Entrevista

Uíge faz aposta na área agrícola

António Capitão| Uíge

O governador do Uíge, Paulo Pombolo, afirma que a agricultura é a base do desenvolvimento da província. Em entrevista ao Jornal de Angola, defende também mais investimento na formação dos quadros necessários ao processo de desenvolvimento.

Governador Paulo Pombolo diz que mecanização agrícola vai aumentar a produção
Fotografia: Mavitidi Mulaza

Paulo Pombolo considera também importante mecanizar a agricultura para aumentar a produção. E anunciou para breve o início da produção de cobre nas minas de Mavoio.

Jornal de Angola - Quais são as grandes perspectivas para o desenvolvimento do Uíge?

Paulo Pombolo -
Colocamos no centro das nossas atenções o desenvolvimento do sector agrícola, porque acreditamos que é a base do desenvolvimento da província. É o sector escolhido para alavancar o crescimento económico da região. O nosso objectivo é transformar a agricultura de subsistência numa agricultura voltada para o mercado, onde os agricultores retiram parte para o consumo e o excedente para a comercialização. Devemos produzir em grandes quantidades para disponibilizarmos matéria-prima à agro-indústria que vai permitir criar numerosos postos de trabalho.

JA - A formação de quadros está garantida?

PP -
A formação de quadros é também uma das nossas apostas. A província tem a obrigação de, nos próximos cinco anos, formar técnicos capazes de assumirem o processo de desenvolvimento local. No domínio habitacional, vamos continuar a preparar as infra-estruturas das reservas fundiárias para que os cidadãos tenham a possibilidade de conseguir um lote de terreno para construírem casa própria. Temos de aumentar a capacidade do fornecimento de energia e lutar pela industrialização da província com a preparação do Pólo Industrial do Negage, cujo projecto de infra-estruturação foi concluído no ano passado.

JA - O que está a ser feito no sector da agricultura?

PP -
A província conseguiu produzir quatro milhões de toneladas de produtos agrícolas apenas no ano passado, dos quais 40 por cento foram comercializados. Para além de potenciarmos a província com produtos alimentares, temos de reconhecer que os produtores já começam a vender a sua produção através do PAPAGRO (Programa de Aquisição de Produtos Agro-pecuários) e das exportações, como acontece com o café, que se pensava ser uma cultura extinta na região, mas cuja produção foi reactivada.

JA - Quem compra o café?

PP -
A Delta Cafés é uma das principais compradoras e exportadoras do café do Uíge e tem exigido mais quantidades, visto que o que se produz ainda não responde às necessidades. Com os investimentos que estão a ser feitos vamos ter quantidades satisfatórias para o mercado nos próximos cinco anos.

JA - Existem outros projectos no sector agrícola?

PP -
Existem vários projectos como o do Lusselua, em Sanza Pombo, que está a produzir arroz, a Agricultiva, que produz vários produtos alimentares com realce para a produção de mais de 12 mil ovos diariamente, contribuindo para a redução dos preços no mercado local. Existem cooperativas agrícolas que estão a desbravar grandes extensões de terras para cultivarem produtos agrícolas que podem suportar a agro-indústria nos próximos tempos e contribuir no programa de combate à pobreza.

JA - A mecanização agrícola ­está garantida?

PP -
Estamos a apoiar a agricultura para a sua mecanização de forma a respondermos de forma satisfatória às acções constantes no Plano Provincial de Desenvolvimento. Quando se pretende uma agricultura em grande escala é necessário mudar as tecnologias de produção porque não é possível cultivar mais de mil hectares de milho ou mandioca com os métodos rudimentares ainda utilizados, como a catana e enxadas. É necessário mecanizar a agricultura para produzir em grande escala e vender ao mercado. Assim os agricultores rentabilizam a sua produção.

JA - Há investimento estrangeiro na província?

PP -
Há um intercâmbio com investidores estrangeiros que têm recursos financeiros e estão interessados em desenvolver vários projectos na província, como é o caso da fábrica de água mineral, o projecto agropecuário do Dala, a fábrica de tijolos, a fábrica de colchões de espuma que já funcionam no Pólo Industrial do Negage.

JA - Como está o sector da saúde na província?

PP -
Estamos a construir hospitais municipais em Ambuíla, Bembe, Cangola e Milunga. Existem ainda dois projectos para construir os hospitais dos municípios de Maquela do Zombo e Quimbele. Neste sector referenciamos o Hospital Municipal da Damba, o único no país onde se fazem as correções da fístula obstétrica e tem trazido à província centenas de mulheres de várias regiões do país, além do hospital do Bungo, onde funciona um centro oftalmológico.

