Entrevista

Tive dinheiro para o dobro do investimento que estou a fazer

Manuel Albano e Amilda Tibéria

Anselmo Ralph, um dos cantores angolanos mais acarinhados, admite que hoje teria dados passos importante na minha vida, se não cometesse os erros de gestão do dinheiro conseguido ao longo da carreira. Considera que teria dado passos importantes se tivesse formação em gestão financeira.

Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro

O sétimo trabalho discográfico a ser apresentado é uma concretização pessoal ou mais um compromisso com os admiradores?
Considero o disco “Momentos” mais um compromisso com o público, porque tenho uma responsabilidade com os meus fãs. Hoje, já não sinto a necessidade de lançar um disco por lançar. Preciso de me dedicar mais à família, que, nos últimos tempos, reclama muito da minha ausência. Quero estar mais próximo dos filhos e poder fazer parte do processo de desenvolvimento deles. Levei algum tempo para apresentar esse novo trabalho, porque estou mais focado no mundo empresarial. Estamos a fazer alguns investimento no país, como a abertura de um minimercado, uma garrafeira, uma esplanada e uma sala de espectáculos. Todos esses projectos e o agenciamento da carreira de alguns músicos, como Ana Joyce e Landrick, contribuíram para o afastamento da música.

O que traz novo disco de especial para o mercado e o público?
Depois de colocar no mercado seis discos, ficamos sempre na expectativa sobre o que vamos apresentar. Hoje, temos um Anselmo que é visto com várias sonoridades no país e no estrangeiro. Isso cria-nos algumas incertezas sobre o que apresentar e criou um certo dilema. Perguntei-me varias vezes que tipo de Anselmo iria apresentar-se no mercado. Estou desde 2016 que não coloco um disco no mercado. Trago no trabalho um artista reflectido naquilo que tem sido a minha carreira no país e na diáspora.

Qual é a ideia do título do disco, “Momentos”?
A ideia do album lançado hoje, em formato digital, na plataforma “Kisom”, já tinha vários nomes escolhidos. Conversei com a família e expliquei um pouco o que pretendia. Disse que o disco tinha uma introspecção da minha carreira, mas, sobretudo, histórias de amor como foco. De repente, a minha filha sugeriu que se chamasse momentos. Achei interessante e decidimos mantê-lo. O disco fala das diferentes fases existente num relacionamento, tristezas e alegrias. Ao longo desse 14 anos, apercebi-me que já não sou o artista do momento, chega uma altura da vida que dás conta do surgimento de outros talentos que estão apresentar trabalhos com muita qualidade. Não tenho nenhuma canção promocional e mesmo assim o público clama pelo meu trabalho, fruto do prestígio que conquistei. Hoje, as expectativas são diferentes, por serem contextos diferentes também.

O disco tem participações?
O disco “Momentos” tem as participações de Djodje, Prodígio, Loony Johnson, MC Zuka e Todo El Rato. Entre os vários temas, destacam-se as canções “Fim do Mundo”, “Fala Duma Vez”, “Diz-me Quantos Beijos”, “Já fui”, “Quase te Perdi”, “Tá Doce” e “P’ra Cuiar Mais”, sendo a última um exclusivo do aplicativo Kisom. Procuro sempre cantar o amor e vou lançar apenas sete mil cópias, diferente dos anos anteriores, quando lançava entre as 20 e 30 mil exemplares. Hoje, a realidade é completamente diferente, por causa do poder de compra do público. As prioridade dos fãs também são outras, o custo de vida está mais apertado para todos; estou a preferir fazer as coisas com alguma ponderação, para evitar gastos desnecessários.

Teve de adiar espectáculos, na Europa, por causa do coronavírus?
Infelizmente, adiei uma digressão pela Europa. Tinha concertos marcados em Portugal e Suíça, para os meses de Março, Abril e Maio. O programa de actividades agendadas foi todo adiado e o lançamento do disco “Momentos” vai ser feito de forma digital, porque neste momento quase todos os eventos na diáspora estão a ser cancelados. Essa é uma situação que está a criar muitos constrangimentos.

