Entrevista

Temos grande ligação a África

José Ribeiro | Lisboa

O presidente executivo da Portugal Telecom, Zeinal Bava, destacou, em entrevista ao Jornal de Angola, a grande ligação que a PT tem com África e Angola em particular.

Presidente da Portugal Telecom Zeinal Bava fala da grande utilidade das tecnologias de informação
Fotografia: Christophe Guerreiro

Zeinal Bava é o presidente executivo da PT desde Abril de 2008. Licenciado em engenharia electrónica e electrotécnica pela University College of London, entrou para a PT em 1999. Antes de trabalhar na “telefónica” portuguesa foi director executivo e de relações para Portugal do Merrill Lynch, do Deutsche Morgan Grenfell e do Warburg Dillon Read. Durante a Conferência Technology & Innovation, organizada pela PT em Lisboa, deu uma entrevista exclusiva ao Jornal de Angola. Para Zeinal Bava, a fabulosa infra-estrutura da PT é vital, mas “todos os serviços que prestamos só fazem sentido se forem fiáveis”.

Jornal de Angola - O que destaca na exposição da PT para os participantes na conferência sobre tecnologia e inovação?

Zeinal Bava - Queremos mostrar que o investimento em infra-estrutura é fundamental. Por isso, mostrei aos investidores presentes, coisas de engenheiro. Temos infra-estrutura, infra-estrutura e infra-estrutura. Temos fibra óptica, temos quarta geração móvel, temos a terceira geração móvel a viver com o wifi, uma forma seemless. Porque se isto não estiver disponível, o resto também não acontece.

JA - Porquê?

ZB -
Porque todos os serviços só fazem sentido e só têm relevância se forem fiáveis. A fiabilidade é fundamental e essa fiabilidade vem da robustez das soluções que estão na base, que é a sua infra-estrutura.

JA - E basta a infra-estrutura? 


ZB -
Só a infra-estrutura não chega. Em segundo lugar vem o sistema de informação. Infra-estrutura mais sistemas de informação são marcas da inovação. Não existe inovação se não houver investimento em infra-estrutura e transformação da área de sistemas de informação.

JA - A inovação é a marca da sua gestão?


ZB -
A inovação é essencial. Na PT nós traçamos três horizontes: a 12 meses, 36 meses e 60 meses. Depois alocamos o capital a esses horizontes. Para nós capital significa dinheiro, pessoas e tempo de gestão, que é muito escasso.

JA - O tempo de gestão é escasso?


ZB - É! Se tivermos uma gestão que só está focada na inovação, quem gere o dia-a-dia? Se só focarmos a gestão do dia-a-dia, quem é que garante o futuro da empresa? O tempo de gestão é essencial para garantir os equilíbrios necessários. Por isso, é que há todo um trabalho de equipa. O mérito é de toda uma equipa. Todos nós fazemos parte desta grande máquina da PT, que consegue garantir que nós sejamos diferenciadores.

JA - E a sua empresa já é diferenciadora no universo empresarial português?

ZB - A PT em Portugal é claramente diferenciadora. Temos a quarta geração móvel com 90 por cento da população coberta. Temos 40 por cento dos lares com fibra óptica. Somos líderes no móvel. Somos líderes no triple-play. No segmento empresarial já temos 70 por cento dos clientes de dados. Nas pequenas e médias empresas somos líderes, mas ainda temos um longo caminho a fazer nos dados.

JA - Qual é a situação nos dados?

ZB - Nós apostamos na nuvem. Estamos a construir o sexto maior data center do mundo, na Covilhã, com a ambição de servir Portugal e vários países com quem nós temos conectividade, como o Brasil. E também falo de África. Por isso temos nesta conferência pessoas que vieram de alguma forma sonhar alto connosco. Algumas soluções apresentadas vão ser desenvolvidas no Brasil.

JA - E em África?

ZB -
Temos uma grande ligação a África. Houve um presidente na PT que adorava África, o Francisco Murteira Nabo. Se hoje a PT tem uma vocação africana é a ele que se deve. Sempre acreditou naquele continente, quando ninguém acreditava nele. Estamos a falar de há 20 anos. Eu voltei a reacender essa paixão com o continente nestes últimos quatro/cinco anos, até porque, por coincidência, nós temos pessoas na Comissão Executiva que nasceram em Angola. A ligação é muito forte.

JA - Há acções concretas por parte da PT?

