Entrevista

“Temos os produtos essenciais para atracção do turismo internacional”

Leonel Kassana

Angola participa, de 28 deste mês a dois de Março, na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL). O evento marca o retorno do país às grandes exposições turísticas à escala mundial, dois anos depois. O director-geral do Instituto de Fomento Turístico, Simão Manuel Pedro, fala da presença do país no certame e aborda as diferentes perspectivas para o Turismo em Angola. “Temos os produtos essenciais para atracção do turismo internacional”, afirma o responsável.

Simão Manuel, director do Instituto do Fomento do Turismo
Fotografia: Maria Augusta|Edições Novembro

Dois anos depois, Angola volta à Bolsa de Turismo de Lisboa. Estão removidos os principais obstáculos que levaram à suspensão da presença de Angola nesta montra de negócios?
Quanto à participação de Angola na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) já vem de há alguns anos, mas, nos últimos dois, não nos fizemos presente, por razões ligadas à difícil conjuntura sócio-económica do país, que afectou profundamente os diferentes segmentos da economia. E com o turismo não poderia ser diferente. Este ano, estão a ser envidados todos os esforços para recuperamos o nosso espaço de expositor preocupado em promover o máximo possível as potencialidades turísticas de Angola além fronteiras.
O objectivo é levar uma equipa representativa daquilo que se faz no país, em termos de turismo. Estamos a ir para a Bolsa de Turismo de Lisboa, a AVOTA (Associação das Agências de Viagens e Operadores de Turismo de Angola), a AHTUB (Associação dos Hoteleiros e Operadores de Turismo de Benguela), a AHRA (Associação de Hotéis e Resortes de Angola), a   AAVOTA (Associação das Agências de Viagens), a   ATSA (Associação dos Guias Turísticos e Servidores Artísticos) e o Pólo de Desenvolvimento Turístico de Cabo Ledo.
Com esta representação, vamos poder oferecer, aos investidores interessado em Angola, uma visão das potencialidades do país nas várias vertentes (mar, terra, sol, natureza, etc).  A ideia é ir à feira para, aproveitando o novo clima para o turismo que se desenha em Angola, atrair o máximo de turistas para o país.

Quais são os critérios levados em conta para a participação neste certame e que produtos Angola vai expôr?

O critério prioritário para a participação na BTL é o de envolver as associações para o projecto. Nós, enquanto entidade reguladora da matéria sobre o fomento e promoção do turismo no país, temos as associações como o nosso principal parceiro, sem prejuízo, obviamente, dos outros operadores. As associações foram chamadas para termos um stand de Angola na BTL, que é uma prática internacional. As operadores são as principais interessadas em ver o turismo a acontecer e fazem uma comparticipação financeira, para permitir uma presença digna dos produtos turísticos nesta montra. Há operadores que vão estar representados fisicamente. Aqueles que, por várias razões, não puderem, entregam o material publicitário para ser exposto no stand. O que vai ser exposto são os produtos que cada um vende, em termos de turismo. por exemplo, a AHRA vai estar preocupada em vender os serviços de hotéis, resortes, etc e os serviços que oferecem. O Pólo de Cabo Ledo vai “vender” aquilo que já existe lá, ou seja, operadores que também já estão presentes no projecto. Dizer aos potenciais investidores aquilo que pode ser feito com o seu investimento, o que Cabo Ledo oferece como contrapartida para o investimento.