Agora já é possível viver da música. Anselmo Ralph já vive da música?
Sim! Hoje, já posso afirmar que os músicos angolanos conseguem viver da música. A questão é como viver dos rendimentos provenientes da actividade artística. O que se passa, às vezes, é querer levar uma vida igual à dos cantores internacionais bem-sucedidos. Também já cometi erros ao imitá-los. Queremos imitar o estilo de vida dos americanos. Houve época em que queria apenas conduzir carros luxuosos. A viver da música desta maneira ainda são poucos no nosso mercado, comparativamente a outras realidades mundiais. É possível vivermos da música, se quisermos levar uma vida tranquila, como pessoas normais. Existem músicos que, por mês, ganham salários de directores e gestores bem posicionados no país. Falo por experiência própria. Há cantores que já fazem 500 mil kwanzas por mês. Também reconheço que o artista tem muitos gastos com a própria imagem e produção. Não é fácil manter essa posição, porque sofremos muita pressão da sociedade. Se não soubermos lidar com essa pressão, corremos o risco de cometer muitos erros.

Defende que a classe artística nacional deve apostar na formação em gestão de carreiras, para melhor lidar com a fama?
Acho que os angolanos estão a precisar de formação financeira. Deve existir políticas bem elaboradas para se implementar no ensino de base no país uma disciplina de educação financeira. Tudo começa na base e a maneira como estão a ser geridos os próprios recursos. Precisamos ainda de melhorar a forma como lidamos com a gestão dos recursos financeiros no país. Falo de uma forma geral, sem excepções; sinto que mesmos os dirigentes deveriam ter formação em gestão. Precisamos de educar as crianças e adolescente a desenvolver a cultura da poupança, para não corrermos o risco de cometer os mesmos erros do passado. Tudo é possível, se existir a colaboração e empenho de todos. Não vamos achar culpados, mas procurar aprender com as falhas para melhorar no futuro.

Hoje teria uma vida financeira bem melhor, se tivesse noção das falhas na gestão dos recursos conseguidos como cantor?
Não tenho dúvidas disso! Hoje, teria dado passos importantes na minha vida, que me permitiriam estar num outro patamar, ter uma vida completamente diferente. O problema é saber onde e como investir o dinheiro. Gastamos mais do que ganhamos e isso tem destruído a carreira de muitos artistas. Quando analiso os erros que cometi, muitas vezes questiono-me. Felizmente, todos eles serviram-me para mudar o meu estilo de vida e compreender que existem prioridades. Hoje, canalizo melhor os recursos ganhos com a música, procurando diversificar a minha fonte de rendimento. Há dois anos, comecei a ganhar consciência dos meus erros. Tive dinheiro para fazer o dobro das coisas em que estou a investir. Temos que saber reconhecer as nossas falhas. Um dos meus defeitos é nunca ter tido uma educação financeira. Sou muito sonhador e impulsivo, o que, por vezes, tem atrapalhado os meus projectos.

Considera-se um artista realizado?
Sem sobra de dúvida! Sinto que tive a possibilidade de marcar uma geração, apensar de sentir que ainda tenho muito para contribuir no crescimento e afirmação da música angolana no país e no estrangeiro. Há uma nova geração que influenciei; trabalho nas suas carreiras, porque também tenho tido o feedback dos mesmos, que dizem ter sido influenciados por mim. Tive a sorte de fazer parte dos artistas que elevaram bem alto o nome do país na diáspora. Sinto que dei o meu contributo, à semelhança das Gingas do Maculusso, Os SSP, O2. Impactus 4... Dos artistas e grupos de uma geração mais jovens que fizeram toda uma diferença no país. Acredito que também estou entre eles.

Onde está o segredo para tanta admiração do público?
Não existe segredos algum senão o trabalho. São daquelas coisas que não têm explicação. Também me questiono, se calhar só mesmo Deus para dar essa resposta. Há coisas que não têm explicação; é o mesmo quando entras para um local desconhecido e logo as pessoas engraçam-se contigo. Existem músico que trabalham mais e não conseguem atingir o mesmo sucesso que eu. São daquelas coisas da vida para as quais não adianta procurar respostas; é mesmo tudo natural. Se o talento fosse apenas nosso, estaríamos a fazer músicas a todo o instante. Por isso é que nunca sabemos quando vamos fazer sucesso. Existem artistas que cantam melhor do que eu e não conseguem atingir o mesmo sucesso.