ZB - Todos os anos visito as nossas operações em África. Hoje o continente é mais uma certeza do que uma incerteza. Todos sabemos que é uma das regiões mais atractivas para se investir no planeta.

JA - Porquê?

ZB - África tem mais de mil milhões de pessoas. No continente há mais cidades com um milhão de habitantes do que na Europa. Metade da população africana tem 18 anos ou menos. É um continente onde a população está a crescer. Angola é um bom exemplo. As projeções indiciam que em Angola, em 2040, a população vai ser de 40 milhões, que é o mesmo que Espanha, mas num território que é quatro vezes maior.

JA - África tem infra-estruturas para se desenvolver?


ZB -
Sim e não. Se pensarmos em infra-estrutura fixa, não tem. Se pensarmos em termos de mobilidade, a utilização que as pessoas estão a dar ao móvel, não tem paralelo mundial. Aqui na Europa temos de aprender com o melhor que se está a fazer em África. Em África o telemóvel, básico ou smartphone, é o meio de ligação, é o meio de estar ligado à rede. O Negroponte defende que é preciso ter um computador a 100 dólares para garantir o acesso à Internet a todas as pessoas no mundo. O erro dele foi falar em computador. Ele devia ter dito equipamento que ligue à net, porque hoje o computador é o telemóvel. Por isso, do ponto de vista de infra-estrutura, o continente africano está bem.

JA - O telemóvel é a solução?

ZB - Tudo passa pela digitalização, pela mobilidade e pela virtualização. Por isso, quando pensamos em infra-estrutura é preciso ter presente que os desenvolvimentos na tecnologia móvel são passos gigantes. O LTE já permite fazer velocidades de 100, 150 Mbps. Mas os fabricantes já estão a falar de LTE Advanced, que permite velocidades de um Gbps. Eu acho que o desenvolvimento das tecnologias, nomeadamente através de acesso móvel, é alucinante.

JA - Há barreiras a esse desenvolvimento alucinante?

ZB - Eu vejo uma pequena barreira: o preço dos equipamentos terminais deve cair. Outra barreira é a própria capacidade de processamento desses terminais a estas velocidades. A barreira já não está na rede, está nos terminais. Por isso, eu acho que o investimento que Angola fez em infra-estrutura, nomeadamente na fibra óptica, é suficiente para dar um salto qualitativo na prestação de serviços e na sua qualidade. África, nesse aspecto, conquistou um espaço no mundo.

JA - Há condições para aprofundar parcerias com os países africanos?

ZB -
Penso que sim. A maior parte dos relatórios internacionais sobre o continente africano confirmam o que disse, mas lembram-me outra coisa: 60 por cento da terra que ainda não foi cultivada neste planeta está em África. Por isso, por tradição a PT faz negócios em África. A Portugal Telecom sabe ser um bom parceiro e tem provas dadas. E vamos fazer mais coisas no futuro.

JA - E há músculo financeiro para essas parcerias?

ZB -
A Portugal Telecom emitiu 750 milhões de euros de dívida, está refinanciada até Julho de 2016, mas vamos ser muito criteriosos na forma como alocamos o nosso investimento.

JA - Qual é o potencial da nuvem da PT?


ZB -
As vantagens da virtualização são gigantescas. Uma das coisas que a virtualização permite é que as pequenas e médias empresas também passam a ter acesso ao mesmo hardware e ao mesmo software das grandes empresas. Se falarmos da base de dados da Oracle, só uma empresa grande tem acesso. Mas quando estiver virtualizada, uma pequena e média empresa também acede. A partir do momento em que se pode comprar a computação que quiser, o armazenamento que quiser, isto deixou de ser um factor de distinção entre pequena e média empresa e as grandes empresas.

JA - O que a nuvem muda na virtualização?


ZB - O aumento da penetração da internet significa a abertura da sociedade ao conhecimento. Até há cinco anos, isso era um luxo de quem tinha dinheiro. Os computadores eram caros. O acesso à Internet também era muito caro. Mas os equipamentos terminais ficaram muito baratos, desde os computadores até aos telemóveis. A barreira estrutural que era o equipamento, desapareceu. Os custos de acesso à Internet também baixaram. As novas técnicas, as novas tecnologias são muito mais robustas, consomem menos energia, são muito mais eficientes

JA - E os custos da ligação à Internet já são acessíveis a todos?

