Entrevista

“Temos feito esforços para estabelecer pontes entre empresas uruguaias e angolanas”

Bernardino Fançony

A República Oriental do Uruguai celebra hoje o 194º aniversário da Declaração de Independência. O país da América do Sul proclamou a liberdade a 5 de Setembro de 1825. O embaixador do Uruguai revela, em entrevista, que o seu país pretende reforçar a cooperação com Angola em vários domínios, incluindo na Agricultura e no Turismo.

Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Senhor embaixador, que avaliação faz das relações entre o Uruguai e Angola?

Eu faço a melhor avaliação e acredito que é possível melhorar, porque temos muito espaço para crescer. Se tivermos em conta que abrimos a Embaixada apenas em Janeiro de 2015, com um embaixador residente em Luanda, podemos considerar que demos um grande salto nas nossas relações, porque, a partir desse momento, trabalhamos muito para dinamizar as relações diplomáticas, políticas e económicas. Tivemos a má sorte de ter sido nessa altura que Angola viu cair o preço do petróleo e o Uruguai ser afectado com a baixa dos preços das commodities internacionais agrícolas, produzidas localmente. Mas, de qualquer forma, não ficamos de braços cruzados; continuamos a trabalhar e acredito que o relacionamento político entre o Uruguai e Angola está no mais alto nível. Para estreitar esses laços, o então ministro das Relações Exteriores de Angola, George Chicoti, efectuou uma visita de trabalho à frente de uma importante delegação ao Uruguai, em Setembro de 2016, e o nosso ministro esteve em Angola em Fevereiro deste ano, também com uma delegação de peso, ao mais alto nível.

Que outros passos em concreto foram dados para o reforço das relações entre o Uruguai e Angola?
Desde a abertura da nossa Embaixada em Luanda, há cerca de 4 anos, tivemos duas reuniões de alto nível de autoridades políticas dos nossos dois países, o que nunca tinha acontecido antes. Em Fevereiro deste ano, começou a funcionar a Comissão Mista Bilateral Internacional entre Uruguai e Angola para Cooperação. Nessa ocasião, foram assinados três novos acordos e três me-morandos de entendimento, além de outros que estão em negociação nos sectores de Indústria e Comércio.

Pode especificar quais são esses acordos?

Temos acordo de cooperação no domínio da assistência administrativa mútua, em matéria aduaneira; o acordo de facilitação de vistos para pessoas de negócios, bem como o acordo de cooperação no domínio do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação e Formação de Quadros. Quanto aos memorandos, assinámos um entre as academias diplomáticas de Angola e do Uruguai e que já está a ser implementado, com o envio de 20 bolseiros angolanos que neste momento estudam em Montevideo.
Assinámos o Memorando de Entendimento no sector do Turismo e o de cooperação entre o Ministério angolano da Acção Social, Família e Promoção da Mulher e a congénere uruguaia. Também formulámos convite ao Governo angolano para participar num seminário de cooperação agrícola, promovido pelo Uruguai e a FAO (Fundo da ONU para a Agricultura e Alimentação), para definir projectos de cooperação trilateral, a ter lugar brevemente, na Etiópia. Por outro lado, em matéria de cultura, acredito que nestes anos a Embaixada tem trabalhado para trazer o tango e agora vamos trazer o candombe (manifestação cultural uruguaia com raízes angolanas); vamos trazer o cinema, gastronomia, música diversa e todos os anos celebramos a Semana Internacional da Língua Espanhola com diferentes actores, poetas e escritores.

Sente que há reciprocidade da parte de Angola, quanto ao reforço das relações?

Angola abriu, em 2017, um consulado geral em Montevideo e auguramos que, num futuro breve, quando melhorar a situação económica de Angola, esta representação seja elevada ao nível de Em-baixada, conforme é vontade manifestada pelas autoridades angolanas. Por outro lado, os nossos ministros das Relações Exteriores têm mantido encontro na sede da ONU, em Nova Iorque, por altura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, e têm tido reuniões bilaterais à margem desse fórum, para coordenar assuntos de interesse comum. Por isso, dizemos que o nível de relações, hoje, é muito alto e positivo.

No âmbito comerciai e económico, qual é a realidade actual?

Neste momento, o quadro não é muito favorável, devido à crise económica que afecta não apenas Angola, mas também o Uruguai. De qualquer forma, temos feito esforços para estabelecer pontes entre empresas uruguaias e angolanas. Obviamente, este tem sido o meu foco, porque, anteriormente, os produtos uruguaios, quando chegavam em Angola, não vinham directamente de empresas para empresas, mas de blocos internacionais, o que encarecia os preços e, como consequência, também encarecia o custo para o consumidor. Agora, as empresas estão em contacto directo e há um vínculo positivo entre muitas delas. Incentivamos o trabalho das câmaras, incluindo a Câmara de Comércio Uruguai-África, que vai poder ter contacto com a nova Câ-mara hispano-africana e angolana. Também temos contacto entre dirigentes empresariais uruguaios e angolanos. Sabemos que os intercâmbios ainda não são tão fortes como gostaríamos. Reconhecemos que tivemos muitas dificuldades de natureza económica e financeira, mas acredito que as coisas estão a melhorar e estou optimista quanto ao futuro.

Que produtos o Uruguai compra de Angola e quais exporta para Angola?

Angola vende ao Uruguai, basicamente, petróleo e seus derivados, enquanto os produtos exportados pelo Uruguai são carnes, óleo de soja, lacticínios, farinha de trigo, massas, arroz, plásticos, citrinos, produtos de higiene pessoal, produtos farmacêuticos, vinhos e outros.

O Uruguai é uma nação centenária, com quase 200 anos de independência. Que experiência pode partilhar com Angola, para benefício dos angolanos?

