Entrevista

Treinador Mário Palma: A Lógica no D´agosto é ganhar as competições

Béu Pombal

Está intrinsecamente ligado à história do basquetebol angolano. Categorizado treinador português, hoje com 61 anos, desempenhou grande parte das suas funções em Angola, razão pela qual afirma também ser angolano de naturalidade, “só me falta o documento”.

Fotografia: Jornal de Angola

Está intrinsecamente ligado à história do basquetebol angolano. Categorizado treinador português, hoje com 61 anos, desempenhou grande parte das suas funções em Angola, razão pela qual afirma também ser angolano de naturalidade, “só me falta o documento”. Depois de largos anos ausente do país, Palma regressa ao comando da equipa técnica do 1º de Agosto, onde conquistou seis campeonatos nacionais e dois africanos de clubes. Antigo seleccionador angolano, a “velha raposa” volta com o seu discurso triunfador, “a lógica no 1ºde Agosto é ganhar as competições”, afirma. O antigo seleccionador do sete nacional aborda o seu regresso e faz um balanço sobre o seu trabalho em Angola.

O que o motivou para voltar a treinar o 1º de Agosto?
Este clube tem boas pessoas, trabalhei aqui sete anos e sei bem como as coisas são. Tenho aqui muitos amigos e ofereceram-me boas condições para trabalhar. O clube está numa situação menos boa e, nesta altura, não podia rejeitar o convite da sua direcção. Regressei com vontade de ajudar naquilo que for possível, com o sentido de um dever profundo, porque esta é uma agremiação muito importante no desporto angolano e africano. Há um ditado que diz que não se deve regressar aonde se foi feliz, mas espero que venha a ser ainda mais feliz desta vez no 1º de Agosto.

Vai pedir reforços de luxo provenientes do estrangeiro?
A equipa está com as várias áreas do jogo bem guarnecidas pelos jogadores, temos sim que evoluir em alguns sectores. Temos jogadores a mais e vamos tomar alguma decisão para emprestar alguns, com a intenção de rodarem num outro clube e depois regressarem. De resto, estou muito satisfeito com a equipa que tenho e não há como ter desculpas para dizer que a direcção não fez o seu trabalho, porque estão reunidas todas as condições necessárias. Portanto, no final da época, se as coisas não correrem bem, não temos de apresentar desculpas nessa vertente. Agora devemos trabalhar muito e valorizar o clube depende de nós.


Vai mudar substancialmente a filosofia de jogo da equipa?
Cada um tem a sua filosofia de jogo. Estou a suceder ao Luís o Magalhães, que é um bom treinador e implementou a sua filosofia na equipa. Portanto, tudo o que estiver dentro da minha filosofia não vai ser alterado, haverá mudanças certamente, não porque as coisas estão mal mas porque procuramos sempre fazer o melhor. No ano passado, as coisas não correram bem para a equipa, mas isso é normal porque nenhuma equipa da alta competição ganha sempre. Temos de identificar o que está mal para não cometermos os mesmos erros.

Não prevê grandes dificuldades no campeonato, a julgar pela a evolução das outras equipas, como o Recreativo do Libolo, Interclube, ASA, para não falar do Petro, que esteve muito forte na época passada?
O 1º de Agosto sob o meu comando, da última vez que cá estive, fez duas épocas sem perder nenhum jogo, quer em Angola, quer na competição africana. Ganhámos dois campeonatos africanos de clubes e tudo o resto que tínhamos para ganhar, enfim, batemos um recorde que provavelmente será imbatível durante muitos anos. Portanto, foi uma sequência de um grande trabalho, porque a equipa fez um grande esforço e se tornou muito forte.

Mas agora a história é outra…
Agora não sei exactamente o que as outras equipas estão a fazer, só mais tarde vou poder avaliá-las. Mas, de qualquer maneira, essas equipas têm bons jogadores, bons treinadores e conhecedores do basquetebol angolano. Têm ainda poderio financeiro, boas infra-estruturas. Com isso, acho que o próximo campeonato vai ser altamente disputado como foi o passado, e há dois anos, aliás, ganhar o campeonato de basquetebol em Angola nunca foi fácil para nenhuma equipa. A última coisa que poderia pensar seria regressar ao 1º de Agosto para ganhar o campeonato com facilidade. Se fosse assim, sinceramente, não teria vindo, porque não é um desafio.

Inevitavelmente tem de prometer o título do campeonato a toda gente do 1º de Agosto?
O treinador que vem para o 1º de Agosto só pode ter esse objectivo, não pode chegar aqui e dizer que a médio ou a curto prazo vamos ser competitivos, não há hipóteses para isso. A lógica no 1º de Agosto é ganhar as competições e nós somos competentes para tal. Dissemos isso agora, mas não sabemos o que vai acontecer em Maio próximo. Sabe que acontecem sempre muitas coisas imprevisíveis. Mas, em condições normais, o 1º de Agosto apresenta-se com a missão de ganhar todas as competições. Se no final da temporada as coisas não correrem devidamente é um fracasso do treinador. Se ganharmos, tudo bem, mas quando perdemos perco eu.