Já a AGTA vai, fundamentalmente, apresentar-se neste processo como aquele que pode prestar todo o tipo de acompanhamento de turistas que se deslocam a Angola. Naturalmente, neste esforço todo, há uma perspectiva que nunca se perde para qualquer um dos presentes: a busca de parceiros que possam potenciar os seus negócios cá no país. Concretamente, que objectivos a delegação angolana persegue na bolsa de Lisboa?
No essencial, o que Angola persegue nesta BTL é a busca de maior afirmação do turismo além fronteira, pois a crise veio afectar negativamente muita coisa. O sector de Turismo e Hotelaria em Angola foi particularmente atingido, como resultado da pouca mobilidade de turistas internacionais. Porém, mais importante do que isso, o Governo reconhece que o turismo, como acontece em países como Portugal, Espanha e outros, é um sector da economia capaz de trazer valências para o país, como poucos: pela sua capacidade de gerar empregos (emprega três vezes mais no mesmo posto de trabalho);  pela sua transversalidade a toda a economia do país, facilidade de arrecadação de cambiais (uma necessidade muita sentida pelo país na presente conjuntura). Tudo isso, o turismo tem possibilidade de fazer.  Mas, para fazê-lo, tem que se afirmar, ser atractivo, dizer o que pode oferecer e esta é a preocupação central neste momento: dizer aos turistas, aos potenciais investidores quais são, realmente, os produtos turísticos e serviços que ao país possui. O que está a ser feito agora é já uma resposta aos desafios para a diversificação da economia. Se não compreendermos que o turismo é uma peça fundamental para o relançamento da economia e para a saída da crise, vamos atrasar o processo de recuperação económica. Felizmente, já há essa compreensão. Os meios para fazer isso acontecer não são aqueles que, se calhar, desejaríamos que tivéssemos hoje. Mas, com aqueles que temos, acreditamos ser possível fazer alguma coisa para inverter o quadro.

Nesta altura, quais são os principais produtos turísticos que Angola tem para oferecer ao mercado internacional?
Temos os produtos turísticos essenciais para atracção do turismo internacional. Falo, por exemplo, de resortes, surf, em Cabo Ledo; temos os nossos parques e outros produtos que podemos oferecer. Os turistas estrangeiros vêm para cá não à procura de conforto, mas viver a natureza, a África que eles mais conhecem da história, dos livros, enfim, conhecer a realidade. E, felizmente, os investimentos no turismo são menores do que construir, por exemplo, um hotel de cinco estrelas. É esse tipo de turismo que vamos privilegiar aqui: um turismo mais ligado à natureza, mar, surf, desportos radicais, etc; um do turismo de África. Nós temos tudo isso, são essas coisas que são atractivas para os turistas. Já fazemos surf, por exemplo, em Cabo Ledo, com grande intensidade - infelizmente a publicidade que se faz disso ainda não é desejada. No Namibe também já se faz surf. Em termos de surf, Angola está muito bem cotada a nível mundial. Os maiores surfistas do mundo desajam vir a Angola … Já temos condições para podermos, digamos, começar a fazer o turismo acontecer com mais intensidade no país. A transversalidade do turismo vai acabar por mexer com toda a economia. Estamos a trabalhar num conjunto de aspectos que podem levar a uma indústria turística mais atractiva. É evidente que actuamos com outros organismos. Há uma comissão interministerial que se reuniu, este ano, pela primeira vez, que deu atenção a todos os factores de estrangulamento do desenvolvimento do turismo e também aqueles que são promotores do turismo. Estamos a trabalhar nestes factores e a chamar, mais do que antes, o sector privado para que, com as suas ideias, experiência e “know  how”, possam oferecer soluções e contribuições que possam catapultar o turismo nos mais elevados patamares.

Angola continua a ser considerado um dos países mais caros do mundo. Até que ponto isso inibe turistas e potenciais investidores?
Na verdade, os preços no sector de Turismo e Hotelaria continuam, infelizmente, altos. Uma das razões para isso é a mobilidade. Muitos operadores batem-se para a necessidade de baixar as tarifas. Hoje, por exemplo, há fases em que viajar para a Namíbia chega a ficar mais barato do que ir ao Lubango. Esse é apenas um exemplo. A comissão interministerial está a funcionar; há um diálogo bastante profícuo entre o governo e os operadores. Como sabe, está a ser aprovado o PRODES (Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição de Importações). Houve sessões de auscultação, os operadores foram muito escutados. Os operadores do turismo avançaram com propostas que estão a ser analisadas pelo Governo para a sua implementação.

