Entrevista

Tuberculose é problema de saúde pública

João Pedro|

Durante a realização da conferência sobre a reforma do sistema nacional de saúde, que se realizou em Benguela, o director do Hospital Sanatório de Luanda, Afonso Wete, disse que Angola regista todos os anos milhares de novos casos. Por isso, o combate à tuberculose deve mobilizar todos os membros da sociedade, “porque todos temos responsabilidade na eliminação da doença. Devemos redobrar esforços para que tenhamos uma redução significativa”, frisou o especialista, em entrevista exclusiva ao nosso jornal.

Jornal de Angola - A tuberculose é uma doença esquecida?

Afonso Wete -
Não é correcto pensar assim, porque cada um de nós exerce uma responsabilidade na eliminação da tuberculose. Devemos levar em conta que a responsabilidade do elevado número de doentes é de todos nós, médicos, governo, jornalistas e todos os membros da sociedade.

JA - Quantos casos de tuberculose se registam, anualmente, em Angola?

AW - Os últimos estudos indicam que no ano passado se registaram mais de 45 mil casos. Com o passar dos anos, temos registado um aumento de novos casos. Devemos redobrar esforços para que nos próximos anos tenhamos uma redução significativa.

JA -  Que província apresenta o maior número de casos?


AW -
Pelo conhecimento que tenho, Luanda e Benguela são as províncias com maior prevalência da doença, representando 30 por cento dos casos. A tuberculose é uma doença urbana, relacionada com as condições de vida, de habitação e também a condição imunológica da pessoa.

JA - Doutor Afonso Wete, como se transmite a doença?
 
AW - A tuberculose é uma doença infecciosa, de evolução crónica, causada pelo Mycobacterium tuberculosis, que ataca o pulmão e outros órgãos. O bacilo de Koch é o agente transmissor da doença. A transmissão ocorre através do contacto com alguém doente, pela tosse, fala ou saliva. O contágio é pelo ar. O risco de transmissão é directo, de pessoa a pessoa. É maior quando existe o contacto prolongado com pessoas infectadas em ambientes fechados e com pouca ventilação.

JA - A tuberculose revela sinais logo no início?

AW -
Na maioria dos infectados, os sintomas mais frequentes são tosse seca contínua no início, com presença de secreção, transformando-se, na maioria das vezes, numa tosse contínua, cansaço excessivo, febre baixa, geralmente à tarde, suor excessivo à noite, falta de apetite, palidez, emagrecimento acentuado e fraqueza.

JA - Como é feito o diagnóstico da tuberculose?


AW -
Através do exame do escarro e do RX dos pulmões. A maior parte dos casos é pulmonar, embora a doença possa manifestar-se em qualquer outro órgão.

JA - Há pessoas mais propensos a contrair a doença?

AW - Há pessoas que vivem em situações de risco, debilitadas, portadoras de VIH ou outras condições que reduzem a imunidade, como diabetes. Má alimentação, falta de higiene, tabagismo, alcoolismo ou qualquer outro factor que gere baixa resistência orgânica também favorecem o estabelecimento da doença.

JA  -  É possível prevenir a tuberculose?

AW -
Nenhum país do mundo consegue eliminar a tuberculose, a melhor forma de prevenir é criar boas condições de vida às pessoas. Um bom nível de vida é a melhor forma de prevenir a doença.

JA -  Qual o tratamento recomendado para a tuberculose?

AW - O uso de medicamentos apropriados durante seis meses. A tuberculose tem cura se o tratamento for levado a cabo com regularidade e pelo tempo adequado. Sendo assim, é curável em 90 por cento dos casos. Também é indicada e altamente recomendável a supervisão do uso dos medicamentos por algum profissional de saúde ou familiar.

JA -  Quais os principais riscos na interrupção do tratamento?

AW -
É importante realizar o tratamento completo. De contrário, ocorre o desenvolvimento de resistência aos medicamentos padronizados, o que nós chamamos de tuberculose resistente. E quando isso acontece resulta em tratamentos mais longos, mais caros e com menor expectativa de cura.

JA – Há novas acções no combate à doença?

AW - A tuberculose ainda é no nosso país um sério problema de saúde pública, com profundas raízes sociais. A doença está intimamente ligada à pobreza, por isso o Executivo criou zonas habitacionais condignas para melhorar as condições sociais.  O Ministério da Saúde procura divulgar informações sobre a doença e esclarecer a população sobre sintomas e o tratamento adequado. Esta estratégia continua sendo uma das prioridades para que o país atinja a meta de curar 85 por cento dos doentes, diminuindo a taxa de abandono a menos de  cinco por cento, evitar o surgimento de bacilos resistentes e possibilitar o controlo da tuberculose no país.

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