Tem em vista alguma preparação específica para o plantel?
Já fizemos um estágio em Portugal e este início de temporada não está a ser muito bom para nós, mas a dedicação e a atitude dos jogadores estão a ser fundamentais. Já sabia que encontraria jogadores excepcionais e agora acabei por confirmá-lo. Com este grupo de jogadores estou convencido que as coisas serão mais fáceis. O importante é que estejamos bem para nos classificarmos para a fase final do próximo Campeonato Africano, porque nessa competição vamos encontrar equipas muito fortes.

Vai mexer na equipa técnica?
Estou em contacto permanente com todos os treinadores do clube, particularmente o Jaime Covilhã, que é o coordenador da formação do clube. Estamos a tentar melhor aquilo que é possível, aliás, a direcção do clube já me informou que vai dar um apoio significativo ao escalão de formação. Vamos criar um sistema de captação de talentos, uma vez que não temos possibilidades de treinar muitos jovens nas equipas de Sub-17 e Sub-18. Vamos dar muita importância a uma formação com qualidade aos jovens, como na área de lançamento, que continua mal em Angola, isso para que a equipa possa ser renovada no futuro, com jogadores com alguma dinâmica e filosofia de jogo.

Fala-se que o seu regressou a Angola visa essencialmente treinar a selecção nacional. É verdade? 
Isso é pura especulação. Vou treinar a selecção portuguesa de Basquetebol com a qual tenho contrato até 2012. No dia 28 de Junho começo a preparar o conjunto e, caso o classifique para o Campeonato Europeu, muito provavelmente continuo no comando técnico, embora não esteja ainda nada confirmado. Portanto, o meu contrato com a Federação Portuguesa termina em Setembro de 2012. É bom que fique claro que não vou treinar a selecção angolana para o apuramento aos Jogos Olímpicos, mas vou dar todo o meu apoio ao treinador que a Federação Angolana nomear para o cargo de seleccionador, como aliás é o meu dever.

Esse apoio vai consistir em quê, exactamente?
A minha maneira de apoiar é tornar o 1º de Agosto mais forte e competitivo. Já falei com os jogadores sobre isso, disse-lhes que temos de ter o maior número de atletas na selecção, contando, inclusive, com aqueles que estão a entrar agora no clube, que daqui a dois anos possam lá estar. Em suma, o próximo seleccionador angolano também será o meu, seja ele quem for.

O vínculo com a selecção portuguesa não o vai atrapalhar nas novas tarefas?
As coisas estão divididas assim: nesta altura ficou o meu colega Mário Gomes, que vai treinar a selecção Sub-23 em Abril, quando acabar a fase regular do campeonato de 15 em 15 dias, e vamos ver se os clubes aceitam isso, porque está no projecto. Ele vai coordenar ainda as selecções dos escalões mais abaixo. Portanto, agora estou inteiramente ligado ao 1º de Agosto, apesar de este estar informado sobre o que se está a fazer em Portugal, e vou dando uma ou outra opinião. Não haverá qualquer tipo de interferência. Em relação à Federação Portuguesa, as coisas estão bem planificadas e controladas. Até Maio próximo, sou treinador do 1º de Agosto a tempo inteiro.

Acha que a renovação da selecção nacional está a ser bem feita?
Penso que é necessário ter muito cuidado com a renovação da selecção nacional. Temos de a renovar mas sem que ela perca a capacidade de ser campeã africana. É preciso manter o núcleo duro da selecção e depois este núcleo ser substituído lentamente. Isso foi feito durante sete anos quando eu estive aqui.

O núcleo duro está a ser afastado radicalmente?
Nesta última selecção o núcleo duro, aquele que foi da minha selecção, perdeu três jogadores: Lutonda, Carlos Almeida e Olímpio Cipriano. Ao perder estes jogadores, a selecção tecnicamente teve um problema muito sério; tinha bons extremos mas só um era criativo, o Carlos Morais. Isso pesou muito, porque o Carlos Almeida e o Olímpio têm muita qualidade técnica e enorme experiência internacional, e por isso não são facilmente substituíveis. Portanto, ficou provado que em termos tácticos e estratégicos a selecção na área dos extremos tinha claramente um deficit no lançamento dos três pontos e contra-ataque. Isso influenciou a ofensiva da equipa. Contudo, Angola tem de se preparar para ganhar o próximo campeonato, cometemos erros e vamos aprender com isso. Ninguém evolui sem erros, mas também não podemos cometer os mesmos erros. Todavia, temos de apoiar a federação e o futuro seleccionar para os próximos desafios.