JA - O hospital Geral do Uíge já oferece serviços de qualidade?

PP -
Este hospital foi construído em 1968 e nunca tinha beneficiado de uma reabilitação profunda. Com o apoio do Ministério da Saúde começámos este processo no ano passado e foram construídos dois ­novos edifícios que vão acolher as áreas destinadas ao bloco operatório. Estão a ser melhoradas as áreas dos serviços de apoio, como saneamento básico, distribuição de alimentos aos doentes, fornecimento de roupa para as camas e medicamentos para estabilizarmos a entrega dos fármacos aos doentes e evitar que vão adquiri-los nas farmácias privadas.

JA – O orçamento é suficiente?

PP -
Há alguns problemas que ainda persistem porque o orçamento atribuído ao hospital ainda é insuficiente. São necessários mais de 200 milhões de Kwanzas mensalmente para o seu normal funcionamento e o actual orçamento não atinge 35 por cento do valor necessário. Ainda assim, há melhorias, tendo em conta a humanização dos serviços através das acções de educação dos profissionais de saúde, da educação sanitária que está a ser feita nas comunidades periféricas da cidade para prevenirmos as doenças.

JA - O sector da Educação está a avançar?

PP -
O sistema de ensino geral tem 399.000 alunos inseridos. É um número considerável, graças à construção de escolas, até em locais onde o governo colonial pnão foi capaz de o fazer. Temos mais de 14.000 professores distribuídos pelas 31 comunas e 16 municípios da província. Ainda continuamos a formar professores para preencherem as vagas existentes e resolver o problema do défice em algumas comunidades. O ensino geral tem progredido bastante, apesar de reconhecermos que temos ainda algumas crianças fora do sistema de ensino. Umas, porque os pais não as levam à escola e outras por falta de salas de aulas em zonas de difícil acesso.

JA - O que tem sido feito no domínio da habitação?

PP -
Está a nascer uma nova centralidade habitacional na região do Quilomosso, onde estão a ser erguidos 4.500 apartamentos dos quais 1.100 já estão concluídos e começam a ser comercializados em breve. Para além da centralidade do Quilomosso está projectada uma segunda centralidade para o município de Negage, onde vão ser construídos 2.­500 apartamentos. Há também o programa em que estamos a construir 200 fogos habitacionais em cada município no sentido de melhorarmos as condições de acomodação dos quadros da função pública destacados nestas localidades.

JA - Existem reservas fundiárias do Estado?

PP -
Existem reservas fundiárias em todos os municípios que estão a servir a autoconstrução dirigida através da distribuição de lotes de terrenos. Há ainda a construção de várias infra-estruturas socioeconómicas como é o caso do projecto habitacional da juventude no Catapa, com 200 moradias. Foi também assinado um contrato entre uma empresa nacional e a Agência Nacional de Investimento Privado (ANIP) com financiamento externo para a construção de mais de cinco mil casas na reserva fundiária do Catapa.

JA - A província está a crescer?

PP -
A província do Uíge está a crescer e não é a mesma do passado. O surgimento de universidades, escolas técnicas e profissionais, o aumento da produção agrícola, a melhoria dos sectores da saúde e educação, a abertura de várias instituições bancárias, a reabilitação e construção de estradas e pontes, o crescimento da agricultura e outros serviços são sinais evidentes de mudanças e crescimento. Quem não acredita nestas mudanças é porque não quer ver os esforços que estão a ser feitos. Sabemos que ainda há situações que precisamos de melhorar e investir mais em alguns sectores. Mas as mudanças são visíveis.

JA - Em que situação está o projecto das minas do Mavoio?

PP -
Esse é um bom exemplo das mudanças registadas. A prospecção de cobre está na fase final e a mina começa a produzir milhares de toneladas nos próximos tempos. Desde que o projecto foi lançado nunca mais se falou nele. Mas o trabalho está a ser  bem feito e os resultados começam a surgir. As minas do Mavoio são importantes.

JA - O abastecimento de energia melhorou?

PP -
Mais uma grande mudança. O abastecimento de energia eléctrica à cidade do Uíge era feito por grupos geradores com uma capacidade de apenas três mil Kva e era fornecida de forma faseada aos bairros e em apenas cinco horas ao dia. Nos últimos tempos foram construídas a linha de transporte, as subestações de transformação e armazenamento, as redes de distribuição pública e domiciliária da energia de Capanda às cidades do Uíge, Negage e Maquela do Zombo. Está em curso a elevação da capacidade de produção de energia eléctrica para 47 Megawatts nos próximos meses e o alargamento da rede de distribuição pública e domiciliária nos bairros periféricos da cidade. São ganhos muito visíveis que ninguém pode ignorar.

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