Como surgiu o projecto da Bom Som?
Depois do lançamento do primeiro disco, trabalhei com várias produtoras, como a “Army Music”, da Army Squad, e a “Mil Mambos”, dos Kalibrados. Como havia algumas dificuldades em trabalhar com essas produtoras, decidi criar o meu próprio projecto. Nesta época, já trabalhava com o cantor e produtor Camilo Travasso, que me agenciava. Estávamos a pensar como chamar à produtora. Em 2005, ele sugeriu algo criativo e foi então que decidi atribuir o nome "Bom Som" e ficou. Quando saio da LS Produções, senti-me meio perdido, sem saber o que fazer. A minha mulher fez-me uma surpresa: sem eu aperceber-me, já estava a criar as condições para construir a Bom Som. Montou um escritório no Camama e levou-me a conhecer. Disse-me que seria a empresa. A partir daí, nunca mais parámos e fomos dando os primeiros passos, até atingirmos os objectivos.

A Bom Som é um projecto de sucesso?
Sim! Considerou que o projecto tem tido os seus frutos. Conseguimos contribuir para a ascensão da carreira do Miguel Buila, da Ana Joyce, Landrick. O Projecto da Bom Som é mais direccionado para artistas desconhecidos no mercado. Queremos dar visibilidade a quem mais precisa e poder fazer surgir novos talentos. Muitos artistas conceituados queriam entrar para a Bom Som e tivemos que explicar quais são as intenções do projecto. Não é um negócio muito lucrativo. A minha maior satisfação é saber que ajudei a despontar outros jovens talentosos e contribuir para a afirmação de carreiras e, desta forma, deixar um legado positivo às outras gerações. Um desses exemplos é a forma como a cantora Duda entra para o projecto. Fizemos um casting para recrutar alguns jovens e ela tinha produzido um vídeo sem qualidade e mesmo assim apostámos. Temos recebido muitos pedidos, mas agora estamos ainda na fase de solidificação da empresa. Estamos a construir os estúdios da Bom Some, a sala de espectáculo a ser inaugurada brevemente. Queremos trabalhar com poucos artistas, para poder apresentar obras com qualidade.

Como entra o Anselmo Ralph para a música?
Na verdade, era uma área que já admirava. Assistia muito ao show Pió, promovido pela Rádio Nacional de Angola. Enquanto muitas crianças vibravam, eu ficava a observar. Sempre cresci muito tímido e ficava a admirar os artistas em palco e isso chamava-me sempre a atenção. Na década de 1990, fui viver durante um ano na Espanha e gostava muito de interpretar as canções de Juan Luís Guerra. Isto teve muita influência na minha carreira como músico. Quando regresso para o país, ouvia-se muito o estilo musical hip-hop. Quase todos os jovens queriam formar grupos e a grande referência era os SSP. Depois, decidi formar um grupo de hip-hop de quatro elementos, com Camilo Travasso. Éramos três e faltava um integrante, porque o grupo tinha que ser como os SSP, composto por quanto.
Comecei em 1992, nesta altura conheci o Phathar Mak, os SSP, Prince Wadada e Yannick Afro Man. Todos íamos sofrer nos estúdios do Eduardo Paím e ficávamos na porta à espera de uma oportunidade para gravar um tema. Lembro-me do Yannick e do Prince Wadada me terem aconselhado a desistir do estilo hip-hop e reggae, por ser uma pessoa muito meiga. Em 1995, fiz parte do grupo NGB com o qual gravei o primeiro disco no estúdio de Eduardo Paim. Em 1997, viajo para os Estados Unidos e o disco só ficou pronto em 1999. O Camilo Travasso já estava a cantar kuduro e o projecto não foi por ai além.

O que levou aos Estados Unidos?
O meu pai era diplomata e fui estudar e trabalhar nos Estados Unidos. Não me revia num contabilista fechado num escritório. Conclui apenas o terceiro ano de Contabilidade e Gestão. Desisti do curso, porque sentia-me um prisioneiro. Tive problemas com os meus pais, que mais tarde acabaram por compreender. O meu pai foi mais flexível e rapidamente compreendeu que não era aquilo que eu gostaria de fazer. Estava a fazer o curso para satisfazer a vontade dos progenitores. Chegou a uma altura em que já não dava mais e acabei por abandonar.