Mas uma maior aposta no turismo é uma opção ou necessidade, face a toda uma conjuntura económica pouco adversa?
(…) Não se trata de uma questão de opção do governo, mas uma necessidade de se olhar com outros olhos o sector do Turismo e fazer dele, se não a principal, uma das  molas impulsionadoras da reviravolta económica que se pretende para o país. Estivemos, durante muito tempo, concentrados na monoprodução do petróleo, a economia esteve toda dependente desta commoditie, com os resultados que nós conhecemos hoje. Compreende-se perfeitamente que é preciso diversificar as exportações e o sector do Turismo, neste capítulo, tem uma palavra a dizer.  Há um cadastramento  sobre o potencial turístico. É um processo contínuo. O Executivo e operadores estão e encarar com mais atenção o turismo. Esse exercício e outros já começam a fazer  sentir para a afirmação do turismo. Acreditamos que a breve trecho Angola pode entrar na rota do turismo com mais pujança. O que era preciso é um trabalho de casa, que já começou de maneira diferente, com mais atenção e vontade de fazer realmente acontecer o Turismo e colocá-lo ao nível dos principais fazedores aqui na nossa região, em primeira instância, e, depois, no mundo.

Qual é a posição de Angola, comparativamente a outros fazedores do turismo na região?
Prefiro não fazer comparações com outros países da região, mas reitero que ainda temos muito trabalho de casa a fazer. Estamos a trabalhar nas acessibilidades para os produtos turísticos existentes e reduzir os custos operacionais. Para isso, precisamos de melhorar as infra-estruturas básicas; pôr a energia e a água, melhorar o saneamento básico dos pontos identificados para o desenvolvimento do turismo. Precisamos de melhorar a paisagem do meio em que muitos deles estão inseridos, estradas; a circulação rodoviária tem de ser viabilizada. Hoje, infelizmente, quase que precisamos de andar pelo país de avião, pois as estradas não resultaram naquilo que se previa e quase temos necessidade de rever toda a malha rodoviária. Tudo isso funciona como factor de estrangulamento do turismo. Todos esses factores estão a ser acautelados. Há um programa, em relação ao Pólo de Cabo Ledo. Percebeu-se que um dos factores para tornar aquela área num centro de turismo de excelência é a disponibilidade de energia. Já há trabalhos neste sentido, pois percebe-se que, com a energia, mais facilmente se consegue colocar a água, atrair os investidores, baixar os custos dos serviços, pois tudo ainda funciona à base de geradores. Tudo encarece o produto final.

Que impacto imediato tem a recente medida do Governo, que prevê a facilitação de vistos de turismo?
Com os vistos, podemos dizer que estamos no limiar de uma revolução ao nível do turismo. Eles (vistos), assim como estão concebidos, com a sua isenção para países definidos e a facilitação para outros, vai, certamente, aumentar a mobilidade turística internacional. Vai mexer com as taxas de ocupação dos hotéis, com a venda de produtos ligados ao turismo, como viagens e outros serviços. A medida do Governo, para a facilitação de vistos, vem em boa hora. 
O turismo em Angola conhece uma etapa não muito desejável. Temos uma rede hoteleira com uma taxa de ocupação em média entre de 20/25 por cento, há custos operacionais e houve despedimentos massivos no sector. Ora, se a mobilidade turística aumenta, há uma reanimação dos diferentes segmentos do turismo internamente, para poder atender a essa demanda. Estamos a ver mais postos de trabalho, a redução dos custos, maior competitividade dos serviços entre os próprios operadores e isso tem reflexo no produto final. São vantagens incontáveis e eu diria que a revolução, que começa agora, com a facilitação dos vistos, o turismo vai ter impacto sobre toda a economia do país, pois tal resulta na arrecadação de cambiais numa escala maior. Hoje, a percentagem do sector no PIB (Produto Interno Bruto) é baixa.

