Entrevista

Terrorismo em análise

Eleazar Van-Dúnem |

Há dez anos, o mundo assistiu em directo à queda das torres gémeas do World Trade Center em Nova Iorque, símbolo da economia dos EUA. Uma década depois, ainda persistem incógnitas sobre o terrorismo. O analista político e docente universitário Belarmino Van-Dúnem fala ao Jornal de Angola sobre o que mudou depois do 11 de Setembro.

 

Docente universitário fala do terrorismo dez anos após o 11 de Setembro em Nova Iorque
Fotografia: Mota Ambrósio

Há dez anos, o mundo assistiu em directo à queda das torres gémeas do World Trade Center em Nova Iorque, símbolo da economia dos EUA. Uma década depois, ainda persistem incógnitas sobre o terrorismo. O analista político e docente universitário Belarmino Van-Dúnem fala ao Jornal de Angola sobre o que mudou depois do 11 de Setembro.

Como o 11 de Setembro de 2001 mudou a consciência do mundo?

O 11 de Setembro foi resultado de situações acumuladas ao longo do tempo e culminaram com os actos que levaram à destruição das torres gémeas do World Trade Center. Este acontecimento marcou a história da humanidade porque atingiu o coração das democracias ocidentais e provocou uma viragem na concepção das relações internacionais. Pela primeira vez a maior potência mundial foi ferida no seu próprio território e os Estados Unidos da América adoptaram uma política de tendência unilateral. O conceito de inimigo transformou-se para cada indivíduo e os níveis de segurança aumentaram com medidas que coartaram alguns direitos de cidadania. Os ataques do dia 11 de Setembro demonstraram que qualquer país está vulnerável ao terrorismo e ao radicalismo religioso. Esse facto transformou-nos a todos em potenciais terroristas à luz da segurança do Estado.

Até que ponto o 11 de Setembro mudou o conceito de terrorismo?

Os actos terroristas passaram a ter novas motivações e o terrorismo passou a variar entre os ataques à cidadania e aos símbolos estratégicos de uma determinada civilização ou nação. O terrorismo internacional descentralizou-se e criou um sistema em que não se sabe o centro do qual emana a ordem para uma determinada acção e os ataques suicidas criaram um novo conceito de segurança, as pessoas em si também passaram a ser bombas. O terror afecta a cidadania das pessoas no que de mais básico existe.

Houve exageros na resposta ao 11 de Setembro?

Em muitos casos houve decisões isoladas por parte dos Estados Unidos. Por exemplo, o país decidiu intervir no Iraque e só depois convidou outros Estados da OTAN, quando devia ser uma decisão de consenso. Existem excessos na segurança dos aeroportos e acções reprováveis são aplicadas de qualquer forma contra tudo e todos. A própria morte de Bin Laden abriu uma fissura nas relações entre Washington e Islamabad e em alguns casos o radicalismo é combatido com meios e atitudes radicais semelhantes aos actos que se estão a combater.

A morte de Bin Laden enfraqueceu o terrorismo?

Foi um marco importante na história da luta contra o terrorismo. O líder da Al Qaeda era o rosto do terrorismo internacional, um símbolo vivo e uma inspiração para alguns seguidores praticarem certos actos. A morte de Bin Laden tem uma abrangência simbólica profunda e demonstra a impossibilidade de se cometer um crime e ficar impune. Mostra que o caminho para se promover uma ideologia religiosa ou política não pode ser através da violência.

Até que ponto a “islamofobia” prejudicou o Islão?

O 11 de Setembro trouxe a percepção errada e negativa de que os praticantes do Islão são potenciais radicais e terroristas, prejudicando grandemente a religião islâmica. O Islão era a religião que mais crescia no mundo, mas desde os ataques às Torres Gémeas houve um declínio significativo, alguns Estados até vêem o islão como um perigo para a segurança nacional. A própria América era terreno fértil para o islamismo, algumas celebridades americanas dos anos 70 e 80 do século passado como Malcolm X, Mohammed Ali, converteram-se ao Islão, que era símbolo de liberdade, solidariedade e pureza. Toda essa visão desapareceu com o 11 de Setembro.

Como se pode mudar essa percepção?

As pessoas devem lembrar-se que já havia terrorismo antes do 11 de Setembro e que a própria Al Qaeda já existia e cometia actos terroristas. É preciso consciencializar as pessoas que ser muçulmano não é ser terrorista. Os líderes religiosos islâmicos devem fazer esse trabalho junto dos seus fiéis e da comunidade internacional porque o Islão tem sido conotado com o terrorismo internacional.

O atentado terrorista de Oslo muda esse paradigma?

Este atentado foi cometido por um cristão e comprova que o radicalismo e o terrorismo podem vir de todos os lados. O ataque demonstra que o combate deve ser contra todo o tipo de radicalismos e de actos terroristas e não especificamente contra uma religião.

Porque razão os países desenvolvidos têm mais medo do terrorismo?

Porque apesar dos chamados Estados fracos serem mais propensos a ataques terroristas, os alvos escolhidos estão maioritariamente nos países ocidentais ou são do seu interesse. O objectivo é sempre ferir os países do Ocidente, o capitalismo, os globalizadores, mas como existem mais dificuldades em perpetrar esses actos nos países ocidentais, os radicais acabam por atingir interesses desses países nos Estados mais vulneráveis. As embaixadas, empresas multinacionais, interesses económicos e outros símbolos dos países mais desenvolvidos são os alvos principais dos grupos terroristas.

Que insuficiências nota na luta contra o terror?