O Uruguai pode colaborar em muitas áreas. Embora seja um país pequeno, é muito bem organizado. Agora que Angola trabalha para diversificar a sua economia, pode contar com a experiência do Uruguai neste esforço de diversificação das fontes de receita. Não temos petróleo, mas os nossos recursos económicos vêm de outras fontes. Somos um país de cerca de três milhões de habitantes, mas que produz alimentos para cerca de 35 milhões de pessoas, ou seja, dez vezes mais. Temos de ser competitivos e com produtos de alta qualidade. A carne produzida no Uruguai está entre as melhores do mundo, porque a manada é controlada completamente com “chip”, desde a nascença até ao abate.
Por outro lado, o Uruguai é um país que tem uma estabilidade política e social muito elevada; tem um dos melhores sistemas de distribuição de riqueza da América Latina, ocupa o primeiro lugar em várias áreas; está num lugar confortável no que diz respeito à baixa percepção de corrupção, segundo a Internacional Transparecy. Temos muitas áreas onde trabalhamos em conjunto e acredito que Angola pode ser um parceiro de primeira ordem, quando quiser colaborar para melhorar a vida das populações.

Acabou de falar da cultura democrática, da estabilidade política e dos êxitos conquistados pelo vosso país. Onde está o segredo para manter esse clima favorável?

Penso que tudo isso é uma combinação de factos. Não vem do acaso. O Uruguai tem um sistema educativo laico e público muito bem estruturado. Por isso, acho que a educação é o elemento chave para desenvolver qualquer sociedade. Como bem disseste, o Uruguai tem uma democracia de quase duzentos anos e tem uma cultura de justiça social que prioriza as populações. Por outro lado, o facto de ser um país pequeno, que está localizado entre duas grandes nações, o Brasil e a Argentina, leva-nos a ter que lutar, estudar e posicionar-nos da melhor forma possível, para podermos concorrer não apenas ao nível da região, de todo o Mundo. A Selecção Na-cional de Futebol do Uruguai está hoje entre as 10 melhores do mundo e isso é também reflexo da boa organização.

Como avalia os esforços do Governo angolano na busca da estabilidade em África e no Mundo?

É muito positivo e esse dinamismo e essa vontade têm sido motivo de conversas no meio diplomático e não só. O Uruguai também tem apoiado esses esforços. Acreditamos que a defesa da paz e a segurança são fundamentais, começando, obviamente, pela regional e depois a nível internacional. Angola, como potência, tem demonstrado que é um país que está preocupado com essa situação e vocês têm uma experiência grande nesse sentido, por terem passado por uma guerra cruel e prolongada e sabem exactamente o que isso significa, pois a guerra atrasa o desenvolvimento e destrói qualquer país.
Se quisermos viver bem, tem de haver paz e creio que An-gola está a desempenhar um papel muito importante. E não somos apenas nós que observamos, mas a comunidade internacional, a União Africana e as Nações Unidas. O papel de Angola para solucionar esses episódios, principalmente o último encontro, que juntou líderes do Rwan-da e Uganda, foi muito aplaudido. Saudamos os esforços do Governo angolano na busca da paz para a região. Bem haja Angola, por isso!

Candombe, uma manifestação cultural com raízes angolanas

O Candombe é uma manifestação cultural e social relevante no Uruguai, herdada dos ascendentes de escravos africanos, originários das terras do antigo Reino do Congo. As pessoas que desembarcaram no Uruguai, através do tráfico transatlântico de escravos, durante o período colonial na América, eram, maioritariamente, e de acordo com os registos históricos, da região do Reino do Congo, que levaram consigo o Candombe, que se realizava nas procissões cerimoniais dos reis do Congo.
A manifestação cultural teve origem a partir da chegada dos cativos saídos de África para o continente sul-americano. Surgiu no Uruguai ainda no século XVIII, a partir da mistura dos ritmos africanos trazidos ao Rio de la Plata.
De acordo com o embaixador do Uruguai em Angola, Alvaro González Otero, as evidências e relatos permitem concluir haver laços históricos, sociais e culturais entre Angola e o Uruguai, que devem ser explorados e aprofundados nos diferentes níveis. As raízes dessa expressão musical e artística na história e na cultura do Uruguai levaram ao seu reconhecimento, pela UNESCO, como Património Mundial.
Reconhecido como Património Imaterial da Humanidade, o Candombe actualmente é tocado através de três tipos distintos de tambores (batuques): pequeno, piano e repique, que são denominados em conjunto “Cuerdas de Tambores”. Na capital Montevideu, os bairros “Sur” e “Palermo” são conhecidos como berços do Candombe, cada um com o seu ritmo característico: o “Cuareim”, no primeiro, e o “Ansina”, no segundo.
O termo Candombe, a princípio, referia-se genericamente às danças praticadas pelos negros no Uruguai. Com o tempo, passou a designar o ritmo musical, calcado, sobretudo, nos tambores chamados tangó ou tambó, nome também usado para designar o lugar onde se realizava a própria dança.

PERFIL

Alvaro González Otero é doutorado em Direito e Ciências Sociais, pela Universidade da República do Uruguai. Mestrado em Estudos Legais Internacionais, com especialização em Comércio Internacional e Leis Ambientais nos Estados Unidos (American University). Professor de três matérias universitárias: Direito Internacional Público, de Integração Económica e de Comércio Internacional e Meio Ambiente.
Embaixador de carreira, começou o percurso em Washington, EUA, como secretário de segunda, depois foi deslocado durante 10 anos para o Brasil, primeiro como conselheiro, e, depois, como ministro-conselheiro e director do Departamento Comercial. O primeiro posto como embaixador é em Angola, onde representa o Uruguai desde 2015.

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