Com tornar mais dinâmico o turismo interno?
Ora, a própria revolução que estamos a começar agora, com a abertura, digamos, das nossas fronteiras, a partir de 30 de Março, vai obrigar uma outra atitude para com o sector. Os custos vão, necessariamente, ter que vir cá para baixo e o turismo vai estar mais acessível aos nacionais, pois o turismo é, em primeira instância, para os nacionais. São eles que fazem a publicidade, a propaganda das potencialidades do país lá fora e se sentem confortados com aquilo que a natureza oferece. Esta é uma preocupação legítima, mas acabará por ser acautelada por todo esse movimento que estamos a iniciar agora. Há uma aposta na formação de guias turísticos, operadores de turismo aos mais diferentes níveis, para que possamos obter um produto compatível com o que de melhor se faz lá fora.

Que impacto tiveram sobre o turismo a eleição das Sete Maravilhas de  Angola e de Mbanza Kongo para Património da Humanidade?
O impacto poderia ser melhor. Estamos a falar também de Mbanza Kongo, que é hoje património da Humanidade, e outros. O “feed back” ainda não é desejável, devido a todo um conjunto de constrangimentos que ainda contribuem para a difícil afirmação do turismo angolano a nível  internacional.

Como é que chega às Sete Maravilhas? Temos lá energia? Como é que estão os acessos?
 São questões que merecem resposta de todos os actores que directa ou indirectamente estão ligados ao desenvolvimento do turismo.

Quais são os produtos turísticos que mais rapidamente podem atrair mais turistas ao país? Haverá alguma prioridade?
Julgo ser fundamental olharmos com mais atenção para as infra-estruturas internas básicas. A água e energia têm que estar disponíveis nos produtos turísticos, a mobilidade, a aposta no turismo na vertente natureza, mar, sol, etc, etc.
O Pólo de Cabo Ledo, neste aspecto, apresenta-se como uma prioridade, se levarmos as experiências de outros países que têm uma espécie de “cidade satélite do turismo”, como Sun City (África do Sul), Algarve (Portugal) e outros. Cabo Ledo tem todo o tipo de vantagens para se afirmar como um centro  turístico de excelência: proximidade com Luanda, com os seus oito milhões de habitantes, facilidades que vão surgir com a energia e água, localização estratégica (junto ao mar), ondas para a prática do surf. Seria um produto turístico que iria impulsionar, como não imaginámos, a economia nacional.

Além da exposição de produtos turísticos, quais são as acções a serem desenvolvidas pela delegação angolana?
Nós vamos para fazer intercâmbio, contactos, pois a BTL não congrega apenas operadores privados. Nas grandes feiras, como a BTL, INVESTIUR (Espanha), ITB (Alemanha) está presente, além do sector privado, o governamental. São oportunidades que se abrem para os diferentes actores trocarem experiências e combinarem agendas de complementaridade do turismo dos respectivos países. Agora, para a BTL, vai uma delegação governamental. Vamos fazer contactos intensos com homólogos de outros países. Com o turismo de Portugal pensamos ter sessões de trabalho demoradas.

Depois deste, que outras eventos estão previstos com a presença de Angola?
Depois de Lisboa vem a Feira Internacional de Berlim, Alemanha, onde Angola, por razões económicas, será representada por uma delegação governamental. Segue-se a Feira de Durban, África do Sul, para a qual estamos as preparar-nos para uma representação que envolve os operadores de turismo. Também em Maio estamos, a considerar a possibilidade de fazer deslocar a São Paulo, Brasil, para uma semana de gastronomia africana. Diria até que é uma semana de “cultura africana”,  onde sobressai a gastronomia. 

E internamente?
Internamente, vamos fazer acontecer a Feira de Turismo, provavelmente em Outubro. As feiras têm que ter um período fixo de realização, para criar a tradição e fidelizar os participantes.

Tempo

Multimédia