Foi uma decepção para os seus pais?
De certa forma, sim. Lembro-me que, uma vez, tive tantas negativas na faculdade que a comunidade dos estudantes africanos disse-me que os fazia envergonhar. Os asiáticos e africanos têm boas referências nos Estados Unidos. Esforcei-me um pouco, mas, definitivamente, não era aquilo que gostaria de fazer. Cinco anos depois, regresso para país, com a intenção de dar continuidade. Pensei em lançar um disco de Kizomba. Surpreendentemente, quando chego, apercebi-me que a Pérola e o Heavy C já faziam o estilo R&B. Decidi seguir essa linha, porque era a que me caracterizava. Ainda nos Estados Unidos estava para ser um líder religioso ou pastor, porque sempre que entrava para um transporte público estava a pregar a palavra do Senhor.

Como foi a adaptação, no regressar ao país?
Foi complicado, porque pensava como seria cantar música que não fosse religiosa. Foi ai que surgiu a ideia de cantar apenas histórias de amor, cujo tema deu origem ao nome do meu primeiro disco. Decidi cantar sobre o quotidiano dos casais. As pessoas nunca repararam, mas, no primeiro disco, nunca falo explicitamente sobre a sexualidade dos casais, recorrendo a termos muitos fortes.

Anselmo Ralph já foi incluído na lista, na altura liderada pelo cantor senegalês Akon, dos artistas mais rentáveis e ricos de África, Até que ponto essa informação é verdadeira?
… Realmente, ganhei muito dinheiro, não posso negar. Tudo o que conquistei até hoje foi pelos bons contratos e espectáculos realizados no país e no estrangeiro. Também já cometi muitos erros na gestão das minhas finanças. Tenho procurado aplicar parte desse dinheiro em projectos. Hoje, se me fizerem essa mesma pergunta, direi que não. Estou a construir um espaço multiuso com uma sala de espectáculo moderna no país, que deve ser inaugurada em Maio. São esses e outros projectos, nos quais tenho feito grandes investimentos. Estou a preparar a minha reforma e de outros músicos. São projectos inclusivos, que vão permitir dar emprego a muitos jovens. Quero um dia ser visto como alguém que contribuiu para o desenvolvimento e crescimento do país. Quero ser lembrado da melhor forma, como alguém que soube ser um bom exemplo para a juventude, que acredita no seu país e nos seus compatriotas. Somos nós que devemos lutar para ajudar o país a tornar-se diferente e melhor para vivermos.

Como vai o contrato com a Sony Music espanhola?
Felizmente tudo corre bem. Agora é tentar cumprir com a produção do álbum em espanhol. Max single vai ter a participação de um cantor internacional consagrado, que, no momento certo, será anunciado. Depois, serão feita outras produções que culminarão com um disco em 2021. Foi um dos momento mais altos na minha carreira, ter assinado contrato com uma das maiores gravadoras da indústria fonográfica do mundo, a Sony Music. Com este contrato, vou lançar álbuns em castelhano (espanhol), que serão comercializados em Espanha e em toda a América Latina.

Quais são os cantores com quem ainda gostarias de poder trabalhar?
São muitos. Os internacionais com quem muito gostaria de ter a possibilidade de poder um dia fazer um dueto é o Stevie Wonder, Juan Luís Guerra, Jastin Timberlake; os nacionais são a Yola Semedo, Matias Damásio e Yuri da Cunha. Com os novos talentos, já tive a possibilidade de trabalhar com o Preto Show, muito recentemente. Estava a fazer uma música em língua nacional Quimbundo com o Bangão, que, infelizmente, ficou em terra. Esse tema teria uma mistura de R&B e semba. Seria uma experiência inovadora para a minha carreira. Não desisti da ideia, se calhar daqui há mais algum tempo poderei fazer com uma outras figura da velha geração.

O que tem feito para ultrapassar esse vazio na gestão financeira?
Felizmente, tenho o apoio da minha família. Hoje, nada faço sem o consentimento da minha mulher. Ela é parte de todo o meu sucesso. Tudo o que faço deve ser comunicado e concertado antes. Se não for aprovado, é melhor mesmo esquecer. Dividimos as tarefas, tenho procurado ser mais criativo e a Madlice está na gestão dos projectos. Ela é quem decide como deve ser feita a gestão financeira mediante da dimensão dos mesmos.