Insuficiências do ponto de vista social. Por alguns actos praticados por cidadãos identificados e acções cujas finalidades e pressupostos são perfeitamente conhecidos, todos nós nos transformámos em potenciais terroristas. É necessário procurar outras estratégias que permitam repor a normalidade do relacionamento entre as pessoas e entre as comunidades entre si. É necessário mais trabalho e consenso para se encontrar uma solução para o terrorismo internacional descentralizado, que criou um sistema em que não se sabe quem manda e qual a forma de coordenação. Na luta contra o terror há excessos como torturas, prisões arbitrárias, violação das soberanias, invasão da privacidade, limitações nos movimentos de bens e pessoas, tudo em nome da luta contra o terrorismo.

E quais são os ganhos?

Algumas medidas foram eficazes do ponto de vista de organização do Estado, da troca de informaçõe, e da estrutura da comunidade internacional no combate ao terrorismo. A Al Qaeda foi desgastada, o que culminou na morte de Osama Bin Laden. Hoje qualquer Estado é subscritor de protocolos contra o terrorismo internacional.

A diminuição do fenómeno passa pela democratização dos países árabes?

A implantação menos cuidada da democracia não diminui o fenómeno do terrorismo internacional. Quando a democracia é forjada, a probabilidade de grupos radicais chegarem ao poder e formarem governos que favoreçam o terrorismo é muito maior. Quanto menos cuidadas são as transições democráticas nos países árabes, onde os grupos radicais estão bem enraizados, maior é a possibilidade desses grupos assumirem o poder porque têm maior adesão popular. Portanto me parece que o caminho seja a democratização desses países, sob pena da própria democracia cair no descrédito como acontece em alguns Estados onde os países ocidentais retiram governos democraticamente eleitos por serem formados por partidos com pendor islâmico.

Isto não é um paradoxo?

É curioso. Na maior parte dos países árabes em que houve eleições livres e justas, grupos de pendor islâmico com algum radicalismo acabaram por ganhar as eleições, o que tem trazido problemas e mais complexidade na relação desses governos com os países ocidentais. O paradoxo existe no comportamento dos países ocidentais, que não conseguem conciliar o discurso de expansão da democracia e de defesa de sociedades mais abertas e pluralistas com os países de pendor islâmico, porque sabem que nesses casos os grupos islâmicos acabam por vencer as eleições. Aí a democracia deixa de ser democrática.

A formação de um Estado palestiniano pode reduzir o terrorismo?

A solução da questão palestiniana pode contribuir para a diminuição dos perigos que o terrorismo internacional apresenta actualmente. O mundo árabe anda agastado com a questão da Palestina e com o facto de Israel ter apoio quase incondicional dos Estados Unidos da América e de alguns países ocidentais, que fazem uma espécie de tampão e pressão para que se mantenha o “status quo” da Palestina. Um Estado palestiniano pode ser factor de moderação do terrorismo porque muitos grupos apontam ou vêm a questão palestiniana como exemplo de dominação e de opressão por parte dos países ocidentais quando os seus interesses estão em causa.

Até que ponto a situação na Líbia pode influenciar o terrorismo?

A possibilidade da Líbia se desestabilizar e tornar-se num segundo Iraque ou Afeganistão pode aumentar o terrorismo internacional. O país tem uma extensão territorial considerável e regiões praticamente inacessíveis, podendo tornar-se num covil de recrutamento de radicais e de terrorismo. A OTAN e os países que estão a intervir na Líbia devem tomar medidas para que isso não aconteça, mas neste momento estão preocupados com as questões económicas. A Líbia do amanha é uma incógnita, os líderes do CNT foram principais colaboradores do Kadhafi, mas do dia para a noite foram transformados em salvadores do país.

Todos os meios são válidos para acabar com o terror?

Não concordo com os atropelos aos direitos humanos, com o terrorismo de Estado, com a imposição de medidas aos chamados Estados fracos e com a violação da soberania e ingerência nos assuntos internos de outros países com a desculpa de se estar a combater o terrorismo.

Qual é a fórmula para a diminuição do fenómeno?

É um trabalho estruturado de educação, de formação, de cooperação e de desenvolvimento, para que as pessoas estejam preparadas para a democracia multipartidária, pluralista e com rotatividade no poder, onde qualquer grupo organizado e constitucionalmente reconhecido possa chegar ao poder. Também é fundamental criar parcerias com Estados cooperantes e uma interdependência entre os Estados na luta contra o terrorismo. Não se pode promover o “seguidismo” ou obrigar os Estados a seguir determinadas estratégias. Os Estados são soberanos devem ter políticas próprias e ser respeitados como parceiros.

O que Angola tem feito para prevenir o fenómeno?

Angola subscreveu alguns acordos internacionais e regionais contra o terrorismo internacional e tem estruturas que permitem o combate ao terrorismo. É necessário que o país crie estruturas políticas, sociais e de segurança que impeçam a emergência desses grupos e possibilitem aos cidadãos terem a visão e liberdade de interagir neste mundo globalizado. Penso que Angola tem todas as condições para evitar que esses grupos se implantem e se enraízem no país, e que existam grupos radicais internos.

Qual é o futuro do terrorismo?

Vai depender. Qualquer cidadão precisa e tem o desejo de segurança, portanto deve colaborar para que a segurança internacional seja uma realidade, mas se continuarem com acções unilaterais, se a disparidade entre ricos e pobres aumentar, se os Estados ocidentais continuarem a primar pelo intervencionismo em nome dos seus interesses económicos como está a acontecer em alguns países da África do Norte e se os mecanismos de imposição de determinadas condutas prevalecerem, não tenho dúvidas que os grupos terroristas vão emergir e que o radicalismo vai continuar.

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