ZB - A barreira estrutural que é o custo da conetividade está a desaparecer. A maior parte das crianças tem acesso à Internet. Hoje podemos dizer que todos temos ferramentas iguais, o uso que damos a essas ferramentas é que é diferente. Podem ser usadas para construir, mas também para destruir. Ou posso usar essas ferramentas para não fazer nada. A virtualização nas empresas é exactamente a mesma coisa.

JA - A nuvem da PT pode ser utilizada por Angola?


ZB - Com as ligações que hoje existem, ela pode ser usada em todo o mundo. Aliás, hoje há 45 milhões de pessoas que usam a Dropbox. Ninguém sabe onde está o servidor da Dropbox. Quantas nacionalidades utilizam a Dropbox? Deve ser o mundo inteiro. Não há nenhuma. Nenhuma barreira impede que Angola utilize a nuvem da PT. Deixou de fazer sentido falar em distância. A partir do momento em que temos auto-estradas eletrónicas o único limite que existe já não é o da velocidade, é a imaginação. Tenho dito repetidas vezes que nas auto-estradas electrónicas  andamos à velocidade da imaginação.

JA - Como se concretiza a utilização do centro de dados da Covilhã?

ZB -
Quanto mais imaginativo for o utilizador mais rentabilidade vai tirar daquela largura de banda e daquela conectividade. Por isso, empresas angolanas, podem ter back-up aqui. Podem alugar parte de tempo de processamento das suas máquinas aqui. Podem criar aqui um segundo storage!

JA - E a questão das licenças?


ZB -
A nível de licenças há ideias revolucionárias, pessoas que defendem isto:  as licenças de computadores devem ser partilhadas. Uma empresa chinesa começa por usar a licença e a sua utilização caminha no sentido do sol. Uma licença é trabalhada 24 horas. A virtualização é uma oportunidade extraordinária para a transformação intelectual da sociedade, do aparelho do Estado, das empresas.

JA - Qual é o objectivo estratégico da PT?

ZB -
Um dos objectivos estratégicos na nossa empresa foi ter 100 milhões de clientes porque este número é a escala necessária para contar no mundo dos negócios. A escala é fundamental. Hoje temos os 100 milhões de clientes mas é fundamental pensar num espaço de 250 milhões de pessoas, que é o espaço que fala português. Se não conseguimos pensar em soluções para este espaço, dificilmente vamos conseguir ter soluções competitivas do ponto de vista de custo.

JA - As inovações tecnológicas da PT têm objectivos sociais?

ZB - Na nossa exposição, há exemplos nas áreas da saúde e da educação. São exemplos da aplicação prática da tecnologia com objetivos sociais e que são fundamentais para melhorar significativamente a qualidade da educação e do ensino.

JA - São aplicáveis em Angola?

ZB - Em termos estruturais, África tem todas as condições para ter sucesso no futuro. Tem uma população jovem. O que isso significa em termos de futuro é absolutamente extraordinário. Por isso, nós olhamos para África com grande expectativa. 

JA - Quais são os projectos em Angola?

ZB - Em Angola nós temos dois investimentos: um na Unitel e outro na Multitel. São duas parcerias importantes, estratégicas para o grupo PT. Temos uma boa colaboração com os nossos parceiros locais. A Unitel é um exemplo. Conseguiu criar valências próprias para fazer o seu negócio. A Unitel, na parte da engenharia, faz um trabalho extraordinário. É uma empresa angolana que conseguiu criar recursos humanos para ela própria poder caminhar. No início, a Portugal Telecom apoiou. A empresa cresceu e hoje tem recursos próprios, nas principais posições estão angolanos. É um bom exemplo de uma parceria que deu certo e que continua a ser estratégica para nós.

JA - E a Multitel?

ZB - A Multitel é um projecto importante para nós. Mas também temos o SAPO Angola. A mobilidade é uma oportunidade, porque muitos dos aplicativos que nós desenvolvemos estão pensados para um ambiente móvel. Em África sabemos que a maior penetração é justamente no móvel, por causa da infra-estrutura e das grandes distâncias. É uma área onde nós vamos continuar a trabalhar. Vamos ter que fazer evoluir o nosso pensamento à volta dos vários SAPO que temos em Angola, Cabo Verde e Moçambique. Vamos fazer a transição para a mobilidade com muito mais força, como fizemos aqui em Portugal.

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