Ela põe alguma ordem ...
A minha mulher surgiu na minha vida para colocar ordem e disciplina (risos)... estamos a construir o nosso património muito mais por mérito dela. Posso apresentar o melhor projecto do mundo, mas é minha mulher quem aprova no final. Tenho a mania de alterar projectos já concebidos e orçamentados. Ela tem sido aquela pessoa que me impõe limites e aprendo a respeitar as suas decisões. Madlice é a minha parceria, o meu braço direito, definitivamente.

Que importância teve a sua mulher na sua carreira?
Teve uma importância indescritível. Ainda na época do namoro, ela estava a estudar medicina no Piaget, já me ajudava a colar nas ruas os panfletos publicitários. Na altura, o Cesalty, “Tia Bolinha” do Tunezas, era colega da Madlice e gozava muito com ela no bom sentido, por causa de mim. Daí, as coisas foram fluindo até aos dias de hoje. É um caminho de superações e desafios constantes, que temos sabido ultrapassar juntos, ao longo desses anos de relação. Ela tem sido um dos meus principais pilares. Não sei se um dia aguentaria viver mais sem a companhia da minha mulher, por tudo o que já passámos e enfrentar juntos. Sinto-me grato e obrigado por tudo que tens feito por mim.

Alguma vez temeu o insucesso?
Tenho pensado nessa possibilidade. Considero-me uma pessoa abençoada e há muito tempo apercebi-me disso. Não me lembro de nada em especial ligado à minha carreira que pudesse não dar certo. Acredito ser mesmo mimado por Deus. Penso sempre positivo e no sucesso das coisas. Nunca penso de forma negativa, porque prefiro ser optimista para as coisas que faço. Para mim, não existe um "Plano B" na minha vida. Existe aquela fase menos boa na vida de qualquer um. Aliás, os fracassos e insucessos tornam-nos maduros e mais fortes para enfrentar as dificuldades do quotidiano. Se tentar muitas vezes, a possibilidade de ter sucesso é maior. Já pensaram quantas vezes temos de falhar para atingir o sucesso? Os insucessos, comparados às vitórias, são sempre maiores. Vou dar um exemplo: O Micheal Jordan, numa entrevista, disse que, ao longo da carreira, falhou mais do que encestou. Cristiano Ronaldo e Leonel Messi falharam mais bolas ao longo da carreira. Tiveram que tentar várias vezes, para ter sucesso. Isso faz parte da vida.

Como conheceu a sua mulher?
Conheci a Madlice na véspera do meu primeiro disco, ainda no tempo de escola, aqui em Luanda. Os primeiros contactos foram por telefone, sem qualquer contacto físico. Lembro-me que havia um rapaz que era meu vizinho na Vila Alice e colega da Madlice. Na época, tinha o tema promocional “Nem aí”, que já tocava nas rádios. Um desses dias, o jovem deu-me o contacto de Madlice e pediu-me que lhe ligasse, mas ignorei. Com o passar do tempo, perguntou-me se tinha ligado e disse que não. Em véspera do aniversário da Madlice, o meu vizinho insisti-me para ligar-lhe e assim fiz. No dia seguinte, liguei novamente, para saber como tinha corrido a festa. Dai em diante fomos regularmente mantendo o contacto. Conversávamos muitas horas ao telefone, sem nunca termos o contacto visual. Lembro-me que nesta fase ainda não tinha nenhum Videoclipe. Há uma música do grupo Wonderfull One, na qual participo. Fomos cantar no programa Janela Aberta, da TPA. Foi onde ela me viu pela primeira vez. Ela quase não saia de casa, por causa do pai, que era militar e impunha uma certa disciplina. Uma das vezes, convidou-me para ir ter com ela na praia, onde estava com as amigas. Foi ai que a conheci fisicamente. Gostei e já não larguei mais.

