entre os que surgiram depois de 2010. O meu primeiro livro, “Enviesada Rosa”, é de 2017.

A literatura em Angola preenche o teu quadro de expectativas e de ambições? A literatura faz-te feliz?

Faz-me feliz no momento da criação e da realização dos eventos, mas faz-me infeliz por sermos incapazes de realizar eventos literários consecutivos e em abundância. Isso me entristece porque não faço mais nada na vida para além da literatura. Ensino literatura, trabalho com literatura, praticamente tudo o que ganho na vida sai da literatura. Então, paradoxalmente, a literatura faz-me feliz e ao mesmo tempo me entristece. Gostaria que tivéssemos uma literatura mais desenvolvida em termos institucionais, mais editoras que não se aproveitem dos escritores, falo de mais gráficas, de mais indústria de papel, abundância de clubes de leitura e de uma educação mais capaz de fazer com que toda a gente adquira o hábito de leitura.

O papel da escola é absolutamente fundamental para o desenvolvimento da literatura?

Absolutamente fundamental. Sou professor de literatura e de língua portuguesa no ensino médio, no ICRA - Instituto de Ciências Religiosas - há três ou quatro anos e lá, no princípio do ano lectivo, todos os estudantes detestam literatura, mas lá para o mês de Junho a literatura é das disciplinas que os estudantes, na sua maioria, mais amam. Quando eu digo que vou roubar o tempo da aula de literatura para dar português os estudantes chateiam-se. Porquê? Porque dentro da literatura aprendem tudo, sobre sociedade, história de Angola, filosofia, estética, etc. Nós temos falhado no ensino da língua portuguesa, é aí onde os estudantes deviam começar a ler textos literários. Se não temos grandes leitores é porque temos falhado no ensino da disciplina de língua portuguesa. Preocupamo-nos muito com o funcionamento da língua e com toda a teoria gramatical e não ensinamos a língua a partir do texto literário. Então, o nosso maior défice em termos de leitura parte da própria escola. E se formos à Faculdade de Letras e ao ISCED logo verificamos que a maior parte das monografias acabam em linguística, isso porque muitos estudantes não mantêm uma boa relação com a literatura. E são eles, geralmente, os professores de língua portuguesa.

A que se deve isso? Porque não mantêm os estudantes uma boa relação com a literatura?

Pelo modo como a literatura é ensinada. Os professores não conseguem despertar grande parte dos estudantes para a literatura. Talvez a nível do ensino superior os professores devessem mudar a metodologia do ensino da literatura e da língua portuguesa. O que é que acontece em Angola? O professor do ensino superior diz "eles deviam saber". O professor da universidade culpa o professor do ensino médio e este o do ensino básico. Vivemos nessa cadeia de culpa e ninguém faz algo.

Toda essa fragilidade no domínio da recepção do texto literário em Angola faz com que muitos autores procurem obter primeiro reconhecimento no exterior, sobretudo em Portugal, impondo-se então cá como "consagrados"...

É o problema da pós-colonialidade. Temos de ser abençoados, principalmente por Portugal, para nos aceitarmos a nós mesmos, o que é muito mau. Por exemplo, um dos critérios para ser candidato a membro da Academia Angolana de Letras é ser reconhecido lá fora. E o que é que acontece? Pago a um crítico estrangeiro para estudar a minha obra, e isso acontece, para ter algum reconhecimento. Mas no final quem determina tudo são os leitores...

Mas é aí que está o problema, na escassez de leitores qualificados...

Quem tem de formar necessariamente esse tipo de leitores é a Faculdade de Letras, mas a maioria dos seus estudantes vai para linguística, não têm uma boa relação com a literatura. Quem ensina crítica literária na Faculdade de Letras tem de ser necessariamente um crítico literário. A ele deve ser sempre exigida a publicação de artigos.

O Litteragris tem feito formações em crítica literária. E também já fizeram formações para os estudantes da Faculdade de Letras. Foi uma acção extra-curricular, sem o envolvimento da direcção?

Fizemos uma formação na Faculdade de Letras fruto de uma parceria com a Associação de Estudantes. Foi extra-curricular, mas acredito que ajudou os estudantes, não só de Letras, porque formamos uma turma heterogénea, que incluía também estudantes do ISCED, da Escola Pedagógica do Bengo e outros a título individual.

 

Como fortalecer a literatura angolana

Na tua visão, como se pode fortalecer a instituição literatura angolana, de modo a evitar as armadilhas da pós-colonialidade?

Passa sobretudo pela Faculdade de Letras, que devia mudar o seu currículo. Confundimos a história da filosofia com a filosofia propriamente dita. A filosofia ensinada tem de estar mais ligada ao próprio fenómeno literário. Também o ISCED e a União dos Escritores Angolanos são nucleares.

A comunicação social também tem uma grande importância?

Muita. Quando se fala em crítica literária geralmente pensa-se na crítica académica. Os jornalistas também fazem crítica literária, que pode ser impressionista mas também é crítica literária. E esse tipo de crítica praticamente desapareceu na nossa imprensa. São poucos os jornalistas versados em literatura, que nos possam falar de livros de uma forma menos académica, menos técnica, para que consigamos mais leitores. O jornalismo também faz parte da própria instituição literária.

Estamos a caminho de 45 anos de independência. Não achas que o país devia ter uma melhor definição em relação à nossa língua portuguesa?

Dei um livro meu a um português para fazer a revisão e ele entendia que determinadas construções sintácticas por mim utilizadas eram agramaticais, estavam erradas. Podem até dizer que o Hélder Simbad não estudou bem a língua portuguesa, mas há construções sintácticas que nós utilizamos que para um português são agramaticais, erradas. A língua varia de acordo com o espaço e as próprias experiências. A língua portuguesa cá entrou em contacto com as línguas locais e transformou-se num português distinto, nosso. Para o português falado em Angola se constituir numa terceira norma, depois da portuguesa e da brasileira, só falta uma decisão política.

Decisão política baseada nos estudos académicos?

Nós já sabemos que essa norma existe. Vamos considerá-la uma norma invisível e até já a usamos na construção dos nossos textos literários, e não só. Na fala então... E até nos textos administrativos vai aparecendo num ou noutro caso. depois de uma decisão política, a comunidade académica teria de se sentar para definir uma gramática. Por exemplo, as línguas bantu são prefixais e levamos essa tendência para a língua portuguesa. Dizemos "te falei" mas depois vamos usar o pronome na posição pós-verbal "falei-te", há essa confusão. Acho que já há uma base para criação de uma norma angolana do português, há teses, dissertações, monografias, que tratam dessa matéria, sobretudo a nível fonológico. Mas pessoalmente acredito que a diferença entre o português de Angola e de Portugal estende-se ao nível da construção sintáctica e morfológica, e sobretudo lexical.

PERFIL


HÉLDER SIMBAD
é pseudónimo de Hélder Silvestre Simba André. Nasceu aos 13 de Agosto de 1987, na província de Cabinda. Licenciado em Línguas e Administração pela Universidade Católica de Angola, lecciona Literatura Africana no ICRA.
É fundador e coordenador-geral do Movimento Litteragris. Tem poemas, contos e artigos publicados em antologias em Angola e no exterior.
Livros publicados: "Enviesada Rosa", poesia, Prémio António Jacinto 2017; "Insurreição dos Signos", poesia, 2018; "A Palanca dos Chifres Dourados", prosa, 2018; "Tradução Literária - Análise Contrastiva das Traduções de Coração Telúrico de Lopito Feijó", ensaio, 2019.

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