Está a dizer que as ausências de Lutonda, Carlos Almeida e Olímpio Cipriano foram fatais no desaire de Madagáscar?
Na minha filosofia de jogo, a selecção angolana, a jogar com os três jogadores que referi, chegaria ao título em Madagáscar. Mas é bom que fique claro que não estou a fazer uma crítica ao treinador, porque ele até é um grande técnico, provavelmente teve pouco tempo em Angola e os jogadores que deixou de fora se calhar estiveram mal na fase final do campeonato. Mas é bom notar que a selecção perdeu apenas o campeonato e não a sua essência, pois continua a ser o melhor conjunto africano de todos os tempos e com mais títulos, e os jogadores mais experientes. Agora há que seguir em frente. O que acontecia é que era anormal ganharmos sempre os campeonatos africanos, mas perder uma vez é normal. Só nos resta prepararmo-nos bem, porque são poucas as hipóteses de nos qualificarmos para os jogos olímpicos, as pessoas têm de ter noção disso. Paralelamente a isso, há outro problema sério que defendo claramente, não quero criar polémica, pelo contrário, pretendo ajudar. Penso que Angola já devia ter naturalizado há muito tempo um jogador.
 
Que jogador?
Há um jogador norte-americano em Angola que chama-se Reggie Moore, que conhecia como jogador e agora conheço também como pessoa e não tenho a menor dúvida que é o ideal para jogar na selecção nacional. Acho que é um passo que tem de ser dado, por ser um atleta com grande qualidade e também porque ele quer jogar pela angolana. Veja que, das 22 equipas que estiveram no último Campeonato Europeu, 20 tinham jogadores naturalizados de origem norte-americana. Os próprios americanos jogam com atletas naturalizados. Na minha opinião, um jogador com a qualidade do Reggie Moore não deve ser desperdiçado quando, inclusive, manifesta vontade de jogar pela selecção angolana.

Acha que em Angola há atletas com possibilidades de jogarem na NBA?
Não. Talvez o Valdelício Joaquim, mas será difícil. O problema é que na NBA há muitos bons bases e extremos. Lá há dificuldades de postes e os nossos postes têm apenas dois metros e dois ou cinco. Se tivéssemos jogadores mais altos e com peso, estariam a jogar lá de certeza, porque os angolanos são muito bons tecnicamente.   

Não acha que alguns jogadores emblemáticos do basquetebol angolano deviam ser convenientemente homenageados pelas entidades de direito?
Sem dúvidas. Tem de se criar um modelo para que os mais jovens, nos próximos anos, saibam quem foi o Jean Jaques, Lutonda, Ângelo Victoriano, enfim, creio que na cidadela devia haver algo que homenageasse esses jogadores.

O senhor tem fama de ser uma pessoa muito dura. É?
Ser líder exige várias coisas: ser aplicado, disciplinado, motivado, competente naquilo que faz, técnica e fisicamente e ter regras. Aqueles que dizem que sou duro são os que não querem aceitar as regras. O basquetebol é um desporto colectivo e isso significa que nenhum jogador em circunstância alguma pode pôr-se à frente da equipa, se alguém fizer isso terá problemas sérios. Se isso é ser duro, então sou. Mas 99,9 dos jogadores que treinei até hoje têm uma boa relação comigo, porque eu não trabalho para eles gostarem de mim, mas para me respeitarem. Quem tenta agradar a todos não consegue agradar a ninguém.

Continua a ser o mesmo exigente?
Nós temos apenas quatro regras no clube: primeiro, chegar a horas, segundo, dar o máximo nas quatro linhas, terceiro, não embaraçar ninguém, por exemplo, faltando aos treinos, arranjando problemas com os árbitros ou outras pessoas e perder noites, e quarto, ninguém está acima da equipa. Na minha vida nunca multei um jogador. A partir da altura em que chego a uma equipa, todos aqueles que trabalham comigo são a minha segunda família. Neste momento, não vai acontecer nenhum problema com algum jogador no 1º de Agosto sem que eu não esteja informado e o ajude a resolver

Já teve contrapartidas financeiras do basquetebol para, por exemplo, neste momento ficar aposentado tranquilamente?
Claramente, embora o dinheiro não seja o mais importante, mas é necessário para toda gente. Não me guio pelo dinheiro. Quando treinei a selecção angolana só recebi o dinheiro algum tempo depois de regressar a Portugal, e até foi bastante. Portanto, nunca tive problemas nesse aspecto. E o meu princípio é de que nunca recebo antes dos jogadores, porque tenho de dar exemplo.

 

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