É um pai mais presente ou continua ser muito ausente
Actualmente, sinto que me tornei um pai mais presente, o que não acontecia, por causa das minhas obrigações profissionais. Hoje, gasto mais dinheiro em passagens por causa da família. Se realizo um ou dois espectáculos no estrangeiro, dias depois estou de regresso ao país. Outrora, ficava um a dois meses ausentes da família. Recordo-me que a minha mulher gozava comigo, dizendo sempre o “hóspede chegou”. Chegou uma fase, principalmente no segundo filho, que pouco ou nada sabia sobre ele. Há dois anos, comecei a dar conta da necessidade de estar mais próximo da minha família.

A esposa já alguma vez pensou em se separar?
Claro que sim! A natureza das mulheres é mais sensíveis e por uma ou outra coisa está logo a dizer que já não quer continuar na relação. O nosso estilo de vida leva, às vezes, a conclusões e interpretações erradas sobre um determinado momento ou situação. Tenho os meus erros, sou mesmo cabeça dura, mas nada que não seja ultrapassado com uma boa conserva. Às vezes, no calor da discussão, há sempre aquele que diz ao outro que já não quer e que tudo acabou. São situações que acontecem nos casais. Toda a relação tem os seus altos e baixos, mas, lá no fundo, pensar numa verdadeira separação ... nunca. Poderá acontecer, mas procuramos sempre tratar as nossas diferenças com o diálogo, no espírito da nossa amizade.

PERCURSO

Anselmo Ralph, Andrade Cordeiro é cantor de R&B, Soul e Kizomba. Um dos principais cantores angolanos da actualidade, nasceu em 1981, na cidade de Luanda, onde frequentou o liceu. Depois, imigrou para Nova Iorque. Na América, tentou, sem sucesso, concluir a formação superior em contabilidade, na faculdade da comunidade de Manhattan do Borough. Nos anos 90, mudou-se para Madrid, em Espanha, onde viveu algum tempo. Foi nessa altura que descobriu a paixão pela música e se tornou um grande admirador de um dos mais populares cantores dominicanos: Juan Luís Guerra.
Após fazer parte de uma banda latina Rock'n'Roll, em Nova Iorque, Anselmo começou a fazer projectos como artista a solo. Em Janeiro 2006, lançou o seu primeiro álbum, intitulado “Histórias de Amor”, produzido por Aires no Beat, e pela Bom Som, do próprio artista e do seu agente Camilo Travassos. O disco é dominado pelo género R&B, que teve sucesso imediato. Duas semanas, depois realiza o primeiro concerto no Miami Beach, com mais de seis mil pessoas na plateia. A seguir, produziu outro grande espectáculo no Cine Karl Max, em Luanda, também com a lotação esgotada, batendo o recorde de enchente no local. Ainda em 2006, foi nomeado pela cadeia televisiva da África do Sul Channel'O o “Melhor Cantor de R&B” e também para “MTV Europe Music Awards 2006”, para categoria de “Melhor Artista Africano”, na gala de consagração na Dinamarca, em Copenhaga.
Depois do sucesso do primeiro álbum, “Historias de Amor”, a Produtora Bom Som lançou o segundo “As Últimas Historias de Amor”, no dia 14 de Fevereiro 2007. Em apenas um mês, o CD tornou-se outro grande sucesso nacional e internacional. Com este segundo trabalho, Anselmo Ralph recebeu o prémio de “Melhor Voz Masculina” e do “Top Rádio Luanda”, como o músico mais votado, em 2007. Depois, fez mais de oitos espectáculos pela Bom Som. Em 2008, assinou com a produtora LS. Produções, fechando um contrato de três álbuns. Foi o ano em que o artista fez muitos concertos, no país, em Portugal, Holanda, Inglaterra, Moçambique, África do Sul, São Tomé e Príncipe, Brasil e Namíbia.
Em 2009, no dia 14 de Fevereiro, lançou o terceiro álbum “O Cupido” (Duplo CD e DVD). Em apenas 9 horas, vendeu 22.600 cópias e depois mais 30.000 cópias em menos de um mês. Reeditaram-se mais 10.000 cópias, totalizando 40.000, esgotadas ao fim de quatro meses. Em Julho de 2010, a LS Produções produziu o primeiro Mega Show de 2 dias no Pavilhão da Cidadela, que teve mais uma vez lotação esgotada em ambos, com 42.000 pessoas presentes.

 

Tempo

Multimédia